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sábado, 2 de junho de 2018

"ROMEU E JULIETA"




IDA VICENZIA
(da  Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

Romeu e Julieta_foto © Wilton Montenegro 0566
"Romeu e Julieta", de Shakespeare. Direção Mariozinho Telles e Maria Rita Rezende. Em cena Julieta, a Mãe e a Ama. (Foto Divulgação)



           Eis um Shakespeare que continua fascinando os corações! 

           Registramos a apresentação da Cia. Teatro de Roda, com direção de Mariozinho Telles encenando “Romeu e Julieta”. 

           Trata-se da última direção do artista falecido em 2017, e os 'apaixonados de Verona', hoje pelas mãos de Maria Rita Rezende, viveram, até o fim do mês de maio, seu destino, na Casa de Cultura Laura Alvim. 

          E, certamente, estarão voltando para outros espaços! Há mérito neste renascer, e ele se concretiza nas mãos da companheira e perpetuadora do trabalho de Mariozinho.

           A montagem dos Clássicos em Cena,  marca registrada deste diretor, já levou aos palcos Bertold Brecht, “O Homem é um Homem”, Sófocles e sua “Antígona” - e muitos outros clássicos. Mariozinho conseguiu uma abordagem contemporânea para estes dramas, uma visão renovada.  É o que podemos observar neste “Romeu e Julieta” ano 2000.

      Criando seu teatro simples na Cia. Teatro de Roda, o diretor formou várias gerações de atores. Em um teatro que poderíamos chamar “de bolso”, eles viajaram pelo Rio de Janeiro levando seus espetáculos. A ação de Mariozinho vem de longe, dos anos 80, quando foi multiplicador do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. Hoje - e em 2017 - é a vez de “Romeu e Julieta”, com tradução de Onestaldo de Pennafort.  Trata-se de um trabalho continuado que a companheira e atriz Maria Rita Rezende conserva intacto.

          Mariozinho Telles participou do corpo docente de várias escolas de teatro, entre elas a CAL e a Escola Martins Pena. Hoje Maria Rita conserva o seu último trabalho, que destaca  o dramaturgo de Stratford  upon Avon. Ele ocupou, até final do mês de maio, um lugar no Espaço Rogerio Cardoso, da Casa de Laura Alvim. Certamente o espetáculo retornará em outros espaços. Atores e diretora estarão sempre prontos a assumir “Romeu e Julieta”, não deixando os apaixonados de Verona serem desvirtuados. Esta foi a promessa da companheira de vida e teatro de Mariozinho, Maria Rita Rezende. O elenco também está disposto a sustentar o estilo vibrante do diretor.

           Entre as atrizes tivemos Karina Diniz interpretando Julieta, com impetuosidade e acerto. Karina também mostrou versatilidade ao enfrentar a personalidade masculina de um Montecchio! Também Roberta Mancuso, no papel da Ama de Julieta, enternece o público com sua dedicação e esperteza. Trata-se de uma presença marcante. Há também Luciana Albertin desenvolvendo os 'cuidados' da Sra. Capuleto com sua filha Julieta... Ah! Essas mães, e seu poder de desencadear tragédias!  

       No elenco masculino destacam-se Mario Meirelles como Romeu, e Guilherme Salvador como Frei Lourenço. Também Lenilson de Mello  interpretando Benvolio é muito bem sucedido. Não é fácil segurar o espetáculo com o vigor que apresenta. Em cena nua, ele se sustenta no compasso do ritmo dos atores! A luz também é um grande parceiro (executada por um dos componentes da Cia.). É algo que fala por si. Os figurinos, em negro, lembram os coringas dos anos 70, com os atores revezando-se nos papéis e tornando vivo o jogo de cena. Este é um magnífico exercício teatral. 

       A composição de “Romeu e Julieta” é moderna, com o palco nu e a iluminação jogando com as mudanças de cena. A registrar a entrada do elenco, situando uma época que bem poderia ser a nossa, contemporânea, pois os atores utilizam mãos e corpo para extrair deles o ritmo do Hip Hop e do Rap, em movimentos livres e originais: o público encanta-se com a apresentação dos personagens. O único objeto de cena é um lenço vermelho que pode se transformar em um coração batendo, ou em uma ferida sangrando...
     ...e este recurso do diretor lembra-nos a paixão de Mariozinho Telles pelo teatro!  Podemos dizer que  os verdadeiros ‘imortais’ do teatro são os artistas que, como Mariozinho, passam as suas emoções como se vivos fossem...

        Vida longa ao “Romeu e Julieta” de Shakespeare, Mariozinho Telles e Maria Rita Rezende!  Provavelmente ele retornará em outros espaços desta tribo carioca!


terça-feira, 22 de maio de 2018

"rINOCERONTEs"

"rINOCERONTEs", espetáculo do Coletivo Errante. Direção:  Luiza Rangel. Orientação:  Leonora Fabião.
(Foto Maria Barillo)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

     Antonio Abujamra costumava dizer que Ionesco é um autor que tem como objetivo o riso levado a sério. Quanto a mim, não sei se ele tem qualquer objetivo (parece-me que, se o tem, é alertar para o ridículo da sociedade humana), mas não se pode negar que ele é um criador empolgante. Agora, por exemplo, temos esse rINOCERONTEs, encenado por um grupo chamado Coletivo Errante, que nos joga na cara o impacto desse romeno maluco.  E COMO É BOM ASSISTÍ-LO! O Coletivo tem a percepção de jogar um hino brasileiro absolutamente surreal, o parnasiano de palavras em desuso... como o nosso Brasil!: “Deitado eternamente em berço esplendido”. De quem é a letra, mesmo? Duque Estrada! Esse hino é o nosso, o Nacional! Precisamos acordar deste sonho em decomposição, deste pesadelo!
     Mas não é só o nosso Hino que nos faz entrar em nonsense!  O que significam, por exemplo, aqueles animais, os rinocerontezinhos verdes, de unicórnio (ou serão cornos duplos?) que se estabelecem, de repente, entre os humanos? Muitos gostariam de ser um deles, e segui-los, emitindo os mesmos sons e requebrando em seu paquidérmico andar.
     E essa brincadeira gostosa deve ser seguida pelo público que, de repente, cai em si: “Mas como? Está todo mundo abandonando o barco? Indo para o meio da floresta? Andando na  mesma manada?”
     Muito a propósito a lembrança de montar Ionesco. Aliás, o grupo também é muito bom. Se o romeno percebeu o absurdo que nos cerca, os atores do Coletivo Errante fazem tudo muito melhor do que os franceses já fizeram, porque eles vão se jogando, se desmantelando, junto com o cenário, no que deve ser, mesmo, o fim de tudo. Somente um homem consegue não aderir a loucura geral, e permanece consciente, apostando para ver o que vai acontecer, pois, afinal, ele é um homem e não um animal!
     Não tenho intimidade com rinocerontes. Somente os vejo, com seu olhar ausente, em zoológicos, e me parece um animal bem desprotegido, apesar de sua carcaça pré-histórica! Eles me causam pena. Mas isso tudo não tem importância, perto do que está acontecendo, realmente, pois, ao que parece eles soltos são muito perigosos.... Sim, precisamos de uma reação determinada para não ficarmos tentados a seguir a manada destruidora de sonhos.
     Mas já que estamos examinando uma peça de teatro onde os acontecimentos nos enchem de estupefação, podemos observar que o trabalho destes talentosos atores, dirigidos por um dos membros do Coletivo (pelo que entendi, eles conseguiram romper as regras da hierarquia teatral, e fazer um rodízio de funções, em um jogo que há muito tempo deveria estar em ação). No caso, Luiza Rangel está na direção, e se desincumbe muito bem de suas funções.   
     Trata-se de um grupo premiado que se coloca à disposição do público, para tomarmos conhecimento de sue existência. O que podemos dizer é que estamos surpresos com o desempenho deste Coletivo. Os atores, os recursos cênicos, sonoros, coreográficos, são da maior competência. Espero não perdê-los de vista. Certamente estes oito atores que compõe o Coletivo Errante (o nome já é uma definição de seu trabalho), vão nos manter sempre atentos para as suas iniciativas. Parabéns a Eleonora Fabião por orientar essa turma! E a cenógrafa é de uma imaginação excitante. Seu nome? Fabiana Mimura. Mas, com certeza, o grupo deve ter cooperado para as boas soluções que o espetáculo consegue com tão pouco. Renato Machado está na orientação deste pessoal. Parabéns para vocês todos. Aconselho ao público que não perca rINOCERONTEs. Ele vai somente até o dia 3 de junho, no Teatro Dulcina. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

