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terça-feira, 16 de março de 2021

VACA MALHADA DE HEMATOMAS


V A C A   M A L H A D A  D E  H E M A T O M A S

POESIA

IDA  VICENZIA

(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)

(Especial)


P O E S I A S   D E   S T E L L A   S T E P H A N Y

A poeta descendente de iranianos, nascida por acaso na Bahia (Salvador) -  foi ainda um bebê para  o  Rio – onde  viveu  até  se  tornar a  poeta  que  surpreende  em  seu  primeiro livro.

Seus pais?

Vindos do Oriente Médio... Aida  e  Frederick.

Ela, cantora de Ópera, virou dona de casa, no Brasil. Ele, violinista - o “Turquinho” da orquestra, no Brasil...

Diz Stella sobre o pai, Frederick Stephany: “Camaleão poliglota de sete línguas: português, iraniano, armênio, italiano, inglês espanhol...  Lugares por onde passaram, em alguns deles viveram, suas línguas, aprendeu-as”.

AIDA STEPHANY, a mãe de Stella,  era uma mulher cheia de segredos... Dez anos viveu com o pai de Stella, na Itália...  e depois veio  para o  Brasil. E aí começou a Historia de  Stella Stephany.

Seu livro,  VACA  MALHADA  DE  HEMATOMAS -  já começa a surpreender,  desde seu  título, cuja capa Carcarah desenhou, e batizou de “ Fim de Tarde na Cidade”.  Linda capa.

Vocês conhecem “Carcarah”, pois não? Trata-se de Henrique de Macedo  Figueiroa, ilustrador e produtor premiado.  Lembram  dele?

Pois bem, este começo já promete. Depois Mario Bortolotto fez a orelha do livro, onde o diretor de teatro e dramaturgo diz coisas assim:

“Ela se derrama despudorada esmiuçando o cotidiano de uma mulher escandalosamente contemporânea  que  prefere  deixar “o rabo de fora”.   

Mas será só isso?

Meu Deus, como existe uma poeta assim, em pleno Século XXI, andando ao nosso lado na rua... nos teatros... e tendo Clarice Lispector para lhe abrir as portas?!

 “Escrevo porque não me entendo” – diz Clarice,

... e Stella assina embaixo. E  nos brinda, já  de  saída, com  sua remota idade de 150 Anos:

“Já fui muito velha” – nos diz Stella em seu poema de abertura de VACA MALHADA

 

É  T AN T A  C O I S A

(no poema)

150 ANOS


Já fui muito velha.

Tive 150 anos.  Foi  quando  meu  pai  morreu. Enruguei   toda...

 

(... e assim Stella caminha  - apesar das dores...  -  até chegar  aos  17 anos.  Mas não é essa a sua idade cronológica!... é  a do  poema!


É  T AN T A  C O I S A

(no poema)

150 ANOS


Já fui muito velha.

Tive 150 anos.  Foi  quando  meu  pai  morreu. Enruguei   toda...

 

Mas tudo se aproxima, para  nós  seus   leitores,  quando Bianca Ramoneda se  pergunta:

“ P o r q u e   e s c r e v e r  s o b r e   a l g u é m  s e   esse  p r ó p r i o  a l g u é m  –  c o m   seu  talento  e  força –, é  plenamente   capaz  de dizer  sobre  si  o  que  quer  que  seja?”

E  Bianca  Ramoneda  (Editora de Conteúdo de Vaca Malhada), nos adverte que se trata de um livro para adultos.

________________________________

 

A POETA DIZ QUE ESTÁ EM

TRANSIÇÃO

(E  se  apresenta):

 

Estou em processo de transição Stellar.

 Parei com os alisantes de comportamento. 

Não aceito mais

nenhum  relaxamento dos meus desejos

nenhum  redutor  dos  meus  volumes.

 

(e mais adiante...)

 

Não  sou  mulher  de  puxa  e  estica

tenho  minhas  crespices.

________________________

 

e... para “seu rei” ela adverte, lá no final:

 

FRUTO  MOFADO

Saudade de você, rei.

