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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

VÍSPORA

Resultado de imagem para fotos Vispora Teatro
Na foto, o elenco de VÍSPORA: Samuel Toledo (Iacov), Claudia Barbot (Macha), Paula Vilela (Nina), Luiz Furnaletto (Trigorin), Rosa Abdallah (Arkadina), Philipp Lavra (Treplev). (Foto: Rodolpho Pupo).


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

VÍSPORA

Em cartaz até o dia 16 de fevereiro, no Teatro Poeira, VÍSPORA, uma mélange dos males dos nossos dias, com os descalabros dos dias do teatrólogo russo Anton Tchecov.

     Como assim? Simples, meu caro espectador: peguemos uma sala de bingo cheia de jogadores, uma plateia vazia, e contemos os acontecimentos de hoje em nossa vida social, mesclada com as ambições e consumos que nos fazem felizes. Felizes?

     Vemos, como nos tempos de Tchecov, um Treplev (ótimo Philip Lavra), filho de Arkadina, querendo se suicidar por falta de uma ocupação que preencha a sua aspiração pela arte, pelo belo... pelo teatro! Sim, ele é teatrólogo, dramaturgo em primeira mão – como o Treplev de Tchecov – sim, ele quer viver mergulhado em Arte, com A maiúsculo, e o que se apresenta para ele?

      Um universo de nossos dias (não que os dias de Tchecov fossem mais alentadores), mas os do moderno Treplev são coroados de inaugurações das “maravilhosas” Drogarias Venâncio (bem ao lado de sua casa), e de restaurantes apinhados de gente que quer somente comer, comer, comer! e reunir e conversar asneiras, amenidades. Onde se escondeu a Arte? – pergunta-se Treplev. E seus companheiros – assim como em A gaivota, de Tchecov, não entendem a sua fúria suicida... eles estão satisfeitos com o dia a dia “pleno” que lhes toca, cheio do mesmo vazio... Seus companheiros aceitam o presente, o vazio... sem maiores espantos.

     E assim nos vemos, como plateia, em meio a um jogo de víspora: atores e plateia jogando, aceitando prêmios e 1 cheque de 8 mil reais para quem conseguir preencher a cartela...

     Arkadina ( a excelente Rosa Abdallah), parece não se alarmar com o que está acontecendo, parece querer controlar seu desesperado filho que, suicida, está à procura da Arte. Por seu lado, o marido, o grande  escritor, reconhecido e famoso, não nos desaponta diante de sua vaidade tchecoviana, quando perguntado se continua a escrever e como anda a sua grande literatura, ele entra em um monólogo sobre pesca, dizendo que pescar é o seu estímulo para pensar. Esta comunicação de Trigorin (Luiz Furnaletto) (e aqui abro um espaço para comentar que, sem o talento destes atores, dificilmente o texto teatral funcionaria. Sua disposição anárquica e ironia confundiria o espectador, somente atores acostumados a desenvolver uma linguagem caótica poderiam sustentar tão inesperado espetáculo).

     Estes atores – como vamos aos poucos desvendando na peça - estão orientados pelo surpreendente texto de Paula Vilela e Juuar (quem será? quem será?), com direção de Paula, que também atua. Então: a lembrança de colocar tal espetáculo (do século XIX)  entrelaçado com os nossos dias - um Tchecov em outro diapasão – nos surpreende, pois seus personagens só pensam em dinheiro, dinheiro, dinheiro! Nos tempos de Tchecov a aristocracia só pensava em atirar dinheiro pela janela... e os servos que se danassem para servi-los.

     Mas continuemos: enquanto público e personagens estão ocupados jogando víspora, os acontecimentos tchecovianos vão se intercalando. Assim, Arkadina se aborrece com tudo, enquanto Nina (Paula Vilela), a infeliz personagem da Gaivota, ajuda a dirigir, com animação e furor,  o jogo de Iacov. Ela também é uma amimadora do circo maldito em que se transformou o mundo moderno. E uma também ótima Claudia Barbot, como Macha, recepciona e julga o que ocorre em cena. Outros personagens foram cortados, como o mordomo, o velhinho que fica abandonado na casa dos patrões.

