Páginas

segunda-feira, 16 de julho de 2012

"EU É UM OUTRO"

Elenco de "Eu é um Outro" - Lorena da Silva, Alcemar Vieira, Ana Abbott, André Marinho e João Velho
(foto divulgação)


CRITICA DE TEATRO
IDA VICENZIA FLORES
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)


Estreou no Teatro Poeirinha, "Eu é um Outro", sobre o poeta Arthur Rimbaud. Emocionante saber que o belo espetáculo é uma homenagem ao nosso querido Sergio Britto. É bom lembrar que Isabel Cavalcanti, a diretora de Rimbaud, dirigiu Britto em duas peças breves de Beckett, com as quais o ator ganhou o Prêmio Shell de melhor ator de 2009. Bela homenagem.
     "Eu é um Outro" trata da vida, poesia e morte de Rimbaud, escrita por Pedro Brício, por encomenda do ator André Marinho, da produtora Christine Braga e da própria diretora, Isabel Cavalcanti. O texto é um bem imaginado percorrer da vida do poeta, abordando inclusive os acontecimentos que o transformaram em mito, e a repercussão desse mito nos anos 70,  no Brasil, e em 2005, em Paris. Trata-se de uma oportunidade para mostrar como a rápida passagem do poeta pela vida foi marcante e transformadora, em termos de arte. Rimbaud nos deixou aos 37 anos e sua motivação, seu caminho, depois dos 20 anos até sua morte, são enigmas. Pois bem, é sobre esse mito e esse enigma que o autor Pedro Brício e a diretora Isabel Cavalcanti tecem uma das mais lindas histórias sobre poesia, envolvimento e emoção.   
     O que se fazer com estes dois gênios, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine? Um escreve Poèmes Saturnians com 22 anos, o outro Le Bateau Ivre, aos 17... o encontro dos dois só poderia ser explosivo. Pedro Brício e Isabel Cavalcanti exploram exemplarmente esse brilho. E a cenografia de Fernando Mello da Costa forma o trio capaz de tornar texto, atuação e mobilidade temporal surpreendentes. Estamos em diversos lugares, e os atores se transformam, conforme a necessidade da narrativa. E não é efeito especial ou manobras de cenografia: é teatro puro. De repente, estamos na casa da mãe de Rimbaud, em Charleville, no quarto onde o poeta dorme e divaga; no hotel em que os dois poetas se separam; ou no século XX, vendo a tradutora de Rimbaud (Lorena da Silva, em desempenho inspirado), em sua mesa de trabalho; ou na Paris de 2005... e a revolta dos povos do Oriente, o "pied noir" e sua dignidade de militante (André Marinho)... Diversas épocas e, ao mesmo tempo, a intensidade do poeta, a maneira de, tecnicamente, trazer velocidade e transformação para a cena, através da apresentação  dos personagens. A "a esposa de Verlaine", por exemplo, Matilde (Ana Abbott), estoura a barriga de balão e se transforma em uma mulher do século XXI, declarando que não está de acordo com a papel da mulher, "em nenhum século"! Será a voz do Brício que se manifesta? Ou a de Isabel? Jamais saberemos. Conforme palavras do autor, a peça foi se desenhando nos ensaios.
     Mas o essencial é a luta de Arthur Rimbaud (João Velho), pela liberdade. A sua tentativa emocionada de ser livre, e de libertar Paul Verlaine. Em vão, o rompimento se estabelece. Verlaine é também a representação da poesia, mas sem o arrebatamento de Rimbaud. Poetas simbolistas, suas poesias são eles mesmos e suas metáforas, e o instante: embora Rimbaud pense viver duas vidas. E tente vivê-las. Ouçam Verlaine, o poeta da musicalidade: "Les sanglots longs/Des violons/De l'automne/Blessen mon coeur/D'une langueur/Monotone" Esse poema virou símbolo, é o mais popular de Verlaine. Ou Nuit de Walpurgis Classique: "C'est plutôt le sabbat du second Faust que l'autre,/Un rythmique sabbat, rythmique".../