"A MARCA DA ÁGUA"



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
Cena de A Marca da Água, direção Paulo de Moraes

       A noite, os arredores, a concepção do teatro, o público que o frequenta, dão-nos uma segurança e um envolvimento de Primeiro Mundo. Trata-se do Teatro Nelson Rodrigues, da CEF, e a noite é dedicada ao espetáculo 'A Marca da Água', concepção de Paulo de Moraes e Mauricio Arruda Mendonça, do Armazém Companhia de Teatro. A direção do espetáculo é de Paulo de Moraes.

     Em Primeiro Lugar, o teatro. A impressão que nos domina, ao nos aproximarmos do Teatro Nelson Rodrigues, na  Avenida Chile, é a perfeição do que nos cerca, e aí vem a vontade de fazer um pedido: nunca, mas nunca mesmo! pensem em nos negar este teatro... e também o "Teatro da Caixa", logo ali ao lado, na Av. Almirante Barroso. Ambos são espaços da CEF, que muito honram a cidade do Rio de Janeiro.
     
         A Armazém Cia. de Teatro festejou, em 2012, os seus 25 anos de existência com 'A Marca da Água'. Em 2018 tivemos uma reestreia da peça. Para quem ainda não viu, aconselha-se. O diretor comenta:

        "Na nossa sala com paredes de tijolos aparentes, no coração da Lapa carioca (sua sede é na Fundição Progresso), alguma sensação primitiva nos impulsionava no sentido de reafirmar certas questões (...) buscando novos códigos, novas formas de se relacionar com o processo criativo, com o  espaço cênico e com a narrativa. (Paulo de Moraes).   

          A proposta foi atingida, em sua plenitude. A maneira desta Cia, "de se relacionar com o processo criativo" abre portas para novas percepções, misturando estilos e jogando com emoções contraditorias. Laura, a protagonista, interpretada por Patricia Selonk, nos traz um personagem rico em nuances, apresentando-nos momentos de puro surrealismo ligados a uma consciência forte de quem entende o que está acontecendo. E muitas coisas acontecem com a protagonista! 

          Os autores aproveitam o texto e trazem um problema jamais enfrentado em teatro, e o enfrentam, com leveza e humor. Sei, vocês vão dizer que existem muitas peças que tratam de problemas neurológicos! Mas nunca dessa maneira tão clara (um dos atores - Ricardo Martins - interpreta o neurologista), expondo com  clareza o problema. São nuances que podem afetar o cérebro que sofreu uma lesão cerebral. Estas nuances afetam Laura, e ela as transmite aos que a cercam. São detalhes de um cérebro ferido por um impacto que transformou a sua vida aos 10 anos de idade. E o texto vai nos narrando os detalhes do problema, com o auxilio da pesquisa realizada pelos autores com a obra do neurologista britânico Oliver Sacks. O cérebro, a água no cérebro, a 'marca da água', que pode fazer o cérebro explodir... E a opção de Laura adulta, aos 40 anos, de  aceitar o inevitável . 

               E tudo começa com a narrativa surrealista de um peixe gigante que atravessa a vida do casal Jonas e Laura, e que desencadeia o processo que a atormentou a vida toda, e que retorna: a pressão cerebral, os sons que essa pressão desencadeia, e a maneira pela qual essa lesão vai tomando conta de sua vida. Laura aposta na possibilidade da morte, em sua obsessão ao se negar aos médicos e ao tratamento, preferindo captar a música imaginaria que sobrevém de seu distúrbio cerebral. E aí entramos em uma possível recuperação do que seria o seu repertorio musical, através de um concerto interpretado pelo elenco através de diversos acordeões, acompanhados pela guitarra de Ricco Viana, o diretor musical, criador da trilha sonora (original) da peça. 

                 O que torna irresistível a presença no palco - além do relatado acima - é o brilhantismo do elenco: cada ator é dono de sua interpretação, com sutileza. Este fato só se torna possível em companhias que tenham um repertorio variado e uma presença cênica constante, dos atores. Entre eles a mãe, Eugênia, interpretada por Lisa Eiras, e as personagens masculinas: Marcos Martins, o marido Jonas; Ricardo Martins o médico e o pai; Marcelo Guerra, o irmão Domênico. O cenário, impressionante, reproduz uma piscina gigante com seu jogo de luz (cenário de Paulo de Moraes e luz de Maneco Quinderé). Os muito citados figurinos de Rita Murtinho, que fazem, com o material adotado - neoprene e tactel - absorver o impacto da água (pois os atores convivem com o mundo líquido onde aparecem peixes e escafandros, além de uma piscina!) As projeções também causam impacto. Enfim, sempre que Paulo de Moraes está em cartaz, aconselha-se uma ida ao teatro. Quem sai ganhando é o espectador!                
          
                 
       

domingo, 6 de maio de 2018

"INCÔMODOS"



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

                               Elenco de "Incômodos", direção Kel Gogliatti. Atrizes: Ângela Valerio, Andessa Guerra Bia Quadros, Gabriela Inoujain, Helena Bielinski, Luisa Olinto, e outras. (Foto Produção):


INCÔMODOS

     Antes de tudo, trata-se de uma Celebração. Um ritual de acolhimento saudado por "Salve Regina", entoado por vozes ocultas para a plateia que, ao entrar, está de olhos escondidos por detrás de vendas negras... Estaremos quebrando algum misterio do espetáculo? Alguma surpresa? 

