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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

FREUD E MAHLER





'Freud e Mahler' - Giuseppe Oristaneo e Marcello Escorel. (Foto Divulgação)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

      A autora da peça FREUD E MAHLER, Miriam Halfim, explicita de tal maneira o tempo, e as motivações, de dois homens que modificaram o mundo da Música (Mahler), e o da Mente (Freud), com palavras tão marcantes que, ao encontrar sua escrita revivemos a emoção da cena. Mas agora, ao evocarmos a direção de Ary Coslov, a dimensão é outra, e algo mágico pode acontecer, pois vamos criticar a encenação.

     O encontro do psicanalista e do músico se deu em 1910, na Holanda. As motivações para esse encontro podem ser as mais diversas, mas, no caso de Mahler, foram as do coração. Casado com a bela musicista Alma Mahler, a insegurança tomou conta do músico. Tal sentimento não foi ocasionado pela competição artística - como bem podemos imaginar - mas por ser Alma uma mulher irresistível.

     Aqui estão colocados os ingredientes para uma refrega emocionante entre um pesquisador da alma humana (Freud), e um arrebatado artista das emoções, o compositor Gustav Mahler. Como diz Coslov: este foi o encontro do pensamento com a emoção - reconhecendo Coslov - : Isso não quer dizer que Freud deixasse de lado a emoção, ou que Mahler não usasse seus pensamentos. 

     Podemos acrescentar que este encontro dá à peça fluidez e equilíbrio. Miriam Halfim mostra, em sua mais recente criação, grande lucidez ao desvendar os tortuosos caminhos da paixão. Sim, porque a cena se desenvolve através da emoção de dois seres que se aprofundaram em suas  escolhas de vida.

      E, no momento em que, no palco, os dois artistas, Marcello Escorel e Giuseppe Oristanio, aguardam a chegada do público, a peça começa a atingir o seu contorno definitivo. Neste momento os dois atores, descontraídos, sorriem para o público. É quando percebemos a transformação que virá. Com uma sutil mudança de luz, os atores se transformam em personagens!

     É neste momento que percebemos a determinação do diretor. Ao buscar a fala dos personagens, Coslov impõe a sua fala, bem estruturada, transmitindo a riqueza do texto de Miriam Halfim.

     Percebemos também, com sôfrega atenção, que a autora, ao escolher o caminho que será percorrido pela sua escrita, consolida, no palco, a expectativa do que havia sonhado para a sua obra. Sim, o autor percebe quando está no caminho certo. E é com grande atenção que o público acompanha o acerto daqueles quatro artistas.

     Sim, temos Miriam Halfim, com sua competente escrita; Ary Coslov e a acertada direção; e temos Sigmund Freud - Giuseppe Oristanio – que, com sua bem dosada ironia, reconhece em Mahler, seu cliente, o desejo de esconder seus sentimentos. E, finalmente, temos Gustav Mahler que -  não se sentindo muito à vontade - tenta levar a motivação de sua visita para um patamar menos comprometido do que o ciúme. Porém, a combustão não se faz esperar. E vemos um Marcello (Mahler) Escorel ora reticente, ora explosivo, mostrando o artista em sua grande cena, quando confessa a Freud o seu ‘temor de amor’! E, a partir dessa confissão, temos a delícia do jogo de de cena de Giuseppe Oristanio e Marcello Escorel!

   Ary Coslov esclarece: tanto a força de raciocínio de Freud quanto os transbordamentos das emoções de Mahler permaneceram como legado para as gerações posteriores. – Ao que a autora Miriam Halfim acrescenta: sempre admirei Mahler e quis escrever sobre ele. 

     Para nós foi inesquecível o dia em que fomos estabelecer contato com eles, no teatro.

     A trilha sonora escolhida para o espetáculo foi a 6ª sinfonia de Mahler e seus vários movimentos. Criação da trilha sonora, Ary Coslov. Na trilha tem também Frank Zappa – Tributo a Edgard Varese. O cenário, com referências clássicas, é de Marcos Flaksman, e a Luz, de Paulo César Medeiros. Figurinos de Brunna Napoleão. Assessoria de Imprensa Ney Motta.
É BOM VER BOM TEATRO!