     Mas todos os atores estão muito à vontade, sendo difícil estabelecer diferenças entre atuações, embora Samuel Toledo, no papel do “cantador” da víspora (ele interpreta Iacov), surpreenda pela sua concentração e fôlego – além de convencer o público de que sua função sempre foi esta! A ligação direta com o espectador ( que Tchecov propõe) e a encenação do jogo de Vispora transformam o espaço cênico em jogatina para todos os presentes, onde personagens e público querem  ganhar alguma coisa, um prêmio, um dinheiro, não importa o que, desde que seja uma satisfação imediata, pouco se importando com a Arte, ou a necessidade da arte. Não existe mais vida espiritual em nossos dias. Ou parece que não...

     Há uma frase, que não será reproduzida, pois não possuímos o texto de Paula Vilela e só podemos esboçá-la, que diz assim: a Arte (com A maiúsculo) é o que nos transforma em seres humanos.

     Neste espetáculo, propositadamente, o teatro, a música, a arte em seu papel espiritual, passam longe: tudo é feito para atrair público, para ganhar dinheiro, prêmios, e o que mais vier. Duros tempos, os nossos. Dá vontade mesmo de se suicidar, o mesmo impulso que atrai Treplev, em Víspora e no Jardim da Cerejeiras... com a diferença que nos tempos do simbolismo/romantismo tchecoviano as coisas aconteciam pra valer!

     As belezas do espírito, nos tempos de Tchecov, cercavam as pessoas sensíveis e as faziam sofrer pela sua falta. Hoje tudo está indo em direção contrária: sofre-se pela falta de dinheiro, de coisas materiais...  Esta peça é um alerta sobre o diabólico que toma conta da nossa sociedade. Consideramos Víspora um espetáculo necessário, que nos mostra o momento do vazio, da falta de  alimento para a nossa alma,  nosso espírito.  Trata-se de uma advertência. 
VÍSPORA É UM ESPETÁCULO NECESSÁRIO.  IMPERDÍVEL!      

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

LEOPOLDINA - INDEPENDÊNCIA E MORTE


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)
LEOPOLDINA – Independência E Morte


 Imperatiz Leopoldina - Atriz Sara Antunes.  
Atriz Sara Antunes e Ator Plínio Soares.

Ministro José Bonifácio - Ator Plínio Soares 
(fotos de Maira B, Victor Iemini e Lorena Zschaber).

     Em cartaz até o dia 23 de fevereiro, no Teatro I do CCBB, Rio de Janeiro, o espetáculo que tanto sucesso fez em São Paulo e Minas Gerais. Dirigido pelo paulista Marcos Damigo, diretor que escreveu vibrante texto sobre a nossa Imperatriz Leopoldina, que, entre outras façanhas, nos deu o querido Pedro II, filho que herdou o temperamento de sua mãe, e o mesmo gosto para a cultura e o saber.

     Feitas as homenagens aos dois principais representantes da monarquia (!) brasileira, podemos acrescentar que nossa Leopoldina pensou em dar um cunho Constitucionalista à sua Casa, conservando-a, talvez, até nossos dias. Não seria má ideia conservar, nos trópicos, o feito dos ingleses. Parece incrível, mas aquela Monarquia, para o bem ou para o mal dura até hoje, com o estímulo dos ingleses e é uma das responsáveis por sua  imagem extravagante! ( Claro que sabemos que existem outras monarquias extravagantes na extravagante Europa, mas o assunto que nos toma hoje não é este).

     Um dos méritos do texto de Marcos Damigo é trazer para os nossos dias alguns momentos de uma Imperatriz Leopoldina bem-humorada. O autor  indica de maneira sutil o possível encanto da  Imperatriz (embora alguns autores digam que ela não era encantadora na vida real). Uma das maneiras que o autor mostra este encanto é através dos ditos populares que ela utiliza, no diálogo com o ministro José Bonifácio. O Segundo Fragmento (são três) mostra a austríaca “quase brasileira” em que se transformou: “estou metida na política até o pescoço”; ou comentando com ironia a proposta de Bonifácio a respeito de ela se tornar uma “verdadeira Imperatriz do Brasil, sábia e magnânima”: Diz Leopoldina: “e assim o senhor mata dois coelhos com uma cajadada só” ... para ele se livrar do exílio e morte! (Só assistindo a peça para dominar este contexto!). O ator que interpreta José Bonifácio - Plínio Soares - o faz com elegância e contenção.  
   
