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sábado, 18 de agosto de 2018

"NAQUELE DIA VI VOCÊ SUMIR"



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Camila Márdila e Miwa Yanagizawa em NAQUELE DIA VI VOCÊ SUMIR, 
direção 
AREAS Coletivo.
(Foto Renato Mangolin), 


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

 NAQUELE  DIA  VI  VOCÊ  SUMIR

     A cena é criada pelo AREAS Coletivo, um grupo que promove espetáculos e estudos teatrais, sediado em São Paulo. Ele encontra-se atualmente no Rio de Janeiro apresentando, até outubro, um trabalho de pesquisa inspirado no livro de Luiz Ruffato, “Eles Eram Muitos Cavalos”, titulo que é, por sua vez, inspirado no capítulo do livro no qual a poeta Cecília Meireles conta os acontecimentos e personagens de nossa historia brasileira: o “Romanceiro da Inconfidência”!

      Luiz Ruffato dedica seu livro à Cecília, e cita o trecho: ”Eles eram muitos cavalos, mas ninguém mais sabe os seus nomes, sua pelagem, sua origem...” (do Romance LXXXIV “Ou Dos Cavalos da Inconfidência”). Talvez, seja essa a nossa historia, o nosso cotidiano fragmentado em cenas avulsas... 
     
        A ideia é interessante, a e maneira de desenvolvê-la mais ainda. Estes 
“cavalos de que não se sabe a origem”  estão  presentes  na  encenação  do
 AREAS  Coletivo. Por sua vez, o AREAS convidou o grupo Magiluth, do 
Recife, para completar a paisagem, através dos atores Giordano 
Castro e Pedro Wagner.

     E como ficou isso? Quatro atores completando a experiência. O AREAS explica: “Assim, renovamos e inauguramos relações, algo que se estende por toda a equipe, na tentativa de ressoar a natureza colaborativa que nos é tão relevante e primordial”.

     No palco, duas atrizes do AREAS: Miwa Yanagizawa e Camila Márdila. A idealização do espetáculo foi de Camila e Liliane Rovaris. Mas, claro, tem muito mais gente envolvida...

     A cenografia é do AREAS Coletivo, e o que presenciamos é algo insólito: no minúsculo palco do Teatro III do CCBB, no Rio, a cena se tornou gigante. Sabem como? Aproveitando ângulos e luz, um fundo negro e interferências... quebradas por possante iluminação (que é uma das vozes do espetáculo), proporcionada por Beto Bruel. Entre ângulos e luzes, os espaços se definem. Quem opera esta luz? Rodrigo Lopes e Dudu Nobre. (Engraçado, estes nomes nos parecem velhos conhecidos...). Os figurinos, marcando personalidades, são de Yumi Sakate, que também é a responsável pela direção de arte.

     Invertemos o processo, e a ficha técnica veio, quase toda, no início da crítica. Tal fato acontece pela presença, muito íntima, entre a interpretação, o espaço cênico e a indumentária. E há também a consultoria técnica de Bruno Girello. O espetáculo é tão inesperado, como inesperados são os cortes de cena!

     Sobre o aspecto referido acima, o mais impactante (se é que podemos selecionar impactos nesta experiência) é o cão, externando o seu pensamento. Como vivemos cercados de cães, nunca nos passou pela cabeça (ou passa o tempo todo...) o lado humano tão evidente que eles levam... no olhar! Impressionante e acolhedora (no sentido de ser bem recebida pelo público), a interpretação do animal, feita pela atriz Camila Márdila, perfeita em sua expressão corporal. Interessante observar que o elenco feminino se distingue por características muito próprias, em sua maneira de interpretar. Enquanto Miwa Yanagizawa possui uma máscara facial impressionante e com ela o texto adquire força maior, Márdila possui, além da interpretação perfeita, a força do corpo, que se transmuta em “essências”. Olha-se, mas não podemos definir a atuação da atriz.

     E o que se percebe é a voz profunda das Gerais sugerindo uma vida em comum. São cenas do cotidiano, imaginadas por Ruffato, e interpretadas pelos atores. Além do livro de Cecília há intervenções surgidas em outras obras de literatura (e até da filosofia!). São escritos de Sarah Kane (Ânsia), ou de Sam Shepard, (Angel City); ou ainda Deleuze, em “Diferença e Repetição” ... e muitos outros autores. Vocês nem imaginam o poder cultural que o teatro está reconhecendo em si mesmo. Vale a pena conferir.

