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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

"ROMA"

Juliana Lohmann e Linn Jardim, em "Roma", texto de Guilherme Prates, direção Renato Farias.
(Foto Carol Beiriz)



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

      O beijo, entre as belas mulheres, é estético. O beijo, entre os belos homens, é escândalo. Dois pesos, duas medidas? O homem é penalizado: o macho deve ser o reprodutor, na sociedade patriarcal (a nossa) ... e a mulher, o estimulo a essa reprodução! Simples assim: o beijo entre mulheres é um excitante para os homens. Isso tudo todos nós sabemos...
     ... Entretanto, no Teatro Sergio Porto (não percam!) podemos assistir a um acontecimento peculiar, que nos traz uma visão bastante independente do que seja a sexualidade feminina. Trata-se de "Roma" (o espetáculo voltará à cena, no Sergio Porto,  depois das festas de fim de ano).  Dirigido por Renato Farias, que já nos deu o belo "João Cabral", sobre a obra do poeta pernambucano. "Roma" é um espetáculo repleto de poesia, amor e sensualidade, saído das mãos desse diretor cuja sensibilidade é a de  um poeta.
     Complementando o acerto, temos  o texto do carioca - um jovem de 22 anos! - Guilherme Prates, que em boa hora optou pela carreira de dramaturgo. "Roma" é o seu primeiro texto encenado, inspirado no filme "Um Quarto em Roma", de Julio Medem. O dramaturgo estreante mostrou uma surpreendente compreensão da alma feminina em seu texto selvagem, agudo, que vai direto ao alvo, com a independência dos jovens talentos. É ver para crer. E nada de rótulos, é teatro puro.
     Complementando a cena, temos o 'espaço cênico', que torna possível o contato com a platéia. Criou-se, na galeria de arte do Sérgio Porto, algo que respira transcendência. Ao entrarmos no local temos a sensação de imaterialidade, como nos sonhos. Aos poucos essa cortina irreal (provocada pelo "gelo seco" que impera na área), vai aos poucos se dissipando, e somos recepcionados por algo inusitado. Nada de rótulos, nada de teatro pós-moderno. Sim, é com se estivéssemos dentro de um quarto de hotel (como quer o texto), e as duas belas mulheres estivessem vivendo, sob o nosso testemunho, a descoberta de algo novo em suas vidas. O curioso é que vamos sendo tomados por uma sensação de "pertencimento".  
     E somos apresentados a duas personalidades de atriz,  trabalhando uma sexualidade natural que brota de seus desempenhos e da sensibilidade do autor. São elas Linn Jardim, que interpreta "Ana ou Helena" - e Juliana Lohmann, no papel de Isabella. Há grande entrosamento entre as duas atrizes, interpretando personagens antagônicas. A verdadeira "Helena" (de Linn Jardim) atinge momentos de tragédia grega, em seu temperamento apaixonado, com rompantes que nos aproximam  de seu destino: "Tem gente que nasce com a tragedia no sangue!"  Interessante "Helena", a grega, como o nome o diz ...
     A doçura de Isabella tentando escapar ao "assedio irresistível", nos dá a oportunidade de testemunhar o  trabalho de "nuances de personagem" estabelecido pela mão segura do diretor. Um belo trabalho. Nesta produção - bem cuidada - uniram-se dois grupos: a Cia de Teatro Íntimo, de Renato Farias, e a Cia "Por Acaso", e a "idealização" do espetáculo, de Linn Jardim. Essa Companhia funciona "ao acaso" dos convites feitos aos atores, a cada montagem. Essa foi a vez de Linn, Lohmann e Prates que, por sua vez, convidaram Renato Farias para dirigir.
     A idéia é a "fuga" de uma festa de réveillon.
     Assistente de Direção Fernanda Boechat; Cenografia (excelente), de Gigi Barreto (Renato nos diz que eles criaram um novo espaço cênico, dentro da galeria). Figurinos (apropriados para a ocasião!) de Thiago Mendonça. Iluminação, Rafael Sieg. A Trilha Sonora de Pedro Gracindo é um espetáculo à parte. Destaque-se a interpretação de Linn Jardim para "Don't let me down", de John Lennon. Linn possui também a qualidade de uma performer  (não parecia "playback", ao menos...)

NÃO PERCAM "ROMA" !!!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

"A SANTA JOANA DOS MATADOUROS"


Adassa Martins, Vilma Melo e Luisa Arraes em 'A Santa Joana dos Matadouros', de Bertold Brecht. Tradução Roberto Schwarz. Direção Marina Vianna e Diogo Liberano. (Foto Thaís Grechi)



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

      Enfim estamos recomeçando o ciclo Bertold Brecht! Esperamos que este A SANTA JOANA DOS MATADOUROS seja o primeiro de muitos que virão. Engraçado, já tão acostumados estamos com o título "Santa Joana dos Matadouros" que pensamos ser o "artigo" "A" antes do título apenas uma maneira de caracterizar a diferença dessa montagem. Não é. Fica a dúvida.
     O texto escrito por Brecht e traduzido por Roberto Schwarz está um pouco alterado, digamos, na versão dramatúrgica de Diogo Liberano, mas reconhecemos que a criatividade da presente montagem torna mais acessível a estrutura do texto do alemão. Percebemos um Brecht mais "palatável" (leia-se atualizado), para as gerações menos sofridas, politicamente, na direção de Marina Vianna e Diogo Liberano. Unindo a bem sucedida direção temos a atualização, principalmente estética (em uma criação absolutamente genial de Bia Junqueira e Laura Samy, respectivamente Arte e Movimento), deixando-nos cheios de esperança no possível fascínio imorredouro do teatro épico.  
     Mas não é só de estética que vive o atual espetáculo. O texto, escrito entre o final da década de 20 e início dos anos 30, do século passado, nos reporta ao momento em que Bertold Brecht "vivia" a mais desesperada aula de capitalismo, em seu exílio estadunidense. O personagem Mauler, o capitalista (interpretado por João Velho), apresenta-se, inteiro, em seu dualismo sentimental. Ele é o retrato do "homem do capital" norte-americano, personagem que pensa se justificar através de ações magnânimas.    
     Mauler é o "Comandante" de um momento exemplar do capitalismo selvagem. Dizem que o dramaturgo alemão inspirou-se em J. D. Rockfeller para criar esse Mauler que se sentia um nobre idealista, a se preocupar com os sentimentos dos menos privilegiados. Embora "o rei dos matadouros de Chicago" tivesse um temor insano da proximidade "dessa gente de pouca moral", ele sempre dá um jeito de raciocinar que "é no trabalho que se entendem proletariado e capital!" Na adaptação (excelente) de Liberano, há momentos que Mauler chega a se inspirar em Ijucapirama, de Gonçalves Dias, para cantar a  força de seus subordinados. Non sense! Mas João Velho o faz com tal seriedade que ficamos em dúvida se é Gonçalves Dias, mesmo, que está sendo citado...
     Brecht escreveu as seguintes palavras para Mauler: "Pobre de mim! Um duplo desejo remói meu coração. Sinto-me  atraído por um nobre ideal e, inexplicavelmente, também o lucro chama por mim!". No texto, o tresloucado gestor encontra em quem personificar seu "nobre ideal": nada menos do que na idealista, santa e louca, Joana Dark, a líder dos Boinas Negras, que pensa enfrentar a crise de 1929 com sopa e hinos religiosos para os desempregados. Joana é interpretada por Luisa Arraes, em entrega emocionante.
     A peça é uma sequência de momentos essenciais, tendo ótimas interpretações, como a de Leonardo Netto dando vida ao astuto corretor Slift; ou Vilma Melo, uma excepcional atriz, interpretando a viúva Luckernidle. Ou ainda Gunnar Borges e Leandro Santanna, cujas interpretações se destacam em vários momentos. Porém Sávio Moll, o Cridle, "herdeiro" das idéias de Mauler, acaba dirigindo-se à platéia, em um quase monólogo sobre o desvario do mercado  -  e o faz com tal intensidade, que nos recorda 'um certo senador Marco Antonio' às avessas. Esse defende "um homem honrado", Julio Cesar: Cridle defende o pouco honrado "jogo do capital".
     A peça é uma avalanche de acontecimentos, sem repouso ou compaixão. E é isso mesmo o que o nosso Brecht queria. Desde o início do espetáculo, com as palavras da devota Marta, dos Boinas Negras, interpretada pela doce Adassa Martins, palavras nas quais comenta a pirâmide humana que é a nossa sociedade - até o final do espetáculo, quando dois atores unem-se, em reconhecimento e dúvida, sobre os acontecimentos que acabaram de presenciar, e jogam para a platéia, em um final "brechtiano":
     - Mas  isso  um  dia  vai  mudar" - diz um dos atores.
     E o outro responde:  - "Sim. Um dia". 
     ... esse comentário é feito muito discretamente, como "um piscar de olhos de brechtianos para brechtianos". Imaginamos que a platéia pensa no que está acontecendo em nossos dias, e na possibilidade de tudo mudar. Está em nossas mãos. O desejo de Brecht - 'mudar o mundo', através de um  público pensante, continua cada vez mais vivo, neste espetáculo.
     E, ainda: estamos na presença de uma celebração do teatro moderno, ou pós-moderno (como queiram), cuja leveza e mobilidade solucionam os possíveis problemas de multidão e suporte, dos espetáculos de Brecht. Para isso, contamos com a Arte de Bia Junqueira, principalmente o recurso das camisetas representando o povo e os trabalhadores, e o das caixas  representando o movimento concreto da fábrica, e de outras cenas. Impossível não mencioná-los. Esses recursos, em especial o das camisetas, que oferece várias possibilidades de interpretação, uma vez que podem representar os trabalhadores, a massa humana do povo, ou ainda ilustrar pensamentos e momentos. Muito bom.

