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terça-feira, 18 de setembro de 2018

" P R O C O P I O"




A imagem pode conter: 2 pessoas, pessoas sentadas
"Procópio", texto de Carla Faour, direção Dani Barros. Em cena Kadu Garcia e Paulo Giannini. (Foto Divulgação)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

Gostamos desta coisa meio Beckett que fala em “Decreto”, sem a gente saber direito do que se trata! Referimo-nos à última peça da dramaturga Carla Faour, “Procópio”, em cartaz no Sesc Copacabana. Há maneiras e maneiras de testar um acontecimento teatral. Podemos dizer que o acontecimento em questão se estabelece quando os dois moradores de rua se encontram, lutando pelo mesmo espaço... um velho prédio onde anteriormente funcionava o Teatro Procópio! Ideia ótima, essa, de trazer para o nosso palco um assunto tão vibrante e atual – a decadência da nossa cultura!

      Interpretados com galhardia por Kadu Garcia e Paulo Giannini, os dois personagens, radicalmente opostos, acabam entrando em sintonia. Os acontecimentos que se desenrolam naquele prédio em ruínas mexem com a alma da gente.  A direção é de Dani Barros, a nossa revelação de diretora. Não poderíamos estar melhor servidos.

     No texto, o problema que se estabelece de maneira subjetiva, e a partir das diferenças individuais (dos personagens), nos leva a um fascinante jogo de cena. A princípio pensamos que se trata de uma disputa por espaço, mas há algo, em um dos “contendores”, um componente humano que o diferencia de seu rival. São as famosas diferenças individuais que os dois talentosos atores jogam em cena. O lúdico é transformado em um processo envolvente de duas naturezas opostas. Emocionante. E não há, na plateia, quem não seja atingido pela mensagem final, quando o Artista (interpretado por Kadu), manifesta a sua natureza! Desde o momento em que a luz o ilumina, destacando a sua particularidade (que se manifesta, brincalhona e feliz desde o início - natureza típica da criança que levamos em nós!), conscientizamos estar na presença de um grande texto, e de um grande espetáculo. O final nos leva às lágrimas, pela sua delicadeza poética... e pela sugestão do que nos espera, se não tivermos sorte como País!

     Sim... nós sabemos que o teatro nunca vai acabar, sabemos que a sua magia permanecerá, ainda que os poderosos se manifestem contra o seu encanto. O tal “Decreto” visa calar a boca dos artistas. Mas, no final há um pronunciamento do personagem de Kadu, no qual ele cita os grandes nomes de nosso teatro e também os mais jovens e mais recentes, não esquecendo que o nome “Procópio” é uma homenagem a Procópio Ferreira... Muitos outros são homenageados! Há, também, na peça, uma referência atual sobre o abandono da nossa cultura. Nada mais perfeito. Salve Carla Faour!
     Trata-se de um espetáculo para ser prestigiado e conhecido por todos. Os que amam a Arte e o Artista, e os que virão a amá-los, pois, conforme diz o personagem de Kadu, nas palavras de Johann Wolfgang von Göethe, “A Arte Salvará o Mundo”!

     Ficha técnica muitíssimo bem escolhida: Cenário decadente de um futuro imaginado: Fernando Mello da Costa; Figurinos igualmente decadentes de Bruno Perletto! Iluminação do mestre Renato Machado. A música, cantada pelos dois atores é “Rosa”, de Pixinguinha, em homenagem ao nome, recuperado na lembrança, da esposa do personagem de Paulo. Não percam estes momentos lindos e poéticos de grandes artistas. Bravo!

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

"NOSSAS MULHERES"

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"Nossas Mulheres" - direção de André Paes Leme.
Em cena Isio Ghelman, Marcio Vito e Edwin Luisi. 
 (Foto Claudia Ribeiro)
 
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"Nossas Mulheres" Foto divulgação dos quatro atores que compõe o elenco:
Edmilson Barros
 (substituto de Marcio Vito),
Isio Ghelman, Marcio Vito e Edwin Luisi.
(Foto Nana Moraes)