     A participação do ator pernambucano Pedro Wagner é cativante e sutil, principalmente quando transmite as emoções de um monólogo sobre o amor, escrito por Sarah Kane (e talvez modificado por Wagner, mas são tão bonitas as palavras! Ouçam/leiam só!) - “e escrever poemas para você e pensar porque você não acredita em mim e sentir tão profundamente que eu não ache palavras para expressar esse sentimento e ... vagar pela cidade e achar que ela está vazia sem você ... e achar que estou me perdendo e querer o que você quer ... e me derreter quando você sorrir ... e ficar assustado quando você estiver zangada ...  (e por aí vai!). Belo momento!

     E tem Giordano Castro entrando como se um cavalo de Ruffato fosse. E trazendo sua ternura solicita e desajeitada para sua amada (Yanagizawa). Achamos que esta peça é um poema em prosa! E uma constatação de nosso despreparo para a vida! Há cortes ternos, e cortes violentos, como o impacto do atropelamento, teatralmente muito bem sucedido, com efusões de luzes e vidros!

     E é muito interessante a solução que o AREAS encontrou para contar, em flashes, a vida no olhar de Ruffato! O AREAS Coletivo é o encarregado da criação e direção deste espetáculo que é novidade pura. Ah! Já ia esquecendo! A trilha sonora original é de Azul e Chad Challoub. Muito boa! Só podemos aconselhar este espetáculo: NÃO  PERCAM  ALGO TÃO  INSÓLITO!    

   

domingo, 12 de agosto de 2018

"O GRELO EM OBRAS"

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Carmen Frenzel, Lucilia de Assis e Claudia Ventura em "O Grelo em Obras", direção de Fabiano de Freitas.
(Foto Renato Mangolin)
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