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

FRANÇOIS TRUFFAUT - O CINEMA É MINHA VIDA

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 Brunno Rodrigues,  Patrícia Niedermeier e Cavi Borges ombreados pelos gigantes François Truffaut e Jean-Pierre Léaud  (Foto Divulgação)
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Apresentação do Espetáculo: Patrícia Niedermeier e Jean-Pierre Léaud (Foto Divulgação)

IDA  VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

     Muito prazer, Patrícia Niedermeier! Tivemos ocasião de assisti-la no belo espetáculo ‘François Truffaut – o cinema é minha vida’, do projeto ‘A Peça-Filme’. Trata-se de uma aproximação do cinema com o teatro. Ou melhor, uma aproximação das várias linguagens artísticas, entre elas o teatro-dança. Sim, estamos na presença de Niedermeier, uma bailarina-atriz!

     Ou, como nos indicam Cavi Borges e o roteirista e também idealizador do projeto, Rodrigo Fonseca - o espetáculo ‘minha vida’ é uma aproximação entre cinema e teatro, buscando atrair os amantes de cinema que não curtem teatro, e vice-versa. Boa pedida.   
     A direção também é de Cavi Borges e Rodrigo Fonseca. Este último é autor do texto e alterna, em dias variados, com Brunno Rodrigues (encarregado da projeção das cenas/teaser e making of), no papel de memória afetiva (entrevistador?), de Patrícia/François Truffaut! Sim, Rodrigo Fonseca também entra em cena no papel de entrevistador, mas na noite em que assistimos ao espetáculo Brunno era o personagem, e ele se dirige a Patrícia Niedermeier/ François Truffaut em uma espécie de ‘evocador de memorias’, (estimulador?), da vida do cineasta. Brunno cumpre seu papel de maneira charmosa.

     O espetáculo ‘FRANÇOIS TRUFFAUT – o cinema é minha vida’ capta momentos do cineasta lutando com sua inadequação para a vida, até a descoberta do cinema e da sua comunicação com o mundo, através dele. Assim, ouvimos Patrícia/ Truffaut se lembrar dos momentos em que estava procurando saber quem era. Para recuperar o momento sublime, só  recuperando as cenas que são tecidas pelos filmes de Truffaut e pelo texto de Rodrigo Fonseca.

     Aliás, este texto deve muito, também, às pesquisas de Cavi Borges em sua videoteca Cavídeo (e na internet), estimulando cenas inesquecíveis. Lembramos  Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), o ator que dá vida à obra de Truffaut, o famoso alter-ego do cineasta, abrindo para o público a descoberta do menino ator, em sua primeira entrevista com Truffaut, e nas cenas dos filmes que se seguiram! Aliás, o texto de Fonseca é uma epifania à obra de Truffaut... A presença de Doinel menino, na tela, se reproduz também na interpretação de Patrícia Niedermeier, ao vivo, no espaço teatral.  Eis uma bela concepção de espetáculo.

     A equipe técnica é de primeira. Iluminando o pequeno espaço (20 lugares) do Estação Botafogo, temos Luiz Paulo Nenem, em sua concepção minimalista e concentrada. O Design da operadora é realizado pela Rosebud (não é por nada, não, mas este pessoal adora cinema, até Orson Welles entrou na dança!). A Produção  Logística é de Marina Trindade. Com Assessoria de Imprensa de Guilherme Scarpa e Fábio Dobbs. O espetáculo é apresentado aos sábados e domingos, somente. NÃO PERCAM!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

CLÁSSICOS DO TEATRO - ARTHUR AZEVEDO

Resultado de imagem para Fotos de Maria Rita Rezende e o "Teatro de Roda" de Arthur AzevedoFoto do Elenco do Teatro de Roda. Ao centro, Maria Rita Rezende e Luciana Albertin, diretoras.

