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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

CLARISSE ABUJAMRA E O LIVRO DE ABU

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

QUERIDA Clarisse! 

     Mando para você um trecho do livro de Antonio Abujamra "CALENDARIO DE PEDRA" - que escrevo). Gostaria que você completasse algo sobre você e Abu. (Sei que estás fazendo sucesso com novo espetáculo, em São Paulo. Quando vocês vierem ao Rio quero assisti-lo). Agora mando um trecho em que falo na família, nas mulheres artistas da família. Gostaria de me alongar sobre você, Clarisse, sua experiência como artista, com Abujamra. Pode ser? Estou fechando o livro e senti falta da sua palavra sobre vocês, que foram tão próximos.  O trecho (no livro) começa assim: 
 ______________________

     Maria Abujamra é a única "mana" viva. Maria é professora de expressão corporal para teatro, e (é) era sempre convidada por Abujamra para acompanhá-lo aos espetáculos, quando ele estava no Rio de Janeiro. Maria assinou, entre outros, a expressão corporal de "Exorbitâncias". A "mana" era boa companheira nos grandes momentos da vida de Abu. Fica a lembrança carinhosa da 'Família Abujamra' ... de seus filhos Alexandre e André. De Belinha...  e da querida Clarisse Abujamra que, mesmo sem saber, colaborou! Ela dirigiu o tio em seu primeiro monólogo "O Contrabaixo". O "histórico" de Clarisse é nosso conhecido: bailarina, atriz e diretora. Um de seus mais recentes trabalhos foi apresentado no Rio de Janeiro, em 2013. Um monólogo de sua autoria, "Antonio - da Tua Necessaria Poesia", sobre os três "Antonios" de sua vida, incluindo o tio-diretor. 

     Há muitas diferenças entre os dois projetos, o de Abu e o de Clarisse; principalmente pelo fato de o monólogo da atriz/bailarina ser sobre sua experiência de vida, o que não acontece com "O Contrabaixo". Clarisse está há mais de 10 anos nos palcos com o seu monólogo sobre os Antonios,  em intervalos e mudanças, inclusive as de direção, que no início era feita pela prima Márcia Abujamra, e agora Clarisse se autodirige. O seu "tio Totó" (é assim que os sobrinhos chamam Abujamra), apresenta sempre a sobrinha como "um grande talento". Há outras sobrinhas talentosas: entre elas, a atriz Yara Jamra, de voz metálica e vocação para a comédia. Yara adotou o nome original da família, o "Jamra" dos "Abu-pai". "Jamra" quer dizer "a que mantém o fogo acesso".


     Voltando à Clarisse ... (aqui você pode falar o que quiser sobre você, seu tio, sua carreira). O espaço é seu! Pode ser uma página, duas... um parágrafo! Como você se sentir melhor. Estou pensando em entregar o livro dia 31 de janeiro para o editor. Você pode me mandar algo sobre vocês para este e.mail? 
(vicenziada@gmail.com). Fico muito agradecida. Beijo e sucesso sempre! Feliz 2017!  Ida Vicenzia

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

"CABEÇA (um documentario cênico)"

Guilherme Miranda, Lucas Gouvêa e Leonardo Corajo em "Cabeça (um documentario cênico), direção de Felipe Vidal. (Foto Ricardo Brajterman)
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

CABEÇA – (um documentário cênico)

     Elenco em ordem alfabética: Felipe Antello, Felipe Vidal, Guilherme Miranda, Gui Stutz, Leonardo Corajo, Lucas Gouvêa, Luciano Moreira, Sergio Medeiros. 8 atores que se metamorfoseiam em 8 músicos, compondo a divisão clássica dos Titãs, a banda de rock que o grupo “Complexo Duplo” oferece ao público, para contar a historia daqueles anos 80, ainda de repressão militar. Esse é um detalhe histórico do espetáculo, mas – e é bom não esquecer - há outro detalhe histórico, que diz respeito ás mulheres: a banda nasceu em um tempo em que as meninas eram só as companheiras, as fãs. Mas isso é só um detalhe ... não vamos falar de Yoko Ono, e dos estragos que ela fez em uma conhecida banda. Isso não é dos anos 80!    

     Mas o que nos interessa, agora, é a homenagem que os atores do “Complexo Duplo” fazem aos Titãs, no “documentário cênico” de Felipe Vidal. Talvez essa banda rock-pop tenha tudo a ver com teatro, a começar pelo vocalista (ou ex-vocalista) Paulo Miklos, de ascendência grega? Miklos é o nosso “vocalista dramático”, que deu o que falar (assim como Arnaldo Antunes, Tony Bellotto), e outros músicos da banda, nos anos 80. Eles enfrentavam, pacificamente, a “banda podre” da ditadura militar.  