Da tua quentura

Em cima de mim

Suor  festivo  que

Você  me  rouba.

 

Você me conserta.

_________________

Será  o  grito  de  amor  da  poeta?

( Mas não procuremos historias... é POESIA!)

Trata-se de uma poeta  que deixa  seu feminino  aflorar, se desnudar...

E ela desnuda,  sem  constrangimento ,  o seu amor!

Poésie  à  clef?

____________________________

 

A  poeta nos encaminha para o fim do livro em...


ENTÃO É ISSO

MIRAGEM

 

Nestes 56 anos morri muitas vezes.

Nasci outras tantas

Empurrando a terra com muita força.  

(...)

O horizonte

continua a caminhar conosco.

O resto é vento no rosto.

_________________________

  

E  Stella  já  advertiu,  no início: 

(É  um  GOSTO ....  N Ã O  G O S T O)

 

É TANTA COISA     

 

Não  gosto  de  comedoria...

Gosto  de  pas-de deux... de  terceiro  sinal... cheiro  de  coxia!

 Gosto  de  poesia...

_______________________

... e o Girassol ?  

 

MARGARIDA  DOIDA

 

O girassol é uma beleza.

Às vezes me dá  um  pouco  de  medo  dele.

Do  seu  gigantismo  inesperado

da  sua  alegria  esbugalhada

margarida  doida  que  cresceu  sem  pedir  licença.

Igual  a  Alice  não  cabendo  mais  no  salão  das

portas  depois  do  beba-me.

Igual  a  uma  viagem  lisérgica.

Amarelona.

(...)

Hipertrofia

alegoria  da  alegria

flor  expressionista

conspiração  de  faces  redondas

(...)

Tipo  complô.   

______________________

 

E...

NO  ESCURO

 

VACA  MALHADA

 

(...)

Risco.

Arrisco

trombar  em  qualquer  canto

derrubar  alguma  coisa  muito  delicada

quebrá-la   até.

Cair, cortar, sangrar, arder

pode.

 

Posso

sair  daqui

vaca  malhada

de  hematomas.


Tenho  sede  de  expedição.

 

(...)

Até  que  tudo  mude  de  lugar

mais  uma  vez.

E  eu  comece  tudo  de  novo

mais  uma  vez.

E   outra.   E  outra.

_______________________

 

Por favor...

 

U M   C O P O   D’ À G U A,   P O R    F A V O R

( AS  FRASES  A  SEGUIR  SÃO  IMPRESSÕES  DA  RESENHISTA...)

 

A hora   do  desfecho,

A  secura,  a  faca

E o  estilhaço  de  vidros...

está  recomeçando!

 

(Afinal, o que está recomeçando?)

 

  Encerramos  com  o  genial :

 

             P L Á G I O

(IN  THE  NAME  OF  LOVE)

 

O  que será que me dá

Que brota à flor da pele

E que me sobe às faces

E  me  faz  corar

(...)

It’s  only love and that is all

Why should I fell the way I do

It’s only love and that is all

But  it’s  so  hard  loving  you

 

Eu te amo calado

Como quem ouve uma sinfonia

Porque meu coração dispara

Quando tem o seu cheiro 

Dentro de um livro

Dentro da noite veloz

 

Me conta agora como hei de partir

Se ao te conhecer dei para sonhar

Fiz  tantos  desvarios

Rompi  com  o  mundo

queimei  meus  navios

me  diz  pra  onde  é  que  inda  posso  ir

meu  sangue  errou  de  veia  e  se  perdeu

ne  me  quitte  pas

 

 

And, in  the  end

The  love  you  take  is  equal  to  the  love  you  make

I  love  U2

 

Minha playlist é um samba de uma nota só.

 

Diz a poeta, e explica que estas são...

(estrofes amorosamente roubadas de Chico Buarque, Rita Lee, Lennon & McCartney, Adriana Calcanhoto, Lulu Santos, Jacques Brel, U2)

 

 

É  tão difícil ser poeta!  Stella é...

 

(Mais  algumas  palavras  sobre  VACA  MALHADA):

 

Trata-se de uma criação que poderíamos “novoapelidar” de poésie à clef ? ... sendo o claro propósito da autora se colocar como personagem? 