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

     A diretora Maria Rita Rezende encontrou uma maneira arejada, e  criativa, de trazer o nosso Arthur (ou será Artur, na nova grafia?) Azevedo, para o  convívio do século XXI. E assim podemos assistir, às segundas feiras, e no horário das 20h, os alunos do curso de Interpretação - criado por Mariozinho Telles em seu Teatro de Roda - reproduzirem situações hilárias, orientadas pelas mãos e pela imaginação de duas atrizes/diretoras, Maria Rita e Luciana Albertin, que divertem o público com uma versão popular do teatro de costumes de Arthur Azevedo.  Trata-se de jogos teatrais do Projeto “Clássicos de Teatro”, criado por Mariozinho, vivo no simpático Espaço Rogério Cardoso, da Casa de Cultura Laura Alvim.

     ...E La Nave Va!

     Com alunos dos 18 a 80 anos, o clima é de total interrelação entre o objetivo alcançado (representar o espírito carioca do início do século XX), e o convívio, sempre agradável, com as diferenças, inclusive as do público... e a disposição do elenco de se entregar a esta rica experiência! Há, no Teatro de Roda, o grupo dos alunos, como Carol Martins, Lucia Farias (uma excelente comediante),  Lenilson de Mello, e outros, que fazem uma apresentação minimalista, recorrente, de cenas do cotidiano, entre namoros e fofocas da vizinhança, que já não existem mais, em nossos tempos cibernéticos! E o que fazem estes espíritos transeuntes? Dançam modernas e maliciosas danças, e se arrepiam estrepitosamente, para espanto e delícia do público que os rodeia. Sim, os rodeia, porque o Espaço Rogério Cardoso é mínimo - e acolhedor - como sabemos!

     Este mesmo grupo do Teatro de Roda ensaia (e monta) Shakespeare, por exemplo! Seu último Romeu e Julieta foi simpaticíssimo, e agora eis que se prepara – feito pelos atores já formados, do grupo – uma Megera Domada!

     NÃO PERCAM ESTE ARTHUR AZEVEDO! A MÚSICA É BOLADA POR ELES, E OS MOVIMENTOS TAMBÉM. TUDO REGIDO POR MARIA RITA E LUCIANA ALBERTIN – QUE MARCAM O COMPASSO COM ATENTA DIREÇÃO. 
















segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O DIABO EM MRS. DAVIS





IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)
                 Andrea Dantas em O Diabo em Mrs. Davis (foto de Luciana Mesquita).

     E cá estamos nós comentando o magnífico O Diabo em Mrs. Davis, solo de Andrea Dantas, com direção do ótimo Aloísio de Abreu e texto de Jau Sant’Ângelo.

     Temos quase certeza de que vocês não sabem quem é Jau Sant’Ângelo. Pois ele saiu, ainda menino, dos ensinamentos de Guti Fraga do Grupo Nós do Morro para a vida profissional e criativa, e deu no que deu: um ótimo fazedor de textos teatrais! Sim, podemos chamá-lo de dramaturgo, pois já possui no mínimo três textos de sucesso: No Escuro o que faz uma mariposa sem uma lâmpada; Amargo Fruto – Vida de Billie Holiday, e este O Diabo em Mrs. Davis. O autor deste último texto se inspirou nas palestras realizadas por Bette Davis nos anos 80, quando afastada do cinema. Vocês sabiam que Davis, uma vez fora do cinema, fez palestras sobre a sua vida?    

     Pois bem. Temos aqui o ótimo O Diabo em Mrs. Davis, uma espécie de autobiografia, dirigida por Aloísio de Abreu (para mim um ator e diretor talentosíssimo que ainda não foi reconhecido e destacado pelo seu grande talento). Pois bem. O Diabo em Mrs. Davis recolhe ainda outro grande talento, que é Andrea Dantas fazendo o papel de Mrs. Davis.

