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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

"NA SELVA DAS CIDADES - EM OBRAS"

A atriz Luah Guimarãez interpretando a irmã de Garga, Marie Garga em "Na Selva das Cidades EM OBRAS" - OCUPAÇÃO # 16 ARTIFÍCIO", em cartaz na Caixa Cultural, Rio de Janeiro. (Foto Renato Margolin). 
 IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"NA SELVA DAS CIDADES - EM OBRAS"

      Aqueles que querem "mudar o mundo" resolveram nos mostrar o mundo com ele é, e conseguiram. Percebemos neste A Selva das Cidades uma desesperada busca de algo que realmente tenha 'algum' valor para a nossa já tão curta vida. Dessa vez os atores  buscam encontrar o valor da vida escondido nas poltronas da Caixa Cultural, no Rio - mas já os estiveram procurando entre os abandonados das ruas, em São Paulo, entre os perdidos de bar. E acabaram em um lugar que, para algumas pessoas é "considerado convencional": as cadeiras de um teatro. Trata-se de um pequeno teatro, de uns 150 lugares, se tanto, no qual o grupo "Mundana Companhia" tenta encontrar o sentido da vida. Eles tentam, se desiludem, bebem, amam, mas as três talentosas criaturas que acreditam que algo possa ser feito, Aury Porto, Cibele Forjaz e Luiza Lemmertz esperam que algo aconteça. A vida não dá sossego. E há  também Luah Guimarãez que também, para nossa alegria, acredita no projeto. E não só ela. Por algo lutamos, então. Como pensa Aury Porto.     

     E qual é a proposta de Aury? O tempo vai passando, os atores viram anjos (ou demônios) e a proposta continua interrogando: existe o verdadeiro teatro, existe um caminho?

    Cibele Forjaz e a "Mundana Companhia", nossa conhecida de outro momentos e outras direções - desde o surpreendente "O Idiota", de Dostoievski, que marcou  a diretora para  a nova sensibilidade cênica. Outros espetáculos vieram e hoje temos este "Na Selva das Cidades - Em Obras" e Brecht trazendo, em seu passar, a "Ocupação #16 - Artifício". Há toda uma explicação para esta formatação. E o personagem de um rico negociante de madeira faz a proposta, atraído pela inteligência de um jovem bibliotecário da Família Garga, e querendo reconhecer a capacidade do ser humano em um  "embate intelectual". Podemos criar as nossas leituras, neste "Em Obras". Tentarei, mas "Não Já". A peça é quase "uma questão de família", e os Garga, camponeses do interior, estão muito presentes em cena.

    Mas não é das famílias que devemos falar, devemos nos referir aos humanos.

    BB situa a peça em 1912 (um pouco antes da Primeira Guerra Mundial). Trata-se de um Brecht inspirado no livro "A Selva", de Upton Sinclair. Podemos imaginar. O  terceiro texto do jovem Brecht compara os grandes, de vida longa como Tchecov, Dostô, Brecht ... Depois vieram outras peças da Cia.  Ela começou a ser formada no início do séc. XXI, e houve até um tempo em que ela foi dirigida pelo russo Adolf Saphiro: "O Duelo". E lá atrás, nos anos 60, o grande sucesso do Teatro Oficina foi-nos apresentado com "Na Selva das Cidades".

    Agora, em sua nova versão neste estranho mês de agosto - irá somente até o dia 26 no Rio - o público perceberá algumas pequenas modificações em cena.

      Citamos o elenco:  
     Aury Porto, grande entusiasta do projeto e seu criador, interpreta  C. Shlink. Carol Badra (Mãe Garga); Guilherme Calzavara (O Verme); João Bresser (John Garga), e também as já citadas Luah (Marie Garga) e Luiza (Jane Larry). Há também Mariano Mattos Martins (O Babuino), Sylvia Prado (Mãe Garga - substituição?), Vinicius Meloni (Pat Manky), e Washington Luis (George Garga). Os atores são excelentes e Luah nos passa a impressão de ter sido muito próxima de Regina Braga. já a conhecer, vinda da alma de Regina Braga. Estranhas vivencias humanas. Deixarei a crítica para outra ocasião).

     Treinamento Corporal, Lu Favoreto; Tradução, Christine Rörig; Direção/Treinamento Cênico, Cibele Forjaz; Treinamento Vocal, Lucia Gayotto; Direção de Cena, Renato Bandi; Criação Musical, Guilherme Calzavara; Músico Marcelo Castilha.

     (A cenografia e concepção do cenário é outro caso a parte: a funcionalidade com que ela é operada coloca a "marca registrada de Forjaz" - e a sua determinação cênica, na forte tensão que se estabelece entre atores e público - tensão essa que Forjaz percebe e não deixa escapar em nenhum momento.

     Eis nossa homenagem à passagem da "Mundana Companhia" pelo Rio de Janeiro, aproveito para me despedir com este belo trecho de Brecht, que está no programa:

(1)

Quanto tempo/Duram as obras?

Tanto quanto/ ainda não estão completas.

Em obras.

Pois enquanto exigem trabalho

Não entram em decadência.  

(FALAREMOS UM POUCO MAIS SOBRE A PEÇA, EM OUTRA OCASIÃO. NÃO DEIXEM DE ASSISTI-LA!)..


domingo, 6 de agosto de 2017

"PODEROSA VIDA NÃO ORGÂNICA QUE ESCAPA"

"PODEROSA VIDA NÃO ORGÂNICA QUE ESCAPA",
texto Diogo Liberano, direção Thaís Barros. Em cena Locatelli, Liberano e ....)
 (Foto Divulgação)
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"PODEROSA  VIDA  N ÃO  ORGÂNICA  QUE  ESCAPA"

     Eis a chegada do artista que nos coloca diante da arte, de sua abstração poética e seus mistérios. Eis o retorno de Diogo Liberano, que nos falou com desenvoltura em monólogo tecido com Walter Benjamin (como se dele irmão fosse), em "O Narrador". Agora Liberano retorna com a poeta (Prêmio Nobel) polonesa Wislawa Szymborska e seu poema "Conversa com a Pedra", o qual é reproduzido na íntegra, na abertura do  espetáculo por um Gunnar Borges (diretor de movimento, ator de excelente voz, e bailarino cheio de energia), que nos apresenta, nas escadarias majestosas do CCJF, o poema de Wislawa.            