Refleti um pouco mais e cheguei à conclusão que a poesia de Stella não é à clef... é escancarada 

mesmo! Como a literatura de Clarice Lispector, como a poesia da polonesa Wislawa Szymborska! 

Podemos, sim, dizer - com certa irreverência -, que Stella Stephany, em seu livro se refere, em quase 

todos os poemas, a uma experiência de vida... que é a sua! 


Podemos dizer a seu respeito o que Clarice Lispector dizia, ao se referir a sua própria experiência de 

vida: “escrevo-te porque não me entendo. É um tal mistério essa floresta onde sobrevivo para ser.”

 

A arte de Stella se concretiza em...

 

 UMAS  PESSOAS  L E G A I S

(primeiro final do livro, que se compõe de três finais:

 

UMAS PESSOAS  LEGAIS

ENTÃO É ISSO

E...

DEPOIS DO FIM

 

Mas antes vem...

O  RABO  DE  FORA

         com

 

(IN)VASÃO

 

Quero

frequentar a tua casa

comer da tua comida

vestir a tua camisa

assistir à tua Netflix

deitada na tua cama.

 

Quero

te abusar  

me lambuzar.

 

Quero

o fígado acebolado

da dona

do seu quadrado.

 

Em  UMAS  PESSOAS  LEGAIS

Stella  fala  em  seu  pai,  sua mãe,  sua avó:

Frederick  Habib   Stephany, o pai músico.

Aida – a mãe  (porque o avô de Stella gostava de ópera). Aida, ela também cantora de ópera no Teatro San Carlo, em Nápoles

... e sua avó ...

Parkuhi Hovnanian, iraniana e armênia – amante de gatos... como Stella! De cabelinho na venta – como Stella!

Em seu primeiro livro Stella sai à procura de si mesma.

Virão outros?

É tudo tão definitivo em Stella.

Ela já se encontrou.

Sofre com a poesia?

Não.

Alvíssaras! 

Permaneça conosco, Stella!

ATÉ MAIS VER! 

 

companheira  fiel
                                    Stella  Stephany doce....  

 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O ANJO DO APOCALIPSE

 

IDA VICENZIA

(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)

(Especial)

O ANJO DO APOCALIPSE 

O Professor Clovis Levi, a quem podemos chamar de o Dramaturgo Clovis Levi, acaba de nos apresentar uma obra prima sobre o início dos tempos, sobre os caminhos da Bíblia, desde o Antigo Testamento até os nossos dias! O texto chama-se “O Anjo do Apocalipse” e mostra como as religiões, que vieram para “religar” os humanos, podem se constituir em um engenho de destruição! Conheçam “O Anjo do Apocalipse” e reconheçam a força da palavra como o nascedouro de todas as desgraças! Para o autor – estremeçam! – tudo começou no Oriente Médio, e tudo vai acabar no Oriente Médio! Mas tudo não é tão simples assim. Este Anjo vai nos dar a conhecer a força do “Deus dos homens”.  

     E Deus existe, afinal?

     Vamos retroceder aos templos bíblicos (e saímos deles?), e tentar entender tudo o que acontece no Teatro Ipanema  quando alguém, com visão, resolve contar a verdadeira saga do Oriente Médio, ONDE TUDO COMEÇOU, E ONDE TUDO VAI ACABAR!

     E vamos falar das três religiões que continuam a comandar o mundo: vamos falar como aconteceu o Judaísmo, o Cristianismo e a Revolução Muçulmana. Que lugar complicado, esse tal de Oriente Médio! Como foi que tudo aconteceu mesmo?