     E chegamos a este monólogo, mas não antes de reconhecer o valor do texto de Jau Sant’Ângelo, um grande e irônico texto, fazendo jus à personalidade de Mrs. Davis. Andrea Dantas, como ótima atriz que é, entra no espírito da famosa e brilhante atriz, como se a mesma fosse! Explicamos:

     “Dangerous” foi o primeiro Oscar de Bette. Depois veio “Jezebel”, e um novo Oscar... e filmes que a levaram ao sucesso, como “Com a Maldade na Alma”; “A Malvada”, e alguns títulos que lhe deram projeção (e Oscares) em sua vida ativa no cinema. Foram cinco indicações ao Oscar. Mas Bette Davies - com todo o seu talento - também teve que correr atrás de participações em filmes, como qualquer mortal! E isso podemos testemunhar no texto de Jau, nas palestras pós-carreira por ela proferidas. Seus diretores? Nada menos do que William Wyller (Jezebel); Com  a Maldade na Alma (direção de  Robert Aldrich) – filme em que contracenou com Olivia de Havilland, de quem era amiga. E muitos outros filmes,. Considerava a sua mãe, Ruth, “uma mistura de mãe, agente e Deus”, pois foi graças a ela que iniciou a sua carreira de sucesso.  (Os cinéfilos, os adeptos da sétima arte não esquecem Bette Davis).  

     Realmente, Bette Davis é (era) uma mulher brilhante e talentosa. Suas frases no espetáculo do Teatro Municipal Café Pequeno fazem jus à fama que recolheu durante a carreira. Talvez o mais divertido (para a plateia) seja o relacionamento de amor e ódio que ela reservava a Joan Crawford, sua rival no cinema. Ela foi sua companheira no grotesco e terrível “O que terá acontecido a Baby Jane?” (dirigido pro Robert Aldrich). Diz Bette que as duas se odiavam. Mas amores e ódios faziam parte da “Época do Ouro” do cinema de Hollywood! 

     Andrea Dantas é uma inspirada e brilhante atriz (mas sem a maldade de Bette). Andrea é uma atriz de doce personalidade (ao menos é o percebemos em seu contato), e possui o reconhecimento de ser brilhante como atriz. E não diz - ou talvez não diga - como Bette que: “Sucesso é mais perigoso do que fracasso”. Não sabemos se pensa assim, Andrea é uma atriz discreta.

     O trio acima mencionado, Jau, Aloísio e Andrea estão no simpático teatro Café Pequeno até o dia 9 de fevereiro, com este “O Diabo...”. Imperdível, diríamos. E ele foi levantado com a ajuda de amigos. O cenário atual é simples – uma cortina vermelha ao fundo, uma poltrona e uma mesa com bebidas -  criado pela própria atriz.  O figurino e a maquiagem são também escolhidos e realizados por Andrea. Tais atributos a transformam, em cena, na inesquecível Bette Davis.
     O que podemos concluir do espetáculo? Que ele é uma pura demonstração de amor ao teatro - talvez o mais puro amor - dos que temos visto ultimamente. O entrosamento do trio é perfeito. Ficamos surpresos e divertidos com a lucidez e a maldade que Andrea Dantas empresta a Bette Davis.

     Na ficha técnica temos Stella Stephany na divulgação; fotos de Luciana Mesquita; figurino: Marcelo Marques; Ambientação Cênica de Andrea e Jau (no Café Pequeno com ênfase na criação de Andrea); Visagismo Walter do Valle.  NÃO  PERCAM!  É  BOM  VER  BOM  TEATRO!           

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

VÍSPORA

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Na foto, o elenco de VÍSPORA: Samuel Toledo (Iacov), Claudia Barbot (Macha), Paula Vilela (Nina), Luiz Furnaletto (Trigorin), Rosa Abdallah (Arkadina), Philipp Lavra (Treplev). (Foto: Rodolpho Pupo).


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

VÍSPORA

Em cartaz até o dia 16 de fevereiro, no Teatro Poeira, VÍSPORA, uma mélange dos males dos nossos dias, com os descalabros dos dias do teatrólogo russo Anton Tchecov.

     Como assim? Simples, meu caro espectador: peguemos uma sala de bingo cheia de jogadores, uma plateia vazia, e contemos os acontecimentos de hoje em nossa vida social, mesclada com as ambições e consumos que nos fazem felizes. Felizes?