     A Iluminação de Paulo Cesar Medeiros. A Direção Musical de Rodrigo Marçal e Arthur Braganti - que está presente, em cena, fazendo música - e a Direção de Movimento de Laura Samy (a registrar o encadeamento e a força dessa direção de Laura), são  todos eles momentos de extrema beleza e sincronia, nesse espetáculo tão incomum. ACONSELHA-SE, COM VEEMÊNCIA, ASSISTI-LO!                   

domingo, 13 de dezembro de 2015

"IDEIA FIXA"


"Ideia Fixa", texto de Adriana Falcão, direção Henrique Tavares. Com Rodrigo Penna, Silvia Buarque e Guta Stresser. (Foto: Nil Caniné)   


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     "Ilações". São muitas as ilações que fazemos, ao assistir "Ideia Fixa", um texto de Adriana Falcão, dirigido por Henrique Tavares. Duas mulheres (interpretadas por Guta Stresser e Silvia Buarque), são abandonadas pelo mesmo homem (Rodrigo Penna) e, por causa desse abandono, passam a viver em um limbo, esperando que algo aconteça. Durante essa espera, muitas coisas acontecem... em direção ao nada. Ou em direção à liberdade! Sim, porque elas estão, há 5 anos, presas a uma mesma esperança, a volta do homem amado.
      Em seus movimentos delicados, quase de balé (a direção é de  Johayne Hildefonso), e nas músicas ocultas que elas dizem ouvir, ficamos pensando, e fazendo "ilações" entre as nossas heroínas e as mulheres esquimós, em seus iglus! Será que, naquele continente gelado, quando abandonadas pelos seus homens, elas também percebem musiquinhas "estalando nas suas cabeças", como as  mulheres de "Ideia Fixa"? Talvez a música das esquimós seja o ruído das focas e o bater do mar de encontro ao gelo ... Deve ser um ritmo lindo. 
     E são muitas as ilações a que o texto de Falcão nos remete. As duas mulheres, vestidas em decadentes trajes de época, relembram a "Sra. Havisham", aquela velhinha que vivia envolta em "trajes anacrônicos" esperando a volta de seu amor, ou se vingando do seu desamor (adoro este romance de Dickens, "Grandes Esperanças", o Brasil ainda está naquela época...). Também os trajes das mulheres apaixonadas, nesta nossa atualidade, cheiram a mofo; e o ambiente (o do amor rejeitado) é o mesmo, repleto de lembranças.
     E o que se levanta, como uma surpresa, é que estas duas mulheres do presente não se odeiam, e, aos poucos, vão entrando em simbiose. No decorrer da historia, a dualidade existencial vai perdendo o seu contorno, e as duas criaturas se transformam em uma só! Por sua vez, o personagem de Rodrigo Penna, sobre o qual caem as idealizações das duas mulheres, mostra-se um ser que só quer o óbvio, um bom uísque, paz, e viver a sua própria vida. Talvez isso seja inteligência, mas seu eventual "colocar-se" perante a situação revela uma falta de compreensão do outro. E revela, surpreendentemente, a "banalidade do amor". O homem simplesmente não entende o que está acontecendo com as duas mulheres, para ele, o romantismo não tem fundamento. Talvez tenha razão, mas o que se revela ao público, em contraste com a avassaladora paixão que desperta, é um homem bem banal. Complicado, não?
     Pois é através dessa "conflituação do banal" que a autora nos remete ao que considera '"o fim do romantismo": aquele "ser resplandecente" que as duas evocam, não passa de um homem comum, inventado por elas. E o que se inicia como uma cena esfuziante, nas mãos de Guta Stresser - buscando os recursos cômicos de sua personalidade de atriz - e de Silvia Buarque, contida e interiorizada em sua personagem que representa, no caso, a mulher consciente (em sua interpretação, a surpresa de uma atriz madura,  interiorizada). Enfim, em cenas paralelas, acontece o desvendamento do homem. 
      A presença do personagem masculino (interpretado por Rodrigo Penna), repositario da fantasia feminina, não se mostra a altura daqueles "corações desvairados". Aliás, as coisas, para ele, em relação àquelas mulheres, são inescrutáveis, pois tudo é muito mais simples: trata-se de viver. Será que estamos na presença da superioridade masculina? Em todo caso, é decepcionante, essa superioridade. 
     Essas são apenas algumas das muitas interpretações do interessante mergulho na verdade feminina, que o texto de Adriana Falcão e a direção de Henrique Tavares - através de seu acertado caminho - nos permitem.  
      Na Iluminação de Beto Bruel temos o reforço dos limites em que vivem aquelas duas mulheres "aprisionadas" pelo amor. As luzes marcam a sua "prisão". Como elas nascem da imaginação, uma vez concretizada a escolha da liberdade, as "luzes carcerárias" desaparecem... O cenário, e figurinos, marcam a época psicológica em que as duas persongens se movimentam. O figurino é responsável também pelo "desnudar da lagarta em borboleta" da última cena.        