     Diz o dramaturgo Diogo Liberano que além da poeta polonesa, também foi inspirado nos quadrinhos de Will Eisner para compor o que nos foi apresentado em palco. A ilusão da rua de Eisner, na grafic novel "O Edificio", onde prédios serviam de pano de fundo para a ação, Liberano consegue de uma armação de material luminoso como aço, e leve como pluma - projetado pela luz que se expande, em um pano de fundo cinza, dando a impressão de um edifício em construção... ou demolição.    

     E assim começa o espetáculo. O texto não pode ser mais atual, entretecido do absurdo que se expande, até o final desafiador. O que acontece em cena muita gente já conheceu, ou já passou por isso - uma menina não querendo ficar no quarto que cheira a sangue e tem palavras estranhas escritas nas paredes sujas; ou o rapaz do terceiro andar que quer alugar um apartamento no térreo por causa da mudança de sua mãe, que não pode subir escadas. Ou o bem resolvido morador do segundo andar, que procura entender os seus vizinhos.

     Quem já não passou por situação semelhante? Talvez os poucos jovens bem nascidos, que a família resolve todos os seus problemas, mas nunca o jovem aventureiro que quer conhecer os seus limites. E é essa segunda impressão que nos causa o insólito dialogo trocado entre eles. E o final que justifica todos os poemas: a pedra abre a porta que se nega a abrir na apresentação do espetáculo. Eis o diálogo de "Conversa com a pedra": "Bati à porta da pedra. - Sou eu, me deixa entrar. Quero penetrar no teu interior olhar em volta, te aspirar como o ar". (E a pedra responde): "Vai embora. Sou hermeticamente fechada. Mesmo partidas em pedaços seremos hermeticamente fechadas. Mesmo reduzidas a pó não deixaremos ninguém entrar".

     E, no decorrer da cena, veremos que a conversa da pedra não é "essa poderosa vida não orgânica que escapa"  - pois o "inorgânico" tomará parte - misteriosamente, como compete à poesia - contrariando o impenetrável da pedra. Mas os estranhos acontecimentos só se entregarão a quem assistir ao espetáculo!

     Devemos saudar, nestes tempos de tão frágeis textos e interpretações entorpecidas (com algumas honrosas exceções), este desafiante dialogo entre três jovens (os atores André Locatelli - o colaborativo morador do segundo andar - Diogo Liberano, "o que procura um pouso para sua mãe" e finalmente Livs Ataíde, que não suporta as paredes cheirando a sangue, de seu pequeno apartamento.

    Pensamos já ter falado o suficiente sobre o acontecimento que se instaura com teatralidade bem vinda no Centro Cultural da Justiça Federal, onde ficará até início de setembro. Diz o diretor que não é fácil levantar um espetáculo, nestes tempos de retração financeira, em que o prefeito acaba de cortar 25 milhões de reais para a cultura como um todo. Em vista disso, Diogo Liberano se dispõe, para poder pagar seus artistas, a dar um curso de dramaturgia e outro de interpretação, no mesmo espaço em que a peça acontece, ou seja, no CCJF.


     ATENÇÃO CLASSE, PRESTIGIEM! VAI VALER A PENA. .ESTAMOS NA PRESENÇA DE UM DOS DIRETORES MAIS CRIATIVOS DESTA NOVA GERAÇÃO. AH! ANTES QUE ESQUEÇA, A UFRJ PARTICIPA, DANDO APOIO AO "TEATRO INOMINAVEL" (COMO SE INTITULA). Na dramaturgia, Diogo Liberano; na Direção, Thais Barros e na Direção Musical (o que seria do teatro sem um bom acompanhamento musical?) Rodrigo Marçal. O Cenário, bastante criativo, foi tornado possível pela equipe do INOMINÁVEL - ou parte dela - cinco atores: Locatelli, Ferrera, Ataíde, Müller e Barros. A Direção de Arte é de Marcela Cantaluppi e os "não-figurinos" - (uma sábia adaptação de nosso vestir cotidiano), são de Barbara Faccioli e Juliana Valle. (REALIZAÇÃO "TEATRO INOMINAVEL" E UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO). DESDE 2.008 ESTÃO UNIDOS.                

sábado, 22 de julho de 2017

"ESTUDO SOBRE A MALDADE"

O  ator Bruce de Araujo em "ESTUDO SOBRE A MALDADE" - uma narrativa de "Otelo", de Shakespeare, direção de Miwa Yanagizawa. (Foto Diogo Monteiro).


"ESTUDO SOBRE A MALDADE"
I D A  V I C E N Z I A
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     Outro Shakespeare! Dessa vez é sua peça "Otelo", incorporando o "Monstro de Olhos Verdes" do ciúme, que ataca os desprevenidos da sorte. Antes de começar o comentário crítico quero dizer que tive a felicidade de assistir a um dos mais brilhantes Contadores de Historias incorporado no ator Bruce de Araujo, a quem tive o prazer de conhecer - com direção de Miwa Yanagizawa, no Teatro Sergio Porto, Rio de Janeiro. O espetáculo, intitulado "ESTUDO SOBRE A MALDADE", ficará em cartaz ainda este fim de semana, até o dia 26 (ao que parece) adiado que foi, de sábado a segunda, sempre às 19 horas. Ao que parece, trata-se de uma residência artística. Para quem aprecia bom teatro, e o domínio total da cena, aconselha-se conhecer Bruce.

     A criação, direção e texto é de Miwa e Bruce O diretor assistente é Pedro Yudi e a Direção de Movimento (algo inusitado), de Laura Samy. A Trilha Sonora é de Bruce. Com exceção de Miwa, confessamos que temos pouco conhecimento de elenco e ficha técnica, mas compreendemos que - e volto à palavra - diante do 'inusitado' do acontecimento, Stanislaw Ponte Preta deve estar bem satisfeito com o espaço que lhe foi cedido.   
       