     Vemos, como nos tempos de Tchecov, um Treplev (ótimo Philip Lavra), filho de Arkadina, querendo se suicidar por falta de uma ocupação que preencha a sua aspiração pela arte, pelo belo... pelo teatro! Sim, ele é teatrólogo, dramaturgo em primeira mão – como o Treplev de Tchecov – sim, ele quer viver mergulhado em Arte, com A maiúsculo, e o que se apresenta para ele?

      Um universo de nossos dias (não que os dias de Tchecov fossem mais alentadores), mas os do moderno Treplev são coroados de inaugurações das “maravilhosas” Drogarias Venâncio (bem ao lado de sua casa), e de restaurantes apinhados de gente que quer somente comer, comer, comer! e reunir e conversar asneiras, amenidades. Onde se escondeu a Arte? – pergunta-se Treplev. E seus companheiros – assim como em A gaivota, de Tchecov, não entendem a sua fúria suicida... eles estão satisfeitos com o dia a dia “pleno” que lhes toca, cheio do mesmo vazio... Seus companheiros aceitam o presente, o vazio... sem maiores espantos.

     E assim nos vemos, como plateia, em meio a um jogo de víspora: atores e plateia jogando, aceitando prêmios e 1 cheque de 8 mil reais para quem conseguir preencher a cartela...

     Arkadina ( a excelente Rosa Abdallah), parece não se alarmar com o que está acontecendo, parece querer controlar seu desesperado filho que, suicida, está à procura da Arte. Por seu lado, o marido, o grande  escritor, reconhecido e famoso, não nos desaponta diante de sua vaidade tchecoviana, quando perguntado se continua a escrever e como anda a sua grande literatura, ele entra em um monólogo sobre pesca, dizendo que pescar é o seu estímulo para pensar. Esta comunicação de Trigorin (Luiz Furnaletto) (e aqui abro um espaço para comentar que, sem o talento destes atores, dificilmente o texto teatral funcionaria. Sua disposição anárquica e ironia confundiria o espectador, somente atores acostumados a desenvolver uma linguagem caótica poderiam sustentar tão inesperado espetáculo).

     Estes atores – como vamos aos poucos desvendando na peça - estão orientados pelo surpreendente texto de Paula Vilela e Juuar (quem será? quem será?), com direção de Paula, que também atua. Então: a lembrança de colocar tal espetáculo (do século XIX)  entrelaçado com os nossos dias - um Tchecov em outro diapasão – nos surpreende, pois seus personagens só pensam em dinheiro, dinheiro, dinheiro! Nos tempos de Tchecov a aristocracia só pensava em atirar dinheiro pela janela... e os servos que se danassem para servi-los.

     Mas continuemos: enquanto público e personagens estão ocupados jogando víspora, os acontecimentos tchecovianos vão se intercalando. Assim, Arkadina se aborrece com tudo, enquanto Nina (Paula Vilela), a infeliz personagem da Gaivota, ajuda a dirigir, com animação e furor,  o jogo de Iacov. Ela também é uma amimadora do circo maldito em que se transformou o mundo moderno. E uma também ótima Claudia Barbot, como Macha, recepciona e julga o que ocorre em cena. Outros personagens foram cortados, como o mordomo, o velhinho que fica abandonado na casa dos patrões.

     Mas todos os atores estão muito à vontade, sendo difícil estabelecer diferenças entre atuações, embora Samuel Toledo, no papel do “cantador” da víspora (ele interpreta Iacov), surpreenda pela sua concentração e fôlego – além de convencer o público de que sua função sempre foi esta! A ligação direta com o espectador ( que Tchecov propõe) e a encenação do jogo de Vispora transformam o espaço cênico em jogatina para todos os presentes, onde personagens e público querem  ganhar alguma coisa, um prêmio, um dinheiro, não importa o que, desde que seja uma satisfação imediata, pouco se importando com a Arte, ou a necessidade da arte. Não existe mais vida espiritual em nossos dias. Ou parece que não...

     Há uma frase, que não será reproduzida, pois não possuímos o texto de Paula Vilela e só podemos esboçá-la, que diz assim: a Arte (com A maiúsculo) é o que nos transforma em seres humanos.

