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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

"UM TARTUFO"



Cenários que se transformam em altares; Salas de jantar... Alcovas! Claro Escuro Expressionista! Mistérios!
Gustavo Damasceno/Orgon, submetido à Bíblia!

Cenário de "Um Tartufo", execução de Bel Lobo e Bruce Gomlevisky. 
CENA DAS PLUMAS! Dorina/Thiago Gerrante e Mariana/Nuaj Del Fiol.
Elenco de "Um Tartufo". Ao centro Yasmin Gomlevsky -Tartufo - (Fotos Dalton Valerio e Manu Tasca).

                       IDA VICENZIA


(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

UM TARTUFO
O teatro carioca passa por um reencontro dos espetáculos
premiados, sucesso esse que alguns espectadores não tiveram
ocasião de presenciar anteriormente. Agora “Um Tartufo”
volta aos palcos, dessa vez no Maison de France, onde se
destaca a criação de Bruce Gomlevisky para um texto de Molière.
Trata-se de um espetáculo dos mais surpreendentes, em relação
ao texto e à sua proposta.

Devemos frisar que a presente historia da peça Tartufo é contada – e
compreendida - sem uma palavra do texto a ser proferida. Temos,
em cena, a invasão de um falso religioso cujo desígnio é tirar proveito
dos ingênuos que o cercam e, sendo eles ricos, melhor ainda.  
O texto de Molière destaca os maus sentimentos de um homem de Deus:
ou assim autointitulado. Para nós, e para o autor, Tartufo tornou-se
sinônimo de hipocrisia, um substantivo masculino!
Tanta vilania da parte de Tartufo podemos testemunhar durante os acontecimentos que se seguem na casa de Orgon (interpretado
lindamente por Gustavo Damasceno, um ator que acompanha
Gomlevski em várias de suas montagens). Orgon é um rico pai
de família que recebe o religioso em seu lar. O rico burguês
tornou-se um fanático religioso, apaixonado pelos  poderes e pelos
conselhos de Tartufo, e desdenhando as advertências da esposa,
filho e agregados, que suspeitam da falsidade do homem de Deus.
Aos poucos, mesmo para quem, na plateia, não domina o contexto
dessa peça de Molière, as intenções do mau religioso vão se tornando
evidentes.

É aí que o diretor mostra-se genial, ao apresentar os recursos
que tornam claras as intensões de Tartufo. O religioso, quando
 contrariado, brande a sua sineta e bale, como as ovelhas, dirigindo-se
a elas, seus devotos. Ele as considera ovelhas encerradas em seu
aprisco. Tartufo é interpretado por Yasmin Gomlevski, e fazer
uma mulher interpretar um canalha joga com a compreensão
profunda e a sutileza que o “sexo frágil” possui. Yasmin está perfeita,
em sua interpretação de Tartufo!  

E, ao mesmo tempo que o diretor vai testando as possibilidades
expressionistas do espetáculo,  de quebra ele  vai expondo as
possibilidades de sedução de um hipócrita, em relação às  mulheres
da casa burguesa, subvertendo a ordem aparente. E, de recurso
em recurso, o diretor vai imaginando brilhantes situações e
desempenhos para seus atores.
 As cenas ocorrem de maneira tão perversa em relação a Tartufo,
que não haverá dúvida, mesmo para uma plateia que não conheça
o texto (o que não é o caso do público do Maison de France), pode
compreendê-lo.  
A estética expressionista do espetáculo fala por si. Trata-se de
uma postura sofisticada, que é revestida pela competência de
um ritmo inovador. No caso, não seria exagerado dizer que ele
lembra o cinema mudo de Murnau, porém ultrapassa os recursos do cineasta! O que vemos no palco, além da música que sublinha a ação,
e a iluminação, os figurinos e a maquiagem que compartilham dessa
estética, podemos perceber uma determinação da direção em ultrapassar
as peripécias e maldades burguesas da sociedade de Tartufo, expandindo
as intensões de Molière. No caso, podemos imaginar o que os
“puristas” do tempo de Molière pensariam das alterações de
Gomlevski, e com certeza bons protestos e debates acalorados
surgiriam (parece que foi pior, veio a censura religiosa!). Em todo
caso, Gomlevski se dirige aos nossos tempos, buscando uma
conjuntura que sinaliza os perigos do atual fanatismo, no qual
os religiosos não são somente fanáticos da religião! É ver para crer!

No elenco, além do já citados Gustavo Damasceno e Yasmin
Gomlevski temos Nuaj Del Fiot, artista visual e performática,
que transmite os sentimentos de Mariane, noiva de Valère
(interpretado por Gustavo Luz). Há a bela Madame Elmira,
talvez uma das interpretações mais marcantes, com o seu
cachorrinho interpretado por ela, ao mesmo tempo que se
encarrega do tempo de sedução para dominar o mau homem
da religião. A propósito, Elmira (interpretada pela ótima Patrícia Callai),
se encarrega de desmascarar Tartufo para seu marido Orgon.
O diretor destacou oito personagens, dos quinze que compõe o elenco,
havendo, no lugar de um policial, uma dupla... (deixemos a surpresa para
quem vai assistir “Um Tartufo”). A soubrette de Molière é um homem,
interpretado por Thiago Guerrante, que tem cenas “estouvadas” e outras até
de certa beleza, como a das plumas que, atiradas por ele, voam para aos
braços de Mariane, que está infeliz por causa das artimanhas de Tartufo
querendo casar com ela, que ama Valère. No Tartufo de Gomlevski as
 coisas não se resolvem como no tempo de Molière, tempo no qual o final
feliz era recomendação do Rei Louis XIV.

Temos o filho de Orgon, Damis, interpretado por Felipe de Barros. Aliás,
todos os atores de Gomlevski são excelentes e cumprem com o difícil papel
de interpretar emoções através de gestos precisos e contraídos. Ricardo
Lopes representa o Estrangeiro, o homem com o olhar crítico. Ele é
Cleanto, que  introduz, versão Gomlensky, outras crenças religiosas além
da Ocidental. Mas sem fanatismos. Seu personagem é interessante e faz pensar.
O já citado Felipe de Barros, que interpreta Damis, filho de Orgon, sofre o desamor e a descrença
de seu pai a tal ponto que chega a ser deserdado, em favor de Tartufo, só
porque o rapaz quer alertar o pai a respeito do hipócrita! Mas isso nós já
sabemos.

Temos neste espetáculo um momento histórico a ser destacado, e
transmitido a gerações! Talvez filmá-lo? É impressionante a submissão
decorrente da dominação. Devemos assistir “Um Tartufo” como o caminho da Historia do Homem – um conflito perpetuo!

Até quando?

E agora a belíssima ficha técnica. Temos a impressão de que a preparação
gestual foi um trabalho de grupo: criação coletiva e individual. A música
 desconhecida e atuante é do compositor esloveno Borut Krzisnik, afamado
em seu país. A Luz é dada por Elisa Tandeta. Bravos! Figurinos de
imaginação soberba e eficaz de Marina Duarte. A Caracterização, trabalho
 poderoso, é de Mona Magalhães. Assistente de Direção: Luiza Espíndola.
Assessoria de Imprensa João Pontes e Stella Stephani. A Cia. Esplendor
completa 10 anos, com espetáculos relevantes e belo teatro. Parabéns! 

Um comentário:

  1. Antes da frescura que se transformou o computador eu podia mandar minhas críticas para quem eu quisesse. Agora não me correspondo mais com os leitores. Acho que vou mandar pelo Correio!

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