    ... e há muito mais! A descrição de Leopoldina a respeito dos festejos no Rio de Janeiro para comemorar a sua chegada: uma verdadeira festa oriental, que nos faz lembrar os faustos dos tempos da Monarquia de Espanha e Portugal, descendentes que são do mágico Oriente.

     Há tanta coisa! Tanta delicadeza na direção! Tanto “clima” de época no cenário de Renato Bolelli Rebouças, com suas modificações abruptas dando espaço para os vídeos de Lucas Brandão e Marcos Damigo transmitindo para o público a necessária cronologia histórica. E, junto com a vida levada pela Imperatriz, vamos constatando os momentos em que colônias espanholas “estouram feito pipocas”, no linguajar moderno e brasileiro de nossa Leopoldina,  se transformando em repúblicas. Por que não o Brasil?  - ela se pergunta. E, através dos vídeos, são narrados acontecimentos históricos nem sempre registrados em livros. Ironia das ironias, nosso presente histórico quer nos fazer colônia novamente!

     Na peça, o exílio da Imperatriz, a sorte que lhe tocou longe de sua Áustria querida é narrado no Primeiro Fragmento, quando a atriz Sara Antunes e a musicista Ana Eliza Colomar, com seu cello e flauta, nos fazem uma delicada troca de emoções entre a música refinada de Beethoven (e outros), e os pensamentos de Leopoldina. No Terceiro Fragmento, o final da peça, Ana Eliza toca em seu cello o Hino à Independência composto por D. Pedro I, deixando-nos a impressão que a verdadeira vocação do “Primeiro” era ser músico, com seu violino e a beleza de seu Hino, que nos faz perdoar todos os desacertos do Imperador! 
   
     No texto de Marcos Damigo há vários momentos deliciosos, como o encontro da linguagem portuguesa feita por Leopoldina no Primeiro Fragmento: “Adoro a sensação do “lh” dentro de minha boca... o “ão” de aumentativos... E os diminutivos... boquinha, chazinho, carinho... Ah, o jeitinho brasileiro!” Que atriz cheia de recursos é Sara Antunes, a nossa Leopoldina. Ela pode transformar, da maneira mais singela, a dor em alegria, e o delírio que vai narrando a Historia, em verdade. Aliás, chegamos a pensar que Damigo teve pudor em relatar a verdadeira condição da quase menina Leopoldina que aos 29 anos foi levada à velhice  e à morte. Dizem que com os maus tratos de D. Pedro a envelheceram precocemente. Morreu aos 29 anos... Podemos dizer que a versão de Damigo foi mais delicada do que a verdade, embora a morte de Leopoldina permaneça um mistério. Pensamos que, recentemente (estamos em 2020)  nada de muito esclarecedor nos foi apresentado durante as pesquisas realizadas na estrutura óssea da Primeira Imperatriz do Brasil.   

     A direção de Marcos Damigo é primorosa, e seu texto (volto novamente a ele), nos remete às limitações de um Brasil que gostaríamos livre. Quando nos referimos à História, é inevitável a comparação e identificação com o presente. Muitas passagens da peça nos remetem ao Brasil atual, mas nunca é demais lembrar os bons momentos de paixão da Imperatriz, quando Leopoldina declara: “meu amor por Pedro chega a me enlouquecer, acho-o tão belo quanto Adônis”. É Leopoldina apaixonada desde o primeiro instante em que viu seu marido... “achei-o extraordinariamente belo (...) dois fascinantes olhos negros, um nariz nobremente aquilino e sorridentes lábios grossos”. Os comentários da Imperatriz em sua chegada ao Brasil se estendem ao cortejo e à magnificência oriental do mesmo... E temos notícia do povo brasileiro, o carioca, festejando alegremente! Mais amada a Imperatriz não poderia se sentir...