     Neste espetáculo, propositadamente, o teatro, a música, a arte em seu papel espiritual, passam longe: tudo é feito para atrair público, para ganhar dinheiro, prêmios, e o que mais vier. Duros tempos, os nossos. Dá vontade mesmo de se suicidar, o mesmo impulso que atrai Treplev, em Víspora e no Jardim da Cerejeiras... com a diferença que nos tempos do simbolismo/romantismo tchecoviano as coisas aconteciam pra valer!

     As belezas do espírito, nos tempos de Tchecov, cercavam as pessoas sensíveis e as faziam sofrer pela sua falta. Hoje tudo está indo em direção contrária: sofre-se pela falta de dinheiro, de coisas materiais...  Esta peça é um alerta sobre o diabólico que toma conta da nossa sociedade. Consideramos Víspora um espetáculo necessário, que nos mostra o momento do vazio, da falta de  alimento para a nossa alma,  nosso espírito.  Trata-se de uma advertência. 
VÍSPORA É UM ESPETÁCULO NECESSÁRIO.  IMPERDÍVEL!      

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

LEOPOLDINA - INDEPENDÊNCIA E MORTE


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)
LEOPOLDINA – Independência E Morte


 Imperatiz Leopoldina - Atriz Sara Antunes.  
Atriz Sara Antunes e Ator Plínio Soares.

Ministro José Bonifácio - Ator Plínio Soares 
(fotos de Maira B, Victor Iemini e Lorena Zschaber).

     Em cartaz até o dia 23 de fevereiro, no Teatro I do CCBB, Rio de Janeiro, o espetáculo que tanto sucesso fez em São Paulo e Minas Gerais. Dirigido pelo paulista Marcos Damigo, diretor que escreveu vibrante texto sobre a nossa Imperatriz Leopoldina, que, entre outras façanhas, nos deu o querido Pedro II, filho que herdou o temperamento de sua mãe, e o mesmo gosto para a cultura e o saber.

     Feitas as homenagens aos dois principais representantes da monarquia (!) brasileira, podemos acrescentar que nossa Leopoldina pensou em dar um cunho Constitucionalista à sua Casa, conservando-a, talvez, até nossos dias. Não seria má ideia conservar, nos trópicos, o feito dos ingleses. Parece incrível, mas aquela Monarquia, para o bem ou para o mal dura até hoje, com o estímulo dos ingleses e é uma das responsáveis por sua  imagem extravagante! ( Claro que sabemos que existem outras monarquias extravagantes na extravagante Europa, mas o assunto que nos toma hoje não é este).

     Um dos méritos do texto de Marcos Damigo é trazer para os nossos dias alguns momentos de uma Imperatriz Leopoldina bem-humorada. O autor  indica de maneira sutil o possível encanto da  Imperatriz (embora alguns autores digam que ela não era encantadora na vida real). Uma das maneiras que o autor mostra este encanto é através dos ditos populares que ela utiliza, no diálogo com o ministro José Bonifácio. O Segundo Fragmento (são três) mostra a austríaca “quase brasileira” em que se transformou: “estou metida na política até o pescoço”; ou comentando com ironia a proposta de Bonifácio a respeito de ela se tornar uma “verdadeira Imperatriz do Brasil, sábia e magnânima”: Diz Leopoldina: “e assim o senhor mata dois coelhos com uma cajadada só” ... para ele se livrar do exílio e morte! (Só assistindo a peça para dominar este contexto!). O ator que interpreta José Bonifácio - Plínio Soares - o faz com elegância e contenção.  
   
    ... e há muito mais! A descrição de Leopoldina a respeito dos festejos no Rio de Janeiro para comemorar a sua chegada: uma verdadeira festa oriental, que nos faz lembrar os faustos dos tempos da Monarquia de Espanha e Portugal, descendentes que são do mágico Oriente.