     O fato é que INCÔMODOS (pois é dele que se trata) acolhe um bom público de adolescentes - garotas e garotos  - e homens e mulheres! - interessados nesta nova tentativa de compreensão do feminino. A "celebração" inicia-se com a entrega do sangue e da carne (femininos), em verdadeira transposição dos rituais masculinos. E onde está a mulher? "Tomai e bebei" ... dizem as novas bacantes - este vinho é o meu sangue. Esta hóstia é a minha carne". trata-se da "desconstrução" do proibido. Mulher só tem sangue quando menstrua: e à mulher não é permitido o gozo da carne... da sexualidade! E Vêm estas atrizes, estas meninas! - dizer o que devemos (elas devem) fazer?! 

     São 18 jovens em cena - 18 mulheres no esplendor de sua beleza e juventude! E se pensamos que a historia da mulher já está muito bem contada, nos enganamos. Ouvimos, na saída do espetáculo,  rapazes comentando, como se tivessem percebido as obrigações sociais da mulher naquele momento, e uma dessas obrigações é ser bonita... (Quando pensamos que todos sabem tudo, eis a surpresa...). Também no espetáculo é contestada a tão famosa vocação materna da mulher. Uma invenção da nossa sociedade! Há muitas mulheres que não têm essa vocação... elas são consideradas desnumanas! 

     Mas voltemos à celebração... sem medo de romper com o misterio! Conhecemos, nos primeiros passos das bacantes (se as pudermos assim chamar) - jovens vestidas com véus cor de carne, que deixam expostas as suas caracteristicas femininas. As mulheres apresentadas como heroínas, em outros séculos, enfrentaram o mundo cultural (dos homens) e se destacaram. A Curadoria de Kel Cogliatti - e suas companheiras - fazem citações sem visão política: somente constatações da atuação destas mulheres. O espetáculo não é uma manifestação política mas, insistimos, uma "Celebração" ao feminino. Estaremos erradas? 

     ... E assim Rosa Luxemburgo é citada, como também Nísia Floresta, e tantas outras que cultivaram idéias, colocando-se acima da submissão estabelecida. Não há perdão para a inação de  nossas contemporâneas. As mulheres citadas atuaram, apesar da repressão contra elas, em todos os tempos!

     Ficou a cargo de Kel Cogliatti a direção do espetáculo. A "Casa Rio" foi pensada para dar acolhida a estudantes vindos de fora do país. Ela também funciona como espaço cultural. Já funcionou, em passado recente, como Museu do Teatro do Rio, mas sua administração não surtiu efeito. Hoje o espaço está sendo aproveitado com espetáculos experimentais como este a que nos referimos, no qual entram performances, música, e interpretação. "Incômodos", que nos deu a conhecer o local, apresentou  dele um bom aproveitamento. E aqui respiramos um pouco, nos divertindo com a reação do público. O chamado para o espetáculo já é aterrorizante, mas, felizmente, o prometido não acontece. Os destaques arrepiantes são muitos!  Será uma jogada profissional? O fato é que a Casa Rio fica lotada todo fim de semana! (Este é o último) E quais são estes chamados? Na "planta baixa" de uma casa, desenhada no programa, acontecem coisas estranhas... "entre quatro paredes"... como sói acontecer com as nossas companheiras de sexo... daí a impressão de o espetáculo ser uma sucessão de depoimentos. Não é. Mas, na cozinha desenhada no programa destaca-se que  "476 mil estupros já foram realizados no Brasil"...  (número é espantoso, já que não há referência das datas!) No "Escritorio" do desenho ficamos sabendo que "a cada 11 minutos uma mulher é estuprada"!   ... e acabamos nos informando também (que coisa pavorosa!), que "uma mulher foi morta com um espeto de churrasco!" Pode ser até engraçada, tanta desgraça, mas também dá pra arrepiar os cabelos e fazer como Paula Lavigne: se revoltar por ter nascido mulher!

     A reação do público ao espetáculo é respeitosa. Parece até mais tranquila e conhecedora dos rumos do que é ser mulher (no Brasil e no Mundo)!!! A temporada na Casa Rio terminou, mas prestem atenção! pois a aventura do feminino deve continuar em outros locais. VAMOS TORCER PARA QUE TAL ACONTEÇA!           

sexta-feira, 27 de abril de 2018

"DOSTOIÉVSKI TRIP"




Elenco de Dostoiévski Trip



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

DOSTOIÉVSKI TRIP

     Umberto Eco diz que o texto é uma máquina preguiçosa cheia de buracos que o leitor vai 
preenchendo com a sua imaginação. E o texto de teatro, então! Ele é ainda mais cheio de "buracos", e "Dostoiévski Trip", do autor russo Vladimir Sorókin é muito mais! O autor, novidade russa, é encenado pela primeira vez no Brasil, com direção de Cibele Forjaz. Vale uma chegada ao teatro. 

    A plateia do Teatro I do CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), no Rio de Janeiro, expande-se para conter tanta energia. São 8 atores, de duas companhias teatrais, "Mundana Companhia" e CIA.LIVRE, para nos contar a historia do NOVO TEATRO, o novo teatro russo (sempre na vanguarda!). Forjaz já esteve conosco no belíssimo "O Idiota - Uma novela teatral" - que durou 7 horas e estreou no teatro experimental do Jardim Botânico. Dessa vez o espetáculo não é tão surpreendente, mas é um desafio e um deleite. Só a segunda parte, que desenvolve alguns pensamento de Dostô em "Humilhados e Ofendidos", não se realiza com tanta precisão. A primeira parte é surpreendente e sinaliza o gênio no ser humano: viciados em literatura esperam o traficante que irá vender a eles uma nova droga. Dessa vez é Dostoiévski. (O autor mais sem brilho, na visão do "adicts", é William Faulkner!). 

     Essa primeira parte da peça é muito boa, com destaque, além da descrição das emoções que cada autor desperta, a música e a dança. Às vezes o espetáculo se expande e se transforma em um espetáculo total, no quadro coreográfico que desenvolvem. Uma achado, teatro total! Entre tantos autores citados: Simone, Tolstoi, Thomas Mann e tantos outros, acabamos ficando com Dostoiévski, e relembramos, por momentos fugazes, o doce Príncipe ingênuo, Myschkin (interpretado por Aury Porto) e sua amada Nastacia Filipovna, a prostituta (interpretada por Luah Guimarães). 