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

     Eis que recomeçamos o nosso métier de críticos de teatro depois da hecatombe do “produtor” Luque Daltrozo. Jamais esquecerei este nome, não tem capacidade para administrar o grande Teatro Adolpho Bloch... Teatro é amor, especialmente distribuído pela produção entre as pessoas que se abalam de casa, nestes tempos difíceis de noites imprevisíveis, para assistir teatro! Aliás, no dia seguinte estaríamos enfrentando uma cirurgia, saímos de casa pelo fato de estarmos comprometidos com o presidente do Conselho de Cultura do Amazonas, que manifestou curiosidade em relação ao ótimo espetáculo Molière. Apesar de termos assistido da última fila, e de nossos problemas com os olhos, não nos retiramos indignados (e com razão), na hora da recusa do produtor, pois teatro é amor... Chegamos cedo para pegar bons lugares, mas fomos os últimos a sermos atendidos. Isto é Brasil! Dependemos das idiossincrasias de terceiros... Meu consolo é que este fiasco do “Sr” Daltrozo (que nome!), percorrerá o mundo. Sou lida na Europa e Estados Unidos (também...), graças à AICT.
     Mas passemos a “Nossas Mulheres”, produzido por Maria Siman, com seu conhecido e ótimo trabalho. Está de parabéns também o produtor do Teatro Ipanema, José Carlos Vedova. Faço minhas as palavras de um frequentador: “Um experiência única, pessoas agradáveis e gerencia de primeira linha”.   
      “Nossas Mulheres” está em cartaz no Teatro Ipanema até o dia 24 de setembro.  Não Percam! Trata-se do encontro de três amigos, Isio Ghelman (Paulo), Edwin Luisi (Max) e, no dia em que assistimos, Edmilson Barros (Simão) substituindo Marcio Vito. Trata-se de um jogo arriscado, pois os três atores oferecem uma situação cotidiana. O brilhante fica por conta de suas atuações. Aliás, o texto de Éric Assous, uma comedia do dia a dia tão ao gosto do paladar francês transforma-se, nas mãos de André Paes Leme (ótimo diretor), em um show em que o rei está nu, uma nudez que tenta se fazer entender. Não que os personagens sejam impenetráveis, eles são inacreditáveis!  
     Explico: no decorrer do espetáculo percebemos as lacunas que nos levarão ao final já esperado. Mas não nos precipitemos, no meio tempo entre o início da peça e seu final, muita coisa boa acontece, principalmente devido à boa interpretação dos três atores. (Dá vontade de assistir novamente, para ver Marcio Vito em cena, ator que muito prezo).
     Volto aos comentários: faz sentido, nestes tempos que correm, ouvir a palavra destes seres desconhecidos (para as mulheres) que são os maridos! Na peça de Assous há todo tipo de homem, menos o recém-casado amoroso, pois trata-se do encontro de amigos que estão casados há muitos anos, e o amor se transformou em rotina. Mas não desanimemos, a maneira com que os três amigos (principalmente Luisi e Ghelman) enfrentam a situação nos dá o prazer de assistir a um teatro que, não sendo cerebral, é essencial: os personagens estão vivos, e vivos estão os sentimentos que os três colocam em seu (re)conhecimento homem/mulher.
     A destacar, em termos de comedia (pois esta é a proposta) a dança rap de Edwin Luisi (que ator!); o “momento indignação” de Ghelman (outro ator excelente) quando constata que seu papel de pai pode ter consequências inimagináveis...  e o dead end a que chega Simão (Edmilson Barros), ao nos fazer perceber do que somos capazes  quando pressionados pelo infortúnio! E mais não posso dizer, pois esta peça não se resume aos bons momentos passados na companhia destes três atores, mas também age sobre a nossa consciência. Vale à pena assisti-la. Aliás, comedias inteligentes sempre são boas de assistir.
     A ideia foi da produtora Maria Siman em uma viagem a Paris, quando teve ocasião de conhecer o trabalho de Éric Assous, a atual coqueluche dos franceses, que adoram tratar assuntos-limite com a nonchalance de quem já enfrentou muitas ações desesperadas em suas vidas... tão desesperadas, que viram comédia!
     O cenário é o de uma sala de visitas de apartamento de solteiro (Max vive afastado de Magali, sua mulher). Ah, antes que nos esqueçamos, as mulheres só aparecem nos pesadelos destes meninos mimados... mas, o recado que deixam é da maior importância.   
     Pois bem, o cenário é de Miguel Pinto Guimarães; Figurinos do dia a dia, de Bruno Perlatto; Iluminação de Renato Machado e Trilha Sonora de Ricco Viana. Muito bom. A tradução (fluida e competente) é de Beatriz Ittah.  Há duas participações afetivas: a de Bianca Byinton na voz de Magali (mulher de Paulo) e a de Guilherme Siman, interpretando a voz do policial. Se vocês querem saber o porquê do policial, deem um pulo lá no Teatro Ipanema.  Eis o renascer da comedia à la Neil Simon. Não percam!   