     A respeito de “O Grelo em Obras”, espetáculo comemorando os 20 anos de “O Grelo Falante”, em cartaz até o dia 19 de agosto, no Teatro Sergio Porto, no Humaitá.
     O Grelo fala, e há diversas maneiras de fazê-lo falar, uma delas é através da “lascívia” de uma Messalina (o que não é o caso), outra pode ser através da consciência histórica do feminismo.... ou da comedia  política, porque a comedia teatral é um dos maiores veículos políticos.
     As atrizes que optaram por levar á cena a fala do grelo, neste “O Grelo em Obras” (ou seja, “em atualização”), optaram por iniciar, no programa da peça, com a evolução histórica da  mulher neste planeta, Lucy, a das cavernas (mas só no programa da peça). O espetáculo surge com outro perfil, e queremos falar sobre este novo perfil.
     Imaginamos que, em se tratando do feminino, a independência deve ser total, porém inovadora. Imaginamos que, ao se acender a luz do palco o “grelo”, unicamente, comece a falar, deixando as atrizes serem o seu porta-voz! E não é fácil fazer o grelo falar! (Às vezes elas se referem pelos nomes). Pois bem, e o que “ele” tem a nos dizer? O mais importante é a sua reivindicação a ter voz e ser ouvido, pois sempre quem fala é o “pau” masculino! Realmente, falar por falar não adianta. Não há nada mais “sabido e requentado” do que a historia pregressa do grelo! Aconselha-se a pensar no seu futuro, apesar de as atrizes do “Grelo” deixarem escapar a tentação de falar no seu passado, mesmo que, às vezes, a narrativa se transporte para o ano 2090. Em consequência, ficamos com a impressão de que tudo continuará igual, com esse jogo de “vai e vem” no tempo. Ad infinitum.
      Será? No programa da peça as atrizes Carmen Frenzel, Claudia Ventura e Lucília de Assis (prestem atenção no trio excelente que resolveu dar voz ao grelo!) se dispõe a dar um tratamento histórico à peregrinação do grelo, começando por Lucy, aquela pré-histórica acima citada, e há mais de 3 milhões de anos fora deste planeta. Não se aconselha dar continuidade a tal evolução – nem daria tempo – pois a proposta das atrizes é abordar o presente à procura do futuro do grelo! Aliás, essa procura começou há 20 anos... O atual espetáculo está comemorando a data, e tentando renovar os acontecimentos que, por ventura, alteraram o caminho do tema abordado.
      O momento mais impactante da apresentação é quando as três atrizes solicitam a colaboração da plateia para continuarem a pensar o texto! (ou talvez para entenderem o que a plateia entendeu do espetáculo...). Vemos que o feminino continua em questão, mas está sendo debatido jocosamente - e com a mesma liberdade que o masculino debate a fala do seu “pau!”.
     Vamos lá? (Ô assunto difícil, esse!). Ele se quer comedia, mas na realidade é uma tragedia! Pelo menos dois pontos devemos adicionar, para ajudar nas obras deste grelo: o primeiro seria o elenco ouvir mais a sua voz e também a do sexo oposto. Aconselha-se às reformistas do grelo prestarem atenção ao que ele lhe fala! Ou seja, deixar de lado o que  aconteceu no passado e construir o presente, para chegarmos a um futuro mais racional?
     Sim, porque “O Grelo em Obras”, além de ser falante, deve se atrever a ser racional...! Já pensaram que hilário seria um grelo filosofal? A propósito, outro dos bons momentos do espetáculo é justamente quando o grelo retruca Freud. Trata-se de uma fala racional. E também quando o grelo declara que possui um pau! É neste momento que o espetáculo se reconstrói, quebrando as barreiras da perigosa mesmice. Sim, “todas e todos” têm pau e grelo! É a conclusão a que chegam as defensoras dos três grelos (pois eles são representados por elas). Uns são dominantes, outros recessivos, mas todos estão ali, atentos a seus desejos... E não só os desejos sexuais, os de vida vivida também!
     Temos quase certeza de que muitos expectadores vão assistir ao grelo em busca de uma boa sacanagem. Que tal botá-los a pensar na historia da “assimilação dos contrários”? Complicado, isso. Será que eles vão ficar decepcionados com o “papo cabeça”? Atenção! Produtores e elenco, não desistam dessa procura, não desistam do espetáculo, ele é necessário, e o contato com o público é essencial, tornando possível o grau de entendimento da plateia a respeito da proposta desse encontro. E, para escândalo de todos nós, vocês já pensaram que as mulheres também têm um fallus? Que coisa! São elas que movimentam a nossa historia, por mais que o machismo queira transformá-las em bobas: são elas que começam as revoluções e se preocupam em “mudar o mundo” ( não as bobas, é claro. Elas existem!).
     Sobre o elenco: são hilárias as intervenções de Carmen Frenzel quando ela fala em estratégia com sua sócia e companheira ausente, Islovina, fazendo a imitação da maneira de falar de Paulo Francis! E Claudia Ventura se revelando também como “a woman show”, cantando e tocando a sua guitarra! E Lucilia de Assis, ótima comediante!
     Seria muito bom que o texto se abrisse para o que está acontecendo atualmente com as mulheres. Tanta coisa! Elas são candidatas a vice-presidência do Brasil; querem igualdade nos salários, o mesmo dos homens, para a mesma função; querem que parem com essa mania de mandar em seu corpo! E muito mais. E as atrizes deste espetáculo são lindas! Nunca haverá mulheres como Carmen Frenzel, Claudia Ventura e Lucilia de Assis. Elas estão fazendo história com “H” maiúsculo!
     Só sentimos, na peça, não haver um olhar mais crítico, mais provocador – irreverente mesmo! - sobre as mulheres e o mundo em que vivemos. Ponham pra quebrar! Sem medo!
     E é interessante lembrar o que Carmen Frenzel diz: “o primeiro slide que apresentamos é de um homem”. Trata-se de Apolônio de Carvalho, um querido líder político voltado à solidariedade e à empatia, sentimentos que são o futuro da humanidade!  
     As três atrizes parecem não acreditar muito em mudanças para o futuro, elas vão e vem, pulando do nosso ano para o 2090, falando sobre o final do milênio da mesma maneira que falariam agora... e com as mesmas limitações para a mulher! Mas, como diz uma expectadora, na hora de conversar com as atrizes:  “o  importante é participar”. Nós também acreditamos que as mudanças dependem muito de nossa participação!
     E há um momento no qual as atrizes comentam a censura ao “Grelo”, no título do programa, quando elas foram chamadas a apresentar seu trabalho em uma televisão, um programa humorístico só delas! Parece até piada, mas o grelo ficou assim, na censura televisiva: “O G.... Falante”. Algo parecido aconteceu também com Antonio Abujamra e o seu “Os Fodidos Privilegiados”, que passou a ser conhecido, na imprensa, como “Os F... Privilegiados”...!
      A coisa está esquentando, aí com vocês. Os gritos e palavras censuradas que vocês proferem mostram a intenção de seu trabalho. E os figurinos! São muito divertidos, principalmente os das “bailarinas” no início da peça, com seu saiote de fru-fru de tule! São de Nívea Faso. O cenário, caótico, também é da figurinista e diretora de arte. Para a direção do espetáculo elas convidaram Fabiano de Freitas, e para a iluminação, Renato Machado e Mauricio Fuzyiane. Tudo para mostrar  que elas não têm nada contra o pau, e porque eles são profissionais supercompetentes.
PARTICIPEM! NÃO PERCAM! LONGA VIDA PARA ESTE “O GRELO EM OBRAS”!