     Vladimir Sorókin se detém em Dostoiévski, para ele o maior escritor de todos os tempos, e aí podemos conviver com o mujique (Sergio Siviero), com o epilético (Marcos Damigo) com a mulher apavorada (Lucia Romano), com Vanderlei Bernardino e Edgar Castro. São tantos talentos, destacados pela música e atuação de Guilherme Calzavara, o "vapor" das drogas e o músico! e essa força da literatura que é Dostoiévski se apresenta vivo, graças e Sorókin e a Forjaz, no palco de um teatro! Nem Antonio Abujamra teria imaginado a cabeça destes dois! (Será que não?!)

      Infelizmente a segunda parte - penso que seria uma lembrança de "Humilhados e Ofendidos" - não se realiza plenamente, sobrevoando os perigos de um teatro panfletario!

       Enfim, quem consegue transportar o público da maneira que o consegue, na primeira parte dessa "recuperação século XXI" de Dostoiévski, tem o direito de errar! Quem sabe em um espaço cênico diferente?

     Não podemos deixar de nos referir às intervenções da luz, magnificamente criadas por Alessandra Domingues e adaptadas por Laiza Menegassi, sob coordenação de Renato Banti. 

        A tradução do texto é de Arlete Cavalieri.         

sábado, 31 de março de 2018

"O REI DA GLORIA"


IDA VICENZIA
 (da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

 Anderson Cunha (Foto Rodrigo Castro)

REI  DA  GLORIA
     ... Eu gosto de escrever assim. Solta. Dessa vez é sobre o monólogo criado por Anderson Cunha, interpretado por ele mesmo, em cartaz até dia 1º de abril na Sala Espelho, Espaço Baden Powell. A encenação fala de moradores de rua e outros personagens que animam as ruas do bairro da Gloria, no Rio de Janeiro. Atenção: poderia ser qualquer rua, de qualquer bairro desta cidade confusa, mas Anderson aceitou em cheio, escolhendo esse bairro onde tantos acontecimentos confundem ainda mais essa cidade.

     Há muitos monólogos por aí... Alguns excelentes. Este é um deles. Sua construção vem de muito longe, preenchendo momentos da formação de seu autor. Composição, direção e atuação do espetáculo foram surgindo no trabalho daquele menino da Casa da Gávea, o aprendiz de ator de Paulo Betti, sempre distribuindo, para os frequentadores da Casa, um sorriso acolhedor e esperto. Às vezes a bondade se manifesta assim. Esse menino era Anderson Cunha, o autor do monólogo hoje em questão! Fiquei curiosa. Queria saber o que ele tinha para nos dizer, agora, sobre a tão dolorosa questão dos moradores de rua. E ele tem, agora, muita poesia para nos dar!

     (Mas isso não é uma crítica de teatro! Afinal, o que é uma crítica de teatro? A respeito desse assunto reforço a minha opinião sobre a liberdade do artista (pois o crítico também o é...) e levo comigo na memória o meu vale mecum, a minha liberdade! As andanças que realizei na Sorbonne, afinal, valeram para alguma coisa, pois a crítica teatral está precisando de liberdade, e os franceses sabem muito bem o significado dessa palavra...)

    Mas continuemos (entusiasmei-me falando sobre liberdade..., e Anderson Cunha nos dá uma lição sobre o assunto!).  No texto do poeta/dramaturgo encontram-se miríades de detalhes, observações e depoimentos... do autor, através de seus personagens - alguns poéticos, outros irônicos. Mas sempre sábios. Em seu texto aparecem vários tipos de seres humanos, desde o traficante que vende olhares luminosos... até o gênio invisível. Sobre essa condição de ser invisível (o homem de rua), Anderson tem um texto maravilhoso. Há Bóson, o Ser incompreendido, e o pastor autoritário (e inovador),  afinal, duas poções de uma mesma identidade! MC, o cantor infeliz. E  muitos outros personagens, alguns “esboçados”,  pois nem sempre presentes – sua voz em off – mas sempre nos fazendo pensar. E pensei, naquele momento, pois não sabia!  “Quem será o autor?”. (Gosto disso, de ser surpreendida). E nosso “complexo de vira-latas” veio a tona e me fez pensar que talvez se tratasse de algum autor estrangeiro, talvez um dramaturgo francês de vanguarda? Os autores brasileiros encenam tantos autores estrangeiros...

    (Vamos à crítica!)

     Claro, aquele olhar bondoso referido acima, a respeito de Anderson Cunha, tem uma explicação: trata-se de um poeta! E ele nos conquista definitivamente quando o  “louquinho de cima de  árvore”, casa escolhida por ele, com medo das enchentes. Bóson é seu nome - se revela um poeta em sua maneira de ver o mundo. Sua visão é coroada pela descrição de um pássaro! Que momento lindo! Um poeta descrevendo a conformação de uma ave, seu porte, seu canto! O “quero-quero”,  com aquele grito  valente, independente!  E a descrição do poeta: “seus pés parecem estar vestindo saltos altos" – e um sapato vermelho! O topete do quero-quero, tão radiosamente construído (ele descreve os tons com que a cabeça do pássaro foi pintado, do topete até o bico), reflete a sua personalidade. Só ouvindo Bóson, o poeta (que leu Shakespeare inteiro quando tinha quatro anos!).

     Que fim levou esse poeta? E, também, que fim levaram o cantor MC, ou o Pastor, que está procurando o “homem adjetivo”?!  Ou Rico Star, o traficante de beira de rua, vendendo objetos usados, na calçada do bairro da Gloria daí o título da peça:  “O Rei da Gloria”. Os moradores de rua – todos  reis!? 

     Mas continuemos.  Temos um grande dramaturgo entre nós! Lembram da historia da virgem grávida que se transformou em comoção da cidade? E Rebeca, a apaixonada que se transforma em pesadelo para o cineasta que registra os moradores e os acontecimentos do bairro?
     Anderson se transforma sutilmente nestes vários personagens. Há vozes femininas em off. Nada contra as mulheres, mas sim contra a má interpretação dada à mulher, na nossa sociedade. Ah! Essa mania que as mulheres têm de fazer, do amor, o ar que elas respiram! E o cineasta chamou de Rebeca, a sinestésica (em poucas palavras, a que transforma, desfigura, a emoção ...)  e conseguiu se ver livre dela!