     Constatamos que é surpreendente o que os atores do “Complexo Duplo” conseguem com a própria voz, inclusive dar a impressão de que compõe uma banda! Eles relembram os tempos em que os Titãs viviam de música e ofereciam, anarquicamente, aos ouvidos dos jovens daqueles tempos, o seu compasso acidentado. Os atores músicos de hoje, do grupo de Vidal, oferecem ao público a sua própria historia. Tudo isso  acontece diante dos olhos e ouvidos do público, no palco do Teatro Sesc-Ginastico, no Rio de Janeiro, e irá acontecer novamente, em 2017! Mas não são os Titãs que estão no palco, são os atores do “Complexo” dando o seu recado.

     Os atores (em sua maioria) saíram dos bancos da CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), fundada pelo nosso saudoso Yan Michalski, que, com certeza, estaria agora felicíssimo com os frutos que ela deu. Os atores tocam seus próprios instrumentos, cantam e interpretam criando, realmente, um “teatro documentário”.

     Na verdade, não devemos nos surpreender tanto com isso, pois essa foi a intenção, bem sucedida, do diretor: o “teatro documentário”. Mas não podemos deixar de observar que os atores, em outros tempos, consideravam um grande desafio cantar, e se tornar crível como cantor. Agora, com esse “novo teatro”, ser ator-cantor se tornou uma capacidade para muitos, o que faz o ser humano entrar na categoria de um “Deus” que tudo pode. Esse é um fenômeno irresistível, e podemos fazer tal afirmação sem ironia ou espanto. Registramos esse “Cabeça (um documentário cênico)”, como mais um “musicaos”, não muito distante de “Contra o Vento”, de 2015, do “Complexo Duplo”. Portanto, Felipe Vidal foi o inventor de todo esse “imbróglio” músico/teatral, e tem conseguido fazer – ele e seus companheiros de cena - têm conseguido fazer-se acreditar em sua função de atores, cenógrafos, figurinistas, diretores... Não é uma leviandade, é uma realidade. O “sapiens” ocupa todos os espaços, e os companheiros do “Complexo Duplo” não se fazem esperar: e ainda inovam, no caso da dramaturgia, colocando em jogo o ‘caos’ de suas próprias vidas.

     E foi assim que Felipe Vidal chegou, aos poucos, a este gênero musical que até o levou a ganhar prêmios. O primeiro “musicaos” foi em 2015. Era sobre a Tropicalia, os anos 70 - mas não se rendia a Caetano ou Gil! Lembramos bem. Vidal tratou de misturar cenas e épocas, nessa criação que se transformou em ‘ação’ e que promete se transformar em uma “trilogia paramusical”. Como o nome diz, há um caminho, um terceiro espetáculo. Não se espantem com essa afirmação, Vidal não se transformou em um “diretor de musicais”, ele apenas possui um senso afinado para o novo, e sua música e teatro são independentes do que hoje é chamado de “musical made in Brazil” – uma recriação da Broadway. Nada contra, mas Felipe parece preferir, pelo trabalho que tem apresentado, um texto próprio, feito em parceria com o elenco. Dessa vez, a historia é sobre a vida de seus atores que, por sua vez, são os protagonistas da banda improvisada! Há uma linguagem anárquica perpassando todo o espetáculo. Enquanto essa linguagem  estiver dando prazer a eles, os artistas estarão lá, falando sobre o seu teatro e a sua vida.  

    Para tanto, há uma projeção de cenas, em vídeo e tela gigantesca, contando passagens da vida 
pessoal dos que compõe a banda. E textos proferidos pelos atores. Trata-se de um ‘trabalho coletivo’ que se transforma em teatro, pela ação da palavra. E nos perguntamos: o grupo é formado de músicos, ou de atores que interpretam músicos? Para aguçar essa afinidade, Felipe Vidal ainda “problematiza” a questão, dizendo que os seus espetáculos fazem uma analogia com a ópera! Trata-se de uma ópera-rock? Se for, não o é nos moldes habituais.  