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

"THE AND"

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

Isabel Cavalcanti no monólogo "The  And".
Direção de Isabel e
Claudio Gabriel

"Ah! Os Dias Felizes!" Ela sempre está à procura de sossego! (Foto Mauricio Maia)




    "THE AND", com direção de Isabel Cavalcanti e Claudio Gabriel. A tradução de textos de Samuel Beckett, e o caminho desta personagem interpretada por Isabel Cavalcanti, nos levam a ter uma visão do interior das pessoas que nos habituamos a ver morando nas ruas. Sempre nos perguntamos o que as leva a tal situação, e é claro que sabemos o que as leva a tal situação. Mas nunca, antes de assistir a esta peça, as entendemos como agora, com um simples olhar. Antes procurávamos apressar o passo para fugir ao espetaculo que nos era dado à revelia. Hoje tentamos entender a loucura da sociedade que gera tal anomalia. 

   A situação permanece. Sempre culpamos o “capitalismo selvagem”. Porém, quando nos deparamos com alguém como a personagem do THE AND, ficamos pensando sobre a vida que ela tem que levar. A personagem, vivida por Isabel Cavalcanti, nos leva à indagação sobre estas pessoas morando na rua. Além de termos a impressão de que conhecemos as suas almas, constatamos que entre estas personagens pode estar uma alma ingênua, uma sensível vitima de seus predicados... E constatamos ainda que, para viver decentemente temos que ser insensíveis. Mas isso está ficando um pouco à la Machado de Assis... Quem sou eu? Mas Machado entra na historia...
    
    O espetáculo nos faz pensar na situação das pessoas de rua. E então passamos a acreditar na falta de sorte da personagem, na sua ingenuidade, sua falta de defesa. E buscamos um AND ... e vamos encontrá-lo na sensível  Gelsomina, também uma personagem vítima de seus predicados. A heroína de “La Strada”, de Fellini, é uma frágil que se deixa levar pela sua inadequação para a vida. Mas Gelsomina se rebela, o que não acontece com a nossa personagem! São muitos os AND... mas os THE, facilmente identificáveis, são como os “vagabundos” de Beckett, sempre procurando entender o que lhes acontece, e sempre esperando algo que lhes modifique a vida!

     A nossa heroína tem um pouquinho dos dois, mas pode seguir ainda em sua procura, ad infinitum... Podemos reconhecê-la em diversos personagens, e podemos “ver”, através dela, muitas situações que antes nos passavam despercebidas! Sim, e esta experiência teatral é o desnudamento da alma de um ser que vive no abandono. Muitos já tentaram compreender este abandono radical, este renunciar a tudo, dos mendigos. Muitos pesquisadores da alma humana já tentaram, para compreendê-los, seguir o caminho dos filósofos. Será uma filosofia de vida, “este se negar”? Há um momento, no texto, em que a nossa heroína filosofa. Carregados de filosofia, estes “filósofos modernos” têm força para criticar o que os cerca. Há um importante momento na peça em que a nossa personagem constrói para si um refugio (um barril?). Há um bote abandonado, e ela descobre que não será mais surpreendida por bicho ou gente!
  
     Trata-se, mais uma vez, do AND na colocação do texto. Esta é a nossa leitura. Isabel Cavalcanti criou um texto que aceita várias leituras... e o AND circula, desenhando manifestações! Ele é o acréscimo, em nossa cultura. Temos Beckett e seus vagabundos: este é o THE, e temos também este ser ingênuo que é a personagem de olhar encantado e adormecido pelas negações, e que é acolhida por um outro olhar.  
Quem é este ser?

     Com Samuel Beckett, a autora vai deixando pistas pelo caminho... “aqueles” sapatos becketianos, aquelas roupas, aquele caos... e um de nossos cenógrafos preferidos – Fernando Mello da Costa – nos apresenta, desenhando a cena com seu olhar apocalíptico, nos apresenta o solo de Isabel, o jogo de Isabel, e acabamos por perceber os mendigos em sua volta, os mendigos filósofos das grandes cidades! E acabamos por perceber o clochard de Paris! Este AND... nos faz lembrar os estudantes da capital francesa, de como eles acompanham os mendigos, os "inadaptados, que vivem sem trabalho e sem domicilio", de como os estudantes sentam-se nas ruas a seu lado, e conversam com eles... Os jovens querem descobrir o que há dentro do cérebro destes seres distantes da sociedade! Mas não basta, para eles, os jovens, somente imaginar...