     Pois bem. O espetáculo começa praticamente na penumbra, e o ator do monólogo (Bruce de Araujo), já com iluminação direta sobre ele, aproxima-se do público com uma simples cadeira e senta-se nela, transmitindo-nos toda a simpatia e carisma que sua personalidade transmite, ao narrar acontecimentos que vão resultar na morte de Desdêmona. Nada de muito espetacular, apenas a inveja transitando em todos os gestos e emoções de Iago, que fora preterido em um posto de comando, ao qual almejava. Apesar de tudo, nada mais atual do que as artimanhas "de Palacio", realizadas por Iago para atingir os seus fins.    

      Deixo aqui o registro de meu espanto de não ter lido comentário algum a respeito, já que "a ciência crítica" neutralizou-se em inúmeros "blogs" que vão materializando o seu parecer perdido no espaço e na pressa das noticias entrecortadas. Lastimo. E vejo, com espanto, que as notícias de jornal ainda monopolizam as críticas teatrais. Devemos refletir sobre o assunto. As redes sociais e sua escrita "democrática" é realmente um novo espaço? Pensamos que a crítica deve continuar a ser "pertinente, arguta e bem escrita", captando o valor real do material que ela se encarrega de analisar? Ou o que importa são os prêmios em festivais ou os comentarios em folhas de jornal? A boa interpretação é quem decide quem é quem.

     Temos, no caso de Bruce de Araujo uma revelação óbvia de um talento raro. Ele conta Otelo e suas peripécias, a época em que se desenvolveu, ou motivos - sem recursos de espécie alguma, a não ser o de seu talento (e da supervisão do talento de Miwa, claro). Já tivemos "Ricardo III" contado por Gustavo Gasparani, ou a difícil "Antígona", narrada por Andrea Beltrão. Os atores citados utilizaram recursos outros, além da cadeira de Bruce de Araujo. Outros recursos além de um olhar...e um gesto... Ah, não devemos esquecer o outro Bruce, o Gowleviski, que também impressionou com o seu aedo, contando "A Iliada", de Homero.

    Não há, na platéia de Bruce de Araujo, que não tenha compreendido as intenções de Iago, o descontrole de Otelo e a inocência de Desdèmona (além de outros papéis secundários interpretados por esse ator que possui o domínio completo de sua arte). Bruce de Araujo narra - em o que podemos chamar de uma segunda parte do espetáculo - através de seu corpo, as venturas e desventuras do mouro shakespereano! Quem perdeu deve procurar este exercício, pois ele  não pode deixar os palcos do Rio de Janeiro. Procurem! Prestem atenção onde "ESTUDO SOBRE A MALDADE" se esconde...


   (Devemos pensar nos tesouros que se ocultam nas redes sociais, e as críticas de teatro que fazem seus críticos, em escolha pessoal, em contraposição à arte rala que às vezes - quase sempre - trafica nas páginas dos jornais). Há que pensar sobre isso. Os tempos agora são outros? Há muito material sublime se perdendo por aí, há muita peça de teatro excelente que não é analisada... Há que pensar sobre isso. E NÃO PERCAM "ESTUDO SOBRE A MALDADE"!  É  BOM  VER  BOM  TEATRO!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

HAMLET

Encontro e Apresentação da família e amigos do Hamlet. Direção Paulo de Moraes. Música de Rico Viana. Canções de Horácio -  Luiz Felipe Leprevost.   (Foto de João Gabriel Monteiro)
(No CCBB - Teatro I  - até dia 6 de agosto de 2017)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

HAMLET

     "Se fossemos chicotear todos os idiotas do mundo, ninguém escaparia ao chicote" - diz Hamlet. E Shakespeare acrescenta: "Não se deve ampliar a voz dos idiotas". Acho que se ele vivesse agora teria um colapso ao ver o poder que tem a internet, de ampliar a voz dos idiotas... Pois eu sou mulher, talvez idiota, estou cozinhando e escrevendo sobre Hamlet! E a coisa que mais me empolga, no momento, é este Hamlet menino que não tem medo de se expor, de ser homem e mulher, e falar com sua própria voz!

     Nem quero me lembrar que Sarah Bernardt já interpretou Hamlet no cinema mudo! Não quero lembrar da "diva" gesticulando para encanto da burguesia francesa. Que tempero teria Hamlet, para eles? (Desculpem o "tempero", estou cozinhando...)

     E que gosto incrível quando Patricia Selonk, de óculos escuros, sentada em algo que certamente não é um trono, vestindo trajes contemporâneos, olha a cena que começa a se descortinar perante seus olhos de Hamlet, do amor entre sua mãe Gertrudes e seu tio Claudius. Ela (ele), que acabara de ouvir a voz do fantasma de seu pai, e, de repente Hamlet começa a falar! E sua intervenção nos amores dos dois traidores; a lembrança da voz de seu pai, o Rei, desperta a ironia do herói, com aquele fio de voz característico de Selonk, que a gente pensa que ninguém vai ouvir, mas que atinge o mais fundo do nosso ser.

     Como se não bastasse o olhar de Hamlet, prescrutador, de óculos escuros!, observando o mundo louco em que vive - e ele pode tudo ver e nos deixar ver, apesar de seus óculos escuros  - modernos, contemporâneos.

     A peça mostra um Hamlet alegre quando encontra a caveira de Yorik, e, ao recordar as travessuras daquele bobo da corte, é o menino que surge. E temos todas aquelas mudanças de cenas e de aparições de fantasmas em gigantescas projeções e voz toráxica. Estamos, realmente, presenciando um Hamlet louco, menino, e sua historia é contada (e cantada por Ofelia - Lisa Eiras) em loucura de voz de criar amores. O elenco cumpre seu papel sem dificuldade ou reverência. Estamos assistindo a um Shakespeare com personalidade própria. O que quero dizer com isso?