    Mas ficamos por aqui. Ótimos os figurinos de época de Cássio Brasil, e a trilha sonora recolhida por Ana Eliza Colomar e Nivaldo Godoy Junior, nos trazendo um tempo de delicadeza. O desenho de luz de Aline Santini. Neste quesito (e nos demais) o Brasil pode competir, em teatro, com qualquer país avançado. O consultor histórico do projeto, Paulo Rezzutti, que o diga! Fotos divulgação Victor Iemini e Lorena Zschaber. Produção Local Gabriel Bortolini. Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação. Trata-se de uma primorosa produção, patrocinada pelo Banco do Brasil.
É BOM VER BOM TEATRO!



segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

"CÍCERO - A ANARQUIA DE UM CORPO SANTO"





CRÍTICA DE TEATRO
IDA  VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)
EM CENA:


                                                                                                                             
                                                                                                                              (Foto Fernando Valle)

“CICERO – A ANARQUIA DE UM CORPO SANTO”  
Texto e Interpretação de Samir Murad.
Direção: Daniel Dias da Silva.

A ficha técnica está fortemente ligada aos acontecimentos. A trilha sonora de André Poyart, salvo engano, é cantada pelo ator Samir Murad. O desenho de Luz é de Russinho e os Figurinos (ambos muito acertados) criação: Karlla de Luca.

     NUNCA saberemos se teatro é exagero ou contenção. Ou melhor, podemos dizer, como Mario de Andrade dizia a respeito de poesia: “ teatro é tudo o que dizemos que é teatro”. Esta última afirmativa procede, e se faz presente no espetáculo sobre o Padre Cícero, o “padrinho” dos cearenses, ora em cartaz na Casa 136 da Rua Ipiranga, em Laranjeiras – Rio de Janeiro. Quem tiver curiosidade de ver como foram as aventuras de Cícero no campo religioso é só estar presente na Casa até o dia 15 de dezembro de 2019. Não se sabe ainda para onde se mudará o personagem, ou se ainda fará seu porto nesta casa, o que sim temos certeza é que suas andanças são típicas de regiões onde o misticismo e o fanatismo fazem a sua morada. Vale lembrar.

     O que mais nos surpreende neste espetáculo é tomar conhecimento do personagem e perceber que ele nunca foi considerado um santo pela Igreja Católica, (apesar de suas façanhas no mundo dos milagres), ou talvez mesmo pelos excessos de sua maneira de praticar a religião. E é por estes excessos - no espetáculo seu intérprete canta, dança e sapateia - e ainda chama em seu auxílio Antonin Artaud e sua loucura, o que faz o público ficar sobressaltado, tendo que escolher entre loucura ou religião. Ou talvez as duas coisas juntas! Como público ficamos indecisos entre assumir estes dois polos.

     Ou terá a religião intimidade com a loucura. Preparando-se para colocar em cena Padre Cícero Romão Batista, a primeira providência de Samir Murad foi ler a biografia do “Santo de Juazeiro do Norte” e, para surpresa sua diagnosticou a tendência dos estudiosos do Santo não o considerar como tal. Para surpresa também do público, a respeito da Igreja Católica. Podemos dizer que o ator (e seu diretor, o cearense Daniel Dias da Silva, um entusiasta do texto), dividiram o espetáculo em quatro movimentos, sendo o primeiro marcando as andanças do Padim e seus encontros com nordestinos notórios, como Antonio Conselheiro e Lampião que, como ele, mudaram a imagem da região. (Dizem, autor e intérprete, que os três nordestinos foram contemporâneos, e que estes encontros são reais).             

     Para Samir Murad, a sua narrativa “possui vários registros culturais”, levantado questionamentos que lhe parecem próximos, “como a quase sempre nefasta intercessão da política com a religião na cultura de um povo, assim como da necessidade de se fabricar e destruir mitos e verdades, que sempre estão de acordo com os interesses das minorias dominantes”. Para passar este recado ao público Samir utilizou linguagens como a de Antonin Artaud, o Butoh japonês ou o Livro Tibetano dos Mortos - e não ficamos sabendo se tal preocupação do autor trouxe algum esclarecimento sobre a vida de Padre Cicero, pois o que testemunhamos em cena é um espetáculo de difícil leitura. O diretor Daniel Dias da Silva, por sua vez, procura explicar tanto estranhamento: “buscamos, mais do que reproduzir (...) os relatos turvos e dar respostas aos enigmas que ainda orbitam a sua história, buscamos revelar suas distintas facetas (...) o homem por trás do mito, com suas dúvidas, falhas e fraquezas”.