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

"MOLIÈRE"

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Elcio Nogueira Seixas (Racine); Nilton Bicudo (Louis XIV) e Matheus Nachtergaele (Molière). Direção Diego Fortes. (Foto Estudo FB)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

     Ora, ora, ora...! Como é bom ver todos estes homens (e mulheres...) de teatro jogando sua carga de ironia (e por que não dizer “safadeza”?) para cima de nós, possuidores de olhos e ouvidos famintos, abertos para uma cena irreverente! Um conselho: expectadores, acreditem só um pouco nas palavras de Molière, quando ele se refere ao caráter sem amarras de Racine! Molière em cena, dominado pela vontade de Matheus Nachtergaele, deixa-se levar pela ilusão da influência benéfica que exerceu sobre Racine, o irônico e também "dominante de plateias", que viveu, como Molière, no século XVII, e teve alguma ligação - enfatizada na peça - com Molière! O nome dele hoje em dia é Elcio Nogueira Seixas! De onde Nachtergaele tirou este ator? Eles criaram o Teatro Promíscuo, os três, pois Renato Borghi também está junto – e como! - e se excederam nesta bendita criação paulista que veio visitar o Rio de Janeiro!

     Mas, segundo ficamos sabendo por Molière (com exagero): foi ele quem  ensinou Racine a se comportar à mesa e a se relacionar com  a Casa Real. Mal-agradecido Racine! E o sensível Molière vai em busca de remediar o que considera falta de respeito com a sua arte, colocando em cena a sua visão! Na nossa versão (já que o jogo é livre), o que realmente aconteceu foi que “o homem de Port Royal” (picuinhas à parte, Racine) via o filho do tapeceiro (Molière), como um vulgar armador de “pecinhas” e de encrencas. Se vamos começar a falar em Port Royal, podemos dizer que Racine, à época, era tão bem visto quanto Blaise Pascal, em sua cultura do século XVII! Blasfemamos? Sem a exaltação religiosa deste último. Que o digam  Voltaire e Saint Beuve, homens que sabiam apreciar as qualidades do talento clássico que tanto aborrecia Molière!

        Mas por que estou me referindo ao passado destes dois artistas, Molière e Racine?  Por que é, de fato, muito divertida a iniciativa da autora mexicana Sabrina Berman, ao destacar furiosamente as desavenças entre os dois preferidos de Louis XIV! Por exemplo, fica bem construída a rivalidade quando “Natchtergaele///Molière” se refere ao aborrecimento soporífero que “Phedra” poderia suscitar ao público de Racine!

     Bendito espetáculo,  e o elenco deste "Molière"! E as citações da política atual e de frases reproduzidas por nossas “excelências”, em acontecimentos sociais do presente, e o cada vez mais impressionante ator Renato Borghi e sua atuação, nos leva a recordações de um "certo espetáculo" de autor brasileiro que ficou na historia, e que recentemente esteve por aqui... Mas não querermos comparações,  "Molière" tem a sua própria loucura! e Borghi sua própria arte! ... Ele interpreta o Arcebispo Beaumont de Péréfixe, que  inspira Molière a criar o seu Tartufo! Elenco de primeira, Georgette Fadel (com cenas cruéis em sua buffonerie), é Gonzago, o factotum de Péréfixe! E Luciana Borghi, como a atriz Madeleine Béjard, companheira de Molière. Luciana interpreta também a Rainha Mãe - a espanhola Ana de Áustria.