     Música Tema de Clarice Falcão e Ricco Vianna (Rick de La Torre, bateria); Assistência de Direção: Alfredo Boneff.  NÃO PERCAM ESSA SUTIL HISTORIA DE DESAMOR!   

domingo, 6 de dezembro de 2015

"JULIETTE CASTIGADA & JUSTINE RECOMPENSADA"

"Juliette Castigada & Justine Recompensada", texto Roberto Athayde, direção Paula Sandroni.  Em cena, Betina Pons, Rosanne Mulholland e Alexandre Slaviero.  (fotos Marco Rodrigues)  

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     Em cartaz, até o próximo dia 20 de dezembro, no Teatro Maison de France, o espetáculo inspirado no Marquês de Sade, intitulado "Juliette Castigada & Justine Recompensada". O texto, de Roberto Athayde, é dirigido por Paula Sandroni. No dia em que foi possível assisti-lo, o teatro deu-me uma lição de como a arte imita a vida. Pois bem, quando de minha chegada ao teatro, tive o mais insólito recebimento da parte de três policiais, dificultando o meu ingresso. Quase desisto de assistir ao espetáculo. Explico. Ameaçadoramente, as "autoridades" declararam, em gesto de prepotência, que iriam rebocar o meu carro, se não aceitasse as suas "regras". E eu, perseguida, assemelhava-me à Justine, na primeira cena da peça, quando fugia, esbaforida, dos guardas de segurança do Museu do Louvre, em Paris.
     O ocorrido com esta crítica não guarda nenhuma semelhança com o ocorrido com Justine, pois, no caso dela, era ficção... Aconselha-se a Maison de France não acolher uma viatura da nossa perigosa "Polícia Pacificadora", pois, não tendo o que fazer no local, ela põe em risco cidadãos honestos. Dito isso, iniciemos os comentários sobre a peça de Roberto Athayde, um talentoso cidadão brasileiro.
     Antes de iniciar, porém, queremos citar o prazer da boa acolhida da produção de "Justine...", fazendo com que conseguíssemos paz para assistir ao espetáculo. Respiramos descontraídas, nós, a platéia, pois já na primeira cena registramos o alto padrão do que nos é oferecido. A "caixa de surpresas" do teatro italiano abriga o texto de Roberto Athayde, que é inspirado nas duas heroínas do Marquês de Sade: "Justine - ou os Infortúnios da Virtude" e "Juliette", às quais Athayde dá um tom farsesco, tanto na "Paris dos Reis", quanto na que foi descoberta no século XXI. 
     Como sabemos, Sade (que teve sua vida criativa "reconhecida" a partir dos anos 80, do século XVIII), foi perseguido por libertinagem - ele era um "libertino" - porém considerado louco, por seus escritos atingirem extremos. Mas o que ele escrevia era pura crítica aos tempos em que vivia. Talvez, hoje, o autor francês se assustasse com o que veio depois, mas as duas heroínas de Sade, Juliette e Justine, fazem o possível para adiar a surpresa para o seu criador. Athayde as faz dormir durante 230 anos! Inevitável a pergunta: o que pensaria Sade das aventuras atuais de suas heroínas?   
     O espetáculo da Maison mostra "teatro" em sua melhor representação: texto feroz, crítica mordaz, loucura... e  farsa! As duas personagens de Sade acordam em uma Paris onde as carruagens não têm cavalos, e a moral, agora, "é tudo misturado, não tem mais preto e branco" - conclui Juliette, a má, que é adepta das "cores radicais". Filosofa-se sobre o Iluminismo e há uma discussão sobre o bem e o mal, radical! Se o espetáculo é dedicado, por sua diretora Paula Sandroni, a Antonio Abujamra, faz jus ao seu homenageado. Principalmente, a atuação de Betina Pons como a "malvada", cujos ademanes e astucias fazem a delícia da platéia. Como diz o padre, depois de perdida a sua batina (Alexandre Slaviero, outro ator louvável em timming e inteligência cênica): "Vocês são as duas dondocas mais escrotas da literatura francesa". 
     Quanto à infeliz representante da pureza, que em Sade encontrou a desgraça, nesta nova versão de Athayde ela, se no final acaba também aterrorizada pelas maldades da irmã, ao menos pode se considerar agraciada: a defensora de sua  personagem é a doce e gentil atriz Rosanne Mulholland. Pergunta-se: onde a diretora foi procurar este trio tão afinado e cujo requinte parece vir dos tempos "descarados" do reinado dos Bourbons?   
     Na caixa iluminada do palco italiano, com cortinas vermelhas e gestual 'monarquia', eis que nos são apresentados três atores cujo talento é surpreendente: Betina Pons (Juliette); Rosane Mulholland (Justine) e Alexandre Slaviero, no papel de Herdrick, um padre capuchinho prestes a abandonar a batina por não mais acreditar em Deus. Um padre! Juliette quer tanto um Cardeal! Mas agora estamos no Século XXI, e os cardeais se acalmaram, o cenário se altera, e as belas são surpreendidas em uma nova civilização, uma nova Paris.    
     A idéia é excelente, e o poder de crítica e sátira de Roberto Athayde é indiscutível. Estamos em boas mãos.     
     A cenografia, com suas cortinas e móveis à Louis XV, assim como o ambiente moderno, são criações de Nello Marrese; os figurinos (os de época e os modernos), são elaborados por Anete Cota. Os primeiros, settecentistas, representam o 'bom gosto duvidoso' da época em que nossas personagens nasceram - os outros são pontuações do século XXI (a peça de Athayde foi escrita em 2002). Paula Sandroni, além da ótima direção - pelo que sabemos foi assistente de direção de João Fonseca em "Édipo Unplugged" (2004) - Prêmio Shell de Melhor Direção. Portanto, sua visão traz uma boa escola. Atuando como Assistente de Direção temos Gustavo Arthiddoro! A Direção de Movimento é de Priscila Vidca, responsável, talvez, junto com Sandroni e Arthidodoro, pela alta voltagem na comicidade dos atores. A Trilha Musical, pensada por Paula Sandroni, traz-nos acordes de, salvo engano, "O Barbeiro de Sevilha", o que nos reporta aos revolucionários tempos de Beaumarchais.
     E por aqui ficamos: A Iluminação, excelente, é de Daniela Sanchez; Preparação Vocal, Verônica Machado; Assessoria de Imprensa, Sheila Gomes. TRATA-SE DE UM EXCELENTE - E BEM CUIDADO - MOMENTO TEATRAL. ACONSELHA-SE.       


sábado, 28 de novembro de 2015

APRESENTAÇÃO (UM TRECHO) - BIOGRAFIA - ANTONIO ABUJAMRA - 'OS MOUROS'

Antonio Abujamra, Glauce Rocha e Jardel Filho na época da montagem de "Tartufo", de  Molière. Anos 60.

 PINTURA  DO  SULTÃO   SALADINO - 'SÉCULO XII  -  A SÉTIMA CRUZADA'.


IDA VICENZIA

(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)


                 UM TRECHO DA 'APRESENTAÇÃO' DO LIVRO DE ABUJMARA 

                            SOBRE  SALADINO - UM SULTÃO DIPLOMATA 

                                               DAMASCO

               OS CRUZADOS E A "CAÇA AOS MOUROS"


     ... Comecemos pelo francês, Jean de Joinville, o "Senescal",  e sua inspiradora narrativa de uma batalha entre mouros e cristãos. Eis um espetáculo teatral: "as armas do sultão (Saladino) eram todas de ouro, e quando o sol batia nelas, resplandeciam esplendidamente. A algazarra que esse exército fazia com seus timbales e trompas sarracenas era aterrorizante de ouvir". (Historia de São Luiz, 1309).

     O sultão Saladino ficou na História como um diplomata, e os manuscritos dos muçulmanos (não esqueçam que eles inventaram a escrita) falam sobre a VIIª Cruzada do Rei Luis IX "para conquistar Jerusalém e exterminar os mouros". Os católicos praticam estas barbaridades desde sempre, ou seja, depois de Cristo (d.C.).