        A imagem que o espetáculo passa ao público não se assemelha ao que se tornou conhecido como a História do Nordeste. Em todo caso o encontro do Padre Cícero com vários personagens e mitos, inclusive Antonio Conselheiro e Lampião, parece marcar o espetáculo, intensificando-se no decorrer do mesmo. A imagem do sertão e de Juazeiro, vistos dessa maneira, nos leva a caminhos nunca antes imaginados. Vale a pena conferir.






sexta-feira, 25 de outubro de 2019

MACUNAIMA


IDA  VICENZIA
(Da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)
MACUNAÍMA
     Eis que Veronica Stigger  de “Cabaret Demencial”, e Bia Lessa, de “P.I. – Panorâmica Insana”  uniram-se e criaram essa rapsódia, envolvidas por cenarios e figurinos que nos levam a tempos nunca vividos. É um novo/velho “Macunaíma" que se descortina, um  Imperador do Mato-Virgem mais preciso que já nos foi dado ver. E assim, entre músicas e cenários fantásticos, podemos desfrutar dessa “rapsódia brasileira” criada por Mario de Andrade, em 1928.
     Temos certeza que o público de teatro nunca a viu assim tão completa, como o espetáculo criado por Bia Lessa, para a Companhia Barca dos Corações Partidos. A Cia. já carrega em seu currículo outros sucessos e podemos dizer, sem temor de sermos iconoclastas, que Antunes Filho, em comparação com a atual montagem de Bia Lessa, nos deu apenas uma visão (criativa), dos encontros e desencontros de Macunaíma com Ci, a Mãe do Mato - que acabou virando estrela - e outros personagens que nos encantam, neste espetáculo tão brasileiro.  
     A nova versão a que assistimos é a mais completa, com mais detalhes e com muita pimenta, mais “fogo da urtiga”, como diz o autor, a respeito dos exageros sexuais da sua historia. E tudo gira em torno da lembrança de Ci, a Mãe do Mato, que deixou Macunaíma para virar estrela, e o herói passou a viver sob sua proteção, com o Muiraquitã por Ci regalado, antes de ela virar a Estrela Beta, do Centauro...
     Bem, na versão de Bia Lessa há uma “volúpia da cena”, onde os arroubos sem censura dos habitantes da mata envolvem a plateia. Tal volúpia mostra corpos nus, cenas eróticas e a liberdade sexual que imaginamos existir entre os “povos da floresta”. A narrativa de Bia Lessa (e o olhar de Stigger, em sua adaptação do livro para a cena), são o quase insuportável encontro do fálico com a dor. (Quem leu “Gran Cabaret Demencial” de Veronica Stigger sabe a que ponto pode chegar a cena). Estas duas artistas, Bia Lessa principalmente, criaram uma nova versão teatral de Macunaíma que ultrapassa a imaginação de Mario de Andrade (no caso, mais atento aos “causos” populares do nosso Brasil), apresentando cenas em detalhes que não foram articulados por Antunes Filho, embora Mario de Andrade os tenha criado. Neste sentido. o espetáculo combina a música com a fala dos personagens, o que o transforma em uma ópera rústica. Em 1978, quando Antunes fez a sua (e de Jacques Thiériot) adaptação para o palco do nosso “herói sem nenhum caráter”, podemos dizer que sua visão era mais poética!
     Imaginamos que a montagem de Bia Lessa não deixa escapar nada da versão (e adaptação do texto), feita por Stigger, e levada à cena pela Cia. Barca dos Corações Partidos. Inesquecível a cena dos músicos invadindo o espaço cênico e levando os três irmãos, Macunaíma, Jiguê e Manaape, de roldão, passando, literalmente,  por cima dos três e mostrando do que é capaz a "mata São Paulo"! E assim foram os irmãos apresentados à vida urbana selvagem. Os músicos que os recebem na pauliceia estão com figurinos de gala que irão usar quando se apresentarem no teatro da cidade civilizada: as mulheres de 'longo preto' e os homens de 'smoking'! O final do Primeiro Ato (são dois Atos), é aplaudido com “Bravo!”, pela plateia encantada. O Segundo Ato, construído pelas duas artistas, é bem mais complicado...  
     Temos uma dúvida: a personagem da mãe de Macunaíma, interpretado pela índia Zahy Guajajara, fala um idioma indígena, ou é dublada? Ficamos alucinadas com a perfeição da sua fala. No elenco temos também algumas atrizes: Laura Rhodes, Lívia Feltre, Sofia Teixeira, que fizeram teste para os personagens femininos,  muito belos. O elenco masculino, que trabalha há mais tempo na Companhia, contou, entre outros, com a presença de Renato Luciano, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, e os diretores musicais Alfredo Del-Penho e Beto Lemos, entre outros. 