     Todos os personagens possuem uma “amarração” final – o que não deixa de ser um desafio para o autor. Mas não vamos nos preocupar se MC se suicida, ou se Bóson é reconhecido, ou não (parece que lhe dão um choque elétrico, irreparável, como estes que dão nos seres ultrassensíveis... os loucos!). Vários destinos são explicados, no final. Pode ser modificado - ou não – o final. Tal decisão compete ao autor. Na verdade, o público fica impressionado com a perfeição entre ator e espetáculo. NÃO PERCAM!  




quinta-feira, 29 de março de 2018

"EU É NÓS"



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

Suzana Saldanha em "EU E NÓS", monólogo de sua autoria, direção Luiz Artur Nunes. (Foto de Gilberto Perin) 

EU  É  NÓS

     A partir do livro “Quem pensas tu que eu sou?”, do psicanalista Abrão Slavutzky, mais propriamente da palavra “desamparo”, encontrada no referido livro, Suzana Saldanha elaborou o texto com que nos brinda em seu monólogo “Eu É Nós”. Como acontece com os artistas, Suzana ama as palavras e, no programa especial elaborado no Teatro Maria Clara Machado – “Mulheres em Cena”, em homenagem ao Dia Internacional  da Mulher, 8 de março - a atriz nos mostra a sua maneira de ver a vida.  Escolhemos Suzana para fazer os comentários desta programação, e não nos arrependemos da escolha, pois esta atriz se comunica com o público de maneira envolvente, acolhedora.

     Já no início do espetáculo Suzana brinca com as palavras, ao receber o público amigo que lotou o teatro. Orientada por Luiz Artur Nunes que, mais que um diretor foi um amigo e um observador da interpretação de Suzana e de seu mundo - a atriz faz colocações preliminares para dar inicio ao espetáculo, identificando o público com  algumas “inside jokes” e brincadeiras, saudando a sua presença. 

     Entramos no espetáculo, pra valer, quando Suzana nos revela a maneira de seu pai interpretar o teatro pós-moderno – “algo que se coloca em um liquidificador (e o pai enumera as escolas de teatro, concluindo): “e o resultado está lá”. Essa é a essência do pensamento de seu pai, algo muito próximo do que realmente acontece com este teatro pós-moderno... Outra narrativa (esta surreal) é a de seu nascimento, no qual a própria ‘nascitura’ participa ativamente, não só consentindo em colaborar com o mesmo: um bebê vindo ao mundo, e pensando a respeito daquele acontecimento! 

      Convenhamos, a fala criada pela atriz é algo inesperado, em termos de espetáculo autobiográfico!

       Suzana Saldanha está vida, muito viva, em sua “rentrée” carioca. Às vezes, em seu figurino e em seu gestual ela nos leva à lembrança de um clown. E há algo, nesta direção, que nos toca profundamente. É quando ela resolve se despedir como Charles Chaplin, com a sua música, seu figurino e seu gestual. E surge algo que marcou as nossas vidas: “Limelight” – e a música do filme! “Luzes da Ribalta”... e o refrão que não nos deixa indiferentes: “Para que  chorar o que passou/ Lamentar perdidas ilusões?/ Se o ideal que sempre nos acalentou/ Renascerá em outros corações”...

     Este ideal está sempre vivo no coração de Suzana! Bom retorno, querida atriz!  O cenário? Uma mesa, um abajur e uma cadeira! Bom para transportar pra todo lado. O figurino é quase a sua roupa do dia a dia. Também imaginado por Suzana.         

     Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Secretaria Municipal de Cultura criaram uma programação especial, no Teatro Maria Clara Machado (curadoria de Antonio Gilberto, diretor artístico da casa) para cobrir todo o mês de março. Estiveram nesta programação Marcia do Valle ("Um Ato"), Ester Jablonski ("Silêncios Claros"), Ana Achcar ("Uma Ciranda para Mulheres Rebeldes"), e muitas outras atrizes. Sentimos muito não estar presente em todas as apresentações. Fica a minha homenagem por este dia 8 de Março.         



terça-feira, 20 de março de 2018

"PRESSA"

Cena de PRESSA, autoria Octavio Martins, direção João Fonseca (Foto Divulgação)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
  
"PRESSA"
     Estavam todos lá... naquela dança das cadeiras: o empresário, o garotão, a esposa, a mãe, o subordinado, a garota grávida, o "irmão na fé",  e outros mais - passando  o  seu  recado. A melhor notícia de todas é que está de volta o grupo que já foi de Antonio Abujamra: "Os Fodidos Privilegiados", encenando a peça "Pressa", escrita pelo paulista Octavio Martins (que já foi ator do grupo Latão, que já produziu Gorki, Koltés, e outros da pesada), retornando ao Teatro Dulcina, sua primeira casa. Dessa vez Os Fodidos... não "ocupam" o Teatro, só fazem uma temporada, completando o que se transformou na dança dos teatros, fenômeno do presente, do séc. XXI. Há quem reclame desse rodízio, com exceção do público, pois se você não conseguiu assistir a uma peça que lhe interessa não precisa ficar aflito, pois ela retornará...

     É a primeira vez que Martins é encenado no grupo. O autor surge das mãos hábeis de João Fonseca, porém "o diretor que substituiu Antonio Abujamra" não está sozinho na direção, e não é a primeira vez, mas dessa, ele conta com Nello Marreze na direção e também na cenografia.

        A ação se abre com as cadeiras, que fazem parte do cenário, e um emaranhado de cor laranja como pano de fundo, relembrando a antiga divisão palco/platéia, pois ele funciona, em dois momentos, e com a ajuda da luz, como uma verdadeira cortina, cujos efeitos são surpreendentes, principalmente quando se sustenta na luz potente dos faróis de Luiz Paulo Nenen e Tiago Mantovani, na hora do atropelamento!

     Gostaríamos de nos estender, um pouco, sobre a curiosa influência que Nelson Rodrigues ainda continua a produzir sobre nossos artistas, principalmente no caso de João Fonseca, que trabalha com o despojamento e a força de Antonio; e as suas escolhas de peças para encenação têm a vitalidade de um Nelson. O ritmo avassalador é o grande toque destes três artistas. Vivi a surpreendente experiência de assistir ao mesmo espetáculo, "Pressa", em ritmos diferentes. A primeira vez que o assisti havia um compasso a menos no ímpeto da narrativa. Da segunda vez nos surpreendeu a avalanche de retornos e atuações enfatizadas que os atores trocavam entre si. A segunda vez, com certeza, foi a mais impactante. O texto foi entregue, e mostrou o que se perpetua no gênero humano: a avalanche de reações contraditórias.
     Em pouco mais de uma hora vemos passar o carbono de nossa realidade,  se desdobrando, qual um palimpsesto (adoro essa palavra!), sobre nós. Grande Nelson, nunca esquecido dos que vieram depois dele!

     E não vamos fazer disso nenhum mistério. Entre os possíveis comportamentos que acabam sendo registrados na peça há o mais explícito deles, e o seu tema é o dinheiro que, finalmente, acaba passando de mão em mão para ir se agasalhar no bolso do empresário esperto. As historias vão se fazendo e refazendo, com a "pressa" que lhe promete o titulo, a qual é captada, sem perdão, no decorrer daquele tempo que passamos na platéia do teatro.        
     