     “O Anjo do Apocalipse”, texto de Clovis Lei, é um estudo aprofundado (e poético) que tem por finalidade nos relatar os caminhos da religião também nos tempos atuais e ocidentais (sim, porque não podemos negar que o Ocidente está metido até o pescoço neste embrulho cósmico!), mas, o que para o Ocidente talvez fosse um estudo sobre as religiões, transformou-se, para Levi, em Teatro, Dramaturgia, Drama!  Diz o autor que o texto surgiu em 2008, e sua intensão era escrever um livro, mas tal não aconteceu, e, o que vemos agora é um texto incisivo, irônico, que se debruça sobre a saga humana, onde a religião é o fator determinante. O que pode acontecer agora é você ir até o Teatro Ipanema (sempre ele, com historias pontuais, como nos tempos de Rubens Correa!), e pensar um pouco sobre o  desvario dos homens neste Planeta Terra, e como tudo isso acabará.

     Tentemos entender agora um pouco do que aconteceu no lendário Teatro Ipanema, nesta estreia de 2019!

     O texto se desloca, e atinge os últimos acontecimentos, os do Século XXI. EUA, RUSSIA, e os povos do Oriente Médio continuam, agora, tão envolvidos como o foram os povos antigos, em milênios passados! O estudo começa com o início dos tempos religiosos (sobre a saga dos Orientais, bem entendido) e mostra-nos como o DEUS, exuberante e bíblico, comanda seus protegidos DESDE SEMPRE: ou seja, desde tempos imemoriais até os nossos dias! Aprendam como se conta essa historia, com Clovis Levi no texto ... e Marcus Alvisi na direção!

     Tempos imemoriais. Tempos do Anjo Guerreiro, o Mensageiro, com sua Espada de Fogo. Ele é o Querubim, o que comanda todas as milícias (interpretado com “carisma e humor” por Marcello Escorel). Como diz seu criador, na peça, Clovis Levi, o ator que vai desenvolver este personagem tem que ser carismático, e o papel foi entregue a Marcello Escorel. O Anjo Guerreiro se apresenta: “...sou o Querubim  mais prestigiado das milícias celestiais, cargo que ocupo há três milhões e meio de anos...”

     Ficamos imaginando, no decorrer da narração de toda essa Historia Celestial, como era poderosa a imaginação dos homens antigos... e como ela permanece poderosa, cada vez mais poderosa! Senão vejamos: O Anjo avisa Abraão, a mando de Deus (e uma voz poderosa se faz ouvir, a voz de Deus, comandando Abrão): “Sai-te da tua terra para a terra que te mostrarei. E far-te-ei uma grande Nação”. (O Querubim observa, com júbilo, as “ênclises” e “mesóclises” com que Deus fala, e acrescenta para o público): “Essa Terra Prometida vocês não tem noção da ma-ra-vi-lha que vai ser”. E Deus continua, com seu vozeirão: “Esta terra, Canaã, onde jorrará leite e mel, mais tarde chamar-se-á Palestina”.... E aí começa o rolo todo que vocês conhecem, que culmina com 1948 e a criação do Estado de Israel, e por aí vai! Só vendo, para crer! NÃO PERCAM!

     Além da prestigiada interpretação do Anjo, de Marcello Escorel, o “Anjo Guerreiro”, temos mais dois atores, que interpretam a mulher palestina Zahra e o judeu Eliakim, em diversos momentos da historia humana daquela região (que reflete a nossa Historia, é claro!), e vai tocar na nossa insensatez eterna! Bravos Zahra (Juliane Araújo) e Eliakim (Daniel Dalcin)! Um elenco tão verdadeiro e competente consegue concretizar o que é lido no (agora) texto teatral de Clovis Levi. Alguém poderia imaginar que este professor tranquilo e acolhedor carregasse dentro de si o Aristóphanes dos tempos modernos?! E que seus personagens, que tudo possuem, matassem e morressem, como diz Zahra, com o ódio que nem ela entende?  “Essa é a minha terra, diz Zahra, e é por ela que eu mato, é por ela que morro.”

     Para resumir a situação, temos um dramaturgo entre nós! Ele possui a bela e terrível compreensão do que está acontecendo, e do que sempre aconteceu, neste mundo que nos cerca. E, no Teatro Ipanema, graças à conjunção de vários fatores, entre eles o acerto do convite a este diretor maravilhoso que é Marcus Alvisi (imaginamos que, sem ele, talvez essa historia não seria contada com tanta precisão), temos profissionais de primeira qualidade transformando o que “pensávamos ser impossível levar à cena”, em um espetáculo simples e fluente, como é a narrativa inacreditável dos primeiros tempos da humanidade. O que vemos no palco se transforma, a todo momento, nas mãos dos magos que são Clovis Levi, Marcus Alvisi, João Dias (e nos perguntávamos como seria colocar a Palestina no Palco!), e Aurélio de Simoni  (essa luz que Deus lhe deu, e que ele considera “bobagem”!)