    Na criação do espetáculo tivemos a Assessoria Teórica de Flora Sussekind e a colaboração de Silviano Santiago e Marilia Martins, entre outros. A ficha técnica é interminável, e de primeira grandeza. Andréa Alves é a Produtora da Companhia. Mário de Andrade, por sua vez, o criador dessa historia de tanto talento,  contou com as lendas e mitos dos índios taulipang, arecuná e macuchi, recolhidos pelo etnólogo Koch-Grünberg, em 1924.    


   O SEGUNDO ATO DE MACUNAIMA É O ENCONTRO DO HERÓI COM O TERRÍVEL VENCESLAU  PIETRO  PIETRA, O GIGANTE PIAIMÃ, COMEDOR DE GENTE! ELE POSSUI O MUIRAQUITÃ!         


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Elenco de Macunaíma (Foto Divulgação).     

...E assim se deu que os três irmãos deixaram a foz do rio Negro e a consciência, na Ilha de Marapatá. Quando voltaram... foi. Bem, só vendo a versão final da peça de Bia Lessa!
Eis mais algumas informações sobre a ficha técnica:
Assistente de Direção: Pedro Henrique Müller e Daniel Passi. Assistente de Direção Musical Pedro Aune. Os adereços (artesanais), de Sylvie Leblanc, Maíra Himmestein e Bia Robato.  Efeitos de luz de Paulo e Roberto Pederneiras. Audio-colagens e intervenções sonoras de Alfredo Del Penho e Beto Lemos. Participação adicional do grupo musical O Grivo. (Cacá Carvalho como inspiração para revisitar a obra). Ditos do fabulário popular coletados por Mario de Andrade e destacados (sua razão de ser), na adaptação e direção de Bia Lessa. Nesta adaptação temos a versão completa da obra de Mario de Andrade, com o famoso refrão: MUITA SAÚVA E POUCA SAÚDE OS MALES DO BRASIL SÃO!  (É bom ver bom teatro!)

sábado, 19 de outubro de 2019

ANTONIO ABUJAMRA "CALENDÁRIO DE PEDRA"



abujamra
LANÇAMENTO DA BIOGRAFIA DE ANTONIO  ABUJAMRA

"CALENDÁRIO DE PEDRA" - DIA 31 DE OUTUBRO - QUINTA-FEIRA - 18H

EDIFICIO MARQUÊS DO HERVAL - 185 - SUBSOLO - EM FRENTE AO METRÔ CARIOCA.


OBRIGADO PELA SUA PRESENÇA!

ANTONIO ABUJAMRA MERECE A NOSSA ATENÇÃO E O NOSSO AMOR.

ENCONTRE ABUJAMRA - DIA 31 - NA LIVRARIA LEONARDO DA VINCI ÁS 18H!

domingo, 22 de setembro de 2019

UM POETA AMAZONENSE





IDA VICENZIA - (da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT) (Especial)

 A imagem pode conter: 6 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas sentadas e violão
Na foto, o Grupo Gaponga, com Celdo Braga à esquerda, seus músicos e esposa Rosilane. Vemos ainda, na extrema direita da foto, o técnico de som do Grupo, Defson Braga (Shakal). 
(Arquivo Celdo Braga)

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O Grupo se apresentando em Manaus
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Grande espetáculo em viagem pelo Brasil
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Celdo em viagem solo




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João Paulo Ribeiro, Celdo Braga, Sofia Amoedo e Neil Armstrong Jr. 
                                                                   
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O Grupo Gaponga (Fotos Arquivo Celdo Braga)
                                                     
                           OS  POETAS  AMAZÔNICOS ::  CELDO  BRAGA

Vale a pena conhece-los. No caso do poeta Celdo Braga, suas composições cantando a beleza da natureza amazônica, mitos e cuñas, botos e animais selvagens são histórias íntimas de sua terra, mas desconhecidas do pessoal de outros Estados, deste país que passamos a chamar de “Brasil”.