     Os atores, cada um deles, tem ocasião de mostrar a sutileza (ou falta de), emprestada ao personagem. Há momentos hilariantes, como o da Mulher 1 (casada com o empresário manipular (Alexandre Pinheiro), e interpretado por Paula Sandroni), quando beija a medalha da correntinha de ouro que acaba de "tirar" do pescoço da Velha (Thais Portinho). A personagem da Velha está em idade tão avançada que não consegue mais reprimir os dejetos de seu organismo, que vão acabar "batizando" a beijada (pela Mulher1) correntinha... Há outros fatos constrangedores, e surpreendentes, como o da Esposa Aflita (Filomena Mancuzo); a da Mulher 2, de inspirada criação de Rafaela Amado, cujo personagem atinge a extremos, sendo (ou parecendo) inteligente na cena do jogo, para se tornar, em outra cena, uma fanática em Cristo... E tem Roberto Lobo, com seu tempo preciso, interpretando o Marido 2 - uma raridade seu personagem, pois ele joga o jogo do marido apaixonado pela esposa!

     Como o autor, Octavio Martins, é muito bom, não há personagem que não fique bem realizado. Assim, temos o Marido Calmo (Diogo Camargos), o Rapaz Preocupado (Rafael Coimbra) que contracena com o Rapaz Feliz (Thiago Marinho) e com a Garota Gravida (Mariah Viamonte), essência da garota sem rumo.  ... E por aí vai. João Fonseca está em cena interpretando o pastor evangélico e desenhando, com precisão, esse nosso absurdo presente. Aliás, essa peça é um registro de nossa condição atual (eterna?). Não percam!   

FICHA TECNICA (não citada no texto): Figurinos (atuais) de Victor Guedes; Trilha sonora (muito boa), de João Fonseca; Programação Visual:  Mauricio Tavares; Produção: Filomena Mancuso.
     

domingo, 18 de março de 2018

"PARA ONDE IR"

Yashar Zambuzzi  em "Para Onde Ir", direção Viviane Rayes. (Foto Lu Valiatti)   

IDA VICENZIA
(da  Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

PARA  ONDE  IR
     ... E volto à questão do espaço cênico. Há, no Rio de Janeiro, pequenos teatros que passaram a ser cult devido aos espetáculos neles celebrados. No caso, e especialmente, o Espaço Rogerio Cardoso, no "porão" da Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. Trata-se de um espaço privilegiado, pela intimidade que transmite entre a cena e  o espectador. Em um passado recente tivemos oportunidade de constatar a experiência, através dos mesmos artistas que agora estão em Para Onde Ir.
     Blackbird, o texto do passado em questão, de autoria de David Harrower, nos colocou diante de questões humanas, como a pedofilia.
      Para Onde Ir  nos coloca diante de outras questões humanas.  
      Viviane Rayes e Yashar Zambuzzi, cuja intervenção na cena teatral é conhecida como  "teatro de ação", abrem o espetáculo para acontecimentos do presente, às vezes inspirado em  cenas do passado. Eles operam com a ficção - dramaturgia ou não - refletindo a vida real. Em sua última encenação, Para Onde Ir, (adaptação de Zambuzzi para os textos de Dostoiévisli, Rimbaud e Brecht), está incluída a verdadeira tragedia que se apoderou do povo brasileiro nestes últimos anos, e da qual vemos o reflexo no desolador espetáculo dos moradores de rua. Vemos o povo brasileiro em abandono, como cidadão e como ser humano. Zambuzzi pesquisou essa realidade.
     Em resumo: ao acompanhar a montagem destes dois artistas, constatamos que se trata de um caminho difícil, onde o solidário e o generoso se expõe. Essa transposição do bêbado, em Dostoiévski, para os acontecimentos brasileiros é de ligação difícil, mas não impossível. Não esqueçamos que o autor russo lutava contra vários vícios. O que importa, agora, é que o grande romancista era grande conhecedor da alma humana e Zambuzzi-Rayes souberam operar este conhecimento, em favor do espetáculo. 
     Em Para Onde Ir há uma homenagem de Zambuzzi a Bertold Brecht com o refrão da poesia A Infanticida Maria Farrar,  que acompanha e dá vida ao espetáculo.
     Eis o refrão - "Os senhores, por favor,/ não fiquem indignados,/ pois todos nós precisamos de ajuda,/ coitados.//" - e ele é repetido, a cada "transgressão" do personagem. Talvez uma solução do adaptador para mostrar o lado escuro de nossas almas?
     O texto do espetáculo é rebuscado e difícil de acompanhar, apesar de sua vibração poética. Tal vibração nos faz admirar a presença de grandes poetas... e da generosidade do ator!
     Aliás, uma das características marcantes do espetáculo é a generosidade com que o ator abre seu coração, e sua voz, para levar ao público a miséria do protagonista, e tentar compreendê-la! Também é sensível a estréia de Viviane Rayes na direção, completando com dignidade a tarefa que se propôs.
      Estamos em um bar-teatro, muito bem armado pela cenografia (de Zambuzzi e Rayes), onde objetos antigos convivem com um envolvimento de adega - com suas rústicas paredes de pedra. O  cenário também é idealizado pelo casal de artistas. A registrar, na noite da apresentação do espetáculo em seu penúltimo dia em cena, a presença de uma  senhora dotada de natural talento para expressar uma resposta aos acontecimentos. Registrada a presença, o ator contracena com a senhora (alias, Smerdiákov contracena com o público em geral), e é impressionante a compreensão deste público ao sentimento de exclusão do personagem (exclusão em todos os aspectos, principalmente a social) transmitido pelas cenas.
     Na ficção, o personagem é extraído do romance Crime e Castigo, do autor russo, com passagens pelo inferno de Rimbaud. Interessante observar que, através da pesquisa para criar o personagem, o ator Yashar Zambuzzi conversou com moradores de rua. E  testemunhamos, no texto que nos é apresentado, a inclusão do catolicismo desenfreado do autor russo. Catolicismo esse que encontra eco nos moradores de rua brasileiros. Não é à toa que somos um país católico... mas o catolicismo de Dostoiéviski, na proporção do impacto da cena, impressiona pelo seu desespero.
      Eis um ótimo espetáculo que nos deixa, talvez para sempre, porque (se imagina), não é todo dia que um ator se propõe a tanta submissão ao personagem. Em compensação, teremos o retorno de Blackbird, em futuro não muito distante. Feliz retorno! Os espetáculos de Rayes-Zambuzzi são sempre carregados de bom teatro! Não percam!
FICHA TÉCNICA: Além dos já citados temos - Iluminação: Elisa Tandeta; Trilha Original: Chico Rota; Figurinos: Rogerio França; Ilustrações do Programa (ótimas): Raphael Jesus; Fotos de Cena: Lu Valiatti; Idealização: Te-Un TEATRO; Produção: Rayes Produções Artísticas; Assessoria de Imprensa: Minas de Ideias.



domingo, 4 de março de 2018

"GRITOS"


IDA  VICENZIA

( Associação  Internacional de Críticos de Teatro - AICT)

(Especial)

                                GRITOS, um concepção de André Curti e Arthur Ribeiro encenando
                                       historias narradas por marionettes e atores (Foto Divulgação).