     Temos ainda a trilha sonora criada por Alvisi e Joel Tavares, assistente de direção. Temos as asas do anjo da atriz e aderecista Maria Adelia e vemos, no final, um sóbrio Querubim Marcello Escorel. Ficamos nos interrogando o porquê de tanta sobriedade, e o Anjo do Apocalipse rememora: “Quando escrevi o Apocalipse, milênios atrás, o que eu via era o número sete. No Oriente Médio sete países acabaram de entrar em guerra. O que se vê, agora, em toda a Terra, é a Cólera de Deus, muito choro e um interminável ranger de dentes”.

     Porém, o Anjo Apocalíptico tem esperança, e conclui:

     “Em algum tempo ainda muito distante, descerá dos céus uma Cidade Nova – uma santificada Jerusalém. Mas, até lá, a voz de harpistas, a voz de violinos, a voz de tocadores de flautas e de clarins, jamais, jamais em ti se ouvirá.” (...)

     Neste texto de Clovis Levi o que ocorre é a constatação da loucura humana, e também a facilidade de fabulação que o ser humano possui. E o autor conclui que, nesta Historia da Santidade, o Vaticano também entra na dança..., e nos leva a pensar, novamente, naqueles tempos de Luxo, Riqueza, Corrupção, INQUISIÇÃO! Tudo igual, em termos de destruição! Eis uma peça que nos leva ao raciocínio e à compreensão do desatino que está sendo a nossa passagem por este nosso tão amável Planeta Terra!

     NÃO  PERCAM  CLOVIS  LEVI. Ele possui várias peças escritas e encenadas, mas o verdadeiro dramaturgo está aqui, com todas as letras, assinando a este nosso “O Anjo do Apocalipse”!    

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

 

IDA VICENZIA

(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)

(Especial)

O ANJO DO APOCALIPSE           

O Professor Clovis Levi, a quem podemos chamar de o Dramaturgo Clovis Levi, acaba de nos apresentar uma obra prima sobre o início dos tempos, sobre os caminhos da Bíblia, desde o Antigo Testamento até os nossos dias! O texto chama-se “O Anjo do Apocalipse” e mostra como as religiões, que vieram para “religar” os humanos, podem se constituir em um engenho de destruição! Conheçam “O Anjo do Apocalipse” e reconheçam a força da palavra como o nascedouro de todas as desgraças! Para o autor – estremeçam! – tudo começou no Oriente Médio, e tudo vai acabar no Oriente Médio! Mas tudo não é tão simples assim. Este Anjo vai nos dar a conhecer a força do “Deus dos homens”.  

     E Deus existe, afinal?

     Vamos retroceder aos templos bíblicos (e saímos deles?), e tentar entender tudo o que acontece no Teatro Ipanema  quando alguém, com visão, resolve contar a verdadeira saga do Oriente Médio, ONDE TUDO COMEÇOU, E ONDE TUDO VAI ACABAR!

     E vamos falar das três religiões que continuam a comandar o mundo: vamos falar como aconteceu o Judaísmo, o Cristianismo e a Revolução Muçulmana. Que lugar complicado, esse tal de Oriente Médio! Como foi que tudo aconteceu mesmo?

     “O Anjo do Apocalipse”, texto de Clovis Lei, é um estudo aprofundado (e poético) que tem por finalidade nos relatar os caminhos da religião também nos tempos atuais e ocidentais (sim, porque não podemos negar que o Ocidente está metido até o pescoço neste embrulho cósmico!), mas, o que para o Ocidente talvez fosse um estudo sobre as religiões, transformou-se, para Levi, em Teatro, Dramaturgia, Drama!  Diz o autor que o texto surgiu em 2008, e sua intensão era escrever um livro, mas tal não aconteceu, e, o que vemos agora é um texto incisivo, irônico, que se debruça sobre a saga humana, onde a religião é o fator determinante. O que pode acontecer agora é você ir até o Teatro Ipanema (sempre ele, com historias pontuais, como nos tempos de Rubens Correa!), e pensar um pouco sobre o  desvario dos homens neste Planeta Terra, e como tudo isso acabará.