     Serão estes mendigos, incluindo a nossa personagem, alguma espécie renovada de Diógenes, morando em seu barril, procurando a luz, criticando a sociedade em que vive?
     
     A personagem criada por Isabel Cavalcanti também faz a crítica da sociedade atual e, tal como Diógenes, – ela procura o seu barril, para morar em um lugar onde as pessoas possam ficar sossegadas.

     E a personagem o encontra, transformando uma canoa abandonada em uma casa inventada por ela mesma, para lhe dar o aconchego tão procurado!    

      E como percebemos Isabel Cavalcanti, a atriz que personifica esta personagem? A atriz sai desta empreitada mostrando a sua grande sensibilidade. Desenhar uma renúncia, uma rejeição, algo que atormenta essa personagem tão excluída é, no mínimo, revelador. Passar  esta revelação para o público, na dimensão que a atriz da à personagem  é algo a ser respeitado. Não há tergiversação, não há princípio, nem há fim. A situação apresenta-se como sempre foi: uma poesia triste, melancólica, irreversível! (Muito raramente há um final feliz...). 

     Há uma cena em que a autora atriz consegue se sobrepujar. E esta cena  é a do porão, onde as pessoas, suas pernas, seus sapatos, passam, e ela se interessa pela vida daquelas pessoas que passam (meu Deus, já li esta passagem em  algum romance! Talvez seja em Dostoievski!). 

     Mais ainda: na sua ingenuidade e loucura, a personagem abre mão de sua segurança, para dar todo o dinheiro que lhe resta a alguém que se apresenta como detentora do poder, ou seja, como sendo a proprietária do porão em que a personagem passou a viver... em seu desejo de isolamento. Fabricamos a nossa própria vida – diz o principio aristotélico da tragédia – e podemos acrescentar: também fabricamos a a nossa própria loucura.


     Não é mais possível controlar a situação, e a nossa heroína cede ao seu destino. E ressurgem, neste momento, os sintomas da loucura... e este é um importante caminho para compreender o infortúnio desta personagem. Ela se entrega. Ela recebe os acontecimentos como algo que a assaltam, avassaladoramente.
     Isabel Cavalcanti vence com bravura todos os obstáculos colocados em seu caminho de atriz. Todos os obstáculos de sua personagem. E isso é o que podemos chamar de um grande desempenho.


     A personagem é acompanhada pela música de Fauré, na Direção Musical de Marcelo Alonso Neves, e temos assim, “casados”, um dos mais belos momentos do espetáculo, quando a mendiga enfrenta a sua falta de sossego, embalada pela música, a qual ela não escuta. Ela somente enfrenta os bichos (os piolhos) que a atormentam. Temos também a direção de movimento de Cristina Amadeo unida à direção musical de Marcelo Alonso Neves, tudo revelado pela mágica luz proporcionada por Renato Machado. E assim se transforma em beleza um momento tão revelador e desumano! 



     Temos também os figurinos, muito adequados, de Claudio Gabriel – o diretor desta obra tão bela – e de Isabel Cavalcanti. O design visual é de Sônia Barreto, e a tradução das citações de Beckett são de Isabel Cavalcanti. Com a  Produção Executiva de Ana Velloso e Vera Novello, da Lúdico Produções, o espetaculo desliza com perfeição.

     A idealização do espetaculo é de Claudio Gabriel e Isabel Cavalcanti. Podemos ver, na capa do programa da peça, uma alusão a “Dias Felizes”,  de Samuel Beckett (que ilustra também esta crítica), e no texto há várias citações do mesmo autor. Vale a pena conferir. Esta foi "A “Primeira Temporada do Espetaculo”. Ele irá voltar, brevemente. PRESTEM ATENÇÃO... E NÃO PERCAM! 


   

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

"HEIDENBERG - A TEORIA DA INCERTEZA"

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Everaldo Pontes e Barbara Paz em "Heidenberg - A Teoria da Incerteza", direção Guilherme Piva
(Foto Nana Moraes)
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

HEISENBERG – A TEORIA DA INCERTEZA

     Pois é. Aí surge uma atriz que é uma mistura muito peculiar de Marilyn Monroe e Leila Diniz; ela (Barbara)  coloca no chinelo as duas atrizes. Trata-se do fenômeno Barbara Paz, uma gauchita de Campo Bom (Vale do Rio dos Sinos, região alemã), há algum tempo radicada na Região Sudeste do Brasil, principalmente São Paulo e Rio. Pois Barbara mostra, para  cariocas, paulistas e quem mais vier, como é que se representa (disfarçando com uma alegria brutal) uma mulher desesperada! Aconselha-se a todos que amam teatro a não perderem Barbara Paz e “Heisenberg”, que vai nos deixar no próximo dia 26 de agosto. Não temos a mínima ideia para onde irá este espetáculo puro sangue.