     Não há complicações de época, há a Rainha Gertrudes (Isabel Pacheco) bebendo seu vinho envenenado sem maiores dramas; há o tio Claudius, corrupto moderno, que tenta até o final trazer Hamlet para o seu lado, cooptá-lo. Polonius, em seu papel descoloriido; Ofelia enlouquecendo sutilmente, do outro lado da "loucura" de Hamlet. Assim vale a pena assistir novamente Hamlet. Aliás, nosso também grande diretor, Antonio Abujamra, costumava dizer que Hamlet era a dramaturgia mais completa, o início e o fim do drama, contendo nele todas as esperanças e conflitos. Abujamra lia Hamlet sempre que ia dirigir uma nova peça.

     Laertes e Horacio ... perfeitos. A cena do duelo se resolve como o grande engano que é. E o encontro do jogo de espadas entre Laertes (Jopa Moraes) e Hamlet (Patricia Selonk) seria descomplicado, crédulo e amoroso, um jogo de esgrima entre dois amigos, não fora a interferência do corrupto Claudius (Ricardo Martins).

     Enquanto o tio Claudius entra com o veneno, Horacio (Luiz Felipe Leprevost) é o amigo em quem se pode confiar. Temos também, nesta peça que nada esquece, o coveiro que faz as delicias da representação do povo em Shakespeare (ator Marcos Martins), e os dois amigos (que se tornam traidores), Rosencrantz e Guildenstern. Atores interpretam papéis dobrados, como Luiz Felipe Leprevost (Rosencrantz), e Jopa Moraes (Guildenstern) este último também o saltimbanco que se apresenta no castelo de Elsinor. Marcos Martins é Polonio e o coveiro. Como sempre, os atores desta Companhia de Paulo de Moraes são excelentes, e é um prazer assistir aos seus espetáculos.   

       Em conseqüência, o elenco de Hamlet é formado por sete atores (e a projeção em vídeo do fantasma, interpretado na possante visão e voz de Adriano Garib). Eles contam a historia do "reino podre da Dinamarca" criada por Shakespeare, mas o espetáculo consegue, sem fazer alarde (discretamente), algumas aferições que nos lembram certo país. Mas tudo é feito com muita discrição e charme.  

     Quanto ao cenário, o Castelo é a prisão e o "Campo Santo" é a liberdade! Carla Berri e Paulo de Moraes são os criadores deste ambiente, os cenógrafos. Saudemos o Hamlet menino interpretado por Patricia Selonk. Nunca pensei (pensamos) que fôssemos amar Hamlet tanto assim, novamente.  

     A Direção de Paulo de Moraes, da Armazém Companhia de Teatro é da maior criatividade. E a Versão Dramaturgica, corretíssima, é de Mauricio Arruda Mendonça. Com a Iluminação de Maneco Quinderé, as modificações da emoção ficam marcantes, como o vermelho apresentando e englobando a tragédia final. A Trilha Sonora Original é de Ricco Viana, e é muito boa. Figurinos atuais, com leves toques do passado, de Carol Lobato e João Marcelino. Preparação Corporal de Patricia Selonk e Coreografia de Toni Rodrigues. O Preparador de Esgrima é Rodrigo Fontes. Video de João Gabriel Monteiro. Canções de Horacio: Luiz Felipe Leprevost. Colaboração na Dramaturgia: Jopa Moraes e Paulo de Moraes. Assessoria de Imprensa Ney Motta. Patrocínio: Petrobras e Banco do Brasil. É BOM VER BOM TEATRO!       

     

sexta-feira, 23 de junho de 2017

"PENTESILEIA - Treinamento para a batalha final"


 Acima, Antonio Salvador como "Aquiles" e Maria Esmeralda Fortes como - "Pentesiléia". Autora: Lina Prosa. Direção:  Maria Thaís. (Foto Silvana Marques)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"PENSTESILEIA - treinamento para a batalha final", está em cartaz no Sesc Copa. O subtítulo esclarece o mito (restabelecido no texto da dramaturga italiana contemporânea Lina Prosa) sobre mulheres e antropofagia - tendo estas duas 'criações da natureza' se misturado nesta encenação.

     Em primeiro lugar, o espetáculo é altamente comprometido com o ato de pensar e o ato de sentir. São três monólogos dirigidos ao público pelos dois contendores (Pentesileia e Aquiles) que tentam equilibrar o sentimento (eterno, de amor e ódio) que domina a nossa civilização.      

     No primeiro monólogo Pentesiléia (Maria Esmeralda Forte), conta o que lhe vai no coração, aguardando o momento do encontro final com o guerreiro. O segundo monólogo é Aquiles (Antonio Salvador) fazendo uma homenagem à guerreira morta em campo de batalha, à mulher guerreira que ele admira. Destacamos que há - no momento dessa homenagem e junto com ela - o encontro vigoroso entre homem e animal (entre Aquiles e seu companheiro de batalha, o imortal cavalo Xanthos), encontro esse que prepara a cena para o crescendo final quando o guerreiro reabsorve o ímpeto para a luta. 

     Vejam bem: a cena entre Aquiles e seu cavalo Xanthos é um dos primorosos momentos do espetáculo, o homem em seu elemento: a guerra. É a animosidade em um crescendo, para estabelecer a fúria necessária para enfrentar (ou estabelecer) a morte. O outro momento primoroso do espetáculo, que mostra a assinatura das duas grandes artistas (Thaís e Esmé), é a cena da antropofagia...    

     O terceiro monólogo é a consumação do horror. É quando Pentesiléia deglute o seu amado. São raros estes momentos de completude cênica. Maria Esmeralda o consegue. O manjar nos leva à comunicação espiritual e ao breu! O treino acabou, a batalha está conclusa, não há vencedores, homem e mulher são um só - na verdade,  há um Renascer...

     A união destas três potências: Maria Esmeralda, Antonio Salvador e Maria Thaís  tornam possível o espetáculo e a sua cena final.

     Deixemos para o professor da Unicamp e tradutor do texto de Lina Prosa, Laymert Garcia dos Santos, resumir para nós o assombro:

     "Pentesiléia é a rainha das míticas Amazonas. Mas qual o sentido de sua existência insistente no mundo atual? Atravessando o Mito e a Historia, estirando um arco transtemporal, Lina Prosa a recriou como a impossível figura da mulher selvagem civilizada, que nos assombra e interpela."