     Tentemos entender agora um pouco do que aconteceu no lendário Teatro Ipanema, nesta estreia de 2019!

     O texto se desloca, e atinge os últimos acontecimentos, os do Século XXI. EUA, RUSSIA, e os povos do Oriente Médio continuam, agora, tão envolvidos como o foram os povos antigos, em milênios passados! O estudo começa com o início dos tempos religiosos (sobre a saga dos Orientais, bem entendido) e mostra-nos como o DEUS, exuberante e bíblico, comanda seus protegidos DESDE SEMPRE: ou seja, desde tempos imemoriais até os nossos dias! Aprendam como se conta essa historia, com Clovis Levi no texto ... e Marcus Alvisi na direção!

     Tempos imemoriais. Tempos do Anjo Guerreiro, o Mensageiro, com sua Espada de Fogo. Ele é o Querubim, o que comanda todas as milícias (interpretado com “carisma e humor” por Marcello Escorel). Como diz seu criador, na peça, Clovis Levi, o ator que vai desenvolver este personagem tem que ser carismático, e o papel foi entregue a Marcello Escorel. O Anjo Guerreiro se apresenta: “...sou o Querubim  mais prestigiado das milícias celestiais, cargo que ocupo há três milhões e meio de anos...”

     Ficamos imaginando, no decorrer da narração de toda essa Historia Celestial, como era poderosa a imaginação dos homens antigos... e como ela permanece poderosa, cada vez mais poderosa! Senão vejamos: O Anjo avisa Abraão, a mando de Deus (e uma voz poderosa se faz ouvir, a voz de Deus, comandando Abrão): “Sai-te da tua terra para a terra que te mostrarei. E far-te-ei uma grande Nação”. (O Querubim observa, com júbilo, as “ênclises” e “mesóclises” com que Deus fala, e acrescenta para o público): “Essa Terra Prometida vocês não tem noção da ma-ra-vi-lha que vai ser”. E Deus continua, com seu vozeirão: “Esta terra, Canaã, onde jorrará leite e mel, mais tarde chamar-se-á Palestina”.... E aí começa o rolo todo que vocês conhecem, que culmina com 1948 e a criação do Estado de Israel, e por aí vai! Só vendo, para crer! NÃO PERCAM!

     Além da prestigiada interpretação do Anjo, de Marcello Escorel, o “Anjo Guerreiro”, temos mais dois atores, que interpretam a mulher palestina Zahra e o judeu Eliakim, em diversos momentos da historia humana daquela região (que reflete a nossa Historia, é claro!), e vai tocar na nossa insensatez eterna! Bravos Zahra (Juliane Araújo) e Eliakim (Daniel Dalcin)! Um elenco tão verdadeiro e competente consegue concretizar o que é lido no (agora) texto teatral de Clovis Levi. Alguém poderia imaginar que este professor tranquilo e acolhedor carregasse dentro de si o Aristóphanes dos tempos modernos?! E que seus personagens, que tudo possuem, matassem e morressem, como diz Zahra, com o ódio que nem ela entende?  “Essa é a minha terra, diz Zahra, e é por ela que eu mato, é por ela que morro.”

     Para resumir a situação, temos um dramaturgo entre nós! Ele possui a bela e terrível compreensão do que está acontecendo, e do que sempre aconteceu, neste mundo que nos cerca. E, no Teatro Ipanema, graças à conjunção de vários fatores, entre eles o acerto do convite a este diretor maravilhoso que é Marcus Alvisi (imaginamos que, sem ele, talvez essa historia não seria contada com tanta precisão), temos profissionais de primeira qualidade transformando o que “pensávamos ser impossível levar à cena”, em um espetáculo simples e fluente, como é a narrativa inacreditável dos primeiros tempos da humanidade. O que vemos no palco se transforma, a todo momento, nas mãos dos magos que são Clovis Levi, Marcus Alvisi, João Dias (e nos perguntávamos como seria colocar a Palestina no Palco!), e Aurélio de Simoni  (essa luz que Deus lhe deu, e que ele considera “bobagem”!)