     Outro grande ator, que se propõe a lembrar a quem assiste teatro como se deslocam grandes personagens é Everaldo Pontes. Dele falaremos depois de apresentar  Simon Stephens, criador de “Heidenberg”. O dramaturgo inglês e sua inesperada criação (ele também é professor da “Young Writers for Theatre”, de Londres), nasceu em Manchester, cidade de onde partem grandes gênios...  

     E o mérito também é, e diria principalmente, de Guilherme Piva, surpreendente diretor. Estamos atirando tapetes vermelhos porque Piva surpreende como diretor. Talento puro. Piva desenvolve “naturalmente” o trabalho com seus atores. Quando assistimos a este desregramento de emoções ficamos suspensos para alcançar ao seu desdobramento até o final insuspeitado.

       E voltamos ao ator que acompanha Barbara Paz: Everaldo Pontes. Ele é paraibano. Só uma observação:  Antonio Abujamra considerava os atores vindos do Nordeste com algo muito diferenciado em sua interpretação. É o que podemos presenciar neste espetáculo.

     Os dois atores nos contam a historia de um desencontro ... fatal? Ao externar as mudanças na alma “daqueles dois”, somos levados a uma completude raramente encontrada em uma simples troca de afetos. Trata-se da presença de algo insondável. Talvez a presença da morte. Na verdade a peça é um circunlóquio sobre a morte.

     Esta não é a primeira vez que Simon Stephens é encenado no Brasil. Sua estreia foi em São Paulo, com “Punk Rock”. Quando Solange Badim tomou conhecimento do dramaturgo quis encená-lo no Rio. Guilherme Piva aderiu ao espetáculo. A tradução e adaptação da peça é de Badim.

     Tudo parece se unir para levar a situações construídas passo a passo. Os dias vão se sucedendo, os acontecimentos vão se desenvolvendo através de um dialogo febril, e logo os dois estão envolvidos, irremediavelmente. Há momentos tensos, e momentos  amorosoS, deixando desprotegidas as certezas dos envolvidos.

     A peça quer-se como um grande movimento em direção à vida. Porém, os dois personagens são envolvidos pelo inesperado, algo que costura relações mal definidas. Há doçura e desespero, e há um só caminho: a vida. Porém “é impossível determinar subitamente a posição e a velocidade de um elétron” – que domina a vida. E Simon Stephens nos coloca a questão: Quem é “Heisenberg”? E ele mesmo nos responde:  É o cientista que desenvolve “o princípio da incerteza”: é a Ciência decidindo as nossas vidas.   

      A este destino ninguém pode fugir. Não sabemos em que direção caminha o teatro, se há fatalismo, ou cientificismo em toda esta questão, o fato é que a  coreógrafa Marcia Rubin ficou encarregada dos movimentos de Barbara Paz e Everaldo Pontes, e nos deu varias opções para o julgamento do que pode acontecer com os átomos e com os elétrons.

     Marcelo H não lhe ficou atrás com a sua trilha sonora, e estes dois artistas, a coreógrafa e o músico, conseguiram  momentos fabulosos de união entre estas duas linguagens: o “bordado” de um tango, e as reações de Barbara, secundadas por movimentos de Everaldo em direção à vida!

     O desenho de luz do espetáculo é de Beto Bruel. Ela, a luz, acentua o encantamento, e os figurinos de Antonio Rabadan enfatizam o que pode nos trazer a personalidade dos atores!
“HEISENBERG” VAI ATÉ O DIA 26 DE AGOSTO, NO TEATRO POEIRA.  NÃO PERCAM!        

sábado, 18 de agosto de 2018

"NAQUELE DIA VI VOCÊ SUMIR"





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Camila Márdila e Miwa Yanagizawa em "Naquele dia vi você sumir", direção Areas Coletivo
(Foto Renato Mangolin)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

 NAQUELE  DIA  VI  VOCÊ  SUMIR

     A cena é criada pelo AREAS Coletivo, um grupo que promove espetáculos e estudos teatrais, sediado em São Paulo. Ele encontra-se atualmente no Rio de Janeiro apresentando, até outubro, um trabalho de pesquisa inspirado no livro de Luiz Ruffato, “Eles Eram Muitos Cavalos”, titulo que é, por sua vez, inspirado no capítulo do livro no qual a poeta Cecília Meireles conta os acontecimentos e personagens de nossa historia brasileira: o “Romanceiro da Inconfidência”!

