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terça-feira, 21 de abril de 2020

UM POETA NADA COMUM




   IDA   VICENZIA

    (Da  Associação  Internacional de Críticos de Teatro - AICT)

     (Especial)
   Ai de ti, Manaus – Parletres
  O poeta Aldísio Filgueiras no Centro de Manaus. (Foto da Produção) 

     Vamos tentar falar sobre o poeta Aldísio Filgueiras - o que não é fácil. Este poeta, cujo nome é um jogo de consoantes que parecem desafiar a própria língua: Aldísio Filgueiras! 
     Ele é um jornalista bonito, física e moralmente: o resultado da união de um casal de ascendência nordestina. Eles vieram morar em Manaus, D. Diamantina e seu Aloísio. Ela de  Roraima, ele de Cruzeiro do Sul, no Acre, dois lugares não propriamente nordestinos. Pelo que entendi, o poeta lamenta não ter nascido no Nordeste, onde o casal de ascendência nordestina, Diamantina e Aloísio, poderia ter se encontrado. Assim hoje o poeta estaria cercado do bravo povo de lá. Seria bom para o poeta?   
     Mas o primogênito do casal ao menos conseguiu fugir do futuro, fugir de ser o cabeça da família, por ser o primogênito. Isso não é brincadeira, ainda mais no Nordeste!
       
      Preferiu ser poeta...  
    E eu aproveito para dizer, no meio desse imbroglio, o que o diretor de teatro Antonio Abujamra dizia para seus atores: “Senta aí e conta a tua vida”:
     E Aldísio conta, sem reclamar, complementando:  se tivesse nascido no mesmo dia de Luiz Carlos Prestes, teria seu nome, porém o caso se deu alguns dias depois, em 29 de janeiro, e seus pais optaram por batizá-lo com o nome de outro guerreiro: o general Aldísio. Seria general, o seu xará?  Nunca saberemos, mas o fato é que o nosso poetinha nasceu dois anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Tudo indicava que seria um homem da paz. Seu pai, o delegado Aloísio, depois de alguns anos de convivência com um ainda desconhecido poeta, chegou a uma conclusão: “Você é um cara inadequado”.
    Hoje o poetinha diz que os brasileiros são uns caras nascidos na Casa Grande, mas que tem as garras na Senzala.  Aldísio Filgueiras nos faz encontrar Gilberto Freyre. Esta aproximação nos dá a medida da indignação do poeta. Vejam só, estamos em 2020, e o povo brasileiro ainda não se conhece, não sabe do que é capaz. Para a Bem ou para o Mal.       
     Mas o poetinha é diferente da grande maioria dos brasileiros, Ele  lê! Lê muito, e não só os poetas de sua preferência como Maiakovski (um Amore Nostrum!) - mas muitos outros! 

          Eis um trecho do poema O Amor - do poeta russo: 

                   Um dia, quem  sabe,/ 
ela, que também gostava de bichos,/  
apareça,/
numa alameda do zôo,/sorridente,
tal como agora está/ 
no retrato sobre a mesa.//

   Maiakovski! Mas Aldísio Filgueiras não lhe fica atrás. 

Eis Aldísio:

       Amo você, já quase me esquecia/ 
Sobre o surdo sabre /Das flores/  Aos poucos goles/ 
Selo/ 
E monto a palavra/
Sim/
E mordo a palavra/                            Não//                           
(Malária, Filgueiras, p.54)

        Ele lê também Eliot, Pessoa, 
 William Carlos Williams: além de 
estar sempre atento à Historia e aos 
acontecimentos do cotidiano. 

    Aldísio, como um bom poeta, adora andar nas ruas, nos ônibus, ver as pessoas... Em Manaus isto é um prato suculento... a  palavra deflagra um mundo diferente".

     Hoje, 2020, ele é vitima da inimi-
nável epidemia "tranca ruas", e comenta: "As minhas unhas vão cair,
de tanto lavar as minhas mãos".
     
     Incrível.

  No início de sua vida, como costuma acontecer com os poetas, 
todos na sua casa achavam que ele
seria um homem inútil. A inutilidade
de Aldísio se revelou inspiradora e
surpreedeu a todos. 

     Ele fabricava versos!
  
 Inesperados versos, mal compreendidos:   
        
               Ah! A poesia aqui 
               Meu filho,
               É uma doença tropical

       (Malária, p.44)

... e se transformou em um poeta censurado!

     Também, em pleno 1968 foi escrever poemas e teve editado um livro: Estado de Sítio! "Ele anda meio perdido por aí" - dizem os seus
leitores. Na verdade, ele já está na terceira edição. Nesta últtima, em 2018, foi comemorado os 50 anos de sua primeira edição. Bela História!

      O jornalista habita o poeta. Suas poesias são grandemente ligadas a acontecimentos históricos, ou refletem sobre tempos passados. 

Tempos difíceis de viver. 

     Mas as coisas não mudaram muito - diz o poeta, e declara: "O capitalista não existe, o dinheiro é hermefrodita, se reproduz sozinho e vai pra mão de quem ele quiser ... Acabou esse negócio de Liberdade - Igualdade - Fraternidade! - e as mulheres hoje são educadas para administrarem uma economia de macho!"

     E o poeta se rebela, em versos: 
         
         si vous avez sejourné dans/

         une zone impaludée/

         vous avez pu contracter/

         une forme dangereuse/ 

        de paludisme

                        maleita
                        malásia
                        macumba
                        maconha
                        m ****

     (Malária, p.23)

     Nos despedimos deste poeta sem rótulos, brilhando assim como uma luz na selva, cantando:

          Começar

num começo novo

no vazio

do mundo

como quem nasce
lambe a lama

da pele na vala

comum

de lugar nenhum

e se descobre

vivo

- cara, mas que alívio!

(Aldísio, Cidades do Puro Nada,  
                       (2018)
   

     Ah! Já íamos esquecendo , foi ele quem compôs o belo texto Porto de Lenha, que está se transformando no hino de Manaus! Palmas para ele, ou como dizem os ingleses:
 "Give me your hands!"
                ______________________________PS: (A gente pode não gostar dos norte-americanos, mas este pedido de aplauso é genial! Give me your hands. Será que não foi o pessoal das Ilhas Britânicas que o inventou???). 
    

9 comentários:

  1. Que delícia! Nunca sei definir o que me agrada mais: se o objeto de suas críticas (neste caso, de sua entrevista) ou se o olhar amoroso e a delicadeza com que você se expressa. Minha reverência à sua inteligência e sensibilidade ...

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    1. Obrigada, amiga! Você sempre me emociona com as suas observações!

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  2. Imenso prazer em ver Aldisio Filgueiras pelo seu olhar, Ida.

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    1. Também me deu grande prazer escrever sobre ele. Obrigada!

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  3. Olá, Ida! Acredito que aqui nao seja o lugar mais apropriado para perguntar, mas eu gostaria de saber onde posso adquirir a biografia de Antônio Abujamra? Não estou encontrando em lugar algum...

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    1. A pandemia nos pegou de surpresa. Assim que passar este impasse entraremos em contato!

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  4. Mano Mello comenta: Muito bom, Ida.Não conhecia. Me pareceu um poeta bem interessante. E sua análise é bem estimulante. Grato pelo envio.

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