     Cabe-nos a ironia de reafirmar que quem "inventou" este São Luis foi a Igreja Católica, pelo Papa Bonifácio VIII, em 1297, alguns anos depois da morte do cada vez mais belicoso Rei Luis. Quanto ao sultão Saladino, o diplomata, diz a Historia, era amigo do intelectual imperador alemão Frederico (o tal que caiu na água com ferradura (desculpe, armadura) e tudo, morrendo afogado). Pois "diz a História", Saladino e Frederico tinham mútua admiração. O imperador alemão mostrava-se cada vez mais cético em relação a essa guerrinha de bufões das Cruzadas, o mesmo acontecendo com Saladino.  
     Esse passado enlouquecido forjou ficcionistas, e também grandes artistas. As formações épicas do teatro de Abujamra estavam esperando o momento oportuno para surgir, à semelhança dos arrebatadores espetáculos que o Islã proporcionava aos Cruzados...     

"RIO, HISTORIAS ALÉM DO MAR"

"Rio, Historias Além do Mar" - Roteiro e Direção Claudio Mendes. Acima fotos e desenho sobre o espetáculo. Note-se o "Crioulo Doido" de face branca, em destaque na foto central. Na última foto ele está sentado, bem quietinho (coisa rara, no espetáculo), a um canto da cena, já com a face negra que assume no espetáculo. Na foto maior, da esquerda para a direita: Valdir Ribeiro, Pedro Castro, Gilberto Vieira, Romney Lima, André Mendes, Denis Lopes e Gustavo Arthiddoro. (Fotos Divulgação)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     Todo carioca (e não carioca) que se preze, deve assistir "Rio, Historias Além do Mar", em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), da Av. Rio Branco, em cartaz até o dia 20 de dezembro. Que Rio de Janeiro mais lindo e mais poético! Mas estou metida em "camisa de onze varas", pois esse espetáculo musical tem como narrador o 'Crioulo Doido', do Stanislaw Ponte Preta, o nosso conhecido jornalista Sergio Porto. Acontece que o crioulo é um branco pintado de negro! Não se pode dizer que a produção não tentou remediar a situação, pintando o crioulo com "talco Johnson", para ele ficar branquinho (veja fotos). Não deu certo, claro, não tinha nada a ver. Mas o excelente ator Gustavo Arthiddoro (viram o nome? "arthi" e "ddoro") tão talentoso, passou por cima de todos os problemas, pois talento é talento, e ficou negro, pois é de ouro, mesmo, a sua arte.
     Pois bem, a brincadeira com a cor vem bem, cabe! - e, por favor, não interpretem mal o pessoal do espetáculo, pois ele é divino! Quem organiza (e cria), é o 'Grupo Historia Através da Música'. É tão bom assisti-los, que a gente não quer que acabe nunca mais. Tudo dirigido por Claudio Mendes. O espetáculo tem início com a "fofa" da Nara Leão cantando "Fale de mim quem quiser falar", lembrando o show "Opinião" e as "remoções", e também comemorando (com certeza) a resistência dos moradores do morro da Favela, local historico da chegada dos "da baixa patente do Exército" (segundo o Crioulo Doido), os soldados "desrecrutados" da guerra de Canudos, quase todos negros que ficaram ao Deus dará. E Nara canta: "daqui eu não saio não..."  
      A Historia fala também nos criadores do morro do Querosene, e dos famosos morros de Portela e Salgueiro, e principalmente, o do Livramento (o morro de Machado de Assis, pois não?), um dos locais onde tudo começou. E como "Historias..."  é uma comemoração do Rio de Janeiro do samba - e outras bossas -  a favela está sempre presente. Aliás, é nesse cenário que o espetáculo se desenvolve, e a cenografia, de primeira, é do artista Vladimir Valente. Não falta detalhe algum, e nos sentimos no meio daquela "bagunça organizada" que é (era?) o aconchego da favela. No palco, bem no centro de tudo, os músicos André Mendes, no violão de 7 cordas e nos arranjos. André canta, interpretando ou puxando a maioria das músicas Ele possui uma voz suave e ritmada, e muita musicalidade. Um assombro. Romney Lima (o filho da D. Joana, que acompanha vivamente o espetáculo!), acompanha as músicas em seu cavaquinho (e voz). Romney também faz parte da pesquisa histórica, com Gilberto Vieira, professor de Historia da UFRJ, que também toca (e muito bem) o seu violão de 7 cordas, a flauta, e faz, às vezes, o acompanhamento de voz. Os  arranjos também são dele, com André Mendes e Denis Lopes, que também toca o bandolim. 
     E há Pedro Castro, acompanha Valdir Ribeiro, na percussão. É um grupo de excelentes músicos, coroados pela presença de "Seu" Valdir, com seu cabelo rastafari e seu passo de bamba. Ele dá um discreto show como passista, acompanhado, é claro, pelo Crioulo Doido Arthiddoro. Um show à parte. Gustavo Anthiddoro também é um excelente frasista, e contador de "causos". Destaque merecido para este ator.
     A narrativa de historias de "além do mar" mistura Maria Leopoldina com Madame Satã... e também nos traz de volta a alma do Rio Antigo. Não  esquecer que o espetáculo registra a infeliz derrubada do Morro do Castelo, na qual foi junto "o marco da fundação da cidade", o Colégio dos Jesuítas. Neste sentido - mas só neste sentido- São Paulo ganhou de nós. Mas, em contrapartida, temos a saudação de Manuel Bandeira ao Sinhô, o Rei do Samba... e a comemoração dos 100 anos de nascimento (18 de outubro de 1915), de Grande Otelo! E... para se alegrar é só cantar, com os sambistas: "nasci com a sina da cigarra, aonde eu chegar tem farra".
     É essa mistura do "sagrado e do profano", cantada por Fernanda Abreu. E muitos outros cantores, e compositores, são cantados! Raul Seixas, João Bosco, Paulo Cesar Pinheiro: "Nomes de favelas", um ponto alto do espetáculo. Noel Rosa... e muitos outros poetas /sambistas do Rio. Clementina de Jesus! Candeia... Mas vamos parar por aí. O roteiro do espetáculo e a direção geral está nas mãos de Claudio Mendes. A seleção das músicas (e dos compositores) também é de primeira. Temos  "Yaô", de Pixinguinha e Gastão Vianna; "Favela", de Padeirinho e Jorge Peçanha; "Praça Onze", de Herivelto Martins e Grande Otelo; "A voz do morro", de Geraldo Pereira e Moreira da Silva, e por aí vai! Insisto, os cariocas, e até os não cariocas (principalmente!) não devem perder essas Historias...  Passamos a entender o gostinho de ser carioca vendo o Rio de Janeiro, de verdade. Trata-se - e é essa a intenção - de uma verdadeira aula sobre o samba e seus bambas!