     Há tanta coisa! Tanta delicadeza na direção! Tanto “clima” de época no cenário de Renato Bolelli Rebouças, com suas modificações abruptas dando espaço para os vídeos de Lucas Brandão e Marcos Damigo transmitindo para o público a necessária cronologia histórica. E, junto com a vida levada pela Imperatriz, vamos constatando os momentos em que colônias espanholas “estouram feito pipocas”, no linguajar moderno e brasileiro de nossa Leopoldina,  se transformando em repúblicas. Por que não o Brasil?  - ela se pergunta. E, através dos vídeos, são narrados acontecimentos históricos nem sempre registrados em livros. Ironia das ironias, nosso presente histórico quer nos fazer colônia novamente!

     Na peça, o exílio da Imperatriz, a sorte que lhe tocou longe de sua Áustria querida é narrado no Primeiro Fragmento, quando a atriz Sara Antunes e a musicista Ana Eliza Colomar, com seu cello e flauta, nos fazem uma delicada troca de emoções entre a música refinada de Beethoven (e outros), e os pensamentos de Leopoldina. No Terceiro Fragmento, o final da peça, Ana Eliza toca em seu cello o Hino à Independência composto por D. Pedro I, deixando-nos a impressão que a verdadeira vocação do “Primeiro” era ser músico, com seu violino e a beleza de seu Hino, que nos faz perdoar todos os desacertos do Imperador! 
   
     No texto de Marcos Damigo há vários momentos deliciosos, como o encontro da linguagem portuguesa feita por Leopoldina no Primeiro Fragmento: “Adoro a sensação do “lh” dentro de minha boca... o “ão” de aumentativos... E os diminutivos... boquinha, chazinho, carinho... Ah, o jeitinho brasileiro!” Que atriz cheia de recursos é Sara Antunes, a nossa Leopoldina. Ela pode transformar, da maneira mais singela, a dor em alegria, e o delírio que vai narrando a Historia, em verdade. Aliás, chegamos a pensar que Damigo teve pudor em relatar a verdadeira condição da quase menina Leopoldina que aos 29 anos foi levada à velhice  e à morte. Dizem que com os maus tratos de D. Pedro a envelheceram precocemente. Morreu aos 29 anos... Podemos dizer que a versão de Damigo foi mais delicada do que a verdade, embora a morte de Leopoldina permaneça um mistério. Pensamos que, recentemente (estamos em 2020)  nada de muito esclarecedor nos foi apresentado durante as pesquisas realizadas na estrutura óssea da Primeira Imperatriz do Brasil.   

     A direção de Marcos Damigo é primorosa, e seu texto (volto novamente a ele), nos remete às limitações de um Brasil que gostaríamos livre. Quando nos referimos à História, é inevitável a comparação e identificação com o presente. Muitas passagens da peça nos remetem ao Brasil atual, mas nunca é demais lembrar os bons momentos de paixão da Imperatriz, quando Leopoldina declara: “meu amor por Pedro chega a me enlouquecer, acho-o tão belo quanto Adônis”. É Leopoldina apaixonada desde o primeiro instante em que viu seu marido... “achei-o extraordinariamente belo (...) dois fascinantes olhos negros, um nariz nobremente aquilino e sorridentes lábios grossos”. Os comentários da Imperatriz em sua chegada ao Brasil se estendem ao cortejo e à magnificência oriental do mesmo... E temos notícia do povo brasileiro, o carioca, festejando alegremente! Mais amada a Imperatriz não poderia se sentir...

    Mas ficamos por aqui. Ótimos os figurinos de época de Cássio Brasil, e a trilha sonora recolhida por Ana Eliza Colomar e Nivaldo Godoy Junior, nos trazendo um tempo de delicadeza. O desenho de luz de Aline Santini. Neste quesito (e nos demais) o Brasil pode competir, em teatro, com qualquer país avançado. O consultor histórico do projeto, Paulo Rezzutti, que o diga! Fotos divulgação Victor Iemini e Lorena Zschaber. Produção Local Gabriel Bortolini. Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação. Trata-se de uma primorosa produção, patrocinada pelo Banco do Brasil.
É BOM VER BOM TEATRO!



segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

"CÍCERO - A ANARQUIA DE UM CORPO SANTO"





CRÍTICA DE TEATRO
IDA  VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)
EM CENA:


                                                                                                                             
                                                                                                                              (Foto Fernando Valle)

“CICERO – A ANARQUIA DE UM CORPO SANTO”  
Texto e Interpretação de Samir Murad.
Direção: Daniel Dias da Silva.