... e Nilton Bicudo como Louis XIV? (muito bom); e Rafael Camargo (La Fontaine). E o aderecista Raphael Hubner com suas perucas dá o toque às cabeças coroadas, e a dos artistas da época, ressaltando o apogeu da excentricidade que viveu a França daquela época. É algo a ser comemorado em nossos palcos... E há mais, muito mais... 

     Mas quem é mesmo, afinal, esta Sabina Berman que separa tão bem Aristófanes e Eurípedes - Molière e Racine? Que dá alento a Racine, ao mesmo tempo em que coloca Molière em sua verdade última de ternura e raiva? Ficamos sabendo que a premiadíssima autora mexicana mexeu com a imaginação da troupe do Teatro Promíscuo, que ora nos visita (vinda de São Paulo com “Molière”, depois de ter viajado o mundo...).     

     Mas não paramos as citações... 
  Temos Regina França como Madame Parnelle e Mlle. Du Parc; Debora Veneziani, a “descarada namoradeira” Armande, que fez Molière chorar... e com ela se casar!  ... Fabio Cardoso como Lully (outro preferido de Louis XIV!), ele toca pianola como nos tempos de Versailles, acompanhado pelos músicos Beatriz Lima, Edith de Camargo (que também interpreta um Marquês), Renata Neves (musicista) e muitos mais, além de Thomas Marcondes. E quem é o diretor? Chama-se Diego Fortes, ele amou dirigir este trabalho, o fez como o sonho de sua vida! Também é de Diego a adaptação dramatúrgica do espetáculo, com a escritora Lucy Collin. A tradução é de Renato Borghi com Elcio Nogueira Seixas. Direção musical de Gilson Fukushima. E aí vem a sequencia de músicas: “Dans mon île”, de Henry Salvador, cantada magicamente por Luciana Borghi, e também algumas adaptações de músicas de Caetano Veloso, há “Reconvexo” cantado por Marco Bravo e Edith de Camargo e, encerrando o espetáculo, o belo “Coração Vagabundo” cantado/declamado! pelo ótimo Matheus Nachtergaele. Aliás, sobre este trio – meu Deus – não há o que destacar: Matheus, Borghi e Elcio Nogueira Seixas. (Ficamos enamorados pelo elenco, e surpreendidos com Elcio Nogueira Seixas, ainda desconhecido para nós, o inesquecível Jean Racine!). A cenografia é remarcable, pelas mãos de André Cortez e Carol Bucek. Eles incendeiam o duplo palco... Iluminação: Beto Bruel e Nadja Naira. Aderecista: Raphael Hubner. Vida longa e muita diversão para este MOLIÉRE!





domingo, 29 de julho de 2018

"VOCÊS QUE HABITAM O TEMPO"


