- ELSON FARIAS
- ALDÍSIO FILGUEIRAS
Os poetas conversam. Como nos versos dos chineses do Século V. - A.C.- estes dois
poetas amazonenses, Elson Farias e Aldísio Filgueiras, também se correspondem
através da poesia! Mais uma vez, e para nossa surpresa, a experiência de Murasaki
e Genji renasce. Estes dois poetas amazonenses reinauguram a forma, e é tal a beleza
de seus versos, que resolvemos reproduzi-los. Perdoem-me os amantes do teatro por
não estar mais transmitindo em meu blog as peças estreadas em nosso país. Teatro é
convivência, é respiração. Infelizmente, neste tempos estranhos, ele ficou no limbo,
aguardando os nossos sonhos. Mas sempre sonhamos - e a nossa capacidade de
sonhar estabeleceu esta bela correspondência entre os dois poetas amazonenses do
século XXI. Seu sonho é verdadeiramente um sonho teatral. Vamos a ele!
ELSON FARIAS ESCREVE:
Bom-dia ALDÍSIO
O POETA ESTÁ COM MEDO
Borboletas amarelas
deixaram de aparecer
nos espaços das janelas.
Desistiu a saracura
de cantar pela manhã
no meio de tanta chuva.
Corta no espaço um relâmpago
o temporal na cidade
encheu as casas de pânico.
A lua sumiu nas nuvens
presa sem saber porque
entre assassinas impunes
O urutau prega o caixão
a corujinha se cala
voa o morcego ladrão.
Querem votos os políticos
e disputam seu lugar
no lugar que era do vírus.
Não guardo nenhum segredo
o poeta está com medo.
(31/05/2020)
Abraços,
ELSON.
Eis a resposta de ALDÍSIO:
ELSON FARIAS ESCREVE:
Bom-dia ALDÍSIO
O POETA ESTÁ COM MEDO
Borboletas amarelas
deixaram de aparecer
nos espaços das janelas.
Desistiu a saracura
de cantar pela manhã
no meio de tanta chuva.
Corta no espaço um relâmpago
o temporal na cidade
encheu as casas de pânico.
A lua sumiu nas nuvens
presa sem saber porque
entre assassinas impunes
O urutau prega o caixão
a corujinha se cala
voa o morcego ladrão.
Querem votos os políticos
e disputam seu lugar
no lugar que era do vírus.
Não guardo nenhum segredo
o poeta está com medo.
(31/05/2020)
Abraços,
ELSON.
Eis a resposta de ALDÍSIO:
SÓ OS MORTOS NÃO TÊM MEDO
ALDÍSIO FILGUEIRAS
Meu caro, Elson, sou grato,
por este anúncio de sete
sílabas com que acordas,
também em mim, esse medo,
que espreita sem respeito
janelas sem borboletas.
Não te aflijas: só os mortos
não têm medo, poeta.
Eles cavalgam helicópteros
e cavalos sobre o verde
que apazigua as praças
públicas, porque a paz
os incomoda no tédio
que deve ser estar morto;
e desafiam a lei
da gravidade com voos
cegos que atropelam vidas
de gente e borboletas
amarelas, azuis, brancas
ou verdes que farão falta
ao arco-iris e à grama
que eles, os mortos, comem
à farta, pelas raízes.
Aves que não cantam mais.
já tiveram onde pousar
a elipse do seu impulso
exato. Figuras fortes,
recuperam-se do espanto
e resgatam à tempestade
a rima nobre do pânico.
trazida pelo relâmpago,
e não mais perdem o ânimo:
o susto inventa a cautela
e o caminho das pedras.
Janela sem borboletas,
espaços sem sinfonia
de pássaros, são imagem
e semelhança da cidade,
uma paisagem de lápides
imóveis, sem ressonância
- ali vinga o que se cala,
cada um com seu recalque,
culpa e arrependimento,
do que se chama pecado.
Querem votos os políticos?
Que se danem! Estão mortos!
Tudo o que fazem é visagem.
Bois, bois, bois de cara preta,
quanto querem de gorjeta?
Não guarde nenhum segredo,
Elson, diga às borboletas;
se a lua míngua na chuva
escancare a janela
e avise aos navegantes,
sem medo de morder a língua
ou quebrar o metro do verso:
"Sim tenho medo, logo, existo".
Meu caro, Elson, sou grato,
por este anúncio de sete
sílabas com que acordas,
também em mim, esse medo,
que espreita sem respeito
janelas sem borboletas.
Não te aflijas: só os mortos
não têm medo, poeta.
Eles cavalgam helicópteros
e cavalos sobre o verde
que apazigua as praças
públicas, porque a paz
os incomoda no tédio
que deve ser estar morto;
e desafiam a lei
da gravidade com voos
cegos que atropelam vidas
de gente e borboletas
amarelas, azuis, brancas
ou verdes que farão falta
ao arco-iris e à grama
que eles, os mortos, comem
à farta, pelas raízes.
Aves que não cantam mais.
já tiveram onde pousar
a elipse do seu impulso
exato. Figuras fortes,
recuperam-se do espanto
e resgatam à tempestade
a rima nobre do pânico.
trazida pelo relâmpago,
e não mais perdem o ânimo:
o susto inventa a cautela
e o caminho das pedras.
Janela sem borboletas,
espaços sem sinfonia
de pássaros, são imagem
e semelhança da cidade,
uma paisagem de lápides
imóveis, sem ressonância
- ali vinga o que se cala,
cada um com seu recalque,
culpa e arrependimento,
do que se chama pecado.
Querem votos os políticos?
Que se danem! Estão mortos!
Tudo o que fazem é visagem.
Bois, bois, bois de cara preta,
quanto querem de gorjeta?
Não guarde nenhum segredo,
Elson, diga às borboletas;
se a lua míngua na chuva
escancare a janela
e avise aos navegantes,
sem medo de morder a língua
ou quebrar o metro do verso:
"Sim tenho medo, logo, existo".