     Na iluminação, Robson Cruz. Audiovisual, Flavio Cysne. Consultoria Acadêmica: Professora Marieta de Moraes Ferreira. Produção Executiva: André Dinis; Assessoria de Imprensa: Mais e Melhores Produções Artísticas. Não percam! EVOÉ!  

domingo, 22 de novembro de 2015

"WAR"

Ricardo Gonçalves, Natasha Corbelino, Verônica Reis, Fabrício Polido, Clara Santhana, Camilo Pellegrini em "WAR", de Renata Mizhai, direção Diego Molina. (Foto Divulgação)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     WAR, de Renata Mizhai, direção Diego Molina, voltou à cena "somente por um dia", como foi o encontro dos casais, na peça. Só por um dia, a peça. Algo inusitado. A plateia repleta de atores e gente de teatro. Por momentos foi cogitada a recriação das "2ª feira da classe" no Teatro Poeira, o que se constatou impossível, segundo os diretores do teatro. A última apresentação da peça foi muito bem recebida pela classe, que compareceu como se a uma estreia. Comemorava-se os 10 anos da fundação da Companhia Teatro de Nós, iniciada pelos dois artistas.
     WAR surpreende pelas suas qualidades. A autora Renata Mizhai capta, nesta peça, uma visão de grupo, antigos companheiros que se encontram, para descobrirem que perderam os parâmetros que estabeleceram para as suas próprias vidas. O texto traz a tona problemas afetivos e de realização pessoal. No  entanto, é no desenrolar da ação que se percebe a preparação de um "ninho" envenenado. Ele vai se desenvolvendo aos poucos, e os frágeis materiais dessa construção vão se desfazendo, também aos poucos. Renata estrutura essa dramaturgia "do engano" de olhos bem abertos. A direção de Diego Molina valoriza, passo a passo, a procura da autora.
      Por sua vez, os atores desenvolvem a vida dos personagens, assim, com a naturalidade da própria vida. O casal André (Ricardo Gonçalves) e Marília (Natasha Corbelino) vivem, em solidão, o desgaste do amor. Fugindo a um trágico fim, reúnem amigos de longa data para o reconhecimento da nova casa (e da sua nova vida). Nem sempre o encontro entre amigos é uma festa, mas também não é uma tragedia. Podemos chamar o que aconteceu de tragicomedia. E somos convidados a participar do jogo (WAR), e da angustia dos três casais.      O interessante, nesta peça, é como são apresentadas as possibilidades de erro e acerto neste jogo de subterfúgios. E Mizhai joga com as várias possibilidades: é o escritor que um dia sonhou com a solidão, mas não consegue escrever na solidão (André); é a apaixonada que joga para defender o seu amor, trazendo a tona as próprias imperfeições (Marília); são seres humanos que querem compreender a sua própria razão de ser, como Roberta, ou o homem satisfeito que vai, aos poucos, vendo a sua alegria ser negada (Gustavo). Mas nada é tão urgente como a descoberta de Sergio e Laura, apontando novos (renovados?) caminhos.
     É tudo um jogo. E os atores se deixam levar. Ricardo Gonçalves defende muito bem o seu doce, confuso e intransigente intelectual André; Natasha Corbelino encontra, em sua voz e sua presença, a liderança que seu papel impõe. Sua personagem, Marília, é a que aciona o motor da verdade. Verônica Reis, interpretando Roberta, atinge momentos de pura insatisfação, em contraste com a mulher resolvida e lúcida que aparentava ser. Fabrício Polido vence a sua fragilidade interpretando Gustavo, o homem bem sucedido que se recusa a aceitar a verdade. E qual é a verdade que eles procuram, e se recusam a ver?
     É no final que a verdade aparece. É quando "todos os encontros" se realizam, na cena final de Sérgio e Laura. Estes dois atores, Camilo Pellegrini e Clara Santhana extraem, com seus personagens, todas as possibilidades de compreensão e amor sugeridas para um casal. Essa é a verdade deles, o encontro. O texto não é moralista, e não apresenta "soluções", somente registra momentos. E o momento de Laura e Sérgio é a renovação constante dessa guerra sem fronteiras que é o amor.
     Na noite única da apresentação no Teatro Poeira, Clara Santhana conseguiu aplausos em cena aberta com sua interpretação de um trecho de "Summertime". Cantado por Laura, assim, ao acaso... como se um cartão de visitas para seus novos amigos. Uma cantora de primeira linha. Na verdade, a historia do canto "das duas" é mais longo, pois Roberta (Verônica Reis) também canta. Na verdade, o motivo do canto da duas era outro...
     Foi uma noite inesquecível, "regada a muita cerveja e vinho", no apartamento de André e Marilia, onde os seis amigos "marcaram os seus territórios", como em um bom jogo de WAR. Na noite da despedida da peça, o diretor Diego Molina pronunciou palavras de emoção. E o que podemos dizer é que o teatro carioca saiu mais enriquecido com este jogo de atores, diretor e autora.
     Na cenografia, o ótimo recurso da quase destruição do cenário "onde os frágeis materiais dessa construção vão se desfazendo". Cenário de Diego Molina e Lorena Lima. Os figurinos, corretos, são de Patricia Muniz; Iluminação de Anderson Ratto. Trilha sonora de Renata Mizhai. Visagismo Diego Nardes. Direção de Produção, Maria Alice Silverio.     
TALVEZ "WAR" VOLTE NOVAMENTE, UM DIA? ESSA GUERRA NÃO ACABA NUNCA. 



                   



sábado, 21 de novembro de 2015

"UMA ILÍADA"

O Final...  de "Uma Ilíada" - dirigida e interpretada por Bruce Gomlevsky, uma adaptação de Homero traduzida por Geraldo Carneiro. (Foto Dalton Valerio).

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     "Uma Ilíada", da obra de Homero, poeta grego que nos deixou seus escritos sobre Troia, e a legendária disputa pelo amor de uma mulher. Dizendo assim até parece poético, mas foi uma carnificina a tal disputa, aliás, como o são todas as guerras. A esse propósito, Bruce Gomlevsky nos traz uma impressionante interpretação, dirigindo a cena, e, ao mesmo tempo, sendo o narrador dessa epopéia greco-troiana. Bruce nos revela, através do seu "aedo" (o narrador de historias da antiguidade grega), a tradição daqueles povos. Homero as recolheu, e a sua narrativa se tornou o primeiro e mais importante relato da antiguidade ocidental.
     Como todos nós sabemos, a Ilíada relata os últimos dias da guerra de Troia, assim chamada por ter-se dado às portas daquela cidade, às margens anatólicas do Mar Egeu. Imaginem vocês Páris, o príncipe de Troia, ter ido mexer com a honra de um rei espartano! Ele foi a Esparta em missão diplomática de seu país, e aí conheceu Helena e ficou apaixonado. Menelau, o marido da bela a quem Páris também encantara, era rei da belicosa  Esparta. A guerra se alastrou, cheia de altos e baixos, e pegou fogo nos últimos dias, tendo como fim o "presente de grego" - o cavalo de madeira que entrou na bela cidade de Troia e acabou com seus encantos, e com seu povo.
       Ao se tornar um  "aedo", Bruce nos faz "ver" a  bela Troia, com seus jardins e suas fontes, suas alcovas e seus "megarons". Também a descrição do escudo de Aquiles é feita com terrível propriedade. E, entremeando a sua ação com cânticos que parecem litanias ("adoro cantar", diz o ator para seu público), a historia é narrada "olhos nos olhos" com a plateia, o contador de historias comentando a cena, e fazendo o público refletir.
     Pois estamos em Troia, e os guerreiros, que se tornaram mitos de nossa cultura, como Aquiles, Heitor, Ulisses ... (este último herói não é nomeado nesta versão de Homero, mas é citado agora, pois a ideia da construção do 'cavalo de madeira' que arrasou com os troianos é dele). Dizem que Ulisses é "astuto". Essa é uma palavra assustadora. 
     E fica a pergunta: por que os gregos eram assim? Não se trata da "comum pergunta de espanto" em relação a este povo tão brilhante, mas o porquê de serem eles tão "arrebatados"? As suas epopeias e oráculos, seus deuses... até hoje empolgam os artistas de todas as latitudes e de todos os tempos. Querem algo mais completo do que uma historia grega? Mas sua reprodução, entre nós, nem sempre é bem sucedida. Há que ser "heleno" para montar as suas tragedias. E ainda por cima com os deuses do Olimpo participando, tomando partido...  como aconteceu na guerra de Troia, com Afrodite, Apolo e Artemis apoiando os troianos, e Poseidon, Hera e Atena, as duas deusas "vingativas" que queriam a "maçã de ouro" que ficou com Afrodite (mas aí já é outra historia...) o nosso contador de historias contou a sua, ou seja, a "conseqüência" da disputa entre as deusas: a guerra de Troia! Ele cita, sim, mas en passant, a disputa das deusas.
     No program há umas palavras de Bruce relatando o que o levou a contar essa historia. Além de fascinante, ela lhe proporcionou o encontro com:  "uma versão condensada de Ilíada de Homero, escrita de forma tão acessível e comunicativa para as plateias contemporâneas". Um achado. E também, no dizer de Bruce, o poeta Geraldo Carneiro fez uma tradução "histórica" do episodio. Por isso são muitas, as razões para o público se fazer presente. Há um impacto nas litanias cantadas na voz possante de Gomlevisky (um dos momentos impressionantes do espetáculo), e há todo o envolvimento da narrativa... até chegar ao seu final esperado (e jogado em cena de maneira inesperada). O espetáculo deve ser assistido também pelos não pacifistas, que devem se curvar e compreender, através de um olhar humanizado, essa barbárie. NÃO DÁ PARA PERDER "UMA ILÍADA"!  Na ficha técnica temos, além dos já citados - o texto original (e condensado) de Lisa Peterson e Denis O'Hare. O poeta e tradutor Geraldo Carneiro afirma, no programa, que a tradução para o inglês que mais o emocionou foi a de Robert Fagles, na qual ele também se inspirou para fazer a sua. Vamos ouvi-lo: "Foi uma alegria acompanhar a sonoridade do grego, com suas aliterações e assonâncias", imaginamos, com estas palavras de Geraldo Carneiro, que Fagles tenha colocado o original grego ao lado de sua tradução para o inglês, ou então que o poeta carioca domine o grego. O fato é que houve um confronto com as duas traduções. É por essa familiaridade com o grego, que Geraldo comenta "sou um apaixonado pela Ilíada, desde que me desentendo por gente".
     Alana Alberg, em contra-baixo acústico, faz o contraponto musical com o texto, demonstrando ser a sua participação essencial para o espetáculo. A direção de movimento é de Daniella Visco;  Iluminação de Elisa Tandeta (a luz também complementa a interpretação de Bruce); figurino (inspirado) de Carol Lobato. Cenário de Bruce Gomlevsky. Aliás, o mais simples possível, mas atinge o seu objetivo. Várias "velas-lamparinas" fazem um circulo,  criando espaços e luzes que não concorrem com os cerrados "spots" de Tandeta. A trilha sonora original é de Mauro Berman e o efeito especial de Derô Martin; Arte e Identidade Visual de Mauricio Grecco; Projeto Gráfico de Thiago Ristow e Assessoria de Imprensa de João Pontes e Stella Stephany.          