     Outro desafio do grupo: essa “máquina adaptável”, que é o homem, alavanca outro tipo de espetáculo, mostrando, nestes tempos moderníssimos, que a vida do “sapiens” tem uma impressionante capacidade de mutação, e embarcamos nessa loucura, e não sabemos se fomos ao teatro para ver uma banda de rock, ou algo que se assemelhe a uma banda de rock! Talvez o caso mais esclarecedor – se é possível esclarecer o mistério dessa “mutação” - seja partir para a análise de um ator, em particular. Escolhemos Lucas Gouvêa, que preenche o palco e nos dá a impressão de que a façanha de um ator é ser capaz de reproduzir, em perfeita mimesis, a sua habilidade musical! Será Gouvêa um músico? Independente de sua capacidade musical, sua façanha abrange essa nova capacidade do gênero humano - do artista em particular - de tornar real “esse jogo ilusório que é atuar”, deixando uma interrogação entre a plateia e o ator.

     Talvez Gouvêa, pego ao acaso, seja o exemplo marcante da linguagem de Felipe Vidal. Outros exemplos há, como Gui Stutz. Porém, esse ator veio do curso de interpretação da Uni-Rio e tem, reconhecidamente, experiência anterior de músico. Os outros seis atores também estão ligados, de certa forma, à música, o que nos dá a certeza de que essa manifestação é o “momento” do grupo, não esquecendo  que as músicas interpretadas fazem parte da historia que eles querem contar. Especialmente a censurada “Bichos Escrotos”. Até agora (2017), esse "musicaos" vem funcionado positivamente. A ficha técnica também faz parte, para incrementar esse jogo. Por exemplo, é estreita a convivência do iluminador Tomás Ribas com o grupo, o que proporciona uma facilidade tranquilizadora para a vida do espetáculo. Ribas trabalha em conjunto com o videografismo de Eduardo Souza, o Pavê, e eles reproduzem as ‘historias de vida’ dos atores. O mesmo acontece com os figurinos de Flavio Souza  (roupas discretas, negras, sem exageros, como são a dos Titãs – com algumas delas inspiradas no seu dia-a-dia), facilitando a performance. O diretor do espetáculo estabelece a cenografia, e também toma parte como músico, porém seu papel é mais o de maestro tocando o seu ‘baixo’ e dando o compasso da ação. Acertamos? Vidal faz a direção musical em parceria com Luciano Moreira (que também é ator e músico, no espetáculo). A ‘veracidade’ da performance roqueira no palco é dada pela direção de movimento de Denise Stutz, sendo a assistência de direção de Tainá Nogueira. Uma ficha técnica para ninguém botar defeito. Captação de Imagens e Making off de Luciano Dayrell e Rodrigo Costa Monteiro. OBS: Pela sua visão política, histórica e musical, “Cabeça” é um espetáculo que fica na lembrança.  

























quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"AS PALAVRAS AS COISAS"

"AS PALAVRAS E AS COISAS", TEXTO E DIREÇÃO PEDRO BRÍCIO.
NA FOTO, LUCIA BRONSTEIN - "MULHER 1"


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

“AS PALAVRAS E AS COISAS”

     É quase impossível acompanhar o trabalho de Pedro Brício sem antes ter-lhe acompanhado o caminho da criação. Tentei. Pelo que podemos compreender, ele trabalha muito com o que eu me recuso a chamar de símbolo. Mas os acontecimentos em “As Palavras e as Coisas” (título que nos remete às narrativas e interpretações de Foucault, mas apenas nos remete, o filosofo não interfere na narrativa), são simbólicos... Por exemplo: o que significa o “vômito” de seu personagens? Um insite joke, uma necessidade transcendental, ou simplesmente uma inadequação ao momento presente?  

     Devemos confessar que a colocação dada aos conflitos de seus personagens é desafiadora... Mas aí voltamos ao problema inicial, e preferimos trabalhar com o que nos é apresentado, fisicamente. Duas mulheres apaixonadas, dois conflitos a serem transpostos, e uma verdade “pasolineana” – de “Teorema?”, na terceira personagem feminina (Daniela Kupek), cujo misterio vem colocar um ponto final no desvario das duas mulheres apaixonadas.

     Mas as personagens de Pasolini são simbólicas... Como fica isso? Não devemos esquecer que a situação em que se encontram os quatro personagens é de extrema teatralidade e urgência: há um perigo de morte, e há graves acontecimentos tratados como se fossem obstáculos intransponíveis (e são, pois se trata da morte). O personagem central, o escritor Matei (Gabriel Pardal), está á beira da morte, em uma UTI. Porém, ele está – e não está - em perigo! Aliás, nunca esquecendo que o diretor Pedro Brício quis fazer, neste espetáculo, uma homenagem à atriz e colega falecida: Bel Garcia. Uma bela e sofrida homenagem, que não se deixa atingir no âmago do sentimento de desespero. Com exceção dos vômitos de alguns componentes da historia, mas os vômitos são tratados como uma doença.   