GRITOS
      O premiado espetáculo que nos visita é uma experiência teatral inusitada, com suas marionettes e seu não texto. Gritos - uma concepção de André Curti, Artur Luanda Ribeiro e a marionetista russa Natacha Belova - nos leva a percorrer várias formas de teatro repletas de poesia e horror. São três narrativas, desenvolvidas por André, Artur, e os bonecos que se mesclam com o corpo dos atores: Louise; O homem; e Kalsun.
     As modificações vão ocorrendo com as mudanças de luz e do cenário, composto como uma instalação artística, onde estruturas nuas de colchões de mola, "vão se transformando em objetos insólitos". O impressionante, em Louise, é a sensação de estranhamento que se levanta, quando a cena começa, carregada de intenções. Pensamos, a principio, que se trata do relacionamento sufocante entre mãe e filha (ou filho?), que a principio parece ser a oferta da cena. A incerteza que desperta o inusitado  acaba nos remetendo a uma historia de horror, impressão de desmembramento do corpo de Louise, gargantas sendo cortadas, imagens que se esfacelam, tudo nos levando à presença do teatro de grand guignol !!!
      O segundo "poema" é o esfacelamento do homem, e a impressão continua, reforçando a sensação de teatro aos pedaços. Para os atores trata-se de "um poema gestual entre o sonho, o onírico e o absurdo". Claro, pode ser. O que faz sentido é a força das imagens que os dois artistas conseguem, com este experimento absurdo que acaba por nos abstrair do seu componente humano. É impressionante a semelhança dos atores com os personagens masculinos que manipulam!
     A última imagem deste "Grito 1" é a mãe solitária, na cena que se dilui, dando-nos a impressão de um "ser humano" - e não um boneco - abstraído dos acontecimentos que o rodeiam. Mais uma vez a sensação de realidade ronda o teatro das marionetes.
     O Grito 2: "O homem" - situação insólita de uma cabeça presa em uma gaiola. Os dois atores estão em cena, afastados pelo cenário das paredes metálicas: um carrega o corpo sem cabeça do homem, e o outro ator equilibra uma cabeça, o que transmite uma sensação de angustia ver aquelas partes dissociadas (mais uma vez a sensação do teatro de grand guignol, salvaguardando os excessos da cena francesa da virada do século XX).
     No espetáculo, abstraindo a cena grotesca constatamos a expressão facial dos bonecos e se torna quase impossível dela abstrair a condição de seres irreais. Somos guiados pela perfeição de suas expressões, a ponto de nos deixar envolver poe elas. 
     Temos a impressão de que os bonecos possuem vida própria! Mais uma vez, a narrativa do esfacelamento do homem! Há, entretanto, nos gestos dos atores, na concepção do cenário, na iluminação que a tudo modifica, um clima poético que nos trás estranhamento e que continua a se desenvolver em suas pausas, silêncios, e a música evanescente. 
     "O homem" em cena, a segunda historia é a que menos carrega emoções, abstraindo a cena inicial, quando as duas metades do homem entram em cena, em um lusco-fusco e um crescendo de pássaros, quando seus braços (iluminados oníricamente) se assemelham a bicos de aves gigantes!     
     No Grito 3 - "Kalsun" - conta-se uma historia que nos enche de dor. Inicialmente somos carregados pela beleza da cena oriental, com a mulher envolta em seu xador, e seu olhar de expressão humana! Nesta historia aparece viva o confronto com a dor! Que historia terrível nos é contada! Dizem os atores que se trata de uma historia de amor. Sim, da dor do amor. Trata-se do esfacelamento de uma pequena vida (o amor), a infância!
     ... e eis que retorna o terrível teatro do grand guignol, com os pedaços da carne da criança a serem "reorganizados" para terminar a cena! 
      A mala gira, escapando da mão materna, e "o menino de olhos humanos!" aparece, temeroso do momento em que sua vida lhe escapa!
      Ficamos, mais uma vez, surpreendidos com o poder de comunicação deste espetáculo sem palavras. E, um fato que nos deve surpreender: os atores se envolvem emocionalmente com seus bonecos humanos? Impossível não se envolver, tal a perfeição da oferta. .... Aconselha-se, para quem ainda não assistiu a Companhia Dos à Deux, a não perder a essa nova oportunidade que se apresenta ao público carioca. Vida longa ao trabalho de Arthur, André e Natasha!
     Registramos da Ficha Técnica que a dramaturgia, direção, cenografia, interpretação e manejo dos bonecos são de Artur Luanda Ribeiro e André Curti. Criação musical: Fernando Mota.  Pesquisa e criação dos bonecos (além da já citada Natacha Belova), temos a colaboração de Bruno Duarte, e assistência de Cleyton Dürr.  Assessoras de Imprensa, no Rio: Bianca Senna e Paula Catunda         
      
      

sábado, 24 de fevereiro de 2018

"GRANDE SERTÃO: VEREDAS"

              "Grande Sertão:Veredas", de Guimarães Rosa. Bando de Jagunços. Em primeiro plano Hermógenes (Leon Góes) assassino                         de Joca Ramiro. (Foto Roberto Pontes)