Elenco de "Vocês que habitam o tempo", direção Antonio Guedes. (Foto de Carolina Maduro)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)
     Pierre Jurde diz que Valère Novarina se aproxima das comédias de Louis de Funès. Das excentricidades francesas talvez esta observação seja a mais acertada das quanto ouvimos sobre o artista plástico suíço que também escreve dramaturgia. Comédia ou Tragédia? Vale à pena dar uma olhada no que aconteceu naquele dia 28 de julho de 2018, no teatro de arena do Sesc Copa.
     Para nós, das excentricidades franco-suiças, o que nos aproxima de Novarina são as do bretão Jean-Luc Lagarde, com sua obsessão pela morte e seu misticismo transcendental. Exageramos?
     Desta vez Novarina, com o seu “Vocês que habitam o tempo”   veio dar seus saltos ornamentais em nossa imaginação! E, somando-se a isto, Antonio Guedes (diretor), Fátima Saadi (dramaturga) e Ângela Leite Lopes (tradutora) vem nos lançar em novas aventuras existenciais! Teatro do absurdo? “O que nos resta é um universo em ruínas” diz Novarina. Pensando bem, a vida é isso mesmo, e estamos livres para avaliar o quanto elas (as ruínas) nos afetam. Mas não queremos filosofar, em um espetáculo absolutamente filosófico! Basta-nos observar o absurdo teatral (bemvindo) que se transformou, para nós, a manifestação cultural sediada no Copa Sesc. Afinal, somos mesmo, como diz Novarina,  secundado por Guedes, “seres transitórios  que existimos na linguagem”?.
     Os franceses dizem que Novarina trabalhou a linguagem até a fazer chegar ao latim inicial, ao etrusco e a outras múltiplas possibilidades. Tudo para encontrar um novo “non savoir faire francês!” transitório, o oposto da tradição francesa do “savoir faire”! Mas o que queremos  apreciar agora é o trabalho deste trio apaixonado por cultura, formado por Guedes, Saadi e Leite Lopes!
     Só mais uma palavrinha sobre Novarina: dizem que ele é seguidor do teatro da crueldade de Artaud! Será por isto que é tão fascinante?
     E há também o seu côté artista plástico! A cenógrafa Doris Rollemberg, aceitando a sugestão de Guedes, cria ângulos para situar o espaço cênico de Novarina lembrando, como representações, as abstrações de Kandinsky e os móbiles de Calder. Há bolas de vários tamanhos, e conviver com elas é só uma maneira de não deixar os atores que estão "fora da linguagem”, não se deixarem ficar esquecidos, sem falar... pois, segundo Antonio Guedes e Novarina, “a morte está no horizonte, mas isso significa apenas que é preciso não parar de falar”... “se a gente parar de falar, a luz para e desfalece – e o teatro se apaga”.
     Estas palavras são conjeturas do autor e do diretor, e o que se observa são atores dizendo textos que se querem incompreensíveis, remetendo a algo que não pode ser dito claramente! Teatro do absurdo? ... Sentidos outros que não os da palavra?  Ionesco continua imbatível neste contexto!
     Calma! Não estamos querendo atirar pedras no espetáculo, pois não somos nenhum Sarcey de saias! O resultado do cenário é interessante, mas o que queremos esclarecer agora é que  nos ressentimos ao não ser informados sobre o elenco, o que dá a impressão de que os criadores estão falando para seus iguais, não se preocupando com o público. Tal não pode acontecer, nunca, no teatro, pois esta criação do início dos tempos é um jogo coletivo e o público é o outro lado deste jogo! A favor do espetáculo não se pode dizer que os atores não tentem se comunicar com o público, mas a iniciativa não se reflete na plateia...
     Podemos somente dar um bom exemplo de compreensão do espetáculo transmitido por um ator longilíneo (quem é? quem é?), cuja presença cênica e a  compreensão do espetáculo esclarece a verdadeira dimensão do que o diretor se propõe.
     Aliás, o espetáculo vale por estas intermitências... são pistas não exploradas. Podemos dizer que cada ator colabora com o diretor conforme e sua compreensão do espetáculo, e, sinto-o dizer, ela não parece estar muito clara para alguns deles...
     A presença marcante de Maria Clara Valle e seu violoncelo dialoga com a cena, porém Cristina Flores, Fernanda Maia e Oscar Saraiva alcançam uma interpretação algo "voluntariosa" de Novarina.  Enquanto isso, Antonio Alves e Sergio Machado são os dois grandes enigmas...             
    O espetáculo é fruto de uma estada de Antonio Guedes em Portugal e o resultado de sua tese de doutorado naquele país. “Vocês que habitam o tempo” (eis um título poético) vem  coroar os 27 anos de vida do Teatro do Pequeno Gesto.  A destacar, na ficha técnica, Nívea Faso com os figurinos (muito bons!), e Binho Schaefer no desenho de luz. A direção musical é de Amora Pera e Paula Leal. 

     Desejamos que alcancem sucesso vocês, que se empenharam nesta estranha linguagem de um novo teatro do absurdo!  




quarta-feira, 25 de julho de 2018

"O ÚLTIMO COMBATE DO HOMEM COMUM"



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Rogerio Freitas (Souza); Beth Lamas (Neli); Isio Ghelman (Jorge)
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Vera Novelo (Lu, a avó), Rogerio Freitas (Souza)