     Pedro Brício nos relata o que Rimbaud pensa de seu companheiro: ele não escreve poesia, Baudelaire, sim. Estamos falando do jovem Arthur... e o ponto alto do espetáculo se aproxima - não o percam, por favor! - é  quando Rimbaud (João Velho), declama, em português, trechos de Le Bateau Ivre. A plateia devia ouvi-lo de joelhos (aux genoux). E, enquanto o poeta fala, é  projetado ao fundo da cena o poema em francês, escrito na caligrafia de Rimbaud - e o mar ao fundo, e o poeta/ator oscilando, em sua embriagues... Imperdível!  (Arte de Massimo Esposito). "Ah! Se as crianças vissem o dourar das ondas/Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes.../- Espumas em flor ninaram minhas rondas/E as brisas da ilusão me alaram por instantes"//. O jovem Rimbaud dizia em carta a seu professor e mentor, Izambar (nome oriental...), que alcançava a transcendência poética através de um "longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos."
     O ator Alcemar Vieira abre o espetáculo, fazendo um resumo dessa vida desregrada, e criticando como as biografias são escritas, tão friamente. Na verdade, é impactante ver como elas são interpretadas, ao vivo, em cima de um palco. Alcemar interpreta Paul Verlaine e, enquanto "apresentador, que abre portas para o público",  nos faz descortinar o mundo vibrante que vamos testemunhar. O elenco acompanha a emoção, e defende, no momento em que vive, seja no século XIX, na França, ou anos 70, no Brasil, ou ainda na França, em 2005, a revolta e a emoção dos dias que testemunha. E há sempre no ar a presença do poeta: Lorena da Silva, forte como a brasileira que não se conforma com a censura a Rimbaud, feita no Brasil de seu tempo (o autor declara ser um fato verídico, essa censura). O argelino (interpretado por André Marinho), não se conforma com o preconceito em sua época, e quer transformar o mundo - um Rimbaud moderno? A amorosa Isabelle, irmã de Rimbaud (Ana Abbott), se transforma em tantas outras mulheres, igualmente amorosas, igualmente revoltadas: a esposa do poeta, a irmã do poeta.... mulheres.
     Enfim, esse jogo do tempo, o retorno no tempo, ele nos mostra o caminho amargo (e sutil?), dos que conseguem transcender. E a indagação sempre presente: quem foi, na verdade, Arthur Rimbaud? Para uns, um jovem ambicioso à procura do enriquecimento. Para outros, um ser ferido, um romântico tardio que foi em busca de seu oriente fantástico. Um Lord Byron francês?
     Enfim, o espetáculo tem na sua equipe técnica Tomás Ribas na iluminação, dando vida ao cenário de Fernando Mello da Costa e aos figurinos de Rui Cortez. Como a luz estabelece os ambientes, não percebemos quando os personagens mudam seus figurinos, tão absorvidos estamos pelo que se passa na encenação. Aliás, mudam-se os acessórios e entram em cena novos personagens, somente João Velho personaliza o Eu de Arthur Rimbaud. E talvez seja essa a peça a que coloca com maior perfeição o relacionamento entre esses dois grandes poetas.
     A ação é secundada pela direção musical de Tato Taborda e a movimentação cênica de Cristina Moura. A participação destes dois artistas da à composição cênica a vibração necessária. Também as projeções de Paola Barreto e Lucas Canavarro dão vida ao contexto histórico/poético que embala a narrativa. Até o programa da peça é realizado com acabamento poético, com o design de Sonia Barreto. Um cenotécnico perfeito complementa o acerto do espetáculo: ele é Mario Pereira. Podemos dizer que "Eu é um Outro" é um vôo ao tempo seminal da poesia simbolista em seu caminho para a modernidade. Entretanto, Arthur Rimbaud foge aos rótulos, com "seus solados de vento", e o elenco fica impregnado dessa imagem. Eles ensaiam, em cena, e no final há um corte, e os atores debatem o que acaba de acontecer. Há confusão, eles parecem  perdidos, não sabem qual personagem representar, como preencher os vazios. Somente o ator que interpreta Rimbaud não se desliga de seu personagem, tentando decifrar-lhe o enigma e, espírito tomado pelo poeta, atira para a plateia um verso da despedida de Rimbaud, que pode ser uma abertura para desvendar o seu mistério... Aconselha-se uma ida ao teatro, pois o espetáculo é imperdível. 


Um comentário:

  1. Ida, que mente privilegiada a sua, que cultura, que sensibilidade. Eu me ajoelho a seus pés e a reverencio. Beijos.

    ResponderExcluir