     Iremos à procura dessa mulher guerreira.

     Um pouco sobre o elenco: Maria Esmeralda é atriz reconhecida das montagens de Nelson Rodrigues e dos espetáculos inesquecíveis de Amir Haddad. Esta montagem celebra os 80 anos da atriz. Antonio Salvador é seu companheiro de espetáculo e ator da Cia Teatro Balagan. Foi presença inesquecível também no espetáculo "Recusa", direção de Maria Thaís. Este "Aquiles" a que Salvador dá vida é um momento de grande competência e pontualidade teatral.

     As pausas, indicações, alterações e criatividade do espetáculo ficam sob a responsabilidade da artista sensível que é Maria Tahís e outros aspectos importantes dessa montagem, como a Iluminação de Aline Santini e a Trilha Sonora de Morris. A consultoria do universo feminino dos mitos ameríndios é de Rafaela Vargas e Marcelo Fortaleza Flores.  Cenografia e Figurino de Marcio Medina. Assistente de Direção Kátia Daher. VALE CONFERIR ESTE ESPETÁCULO MUITO ESTRANHO!    

      

sexta-feira, 2 de junho de 2017

CRIMES DELICADOS

André Junqueira (Lila), Well Aguiar (Hugo) e Bernardo Schlegel (Efigênia), em "Crimes Delicados", de José Antonio de Souza, direção Marcus Alvisi    (Foto Pablo Henriques)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

 CRIMES   DELICADOS

      Fomos assistir a "Crimes Delicados", de José Antonio de Souza, com direção de Marcus Alvisi, recordando a montagem do ano 2000, direção de Antonio Abujamra e tendo no elenco Nicette Bruno, Barbara Bruno e Paulo Goulart. Hoje a crítica é de 2017, com um elenco formado por André Junqueira, Bernardo Schlegel e Well Aguiar. Direção de Alvisi.  

     Não há nada mais atual do que este texto. Ele se debruça sobre a "mania de matar alguém" tão em voga atualmente, e que já era "moda" no tempo da ditadura militar. Segundo a "coxinha" Lila (personagem), a compulsão de matar é inspirada pelo "ódio" que ela sente, mas não sabe do que...O casal se apavora de parecer superficial perante os amigos e vizinhos e essa preocupação é hilariante. E também é engraçado quando o marido Hugo tenta explicar, de maneira "intelectualizada", o desejo de matar que  assalta o casal. Lila e Hugo resolvem se exercitar ensaiando seu primeiro crime contra um ser humano. Diz José Antonio: "depois de  matar os peixinhos do aquário, o gato, o cachorro... foi a vez da empregada".

     A primeira parte do programa do casal é um exercício para cometer crimes maiores. Non sense! Na verdade, (e para isso não há explicação), eles se preparam para matar os velhinhos da família! Ao que parece, tal plano é só para enfatizar a intenção maligna do casal. A idéia se estabeleceu porque "matar está na moda"! Efigenia, a empregada e primeira vítima, retorna sempre. É de José Antonio de Souza esta declaração feita na década de 70: "o eterno retorno da empregada é uma metáfora da resistência do povo - em qualquer país - independente do que ele sofra ao longo da história".

     Bem anos 70. As pessoas naquela época se preocupavam com o povo... e agora? O texto se inspira nos acontecimentos nefastos da ditadura militar. O teatro do absurdo, Ionesco e Beckett são lembrados e José Antonio de Souza explica: "a empregada retorna após a morte, diluindo a  noção de realidade".        

      Perfeito. "Matar"... Matar socialmente! A moda nos anos 70 está querendo voltar, e o engraçado (e terrível), nesta historia toda, é que Marcus Alvisi, o diretor atual, muito oportunamente traz para 2017 uma família de classe media (alta?) que quer matar "por causa do ódio" que sente. Lila e Hugo não localizam o seu ódio, só sabem que este sentimento os fortalece. O casal, Lila (André Junqueira, irreconhecível no papel da "coxinha") e Well Aguiar (como o marido Hugo) querem ser "moderninhos", e entrar na moda de matar. Muito bem, mas o casal não sabe o que os move, e a sua vítima preferida é Efigênia, a doméstica desprotegida que servirá de cobaia para os próximos assassinatos.
     Acontece que a vítima não é tão desprotegida assim, como era "a dócil filha da Casa dos Átridas", mas "a "outra" Efigênia". A criada tem recursos, e reage, e é  através dessa reação que começam os episódios engraçados criados pelo autor, e exacerbados  por  Marcus Alvisi. Ninguém sai ileso dessa loucura.
     O texto é surpreendente. Na época em que foi encenado passou incólume pela censura dos militares, pois a sutileza e a metáfora eram as armas dos dramaturgos da época.   Em 2017 o texto simplesmente brinca com essa mania dos "coxinhas" de matar alguém, de sentir "ódio"! E, ao mesmo tempo que Lila tem medo de parecer "superficial", ela quer ser respeitada pelo marido, quer ser uma mulher "decidida", mas  é hilária a maneira como se "desmancha" de pavor ao ver Efigênia morta retornar...

     Também é muito engraçado ver o marido "intelectualizar" o seu discurso. A ação é realmente absurda, mas o que presenciamos, no Teatro dos 4, em Ipanema, é um trabalho que ainda tem que ganhar ritmo. O fato de André Junqueira se enredar no texto, na cena inicial, é comprometedor, como o é a cena final, quando Efigênia retorna e o casal permanece em cena, não movendo um músculo para demonstrar seu desconforto com o retorno da morta. Não há jogo cênico, e não entendemos o porquê de um final tão opaco.  

     Na verdade, como se trata de uma comedia do absurdo, pode parecer proposital essa "opacidade". Ledo engano, esse tipo de comédia exige músculos e alma para que tudo  aconteça. Mesmo com estes pequenos defeitos a peça é interessante, e prende o espectador. A expressão corporal de "Madame Lila" faz jus à direção de movimento de Luciana Bicalho. Também a sua expressão facial de Lila (André Junqueira) nos coloca na presença ameaçadora da  assassina.