    Mas o poeta Celdo Braga não é daqueles criadores que se resignam a cumprir com um destino imposto pelo acaso do nascimento. Muito cedo ainda ele andou por outros pagos, desbravando rincões perdidos da nossa Terra, indo, em  sua procura, até a PUC (Pontifícia Universidade Católica), do Rio Grande do Sul! Foi lá que se descobriu poeta. Em Benjamin Constant, onde nasceu, Celdo fez o curso de Letras, e se tornou professor. Depois veio o Projeto Rondon, e ele fez uma Licenciatura Curta. Queria saber tudo sobre as Letras. Mas foi no Rio Grande do Sul que acabou fazendo a Licenciatura Plena, com honrarias, formando-se com o primeiro lugar da turma! E admite: “No Rio Grande do Sul descobri o meu talento, e comecei a compor, com saudades de minha terra”.

       E eis que surge o poeta, Doutor em Letras! E Celdo voltou para a sua Benjamin Constant ainda mais poeta! Dessa convivência entre os gaúchos ele conheceu “da montaria o pelego, da lareira o chimarrão”. Deixa estar que o poeta fez um belo verso em homenagem àquela experiência sulina! E vem aí...

                                  “Mate Gaudério”

                              Quando bebo um mate amargo
                              relembro dos velhos pagos
                              onde sorvi tradição
                             
                               Do rancho o eterno aconchego
                               da montaria o pelego,
                               da lareira o chimarrão!
                              
                                Lembro o vento minuano
                                nas coxilhas semeando
                                frio danado de conter

                                 (...) Por isso o mate gaudério
                                  hoje és meu refrigério, refúgio,
                                  e minha oração.
                                  
                                  Sou caboclo e  honro  a terra
                                  Ajuricaba na guerra
                                  serviu-me de inspiração
                                  
                                  Mas eu Sepetiarajú
                                  aprendi a ser Xirú
                                  hoje sou fogo de chão!  
                                         
     E eu, gaúcha, adorei essa sua nova encarnação! Mas nada se compara às suas experiências amazônicas. Quem nunca ouviu os sons que Celdo extrai das folhas, das árvores, do vento, das cuias, da água verde, da floresta na floresta, dos passarinhos, não sabe o que é a Amazônia. Coisa mais linda não há! Às vezes Celdo nos lembra São Francisco de Assis, com seu amor à natureza, ao fogo, "nosso irmão", como canta em "Elementos", com seu parceiro Sérgio Souto: 


                                        Elementos

                              Canto o sussurro do vento
                              o vento me faz lembrar
                              o frágil sopro da vida
                              no ato de respirar


                             Canto o murmúrio das águas
                             porque de água me sei
                             se não cuida-la, em deserto
                             meus sonhos transformarei


                             Canto a beleza do fogo
                             no ardor da transformação
                             na essência dos elementos
                             fogo é luz, nosso irmão


                             Eu canto o canto da terra
                             porque um dia fui pó   
                             e quando eu voltar pra terra
                             meu canto será maior
                          
                             E quando eu voltar pra terra
                             meu canto será maior


                            Músicos:
                            Celdo Braga: Tambor de mola
                            João Paulo Ribeiro: Sino
                             Sofia Amoedo: Sino e voz             



     E assim eles vão cantando essa qualidade de beleza que o Brasil não conhece ...
    