     Temos ainda a trilha sonora criada por Alvisi e Joel Tavares, assistente de direção. Temos as asas do anjo da atriz e aderecista Maria Adelia e vemos, no final, um sóbrio Querubim Marcello Escorel. Ficamos nos interrogando o porquê de tanta sobriedade, e o Anjo do Apocalipse rememora: “Quando escrevi o Apocalipse, milênios atrás, o que eu via era o número sete. No Oriente Médio sete países acabaram de entrar em guerra. O que se vê, agora, em toda a Terra, é a Cólera de Deus, muito choro e um interminável ranger de dentes”.

     Porém, o Anjo Apocalíptico tem esperança, e conclui:

     “Em algum tempo ainda muito distante, descerá dos céus uma Cidade Nova – uma santificada Jerusalém. Mas, até lá, a voz de harpistas, a voz de violinos, a voz de tocadores de flautas e de clarins, jamais, jamais em ti se ouvirá.” (...)

     Neste texto de Clovis Levi o que ocorre é a constatação da loucura humana, e também a facilidade de fabulação que o ser humano possui. E o autor conclui que, nesta Historia da Santidade, o Vaticano também entra na dança..., e nos leva a pensar, novamente, naqueles tempos de Luxo, Riqueza, Corrupção, INQUISIÇÃO! Tudo igual, em termos de destruição!

     Eis uma peça que nos leva ao raciocínio e à compreensão do desatino que está sendo a nossa passagem por este nosso tão amável Planeta Terra! NÃO  PERCAM  CLOVIS  LEVI. Ele possui várias peças escritas e encenadas, mas o verdadeiro dramaturgo está aqui, com todas as letras, assinando a este nosso “O Anjo do Apocalipse”!                    

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

 

IDA VICENZIA – CRITICA DE TEATRO

(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)

MATÉRIA ESPECIAL:

“LUGARES QUE O DIA NÃO ME DEIXA VER”


                                             João Fernandes, artista criador da Cia. de Idéias.

                                                                Casarão de Idéias


João Fernandes e o seu Casarão de Idéias:

... Eis que João Fernandes, artista cearense radicado em Manaus, acaba de nos proporcionar, em 2020, um belo "livro-revista" com fotos destacando aspectos de uma Manaus fantasma, desaparecida, nos idos do século XIX... O artista preenche a solidão dos casarões abandonados com a sua imaginação!

Trabalhando com Fernandes estão Jeyder e Wagner Eleutério, os técnicos de luz que dão a dimensão da beleza daqueles lugares...e também uma equipe de fotógrafos: Bruno Bastos, Ruth Jucá, Marcus Pessoa e Carlos Navarro, possuidores de grande sensibilidade.

João Fernandes é uma personalidade cultural da cidade. Já foi Coordenador Pedagógico do grupo de dança da Faculdade de Manaus (UEA), e também pertenceu a equipe de criação do Curso de Teatro desta Faculdade. Sua experiência cultural é cercada por  invejável currículo (tem mais, muito mais), porém, a mais importante de suas qualidades – sem desmerecer as outras - é a sua alma de artista.

Graças a sensibilidade de Fernandes temos um trabalho, requintado, sobre os tempos idos da borracha. Quem folheia com cuidado o seu livro adquire uma necessidade interior de ver todas aquelas maravilhas - agora em colapso - novamente erguidas!