         

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

"EL PÂNICO"

Elenco de "El Pânico", de Rafael Spregelburd, direção Ivan Sugahara.
(Foto Felipe Pilotto) 


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)

     "El Pânico" está em cartaz no Espaço SESC Copacabana, Rio de Janeiro,  até o dia 29 de novembro. Fomos assistir a esta divertida comedia "de horror" escrita pelo argentino Rafael Spregelburd - em boa hora traduzida para o "portunhol" por Diego de Angeli - dirigida por Ivan Sugahara! Este surpreendente diretor continua a sua experiência com a linguagem, começada com "Beija-me como nos livros", onde os atores falavam uma espécie de "esperanto", com todas as misturas de luso-inglês-alemão que lhe corresponde.
     Agora, neste "El Pânico", além de seus atores falarem "o espanhol do Sul do Brasil" (na fronteira entre Uruguai e Argentina fala-se justamente o portunhol!), a força transformadora que os cerca torna os atores irreconhecíveis. Debora Lamm é um exemplo, revelando-se uma atriz solta e "maluca", em sua comicidade, inaugurando um novo estilo de representação, com a sua bailarina "linguagem Pina Bausch". Aliás, a cena com a coreógrafa Elyse, interpretada por Suzana Nascimento, foi a primeira grande gargalhada geral. Lamm, em outras personagens que interpreta, como a "Terapeuta", mostra que  está se libertando de sua "marcante" personalidade de atriz, para se tornar uma comediante de primeiro time.
     E Lamm não é o único caso. Paulo Verlings está irreconhecível (e muito engraçado) em seu Guido Sosa, o filho inseguro. Kelzy Ecard, a mãe, desfalece de singularidade em sua atuação extrovertida.  A vidente Susana Lastri, também interpretada por Suzana Nascimento; ou Marcio Machado, o personagem "flou", o Emilio, são  exemplos de comedia macabra. O espetáculo nos delicia com ações inesperadas, forças do além, atos irracionais... como os da vidente, e o ritmo enlouquecido que desencadeia. O misterioso palco de "luz e sombra"  conta, através de mímica e sons, o que se passa em outro plano da ação. O cenário é muito bom, marcando o encontro entre o  real e o imaginário, onde tudo pode acontecer. Destaque para a reprodução do homem assassinado, seu vulto desenhado no chão, e a reprodução do mesmo no gesto no fantasma, dando a dica de que "ele" não pertence mais ao mundo dos vivos...
     "El Pânico" é um banquete completo para quem aprecia uma boa comedia. E tem um tempero extra, que é a criatividade do ator. A ação se passa em torno da procura da chave de um cofre onde o morto deixou a sua fortuna. Nessa historia central tomam carona "problemas imobiliários", intervenções da polícia, e tudo o mais que traz a ação para os nossos dias... embora os figurinos sejam dos anos 80 -  para o diretor, anos tétricos!                
     No elenco, além dos já citados, temos Julia Marini, interpretando Rosa Lozano, Marcia e Úrsula. E Thais Vaz (Dudi e Melina Trelles) e Pâmela Côto interpretando Regina e Betiana Garcia. Elisa Pinheiro é Jéssica Sosa (o terceiro membro da família enlutada). Sobre os mortos, o autor se pronuncia: eles ... " têm terror desse momento nefasto de lucidez em que entendem que estão mortos".
     "El Pânico" estréia no Brasil com sucesso, mas Spregelburd é mundialmente reconhecido como um fenômeno de autor, ator e diretor. Nascido nos anos 70, representa um dos mais modernos dramaturgos da arte teatral argentina. Sugahara já o montou em 2011, dirigindo "A Estupidez", o primeiro dos 7 pecados capitais "contemporâneos" ao qual o diretor carioca não resistiu encenar. Os outros seis seriam: Teimosia, Extravagância, Paranóia, Modestia, Inapetência e "Pânico"!  Este último nos é "apresentado", agora, em nossa vida real. Eis o mais recente  acontecimento argentino para as artes cênicas, acrescentado de uma certa filosofia "almodovariana" do espetáculo. VALE ASSISTIR!       