IDA  VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

     Ah! Pois... quem diria que eu estaria assim, virando e revirando aquele programa de 93 fotos dos ensaios, e mais fotos da ação, e aquela força das imagens, dos acontecimentos pulsando nas expressões dos atores: ora alegres, ora desesperados. E aquele nosso medo de entrar no ritmo de Guimarães! Sim, "Grande Sertão: Veredas"...
    Foi assim que fiquei olhando e re-olhando. Escrevo, ou não escrevo? Tanto já se disse sobre Guimarães Rosa! Aí fiquei contando as vezes que Hermógenes aparece nas fotos, quase 10 vezes... Preparando-me. E Riobaldo? E Otacília? E Diadorim...? A atmosfera começou a me contagiar... porque ninguém sai ileso daquele espetáculo de Bia Lessa e Egberto Gismonti... e  Fernando Mello da Costa... e tantos outros! E na Produção Internacional Emilio Kalil! Viajará, então, Riobaldo e seu grande sertão?
     Ah! As fotos da ação! Será que Oskar Metsavaht fotografou aquelas cenas? Não, parece que ele só fez as fotos da bela Diadorim. Foi Alexandre Nunis quem fez as incríveis fotos da ação! E os colaboradores? Marilia Rothier, a minha querida orientadora! E Silviano Santiago! E tantos outros. Já começo a achar que vou escrever alguma coisa... E registro Geovana Martins, Nina Braga e Pamela Leite, e tantas outras! na confecção dos bonecos. É um longo assunto, essa montagem!
     E Bartholo dizendo que o amor entre Riobaldo e Diadorim era como vagalumes cortando o escuro da noite... ou algo assim, poético e verdadeiro! Um olhar, um roçar de mãos, um alarme, uma faísca! E a gente, mesmo sem querer, fica poético! Imagina-se como será atuar em semelhante espetáculo. Diz a diretora: "deixe vir a emoção..." (ou algo assim). E, todos os dias a emoção se constrói, talvez inesperadamente. Sim, inesperadamente, chegando à compreensão de quem assiste.     
      É assustador ler Guimarães Rosa, mesmo sem Bia Lessa nos encaminhando com o seu olhar. Quando lemos Rosa, principalmente Grande Sertão,  ficamos com aquele ritmo, aquela fala  nos ouvidos, e embarcamos nela. E aí compreendemos a sucessão de imagens (há forte impacto, no espetáculo, com a sucessão de imagens, provocando, mesmo, o sentimento de estar vendo se desenrolar uma instalação artística e um encontro com a morte...).
     Como sabemos, Grande Sertão é a narrativa do jagunço Riobaldo para um visitante do sertão. A fala contínua do narrador vai mostrando como são os "viventes" das terras das Gerais a caminho da Bahia. Vai narrando seus sonhos, suas lutas e suas mortes. O centro da narrativa é a vingança dos jagunços pela morte de Joca Ramiro, um chefe querido Os assassinos são Hermógenes e seu bando. Não vemos Leon Goes desde "Os Gigantes da Montanha", de Luigi Pirandello. Ele é Hermógenes! Ou o que imaginamos que seja Hermógenes, com sua fala inspirando a guerra! E nunca vimos Caio Blat em ação. Ou melhor, temos a impressão de nunca tê-lo visto. Ou melhor ainda, tivemos um encontro surpreendente! Menino, homem, sertanejo, ator. Tudo se une neste ator de muitas falas, neste Riobaldo que domina a ação! E depois se destacam as Luiz / sas!  - Arraes e Lemmertz. A Arraes, nas famosas fotos do ensaio vê tolhidos os seus nervos, a sua resistência, e ela sufoca de tanta emoção! Na legenda da foto (ensaio 56), declara alguém: "Nova fase. A penúltima antes da estréia. Já escolhemos o que queremos, agora vamos lapidar, ter controle dos códigos". É Bia Lessa quem fala, em suas geniais interferências de "joalheira" da encenação.
     E saudamos a recém-chegada Luiza Lemmertz, que mostrou garras afiadas para estabelecer a luta entre Reinaldo/Diadorim e seu inimigo Hermógenes, assassino de seu pai, o grande (e bondoso) sertanejo Joca Ramiro. Luiza se integra aos poucos, no sertão carioca! E tem Clara Lessa, Daniel Passi, Elias de Castro, Lucas Oranmian, e tem, e tem... Não reproduzirei frases de Rosa, quem quiser ouvi-la vá assistir a este inacreditável espetáculo!

MAIS ALGUÉM DA FICHA TÉCNICA? Impossível transmiti-lo. Basta saber que tem uma Martins Costa (Ana Luiza), como colaboradora, e Amália Lima como assistente de direção. Ana Souza cria os figurinos. Andreus Oliveria é o encarregado da estrutura cênica, junto com Eliseu Lopes. Bia Lessa, além de ter sonhado (e concretizado) seu sonho de montar e dirigir Grande Sertão, adaptou o texto e fez o seu desenho de luz. O registro fotográfico é de Roberto Pontes junto com Roberta Dittz. Eles fazem a edição do registro audiovisual - uau!- !  Há, ainda, uma lista infindável de agentes técnicos, e também os que merecem agradecimentos especiais. Nós agradecemos à Bia Lessa!            

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

"ALICE MANDOU UM BEIJO"

Suzana Nascimento (Jandira) e Vivian Sobrinho (Oneida), em "Alice mandou um Beijo", texto e direção de Rodrigo Portella) (Foto Divulgação) 

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
      Depois de assistir Tom na Fazenda, no Rio de Janeiro, fiquei intrigada com o olhar do diretor Rodrigo Portella, e resolvi assistir  Alice mandou um Beijo, do qual ele é autor e diretor. Em "Alice...", Portella resolveu lembrar momentos de sua infância em Três Rios (RJ), e estabelecer o seu texto. Interessante notar que ele, Rodrigo, não se transforma em personagem saudoso, ou magoado, relembrando um tempo. Muito pelo contrario, o que podemos observar em seu texto é apenas a observação de uma família do interior, com suas peculiaridades.  
     Como sabemos, há famílias e famílias. No caso de Rodrigo, há o aporte de um de seus membros ser "anormal em excesso", possuindo um defeito difícil de ser combatido, um autismo de grau elevado... e ativo! - (excelente desempenho de Luan Vieira). Em vista da "anormalidade" de Roberio (Luan), todos os outros membros da família se sentem magníficos, tentando colaborar para o seu restabelecimento.
     Ora, o fato de os membros da família se sentirem normais deixa-os livres para interferirem na "normalização" do menino. Este movimento em torno de Roberio vem a ser a "costura" da peça, tornando-se (o movimento)  obsessivo. Mas quem já não presenciou obsessões até nas famílias mais sensatas? Conviver não é fácil, daí o óbvio.
     Mas Roberio sabe nos surpreender, e a cena final "se rebelando contra a chatice da família ao querer dar-lhe "festa de aniversario", é muito boa. Embalado na tentativa de compreender o menino está seu tio postiço Oswaldo - viúvo de Alice - (interpretado pro Ricardo Gonçalves).
     O elenco é excelente, sutil em sua loucura, pois sem essa qualidade - a sutileza louca, diabólica! - a peça não se sustenta. Não que ela não seja boa, que sua escrita não tenha qualidade - tem - mas o assunto já foi explorado de diversas maneiras. Aliás, as historias são sempre as mesmas, o que as diferem umas das outras é a sua maneira de contá-las. Ponto para Rodrigo.
     Sigamos: há Jandira (Suzana Nascimento), nos matando com aquela sua disposição de ser vítima. Há a "hiena" Oneida (interpretada por Vivian Sobrinho), que é destinada a se dar bem na vida (será?). E, por último, mas não menos presença forte, Marcos Árcher, interpretando o pai. Nenhum dos atores perde a medida do que está fazendo, dizem que isso é mérito da direção, deve ser, porque Rodrigo Portella deixa a sua marca. E há a cena da água, uma delícia, onde tudo se acalma. E há a cena do giz, que a tudo desloca.

     Devemos acrescentar que, como escrita teatral, o texto de Portella serve ao que se propõe. E temos uma ficha técnica excelente: Trilha Sonora de Leo Marvet. Iluminação Renato Machado. Figurinos (atuais) de Daniele Geammal. Cenografia (uma sala de jantar "tipique"), de Raymundo Pesine e Rodrigo Portella. Produção Executiva: Maria Albergaria. Assessoria de Imprensa: Catharina Rocha.