     Well Aguiar captou a fragilidade absurda de Hugo, porém seu desempenho necessita maior convicção, principalmente na cena inicial. Por outro lado, quando o ator "intelectualiza" os acontecimentos, seu desempenho é bem sucedido.   

     Às vezes os atores deste "Crimes Delicados" apresentam uma fragilidade deliciosa que atrai os melhores risos do público. Por exemplo: quando Lila "desaba" e foge - com a primeira aparição da empregada morta! Efigênia (Bernardo Schegel) é um ótimo personagem. Aliás, o texto é um exercício para os atores. Como diz Alvisi no programa da peça: "Hoje, o texto parece ganhar outra dimensão. Com uma sociedade doente e fragmentada em seus mais diversos aspectos, talvez "Crimes Delicados" revele ao espectador contornos insólitos...". É justamente essa fragmentação, essa doença da sociedade o que é importante, neste texto. Esperamos que os espectadores tenham consciência do momento que estamos vivendo. O teatro tem como função despertar o seu público. É histórico. Ao assistir "Crimes Delicados" constatamos que a peça é bem mais do que "uma tentativa de calar Efigênia"... (o povo). Ela confunde o público, é verdade, mas também o coloca a pensar.  

     A preparação vocal é de Rose Gonçalves. A trilha sonora de Marcus Alvisi e Tauã de Lorena, com a Iluminação de Carlos Lafert, consegue o recurso cênico do suspense. Maquiagem e efeitos de Lorena Rocha. Figurinos (adequados), de Talita Portela. Cenario (fácil de carregar quando em viagem...) de Gilvan Nunes. Direção Marcus Alvisi, sobre um texto de José Antonio de Souza. VALE CONFERIR 'CRIMES DELICADOS'.                   










segunda-feira, 29 de maio de 2017

A VIDA PASSOU POR AQUI



Claudia Mauro e Édio Nunes em "A vida passou por aqui", de Claudia Mauro, direção Alice Borges.
(Foto Dalton Valerio)



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

A VIDA PASSOU POR AQUI
    
     Desde seu título, "A vida passou por aqui", a historia narrada por Claudia Mauro é um acerto completo. Pois não é que a autora nos conta a vida, dançada e vivida, em todos (ou quase todos), os seus desdobramentos? E, outra ótima idéia, que parece ter sido criação de todos os envolvidos: as trocas de cena são feitas através das músicas que costuram o espetáculo!

     Juventude, início do amor, amizade e o último ato, velhice e doença  ... se revezam em pouco mais de sessenta minutos de espetáculo. E, nesta surpreendente lição de vida, somos colhidos pela alegria de viver!

     Claudia merecia todos os prêmios como atriz pela transformação de seu rosto, ao passar por todas as idades. Uma transformação que não faz uso de maquiagem nem de recursos cênicos: é interpretação pura! Impressionante. Além da ótima interpretação de Claudia Mauro temos Édio Nunes, que, com sua alegria e talento, acentua e enriquece a proposta bem vinda.

     No palco, temos a interpretação de dois amigos que se reencontram e que comemoram a vida, o "estar vivo". Essa proposta atravessa o tempo e a amizade. Claudia Mauro (a quem Deus prometeu e cumpriu); e Édio Nunes, seu parceiro, tornam delicioso esse encontro entre a vida e a morte - em uma visão que nada tem de sombria.  

     E, realizando mais um de seus trabalhos marcantes, temos o olhar carinhoso e competente da diretora Alice Borges. Um trio perfeito. Aliás, um quarteto, pois Marcos Ácher faz a assistência de direção.

     O fato é que saímos do teatro com a alegria contagiante de ter assistido a um bom  espetáculo. A autora trata com suavidade e amor de problemas da vida e da morte, mas a idéia de sua realização é simples, como é simples o cenário de Nello Marrese, com sofá, mesa, televisão e prateleiras que escondem objetos de cena. Eles, esses objetos, se materializam conforme as necessidades da narrativa! Pelo menos essa é a impressão que fica, pois somos tomados pela magia da realização teatral. Também os figurinos de Ana Roque causam essa surpresa. É tudo muito envolvente, e mergulhamos de tal maneira no espetáculo que não sabemos se é verdade ter visto uma saia vermelha e um salto alto da mesma cor, quando a personagem, jovem ainda, sai para dançar na gafieira! 

     Sentimos as transformações à medida que os desdobramentos dos personagens o solicitam. Assim como o gestual, tanto de Claudia Mauro (perfeito, em sua observação de uma pessoa no fim da vida, tentando viver depois de um AVC...), como o de Édio Nunes, que entra em cena cantando e estabelecendo o tom do espetáculo. A coreografia é de Édio, ótimo bailarino. (Aliás, os dois atores são bailarinos). Édio cria as coreografias e as transmite, marcando, com humor, o passar do tempo dos personagens. Aliás, humor é o que não falta nesta historia. A própria senhora acometida do "mal da idade" tem um senso de humor cortante. 

     A Iluminação luxuosa é de Paulo Cesar Medeiros, assim como é luxuosa a trilha sonora de Claudio Lins e a função de Coach de Larissa Bracher! A Pesquisa Musical, muito apropriada, é de Patrícia Mauro. Atriz Stand in (outra boa idéia): Renata Paschoal; Designer Gráfico: Marcos Árcher; Fotos: Dalton Valerio; Assessoria de Imprensa: João Pontes e Stella Stephany. NÃO PERCAM!              

terça-feira, 23 de maio de 2017

I V A N O V

Em cena: Isio Guelman (Ivanov); Mayara Travassos (Sacha); Marcelo Aquino (Lvov); Marcio Vito (Pacha) e Mario Borges (Micha), em 'a cena do casamento'.  Ivanov, de Tchecov, direção Ary Coslov. (Foto Dalton Valerio).