     Na ficha técnica temos os figurinos marcantes de Joana Lima; cenário muitíssimo criativo de André Sanches; Iluminação (mestre de sombra e luz) Aurelio de Simoni; Trilha sonora, Ivan Sugahara e Beatriz Bertu (que também é assistente de direção); Direção de movimento da grande Duda Maia; Preparação vocal, Ricardo Góes. Assistência de Idioma, Florencia Santángelo; Visagismo, Josef Chasilew. Vozes em off dos amigos Leonardo Paixão, Isaac Bernat, Gilberto Lamm e Letícia Isnard; Assessoria de Imprensa: JS Pontes.              

domingo, 15 de novembro de 2015

"O BEIJO NO ASFALTO"

"O Beijo na Asfalto", de Nelson Rodrigues, direção João Fonseca. Em cena Arandir, o homem que beijou o morto, interpretado por Claudio Lins (na penumbra), e o Morto Beijado (que está mais vivo do que nunca, na foto), interpretado por Pablo Áscoli. (Foto de Renato Pagliacci).
"O BEIJO NO ASFALTO - O MUSICAL"

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     Com um elenco de treze atores, está em cena no Rio de Janeiro a versão musical de "O Beijo no Asfalto", de Nelson Rodrigues. Inspiração de Claudio Lins, direção de João Fonseca. E eis que volto ao musical, dessa vez com dramaturgia do "nosso Sakespeare", Nelson Rodrigues, já que meu reencontro com essa linguagem teatral se deu com o próprio "bardo" inglês, com "A Megera Domada", em adaptação para musical com o título de "Kiss me, Kate!". Duas experiências maravilhosas. A respeito de Kate já falei, em crítica anterior. Passemos a Nelson Rodrigues.
     Aliás, a inspiração para musical de "O Beijo no Asfalto" foi de João Fonseca, respondendo a uma proposta de Claudio Lins. O Projeto teve inicio em 2009. Há que se respeitar o trabalho de montagem de um espetáculo.  Claudio Lins selecionou (e compôs) misturando as músicas do espetáculo, qual Abujamra fazia com os textos. Podemos dizer que o resultado é surpreendente: músicas já conhecidas e composições feitas por Claudio, exclusivamente para o espetáculo. E o texto de Nelson Rodrigues, na íntegra, sem perder a força!
     Na ficha técnica temos 43 profissionais, destaque para os músicos:
     ... e as músicas. Tocadas ao vivo, têm no Piano e Regência: Evelyne Garcia/Herbert Souza; Baixo: Matias Correa/Pedro Aune;  Bateria e Percussão: Claudio Lima; Trombone: Wanderson Cunha/Bebeto Germano; Sax, Clarinete e Flauta: Alex Freitas/ Raphael Nocchi.
     A historia do "homem bom" - e de como é difícil ser "um homem bom"-, é protagonizada por Claudio Lins que possui, inclusive, o physique du rôle.  Como a bondade não tem nuances, mas só aflições, o desempenho de Lins se resume ao pavor de ser bom. Ele é um ator que canta, e seu solo encerra o espetáculo: trata-se de uma música de Miguel Gustavo, "O Beijo no Asfalto", mas há algo, talvez o "ruído" do cenário, talvez a consternação do personagem, que não o deixa alçar vôo como cantor. Claudio Lins fica nos devendo um grande solo. Outro "ator que canta" é Gracindo Junior (Aprigio, o pai das meninas), que consegue dar uma impressionante interpretação de "Alguém", em "Abismo de amor", de Cândido das Neves. Mas atriz/cantora mesmo (vejam a diferença) é Laila Garin, intérprete de Selminha, a esposa de Arandir, "o homem que beijou outro homem na boca". Laila Garin, nas primeiras cenas, é uma "enfatiotada" mocinha, com cara de tola. Não "apostamos", a princípio, em sua interpretação. Porém ela cresce. Qual o quê! Mostra-se "um monstro" da cena, ao cantar "Toda Noite" e "A Noite do Meu Bem", de Dolores Duran. A gente tem que segurar a vontade de chorar. O seu canto, para o pior dos infernos, atrai o mal. (Assista o espetáculo, e confirme).
     Encarnando o demônio está Thelmo Fernandes, interpretando o jornalista Amado Ribeiro, personagem real, da sessão de polícia da Última Hora, do Samuel Wainer (não esquecer que Nelson Rodrigues trabalhou naquele jornal e sabia do que estava falando). Thelmo canta e conta, como bom ator que é. Destaque para "Sou porco sim". Outro ator que, para mim, andava desaparecido, e que tem uma presença cênica e um tempo de comédia invejável é Jorge Maya, que também canta - e bem - interpretando o auxiliar de polícia Aruba. Sua "cúmplice", a diretora de movimento Sueli Guerra, dá-lhe todas as ocasiões para brilhar, e ele as sabe aproveitar. Parabéns aos dois!
     E chegamos em Claudio Tovar, criatura sempre bem vinda em musicais, tanto pelo seu à vontade em tais apresentações cênicas, quanto em seu desempenho bem sucedido como figurinista destes espetáculos. Tovar desempenha, com brilho, o burríssimo (e descontrolado) delegado Cunha, destacando-se em todas as participações musicais que atua, principalmente em "O ciúme", interpretando "Tenho ciúme de tudo", de Valdir Rocha.
    Outra atriz/cantora é Yasmin Gomlewski, nossa conhecida de outros musicais, interpretando a irmã caçula de Selminha, a traidora Dália e se destacando ao cantar "Rota de Colisão", onde são misturadas as músicas "E daí?" (de Miguel Gustavo) e "Menina Moça" (de Luiz Antonio), reforçando o seu papel de adolescente doce e perversa. Uma boa  interpretação, como, aliás, é uma constante neste elenco, daí o bom espetáculo que é "O Beijo no Asfalto". O que mais gostamos nele são as denúncias, tão atuais, feitas pelo nosso grande Nelson Rodrigues. Nessa peça, principalmente, ele parece estar prevendo o futuro - o Brasil do  século XXI - com a sua imprensa fatídica, corrupta e corruptora. Nada se perde do texto, que, repetimos, está na íntegra! (ponto para o musical!). Nelson Rodrigues brilha, em suas denúncias da "imprensa marrom" - que afinal, no Brasil atual é maioria! E ainda  escancara o problema criado por uma sociedade míope: o beijo entre iguais. No caso de Nelson, o beijo entre homens. Mal sabia ele que esse beijo ia continuar a causar problemas!

     O morto beijado é o belo Pablo Áscoli, que, por ser jovem e belo,  levanta suspeitas...! Temos também a sua Viúva, interpretada com competência por Juliane Bodini ( a cena da delegacia entre os quatro: Selminha, Amado Ribeiro, o Delegado Cunha e a Viúva, é antológica). Há também, na peça, e não poderia faltar,  D. Matilde, a eterna "vizinha fofoqueira", interpretada com segura-implicância por Janaína Azevedo. D. Judith, a mãe de Selminha, e outra vizinha fofoqueira, são interpretadas por Juliana Marins. O Werneck, da repartição, é Gabriel Stuaffer, um aprendiz de feiticeiro. Pimentel (outro colega de Arandir), e também o Comissário Barros, são interpretados por Ricardo Souzedo. Na ficha técnica temos Nelo Marrese caprichando no cenário, fazendo misérias com a reprodução do jornal difamatorio, com os interiores, e a mobilidade que dá à cena. Nos figurinos, nem é bom lembrar, Claudio Tovar arrasa, com figurinos dos anos 80! (Pena que ele não gosta da Dilma...Ô argentino cruel! ). Fazendo eco a tanta perfeição temos a iluminação de Luis Paulo Neném. Sem a sua precisão o espetáculo não andaria! E tem Sueli Guerra na direção de movimento, e isso já diz tudo. A pianista ensaiadora é Evelyne Garcia. E muitos outros profissionais fazem o espetáculo brilhar. Não se esqueçam, eles são 43! Nelson Rodrigues sempre foi bom fomentador de empregos! BOM ESPETÁCULO! - Ele  agora está no Teatro das Artes, na Gávea).      