      Luiz Ruffato dedica seu livro à Cecília, e cita o trecho: ”Eles eram muitos cavalos, mas ninguém mais sabe os seus nomes, sua pelagem, sua origem...” (do Romance LXXXIV “Ou Dos Cavalos da Inconfidência”). Talvez, seja essa a nossa historia, o nosso cotidiano fragmentado em cenas avulsas... 
     
        A ideia é interessante, a e maneira de desenvolvê-la mais ainda. Estes 
“cavalos de que não se sabe a origem”  estão  presentes  na  encenação  do
 AREAS  Coletivo. Por sua vez, o AREAS convidou o grupo Magiluth, do 
Recife, para completar a paisagem, através dos atores Giordano 
Castro e Pedro Wagner.

     E como ficou isso? Quatro atores completando a experiência. O AREAS explica: “Assim, renovamos e inauguramos relações, algo que se estende por toda a equipe, na tentativa de ressoar a natureza colaborativa que nos é tão relevante e primordial”.

     No palco, duas atrizes do AREAS: Miwa Yanagizawa e Camila Márdila. A idealização do espetáculo foi de Camila e Liliane Rovaris. Mas, claro, tem muito mais gente envolvida...

     A cenografia é do AREAS Coletivo, e o que presenciamos é algo insólito: no minúsculo palco do Teatro III do CCBB, no Rio, a cena se tornou gigante. Sabem como? Aproveitando ângulos e luz, um fundo negro e interferências... quebradas por possante iluminação (que é uma das vozes do espetáculo), proporcionada por Beto Bruel. Entre ângulos e luzes, os espaços se definem. Quem opera esta luz? Rodrigo Lopes e Dudu Nobre. (Engraçado, estes nomes nos parecem velhos conhecidos...). Os figurinos, marcando personalidades, são de Yumi Sakate, que também é a responsável pela direção de arte.

     Invertemos o processo, e a ficha técnica veio, quase toda, no início da crítica. Tal fato acontece pela presença, muito íntima, entre a interpretação, o espaço cênico e a indumentária. E há também a consultoria técnica de Bruno Girello. O espetáculo é tão inesperado, como inesperados são os cortes de cena!

     Sobre o aspecto referido acima, o mais impactante (se é que podemos selecionar impactos nesta experiência) é o cão, externando o seu pensamento. Como vivemos cercados de cães, nunca nos passou pela cabeça (ou passa o tempo todo...) o lado humano tão evidente que eles levam... no olhar! Impressionante e acolhedora (no sentido de ser bem recebida pelo público), a interpretação do animal, feita pela atriz Camila Márdila, perfeita em sua expressão corporal. Interessante observar que o elenco feminino se distingue por características muito próprias, em sua maneira de interpretar. Enquanto Miwa Yanagizawa possui uma máscara facial impressionante e com ela o texto adquire força maior, Márdila possui, além da interpretação perfeita, a força do corpo, que se transmuta em “essências”. Olha-se, mas não podemos definir a atuação da atriz.

     E o que se percebe é a voz profunda das Gerais sugerindo uma vida em comum. São cenas do cotidiano, imaginadas por Ruffato, e interpretadas pelos atores. Além do livro de Cecília há intervenções surgidas em outras obras de literatura (e até da filosofia!). São escritos de Sarah Kane (Ânsia), ou de Sam Shepard, (Angel City); ou ainda Deleuze, em “Diferença e Repetição” ... e muitos outros autores. Vocês nem imaginam o poder cultural que o teatro está reconhecendo em si mesmo. Vale a pena conferir.

     A participação do ator pernambucano Pedro Wagner é cativante e sutil, principalmente quando transmite as emoções de um monólogo sobre o amor, escrito por Sarah Kane (e talvez modificado por Wagner, mas são tão bonitas as palavras! Ouçam/leiam só!) - “e escrever poemas para você e pensar porque você não acredita em mim e sentir tão profundamente que eu não ache palavras para expressar esse sentimento e ... vagar pela cidade e achar que ela está vazia sem você ... e achar que estou me perdendo e querer o que você quer ... e me derreter quando você sorrir ... e ficar assustado quando você estiver zangada ...  (e por aí vai!). Belo momento!