IDA  VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     O renascimento do Teatro Ipanema está dando bons frutos: desta vez temos o  dramaturgo russo, Anton Tchecov com Ary Coslov na direção, ressuscitando o teatro de Rubens Correa! Sim, a assinatura dos dois talentos, o russo e o brasileiro, traz de volta a grandeza do teatro dos anos 70, de Rubens. A peça de Tchecov, Ivanov, escrita em 1887 e em cartaz no Rio de Janeiro neste maio de 2017, é reconhecida como o primeiro texto completo do autor russo.

     Eis os personagens: O típico agregado, o homem do povo russo, o bebedor de vodka e falastrão que chega a sufocar o público (às vezes!), e irritar Ivanov com sua exuberante energia, é Micha. Você está vivo e magnífico, na interpretação de Mario Borges, Micha! E há o senhorzinho, Ivanov! o homem acostumado com o seu dinheiro e seus cálculos; ou será um intelectual perdido na mediocridade da província? Ou simplesmente um caçador de dotes? Isio Guelman está brilhante, interpretando Ivanov.

     E 'essa crítica que vos escreve' vai - de surpresa em surpresa, de emoção em emoção - testemunhando o desenrolar da cena perfeita. Cenario (Marcos Flaksman) simples, com praticáveis que solucionam as cenas, e onde pequenas projeções sobre tela  representam a natureza. E a luz mágica (Aurélio de Simoni), marcando locais e emoções! Que bela a luz vermelha que incendeia a 'natureza', quando a sofredora esposa de Ivanov, Anna Pedrovna, explode de amor! Magnífica e contida, Sheron Menezzes se transforma em indignação, quando, no final, Anna descobre a verdade.

     O elenco é excelente!

     Marcelo Aquino interpreta o médico Lvov (quem admira Tchecov já deve ter percebido que o dramaturgo - também ele um médico - traz presente em suas peças esse personagem observador de corpos e almas). Saudamos a grandeza do Dr. Ievguêni Lvov, interpretado por Aquino. O ator transmite a paixão do médico e nos faz suspeitar que Ivanov tem um pouco de Tartufo, em seu descompromisso com a moral! Sim, Aquino/Lvov traz à cena, sem ironia, a  voz de Tchecov.

     Mas quem é Ivanov, afinal? Tchecov nos confunde. O personagem título é uma charada e uma angustia plena. Isio Guelman nos transmite, com precisão, o que chamaríamos de a 'inadequação para a vida' do personagem.

     Marcio Vito é Pável Liébedev (Pacha). Um homem e um pai. Deixa-se conduzir (dominar?) pela mãe da jovem Aleksandra, filha casadoira de Pacha. Esse homem é bonachão, simpático, ardiloso... e dominado pela mulher! É o típico burguês de Tchecov, que trafega muito bem tanto pelo mundo de Micha e suas vodkas, como pelo confuso mundo de Ivanov. Ele contemporiza, e é um dos responsáveis pela deliciosa ironia (sutil?) do autor. Marcio Vito/Pacha é outra surpresa emocionante interpretando o personagem.

     Temos grandes atores em cena. E temos agora a jovem Aleksandra (Sacha) interpretada pela atriz Mayara Travassos. Uma atriz sensível, que nos apresenta uma jovem adolescente apaixonada pelo amor. Mayara coloca em cena todo o vigor de Sacha em sua visão romântica da mulher do século XIX.

     Os figurinos de Beth Filipecki são lindos e apropriados. A trilha sonora de Ary Coslov inicia-se clássica, sem sobressaltos, guardando os mesmos para o final, quando faz uma homenagem aos anos 70? O público fica surpreso, mas os Beatles fazem sentido naquela hora! É de Isio Guelman o belo design gráfico do programa. Assessoria de Imprensa de SPontes - João e Stella Pontes. Tradução, Adaptação e Direção de Ary Coslov.  
             

     E o espetáculo se encerra com o questionamento de Tchecov, ao qual estamos acostumados: se você destacar um objeto de cena no início da peça, terá que justificá-lo em algum momento, até o final da mesma. Em Ivanov, sua primeira peça longa ("completa", como nos lembra Ary Coslov), o autor nos desafia com sua precisão, e a sólida estrutura de sua construção dramática. É ver para crer.         

domingo, 23 de abril de 2017

A MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA


Três ótimos atores: Henrique Stroeter o delegado,  Dan Stulbach, o louco e Riba Carlovich
 o Secretario 

de Segurança em "Morte Acidental de um Anarquista", de Dario Fó.

Os dois amigos, Stroeter e Stulbach sonhavam em montar esta peça há muito tempo.
Em boníssima hora!
(Fotos: João Caldas Fº)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro (AICT)
(Especial)