"ELECTRA - UMA CONCEPÇÃO DO AMOR"

Cena de "Electra", de Sófocles, direção João Fonseca, na foto. 
(registro fotográfico da estreia da peça, de Renato Mangolin) 

"ELECTRA - UMA CONCEPÇÃO DO AMOR"

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

         Não havia ódio, nesta "Electra", de Sófloces, havia amor... pelo irmão, pelo pai, embora o recado seja o do ódio (neste momento de ódio  que atravessa a humanidade, não é um bom momento para discursar sobre o ódio). Mas Electra amava o irmão, o pai... os homens (digo aqui o sexo masculino, não a humanidade). A própria concepção  de Electra, interpretada por Rafaela Amado, no espetáculo de João Fonseca, é a de um menino. Electra, para João Fonseca, representa um rapazinho, desde sua aparência física, até o seu modo de reagir à adversidade. E  João está com a razão, porque, historicamente, Electra protagoniza a queda do matriarcado e elege para si a sempre (renovada), força do patriarcado. Mas, em nossa época, onde o ódio predomina, não é uma boa  escolha  a montagem da peça de Sófocles. Homenagem a Abujamra, dizem. Mas essa montagem não tem nada a ver com a peça encenada por Abujamra, em 1965, montagem na qual imperava Glauce Rocha e seu "Monólogo da Urna". Como sabemos, Abujamra deixava seus atores a vontade, e, ao perceber o "gênio", deixava que o mesmo transbordasse. Foi o que aconteceu com  Glauce/Electra  e o sentimento de perda de seu querido irmão Orestes. Mas passado é passado, embora Glauce Rocha não saia da memória de quem a assistiu na montagem de Abujamra. Ela era um exemplo de, como dizia Artaud, um ator que se incendeia no palco.
      Entretanto, há amor, em Electra. Um mistério, porque este amor passa  rapidamente pela cena, na montagem  de Fonseca, dando prioridade ao ódio. Há várias maneiras de interpretar o mito de Electra, uma delas é através do amor.  ... E começamos por Clitemnestra e sua tragédia. Clitemnestra, interpretada pela atriz Camilla Amado, enfrenta o filicídio e o matricídio. E podemos resumir, para quem não conhece a historia dos Átridas, e sua Maldição, eis a questão:  a bela Helena, mulher de Menelau, irmão de Agamenon (filhos de Atreu),  foge para Troia com Páris, filho de Príamo, rei de Troia. Dizem que ela foi raptada, na verdade ela sucumbiu  aos  encantos de Páris, prestigiado pelas deusas do Olimpo, em especial  por Afrodite, a deusa do Amor. Como todos nós sabemos, é por causa dessa "traição" de Helena que se dá a Guerra de Troia e a "Maldição dos Átridas".
     E aí começa a tragédia de Clitemnestra: sua querida filha Ifigênia é morta para aplacar a deusa Artemis que, com raiva de Agamenon (os deuses gregos tinham sentimentos humanos),  por ele ter matado um de seus bichos, uma corça, ao que parece - e se vangloriar de tal feito -  resolveu castigá-lo. O  guerreiro estava a caminho de Troia (pode parecer impertinência, mas o que Ifigênia e Clitemnestra estavam fazendo no meio da soldadesca?). Pois bem, em consequência do ato de Agamenon, a  deusa  Artemis, como boa deusa grega, vinga-se, fazendo o vento cessar e os navios de Agamenon não poderem seguir viagem para trucidar os troianos. Condição de Artemis para o vento voltar: o sacrifício de Ifigênia, filha de Agamenon. Ele consente e comete um filicídio, para horror e ódio de Clitemnestra, a mãe, que jura vingança. Como sabemos, gentileza gera gentileza, e ódio gera ódio (vide o ataque de Bush ao Oriente Médio, a confusão que se formou em torno daquele infeliz continente e o revide dos otomanos, ou seja, do antigo Império Otomano, pois quem foi rei nunca perde a majestade).
     Uma justificativa para Clitemnestra: enquanto Agamenon tudo pode, inclusive receber Cassandra (irmã de Páris) como troféu de guerra e  levá-la como prisioneira para a casa de sua esposa (o filicida sem julgamento impõe a Clitemnestra a presença de Cassandra com estas palavras: "Recebe a Senhora estrangeira e trata-a bem"). Clitemnestra matou Agamenon para se vingar pela morte de Ifigênia. Assassinato gera assassinato. Havia no Olimpo a interferência dos deuses, e entre os mortais, a interferência dos poetas... A deusa Atena dirigiu as decisões, no julgamento de Orestes, e ficou do lado do patriarcado, na decisão final, com o argumento de que não fora gerada por mulher. (Como sabemos, Atena nasceu de uma "dor de cabeça" de Zeus). O veredito da deusa da sabedoria pesou a favor de Orestes, o matricida, e contra as Eríneas de Clitemnestra, que a defendiam.    
     Estas historias do Olimpo são fascinantes. Interpretá-las ou dirigi-las - como acontece com o "Rei Lear", ou "Hamlet" - deve ser o sonho de todo ator e diretor. O mesmo deve acontecer com a tragedia dos Átridas. É o que se imagina. Assim, a  iniciativa de João Fonseca e de Camila Amado é louvável: é um desafio e uma provocação. Nada do que nos é levado à cena é falso, neste espetáculo. Há uma entrega total, e força, ou doçura, nos atores. Mas não há "o horror". O ódio parece justificado. E a  Força -  essa necessidade da tragédia grega - às vezes é retirada da própria compleição física dos atores, como é o caso de Mario Borges, com sua voz possante que substitui o coro e dá amplitude ao corifeu. A representação de  Orestes, feita por Ricardo Tozzi, com doçura e hesitação, pode ser uma das maneiras de perceber este personagem que tanto necessita do auxilio dos deuses, de Apolo, principalmente, para agir. Talvez Tozzi seja o ator adequado para Orestes. Paula Sandroni, cuja personalidade é forte, porém sua maneira de representar transmite doçura, está adequada para viver Crisôtremis, a  irmã - que Electra não valoriza, justamente pela sua "feminilidade". A guerreira da família é Electra, e ela trava a sua luta. Para o diretor Fonseca, é "impossível vencer sem perder". E aí está, nesta frase,  a tragedia de Electra.  Francisco Cuoco, como o Estrangeiro, está adequado, embora mecânico. Alexandre Molfatti, como Egisto, não teve ocasião de brilhar. Deixemos para as "Eumênides", a próxima peça de Sófocles sobre essa tragédia, e o caráter de Egisto ficará exposto.

     E agora, as duas personagens principais de "Electra" - Clitemnestra e sua filha Electra. Difícil parceria, já muitas vezes tentada. Talvez os filmes gregos sejam os melhores exemplos, ou os festivais em Atenas... Mas "Clitemnestra" (Camila Amado ) e "Electra" (Rafaela Amado), lutam para o reconhecimento de suas tragédias, mas está faltando algo poderoso a arrebatador: não somos envolvidos pelos seus horrores. Camila Amado tem momentos de verdadeira tragédia, quando sede à filha o seu tempo para as queixas, sabendo (embora não acredite), que será justiçada. Rafaela Amado se empenha, na cena do encontro e reconhecimento de seu irmão Orestes. Falta neste espetáculo, que é uma verdadeira "Electra de Bolso", algo mais descarnado, que nos faça descer aos infernos. 
     Na ficha técnica temos o bem cuidado padrão João Fonseca, mas sem maiores resultados: Nelo Marrese cria a cena em cima de praticáveis, mas não consegue a grandeza imaginada para a cena grega. O figurino de Marília Carneiro e Reinaldo Elias acerta somente na composição de Clitemnestra e de Crisôtemis. Há erro total no figurino de Electra. Os demais componentes da tragédia reproduzem., com maior ou menor eficácia,  figurinos do povo e de seres das casas abastadas (Egisto), na Grécia. A luz de Luiz Paulo Neném não dá ênfase aos acontecimentos. A trilha sonora de João Bittencourt não guarda maiores destaques. Enfim, o espetáculo precisa subir de tom e arrebatamento (sem nervosismos), para nos levar aos tempos gregos de Clitemnestra e Electra. (Sinto dizê-lo).