    Mas voltemos a Celdo Braga. Nascido em Benjamin Constant, lá no extremo norte do Estado do Amazonas, quase em outro país. Na década de 70 ele foi fazer Licenciatura Plena, em Letras, lá no Rio Grande do Sul. Quando retornou, não só continuou a ser professor, como reuniu um grupo de músicos, criou grupos, sendo o primeiro o Raízes, dando vazão a uma Coletânea de Trabalho, reunida em 5 anos. As criações foram tantas, que o Grupo, se um dia foi Raízes, depois se transformou em Imbaúba, e hoje é o Gaponga. Neste último, Celdo construiu “uma bagagem de projetos”, definindo o seu caminhar.

     Segundo Celdo, são 38 anos dedicados à arte, e o poeta criou mais de 50 instrumentos, que dariam para formar uma orquestra...! E não parou de excursionar,  convidado para apresentações as mais variadas, no Brasil e no exterior. Excursões com seu grupo, naturalmente.

      Celdo começou o seu aprendizado com os índios, o que o levou a descobertas inéditas! Primeiro experimentou as folhas de palmeira (como tucamã, inajá, e outras). Foram tantos os sons e os instrumentos que Celdo criou! Hoje ele afirma  - e nós testemunhamos - que seu som é transmitido como se uma orquestra estivesse tocando! São cuias, folhas, hastes, flautas criadas de material da floresta. E há Sofia Amoedo, com sua voz afinada, seu instrumento musical! Voz sensível, bonita de se ouvir! E há, desde o início, o fiel escudeiro João Paulo, ao qual Celdo comunica suas ideias e João  as executa. Primeiro foi com o Grupo Raízes e sua música tradicional; depois veio o Imbaúba, com ênfase na parte ambiental, e agora Celdo Braga trabalha com o seu novo Grupo, o Gaponga.

     Estes grupos deixaram lembrança. O Raízes chegou a imprimir 12 CDs e 2 (dois)  LPs – o Imbaúba 5 CDs e agora o Caponga tem na bagagem 3 Projetos e já imprimiu 2 CDs, nestes dois anos de pé na estrada. Eles começaram a se reunir em 2018, e agora já tem agendadas, para 2019, mais de 11 apresentações! O trabalho musical de Celdo Braga não para: são simpósios, seminários, oficinas de construção de instrumentos, cursos sobre a cultura amazônica. Nestes dois anos de vida, O Gaponga já fez 34 apresentações, lançando seu primeiro CD em 2018:  “Sons da Floresta”, uma beleza de som, podemos garantir!

      No grupo Gaponga,  Celdo trabalha com “o som do fruto”. E explica: "No Igapó, quando o rio enche, as árvores desenvolvem seu processo de liberação dos frutos e sementes, como o taquari, a seringueira! A semente cai... e o pescador vai “pescar de caponga”, imitando o som da semente caindo. O peixe se aproxima e cai no anzol".

       Celdo observa: “O nosso grupo, o Gaponga, é a reunião de músicos que pescam com o som”.  

       O grupo possui 5 profissionais apaixonados por música: o poeta Celdo Braga que, além de fazer a letra de algumas músicas, toca flauta doce, cuatro venezuelano, imita o canto dos pássaros da região e reproduz efeitos com sonoridade amazônica. Sofia Amoedo, por sua vez, natural de Terra Santa (Pará), e antiga vocalista do grupo. Ela é professora de canto e vocalista. Toca violão e acompanha os instrumentos criados pelo poeta. E há o já citado João Paulo, amigo percussionista, que possui um ouvido invejável. Ele é natural de Parintins. É um verdadeiro luthier – fabricando os instrumentos  com os quais o grupo se apresenta. É amigo do poeta em seu ofício.  João Paulo toca uma espécie de bateria cabocla com instrumentos de percussão de criação artesanal própria. 

     O grupo tem ainda, como apoio musical, o violonista e guitarrista Neil Armstrong Jr. também de Parintins. E o técnico de som Defson Braga (Shakal), manauara, membro do Gaponga, que acompanha o grupo e atua como técnico de som há vários anos. 

     DEDICAMOS ESTA FALA AO NOSSO PRAZER EM TER CONHECIDO ESTE GRUPO - E DESEJAMOS A TODOS IMENSO SUCESSO EM SUAS ANDANÇAS!                                  
                                   
                      
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E VIVA O AMAZONAS!
(Instrumentos do Grupo Caponga)
 (Arquivo Celdo Braga)