     Mais Dario Fó é impossível. Este teatro de participação do público, circense, irreverente, nos traz a alegria de ver teatro como deve ser, com os acontecimentos palpitando, se renovando conforme o público, conforme a apresentação! Vi duas vezes, sempre com façanhas novas do momento político muito louco que vivemos. Mais louco só o personagem de Dan Stulbach criado por Dario Fó para seu próprio deleite (ele estreou a peça fazendo o louco). 
     Acontece que Dario se inspirou em um fato real, na sua conturbada Itália dos anos 60 (continua a mesma), no qual um anarquista foi "suicidado". O mais interessante do trabalho dessa equipe de atores (se é que podemos selecionar algum em particular, pois todos  se destacam) é a oportunidade que tem "o louco" para mostrar a compulsão que tem por novos personagens. Uma delícia. Só a interpretação de Stulbach já vale a ida ao teatro. Em matéria de teatro de "deformação" de costumes, tivemos outra encenação bastante interessante, feita, salvo engano, por alunos recém saídos de uma escola de teatro do Rio de Janeiro. Trata-se de uma adaptação do livro "Terra Papagalli", de Torero e Pimenta, livro este que conta a saga do degredado Cosme Fernandes em sua chegada à "Terra de Santa Cruz" e todas as transgressões que lhe foram permitidas (como da hábito, em nosso país). A peça foi dirigida por Marcelo Valle.          
     Por sua vez, o elenco da "Morte Acidental" é composto, além de Stulbach e Henrique Stroeter - os idealizadores do espetáculo (Henrique interpreta o delegado) - temos também em ótimas interpretações Riba Carlovicci, como o secretario de segurança, Maira Chasseraux, a jornalista, Marcelo Castro interpretando Bertoso, o comissário de polícia, e Rodrigo Beladona o guarda. Dan Stullbach faz, no início, uma ligeira apresentação dos mesmos.
      Ah! E tem também o impagável Rodrigo Geribello, ator e músico, interprete das mudanças de cena e dos ruídos ambientais. Muito bom. 
     Claro, Dario Fó sabia o que estava fazendo em termos de comedia popular  - essa sua mistura de Commedia del Arte e teatro popular faz o público participar. A direção de Hugo Coelho traz "acréscimos" ao elenco. Ou melhor, "permite" improvisações! Da segunda vez que assisti o elenco divertia-se muito, mas  não mais do que o público que participava do jogo de conscientização feito neste trabalho de Fó e Coelho. As coisas que aconteceram na Itália (corrupção, morte) podem (e estão acontecendo agora), também no Brasil.  
     O teatro é um tabuleiro aberto. Imaginem a colaboração dos atores, no sentido da comedia descomprometida. Por exemplo: quando Henrique Stroeter faz o seu número de balé clássico (!) um dos atores comenta: "é um genérico de Ana Botafogo...". Irreverente, popular, o espetáculo, mas a "desinibição" aumenta e a nossa atual "republica" é um banquete e os atores comentam e criam novas situações, cheios de segundas intensões: "o escândalo é o sal de frutas da democracia". E quando o "louco" se traveste em um "juiz da situação", de um colaborador, ele cria uma metáfora na qual afirma que a agressão policial é uma "massagem terapêutica". E a repórter, coitada (a ótima Chasseraux) tentando cumprir o seu papel (dessa vez a imprensa parece interessada realmente em apurar os fatos) e recebe até tapa na b...! Será que exagero? Ah! O "louco" obriga os dois policiais a cantar Vandré: "Caminhando e cantando..." Hilário. NÃO PERCAM!    
    
FICHA TÉCNICA:
Autor: Dario Fó. Tradução: Roberta Barni. Direção Hugo Coelho. Música e sonoplastia: Rodrigo Geribello. Cenário: Marco Lima. O Figurino (ótimo) é de Fause Haten (engraçado, fiquei com a impressão de que o juiz aparecia com a capa preta, na primeira vez que assisti, e não com um capote xadrez, como da segunda vez. Será verdade?). Produtores Associados: Selma Morente, Célia Forte e Dan Stulbach. Assessoria de Imprensa Rio: Eduardo Barata.   


terça-feira, 11 de abril de 2017

UM AMOR DE VINIL

Françoise Forton e Mauricio Baduh em "Um Amor de Vinil", texto de Flavio Marinho, direção André Paes Leme.

IDA VICENZIA
( Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial Rio)

     Flavio Marinho nos traz à cena um momento de romantismo e comedia com o seu texto "Um Amor de Vinil" fazendo o público transitar entre compositores como Getulio Cortes, na música imortalizada por Luiz Melodia, "Negro Gato", que Françoise Forton interpreta, abrindo a cena com muito humor e ironia. A direção é de André Paes Leme, e essa é uma estréia do Teatro Fernanda Montenegro, no Leblon. São 22 canções românticas, embaladas pelas vozes de Mauricio Baduh, Françoise Forton e Marco Gérard, ator e músico, e Gustavo Salgado no teclado.
     Forton revela seu talento para a comedia, apresentando um "tempo" único para se relacionar com o público. Dotada de uma interpretação sensível, sua voz é explorada com muita competência, dando-lhe ótimos momentos, como em "Nasci para Chorar", música na qual Françoise mostra a que veio, ou seja: encantar o público. Também Mauricio Baduh nos dá uma grande revelação com seu timbre de voz que remete a Roberto Carlos. A dupla tem momentos ótimos. Não podemos deixar de nos referir ao grande final, quando "Falando Serio" é cantado por Baduh e interpretado por Forton, que transmite o sentimento da canção através de sua expressão facial. Momento marcante.       
     O texto de Flavio Marinho faz, com muito humor, alusões críticas aos críticos, a certos musicais e às peças "papo-cabeça". E, sim, Marinho coloca o problema do "alemão" e do "inglês" (Alzheimer e Parkinson) brincando com os "esquecimentos" de Amanda (Françoise Forton). Aliás, o texto brinca também com a morte... com um certo humor funébre. Há, neste texto de Flavio Marinho, um leve despertar da linguagem de hoje, perpassando a troca de papéis entre o homem e a mulher, transmitida através das canções. Observamos que "Começar de Novo" é cantado pelo homem, voltando às raízes, pois Ivan Lins e Getulio Costa a compuseram propondo a liberdade e o renascer do amor, porém a cantora Simone dela se apropriou, tornando-a praticamente um hino  feminista!
     Não sabemos se Marinho e Paes Leme (na direção), tiveram a iniciativa de "espicaçar" esse lado do relacionamento amoroso, a liberdade feminina, em homenagem ao momento muito particular em que vivemos: o relacionamento homem/mulher. O certo é que "Negro Gato" é cantado por uma mulher... embora meio maluquinha, uma empreendedora (tem um negócio, uma loja da discos de vinil muito procurada), o que já é uma proposta de liberdade financeira. O autor chega perto da discussão dos papéis sociais, e como esse não é o tema da peça... fica somente a sensação da liberdade da mulher e da fragilidade do homem! Eis um caminho novo para os novos musicais...    
     Figurinos: do cotidiano, de Ticiana Passos. Direção Musical Liliane Secco. Iluminação Paulo Denizot. O Cenário de Carlos Alberto Nunes convive com o outro espetáculo da produção "Nós sempre teremos Paris..." e a "loja" se transforma em um "bar", permanecendo nele os muito bem bolados cubos portáteis com imagens dos antigos discos de vinil... Direção Coreográfica de Marina Salomon. Produção Barata Comunicação. É  BOM  VIVER  ESTE  MOMENTO  DIVERTIDO!