     E assim vamos, entre idas e vindas... Mas devo confessar que alguns momentos, no encontro dos três personagens, as amigas e o homem, interpretados por Branca Messina, Lucia Bronstein e Gabriel Pardal, nos levam a momentos de grande beleza (podendo a beleza às vezes ser gratuita...dessa vez não é), justamente quando seus corpos se movimentam, esculpindo imagens (destaque para Lucia Bronstein no papel de “mulher 1”. Bronstein é uma atriz da qual não podemos tirar os olhos. Aliás, o elenco desperta a atenção da crítica, mas existe algo em certos atores que passam valores subjetivos com um simples olhar, ou intenção do corpo: Bronstein pertence a essa raça. Desculpem o entusiasmo).

     Mas voltamos ao texto: a personagem “que vem colocar um ponto final à estranha situação”, (a atriz Daniela Kupek), revelando a salvação de Matei ( Pardal) - o escritor que está à morte - realiza um misterioso desfecho, tornando-se uma espécie de “destino” que cai sobre a ação, recurso, aliás, recorrente, em textos do passado. Ponto para Brício. Parece que a historia é carregada de “cenas do passado”. Enfim.

     Causa-nos estranheza assistir a algo tão contemporâneo e, ao mesmo tempo tão hermético e passadista. Estes dois (três?) adjetivos fazem parte dos textos de teatro atuais. O que podemos perceber é uma certa imprecisão, tanto nas questões que o texto levanta, quanto ao ambiente que o cerca. Dessa vez a estranheza fica com a ficha técnica, pois ela fala, na encenação, quando obedece a interfones, portas que se abrem misteriosamente, momentos que passam e retornam, em uma sensação de tempo indefinido.  
     Pois é, o cenário de Tuca faz jogo com a iluminação de Tomás Ribas. Temos também uma trilha sonora que define a ação, elaborada por Pedro Brício e Joana Guimarães. A supervisão dos figurinos (contemporâneos) é de Antonio Guedes. Trata-se de um espetáculo curioso, em busca de algo que não se sabe bem o que é. Desperta o mistério. E fica a pergunta: pode a morte ser assim tratada, tão en passant? Chega-se à conclusão de que, em teatro, sim, pode.                      

domingo, 11 de dezembro de 2016

"ANTÍGONA"

Amir Haddad, diretor, e Andréa Beltrão,  Antígona,  recebendo aplausos. (Foto Barbara Lopes) 
Antígona, perante a morte de Polinices. (obra de origem desconhecida).


DA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
"ANTÍGONA"

     Amir Haddad, "dramaturgista" - com Andrea Beltrão - e diretor da peça de Sófocles, deu-nos, em sua escrita inicial, a antevisão do que seria o seu trabalho como diretor: "Reescrever Sófocles. Reescrever Antígona". E é sobre essa reescrita que vamos falar.

     Pois bem. Em pouco mais de uma hora, coisas surpreendentes acontecem. Temos em cena não só Andrea Beltrão e seu monólogo, mas quatro artistas vivos e atuantes: Sófocles, Amir Haddad, Andrea Beltrão... e Marina Salomon! Sim, sem Marina, essa apoteose trágica jamais teria acontecido! Andrea Beltrão torna-se a transmissora (genial) de um gestual que somente Marina, entre as coreógrafas brasileiras, seria capaz de criar, pois Marina tem uma ligação natural com os deuses gregos! As guerras, o amor, o discurso rancoroso, tudo está contido no gestual da coreógrafa, incorporado pela a atriz.

     Feita essa ressalva, vamos aos acontecimentos. Em pouco mais de uma hora, Andrea Beltrão nos conta a historia de uma Grecia mitológica, grandiosa e agressiva! E assim vemos todas as tragédias, desde Édipo, até a filha de Édipo! E, por um momento iluminador - e estarrecedor! - compreendemos o que foi aquele povo antigo, dominado por seus oráculos, crenças e fetiches; um povo primitivo, com todas as limitações que as crenças podem trazer - o povo genial que, e ao mesmo tempo, nos trouxe toda a cultura da humanidade. "Depois dos gregos - como diz um certo professor - "tudo é pé de página...".