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Isio Ghelman (Jorge); Vera Novello (Lu, a avó)
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Ana Velloso (Cora), Gillray Coutinho (Afonsinho)
(Fotos Claudia Ribeiro)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)
ODUVALDO VIANNA FILHO já está se despedindo de nossa cidade, o Rio de Janeiro, e nem teve tempo de ser festejado. Será que as coisas passam assim tão depressa? Oduvaldo, o jovem autor que iluminou os anos 70 do século passado com sua dramaturgia inspirada, iluminou também, para os jovens de hoje, os anos de chumbo. Como era bom saber, quando havia um Vianninha em cartaz! Mas era muito difícil assisti-lo,  pois, na maioria das vezes a censura acabava com a nossa alegria! Dessa vez, em 2018, e no Teatro Nelson Rodrigues, aconteceu uma nova adaptação de "Em Familia”, dirigido por Aderbal Freire Filho, mas nem houve tempo para nada, nem para festejá-lo Ou será que os tempos são outros, e os acontecimentos teatrais se revezam com tal velocidade que não há mais tempo, tempo, tempo...  para nada?
     Eis que Aderbal Freire Filho resolve contar sobre “O Ùltimo Combate do Homem Comum”, relembrando “Arena conta...”, onde surgiram todos aqueles autores fabulosos: Vianninha, Guarnieri, Boal... Pois Arena conta agora “O Último Combate do Homem Comum”, rebatizado por Aderbal. As novas gerações (excluindo as que fizeram escolas de teatro), não tiveram ocasião de apreciar corretamente a este autor. Coisas dos tempos modernos, quando o público pensa que tudo é comédia! O mesmo aconteceu há alguns anos atrás quando foi levada em cena “Rasga Coração”. Acontece que, nas peças de Vianninha, as coisas vão se desenvolvendo, as cenas vão se encaixando e, da vivacidade de um encontro entre pais e filhos... podem nascer o riso... e a lágrima! Assim é com esse “O Último Combate...” ! !  Assim foi com “Rasga Coração” !       Quando Rogerio Freitas e Vera Novello fazem e desfazem com o coração do público, temos orgulho do nosso elenco. Quando vemos Isio Ghelman nos levar às lágrimas, no momento em que estávamos refesteladas rindo das tiradas de Souza (Rogerio) com seu amigo Afonsinho (interpretado por Gillray Coutinho), Isio mostra, em seu desabafo pelo fracasso ao acolher em casa os velhos, seus pais, toda a emoção desesperada que se manifesta nos que amam sem amarras. Cena magnífica!
     E não ficamos só com os estes exemplos: Beth Lamas (a bem casada Neli); Ana Velloso (Lu, a caçula); Paulo Giardini (revelando-se como o problemático Beto!),  interpretam os outros filhos do casal. E há o sempre maravilhoso palhacinho interpretado por Kadu Garcia, de maneira alegre e bem vinda, desdobrando-se em “Aparecida”, o “Patrão” e o “Médico”. Mas todas as ligações vão além, e as personalidades conflitantes dos filhos enclausuram os pais!
     Tudo no texto é tão bem formulado, que não falta a união da avó (Vera Novello irreconhecível como Lu, uma das pontas do conflito), mãe e avó desagregando a precaria estabilidade em que vive seu filho Jorge (Isio Ghelman), sua esposa Cora (boa intervenção de Ana Barroso), e a filha adolescente Suzana (Meg Pastori). Quando não há previsão para a velhice, eis a situação a que ela fica exposta. A peça mostra  o olhar carinhoso de Vianninha, e ele nos comove. Percebemos também – através de uma leitura subitamente cruel!  - que nada irá modificar o modo de agir dos filhos, em relação à velhice dos pais!
     Só podemos nos maravilhar com a sequência de cenas escritas por Vianninha. Elas vão desenvolvendo a ação em um encadeamento lógico, levando à negação da cena familiar. O problema de cada filho vai se desenvolvendo como a vida solicita! E assim será, a menos que uma revolução humanista aconteça, e mude as pessoas na sala de jantar.
     “Em Familia” – agora chamada “O Último Combate do Homem Comum” – traz em seu contexto a experiência de uma convivência que não frutifica em amor, mas em certezas.    
     É algo para se pensar, algo que nos leva a refletir sobre a ação dos humanos. Na sequência, vamos desvendando a célula primordial dos acontecimentos que irão se reproduzir em escala universal. Tudo é referido com muito acerto por este grande artista que é Oduvaldo Vianna Filho. E as cenas são bem distribuídas, cada ator tem o seu moment de bravure, como dizem os franceses...
     Corram, que ainda dá tempo!
     FICHA TÉCNICA: Autor: Oduvaldo Vianna Filho. Concepção: Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar. Direção: Aderbal Freire Filho. Cenario: o grande Fernando Mello da Costa! Figurinos dos anos 70: Ney Madeira, Dani Vidal e Pati Faedo; Direção musical e trilha sonora: Tato Taborda; Iluminação: Paulo Cesar Medeiros; Produção: Lúdico Produções Artísticas.