                                    A  ANTIGA  ARQUITETURA  DE  MANAUS

O livro de João Fernandes -  “Lugares que o dia não me deixa Ver” - editado com a cooperação da Prefeitura da Manaus, nos leva a imaginar a reconstrução daquilo que foi tão belo! Para os amazonenses a abandonada arquitetura é o “Centro Histórico de Manaus”, mas para quem a visita - como é o meu caso - é a História de Manaus que está retratada nestes caminhos que dominam a cidade. Temos a impressão, neste primeiro contato com sua arquitetura do século XIX, que realmente se trata de uma cidade do passado, ou que ficou desta cidade (abstraindo os tão conhecidos Teatro Amazonas, o Mercado Municipal e outras obras que a caracterizam), o destaque que o autor dá a seu livro é de outra natureza. Peço licença para informar que, para mim, a Manaus de hoje está cada vez mais parecida com Miami,  suas estradas a desembocar em bairros repletos de edifícios modernos e shopping centers. Ai de quem não tiver carro! Só se salva a parte antiga de Miami. 

Mas isto não nos interessa, o que nos empolga é a súbita visão de uma Manaus que já não existe mais. E é o que descobrimos no livro de Fernandes: a verdadeira Manaus anda perdida, já não prestamos atenção ao que nos rodeia, não valorizamos este estranho encontro que vislumbramos a partir do livro de Fernandes. Somente olhando a cidade com os "olhos noturnos" do autor percebemos o lugar que nos acolhe com tanta beleza, seu olhar nos abre o caminho do passado, que acabou por se tornar tão misterioso! Olhemos algumas fotos, vale a pena guardá-las com carinho, na memória e na biblioteca de nossas casas.

O Casarão também publica a revista Idéias Editadas (assim mesmo, com acento agudo na palavra Idéias), como costumava ser escrita no Brasil. A revista nasceu antes da entrada do Brasil no Novo Acordo da Língua Portuguesa entre Portugal e países da Língua Portuguesa. No Brasil o acordo só entrou em vigor em 2016, depois do lançamento da revista, realizado em 2011. E foi uma confusão! A própria Cecília Meireles, que faleceu em 1964, costumava dizer, em tom divertido, que estes acordos (e foram vários, enquanto ela viveu), sempre a levavam a estudar novamente o Português.

Na revista Idéias Editadas os artigos; entrevistas e a programação cultural da cidade estão nela publicadas. A revista sai de três em três meses; a próxima, se tudo der certo, sairá em dezembro de 2020. 

É preciso não esquecer que o casarão é um verdadeiro movimento cultural cuja raiz é a Cia. de Idéias, um grupo de Teatro e Dança fundado em 2005, que participa de festivais e organiza cursos, palestras, leituras dramáticas, exposições de artes plásticas, sessões de cinema, e possui uma biblioteca especializada que trabalha também com empréstimo de livros... além de disponibilizar de um bar com cafezinho e quitutes de primeira, que atraem artistas e visitantes. A revista é distribuída gratuitamente, para o público amante do teatro e para os artistas de Manaus. Idéias Editadas possui temas os mais variados, escritos por profissionais do ramo. No grupo do Casarão constatamos a presença, na revista,  de João Fernandes, Vitor Lima, Dyego Monnzaho, Wellington Junior, e, eventualmente, o crítico Jorge Bandeira - entre outros.          

Agora convido aos meus leitores para darem uma olhada nas fotos do livro-revista de João Fernandes, "Lugares que o dia não me deixa Ver", e ter uma dimensão do poder de comunicação deste artista. 

Vamos lá?

Booth Line (séc. XIX)



O Passado (séc. XIX) espreita os jovens que se manifestam ao longo 
do prédio da antiga Booth Line.



  
    Um prédio da época: Av. Getúlio Vargas esquina com a Rua Leonardo Malcher  

FANTASIA COM O PRÉDIO  DA  AVENIDA GETULIO  VARGAS  -  "FIGURAS DO PASSADO" (foto Produção)



                     CLOSE DO PRÉDIO E ILUMINAÇÃO DA EQUIPE DA CIA. DE  IDÉIAS 
                                             AV. GETÚLIO VARGAS - CENTRO DE MANAUS

Quem se interessou pela visão linda deste passeio por Manaus pode encontrar os seus criadores na sede da Companhia, localizada à Rua Barroso, 293 - Centro. 
(Tel: 92 - 3633-4008).