A ficha técnica está fortemente ligada aos acontecimentos. A trilha sonora de André Poyart, salvo engano, é cantada pelo ator Samir Murad. O desenho de Luz é de Russinho e os Figurinos (ambos muito acertados) criação: Karlla de Luca.

     NUNCA saberemos se teatro é exagero ou contenção. Ou melhor, podemos dizer, como Mario de Andrade dizia a respeito de poesia: “ teatro é tudo o que dizemos que é teatro”. Esta última afirmativa procede, e se faz presente no espetáculo sobre o Padre Cícero, o “padrinho” dos cearenses, ora em cartaz na Casa 136 da Rua Ipiranga, em Laranjeiras – Rio de Janeiro. Quem tiver curiosidade de ver como foram as aventuras de Cícero no campo religioso é só estar presente na Casa até o dia 15 de dezembro de 2019. Não se sabe ainda para onde se mudará o personagem, ou se ainda fará seu porto nesta casa, o que sim temos certeza é que suas andanças são típicas de regiões onde o misticismo e o fanatismo fazem a sua morada. Vale lembrar.

     O que mais nos surpreende neste espetáculo é tomar conhecimento do personagem e perceber que ele nunca foi considerado um santo pela Igreja Católica, (apesar de suas façanhas no mundo dos milagres), ou talvez mesmo pelos excessos de sua maneira de praticar a religião. E é por estes excessos - no espetáculo seu intérprete canta, dança e sapateia - e ainda chama em seu auxílio Antonin Artaud e sua loucura, o que faz o público ficar sobressaltado, tendo que escolher entre loucura ou religião. Ou talvez as duas coisas juntas! Como público ficamos indecisos entre assumir estes dois polos.

     Ou terá a religião intimidade com a loucura. Preparando-se para colocar em cena Padre Cícero Romão Batista, a primeira providência de Samir Murad foi ler a biografia do “Santo de Juazeiro do Norte” e, para surpresa sua diagnosticou a tendência dos estudiosos do Santo não o considerar como tal. Para surpresa também do público, a respeito da Igreja Católica. Podemos dizer que o ator (e seu diretor, o cearense Daniel Dias da Silva, um entusiasta do texto), dividiram o espetáculo em quatro movimentos, sendo o primeiro marcando as andanças do Padim e seus encontros com nordestinos notórios, como Antonio Conselheiro e Lampião que, como ele, mudaram a imagem da região. (Dizem, autor e intérprete, que os três nordestinos foram contemporâneos, e que estes encontros são reais).             

     Para Samir Murad, a sua narrativa “possui vários registros culturais”, levantado questionamentos que lhe parecem próximos, “como a quase sempre nefasta intercessão da política com a religião na cultura de um povo, assim como da necessidade de se fabricar e destruir mitos e verdades, que sempre estão de acordo com os interesses das minorias dominantes”. Para passar este recado ao público Samir utilizou linguagens como a de Antonin Artaud, o Butoh japonês ou o Livro Tibetano dos Mortos - e não ficamos sabendo se tal preocupação do autor trouxe algum esclarecimento sobre a vida de Padre Cicero, pois o que testemunhamos em cena é um espetáculo de difícil leitura. O diretor Daniel Dias da Silva, por sua vez, procura explicar tanto estranhamento: “buscamos, mais do que reproduzir (...) os relatos turvos e dar respostas aos enigmas que ainda orbitam a sua história, buscamos revelar suas distintas facetas (...) o homem por trás do mito, com suas dúvidas, falhas e fraquezas”.

        A imagem que o espetáculo passa ao público não se assemelha ao que se tornou conhecido como a História do Nordeste. Em todo caso o encontro do Padre Cícero com vários personagens e mitos, inclusive Antonio Conselheiro e Lampião, parece marcar o espetáculo, intensificando-se no decorrer do mesmo. A imagem do sertão e de Juazeiro, vistos dessa maneira, nos leva a caminhos nunca antes imaginados. Vale a pena conferir.