     E tem Giordano Castro entrando como se um cavalo de Ruffato fosse. E trazendo sua ternura solicita e desajeitada para sua amada (Yanagizawa). Achamos que esta peça é um poema em prosa! E uma constatação de nosso despreparo para a vida! Há cortes ternos, e cortes violentos, como o impacto do atropelamento, teatralmente muito bem sucedido, com efusões de luzes e vidros!

     E é muito interessante a solução que o AREAS encontrou para contar, em flashes, a vida no olhar de Ruffato! O AREAS Coletivo é o encarregado da criação e direção deste espetáculo que é novidade pura. Ah! Já ia esquecendo! A trilha sonora original é de Azul e Chad Challoub. Muito boa! Só podemos aconselhar este espetáculo: NÃO  PERCAM  ALGO TÃO  INSÓLITO!    

   

domingo, 12 de agosto de 2018

"O GRELO EM OBRAS"

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Carmen Frenzel, Lucilia de Assis e Claudia Ventura em "O Grelo em Obras", direção de Fabiano de Freitas.
(Foto Renato Mangolin)
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

     A respeito de “O Grelo em Obras”, espetáculo comemorando os 20 anos de “O Grelo Falante”, em cartaz até o dia 19 de agosto, no Teatro Sergio Porto, no Humaitá.
     O Grelo fala, e há diversas maneiras de fazê-lo falar, uma delas é através da “lascívia” de uma Messalina (o que não é o caso), outra pode ser através da consciência histórica do feminismo.... ou da comedia  política, porque a comedia teatral é um dos maiores veículos políticos.
     As atrizes que optaram por levar á cena a fala do grelo, neste “O Grelo em Obras” (ou seja, “em atualização”), optaram por iniciar, no programa da peça, com a evolução histórica da  mulher neste planeta, Lucy, a das cavernas (mas só no programa da peça). O espetáculo surge com outro perfil, e queremos falar sobre este novo perfil.
     Imaginamos que, em se tratando do feminino, a independência deve ser total, porém inovadora. Imaginamos que, ao se acender a luz do palco o “grelo”, unicamente, comece a falar, deixando as atrizes serem o seu porta-voz! E não é fácil fazer o grelo falar! (Às vezes elas se referem pelos nomes). Pois bem, e o que “ele” tem a nos dizer? O mais importante é a sua reivindicação a ter voz e ser ouvido, pois sempre quem fala é o “pau” masculino! Realmente, falar por falar não adianta. Não há nada mais “sabido e requentado” do que a historia pregressa do grelo! Aconselha-se a pensar no seu futuro, apesar de as atrizes do “Grelo” deixarem escapar a tentação de falar no seu passado, mesmo que, às vezes, a narrativa se transporte para o ano 2090. Em consequência, ficamos com a impressão de que tudo continuará igual, com esse jogo de “vai e vem” no tempo. Ad infinitum.
      Será? No programa da peça as atrizes Carmen Frenzel, Claudia Ventura e Lucília de Assis (prestem atenção no trio excelente que resolveu dar voz ao grelo!) se dispõe a dar um tratamento histórico à peregrinação do grelo, começando por Lucy, aquela pré-histórica acima citada, e há mais de 3 milhões de anos fora deste planeta. Não se aconselha dar continuidade a tal evolução – nem daria tempo – pois a proposta das atrizes é abordar o presente à procura do futuro do grelo! Aliás, essa procura começou há 20 anos... O atual espetáculo está comemorando a data, e tentando renovar os acontecimentos que, por ventura, alteraram o caminho do tema abordado.
      O momento mais impactante da apresentação é quando as três atrizes solicitam a colaboração da plateia para continuarem a pensar o texto! (ou talvez para entenderem o que a plateia entendeu do espetáculo...). Vemos que o feminino continua em questão, mas está sendo debatido jocosamente - e com a mesma liberdade que o masculino debate a fala do seu “pau!”.
     Vamos lá? (Ô assunto difícil, esse!). Ele se quer comedia, mas na realidade é uma tragedia! Pelo menos dois pontos devemos adicionar, para ajudar nas obras deste grelo: o primeiro seria o elenco ouvir mais a sua voz e também a do sexo oposto. Aconselha-se às reformistas do grelo prestarem atenção ao que ele lhe fala! Ou seja, deixar de lado o que  aconteceu no passado e construir o presente, para chegarmos a um futuro mais racional?
     Sim, porque “O Grelo em Obras”, além de ser falante, deve se atrever a ser racional...! Já pensaram que hilário seria um grelo filosofal? A propósito, outro dos bons momentos do espetáculo é justamente quando o grelo retruca Freud. Trata-se de uma fala racional. E também quando o grelo declara que possui um pau! É neste momento que o espetáculo se reconstrói, quebrando as barreiras da perigosa mesmice. Sim, “todas e todos” têm pau e grelo! É a conclusão a que chegam as defensoras dos três grelos (pois eles são representados por elas). Uns são dominantes, outros recessivos, mas todos estão ali, atentos a seus desejos... E não só os desejos sexuais, os de vida vivida também!
     Temos quase certeza de que muitos expectadores vão assistir ao grelo em busca de uma boa sacanagem. Que tal botá-los a pensar na historia da “assimilação dos contrários”? Complicado, isso. Será que eles vão ficar decepcionados com o “papo cabeça”? Atenção! Produtores e elenco, não desistam dessa procura, não desistam do espetáculo, ele é necessário, e o contato com o público é essencial, tornando possível o grau de entendimento da plateia a respeito da proposta desse encontro. E, para escândalo de todos nós, vocês já pensaram que as mulheres também têm um fallus? Que coisa! São elas que movimentam a nossa historia, por mais que o machismo queira transformá-las em bobas: são elas que começam as revoluções e se preocupam em “mudar o mundo” ( não as bobas, é claro. Elas existem!).
     Sobre o elenco: são hilárias as intervenções de Carmen Frenzel quando ela fala em estratégia com sua sócia e companheira ausente, Islovina, fazendo a imitação da maneira de falar de Paulo Francis! E Claudia Ventura se revelando também como “a woman show”, cantando e tocando a sua guitarra! E Lucilia de Assis, ótima comediante!
     Seria muito bom que o texto se abrisse para o que está acontecendo atualmente com as mulheres. Tanta coisa! Elas são candidatas a vice-presidência do Brasil; querem igualdade nos salários, o mesmo dos homens, para a mesma função; querem que parem com essa mania de mandar em seu corpo! E muito mais. E as atrizes deste espetáculo são lindas! Nunca haverá mulheres como Carmen Frenzel, Claudia Ventura e Lucilia de Assis. Elas estão fazendo história com “H” maiúsculo!
     Só sentimos, na peça, não haver um olhar mais crítico, mais provocador – irreverente mesmo! - sobre as mulheres e o mundo em que vivemos. Ponham pra quebrar! Sem medo!
     E é interessante lembrar o que Carmen Frenzel diz: “o primeiro slide que apresentamos é de um homem”. Trata-se de Apolônio de Carvalho, um querido líder político voltado à solidariedade e à empatia, sentimentos que são o futuro da humanidade!  
     As três atrizes parecem não acreditar muito em mudanças para o futuro, elas vão e vem, pulando do nosso ano para o 2090, falando sobre o final do milênio da mesma maneira que falariam agora... e com as mesmas limitações para a mulher! Mas, como diz uma expectadora, na hora de conversar com as atrizes:  “o  importante é participar”. Nós também acreditamos que as mudanças dependem muito de nossa participação!
     E há um momento no qual as atrizes comentam a censura ao “Grelo”, no título do programa, quando elas foram chamadas a apresentar seu trabalho em uma televisão, um programa humorístico só delas! Parece até piada, mas o grelo ficou assim, na censura televisiva: “O G.... Falante”. Algo parecido aconteceu também com Antonio Abujamra e o seu “Os Fodidos Privilegiados”, que passou a ser conhecido, na imprensa, como “Os F... Privilegiados”...!
      A coisa está esquentando, aí com vocês. Os gritos e palavras censuradas que vocês proferem mostram a intenção de seu trabalho. E os figurinos! São muito divertidos, principalmente os das “bailarinas” no início da peça, com seu saiote de fru-fru de tule! São de Nívea Faso. O cenário, caótico, também é da figurinista e diretora de arte. Para a direção do espetáculo elas convidaram Fabiano de Freitas, e para a iluminação, Renato Machado e Mauricio Fuzyiane. Tudo para mostrar  que elas não têm nada contra o pau, e porque eles são profissionais supercompetentes.
PARTICIPEM! NÃO PERCAM! LONGA VIDA PARA ESTE “O GRELO EM OBRAS”!