     E este povo soube poetizar as suas crenças... Mas Andrea foi além, ela também nos levou ao lado didático - necessário - do espetáculo, devido à platéia jovem que a assistia. Lembramos que foi Péricles, na Grecia do Vº Século, quem tirou os gregos do limbo... com seus festivais atenienses, seus concursos e dramaturgos que mudaram a cena e a Historia do Teatro!

     Feita essa ressalva, passemos aos acontecimentos: a impetuosidade de Andrea Beltrão, em cena, nos traz muito mais do que uma série de cadáveres, de mortes e assassinatos, é a tragédia antiga que ela nos conta, a tragédia grega desde o nascimento de Édipo, até a morte de Hemon e Creonte!  Sua atuação é algo memorável.

     O cenário é somente uma cadeira e, no fundo da cena, uma árvore "genealógica" com o nome dos responsáveis pelos acontecimentos narrados. Os objetos de cena, se os há (como a écharpe, os sapatos de salto alto), surgem não sabemos de onde, como um passe de mágica! Com a écharpe Andréa faz acontecer cenas de impacto. E, no pano de fundo, os nomes são colados e deslocados, conforme as necessidades da narrativa. A iluminação, criada por Aurelio de Simoni, dá um acento imprescindível para o bom andamento do espetáculo, assim como a trilha sonora (impactante), de Alessandro Persan. O figurino, simples, de Antonio Medeiros e Guilhereme Kato, traz um símbolo rosa (não identificado) sobre a roupa negra. Talvez algum símbolo sobre a mulher. Naqueles tempos, como agora, sua atuação entre os homens não era vista com bons olhos. O texto, talvez a reescrita de Andréa? - registra tal preconceito.

     Em linhas gerais, o espetáculo, que poderia ser confuso para alguns (os menos familiarizados com o teatro) torna-se um jogo interessante para os que têm a tragedia grega como alimento. Para os mais afoitos, tantos cadáveres, tantas guerras, pode ter um certo sabor "isabelino", o que não é verdade, pois os venenos não entram em cena...  
    
      Antigona é vista, na tradição ocidental, como a irmã ideal, amantíssima. Na versão de Andréa ela é simplesmente colhida pelos acontecimentos, o que deve ser a sua verdade extrema. Percebemos isso nos diálogos com "a doce Ismênia", o oposto de sua  apaixonada irmã. Tal situação existe, em nossos dias, e é uma verdade, entre irmãs. Na concepção do espetáculo, entretanto, Andréa se transforma em todos os personagens invocados pela tragedia. E é impressionante a interpretação da atriz, a sua mudança de gestos e voz, a cada solicitação.

     Andréa Beltrão é Creonte, Ismênia, Hemon, Édipo, o cego Tirésias... os guerreiros de Tebas, os reis enfurecidos, e os narradores! A interpretação dessa atriz, em seu primeiro solo, foge ao monólogo tradicional. É bem mais do que isso. Amir Haddad alerta: "Vamos da peça ao mito. Do mito à peça. Num eterno retorno". E é justamente este "eterno retorno" que dá alento à atriz para cumprir a sua missão de intérprete. Andréa Beltrão dá vida a uma tragedia que teve seu desenlace a partir da desgraça e morte do guerreiro Polinices. Aconselha-se aos amantes de teatro assistir o caminho dos herdeiros de Édipo, em ótima realização, no Teatro Poeirinha. Este caminho foi aberto por Gasparian e seu Rei Lear. É BOM VER BOM TEATRO!  

Antígona em seus últimos momentos. (Fotos Barbara Lopes)

sábado, 10 de dezembro de 2016

"60! DÉCADA DE ARROMBA doc.musical"



CRÍTICA TEATRAL
Wanderléa, acompanhada de elenco em "6o! Década de Arromba"
direção Frederico Reder. (foto Produção)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"60! Década de Arromba - doc.musical"
     Pronto! De repente vou deixar de lado as minhas "peças cabeças" e entrar "de cabeça" nesta folia descomunal! Aderi ao musical dirigido por Frederico Reder no momento em que as "Barbies" entraram em cena! Aqueles seres mecânicos, de roupas iguais relembrando (ao longe) as calçadas de Copacabana, aquela imagem compacta de mulheres que mais pareciam saídas de um cartaz de cinema, em duas dimensões! ... e,  de repente se mexiam, dançavam, cantavam... aquele hino em homenagem à Lua ("Tomo banho de Lua!/ Fico branca como a neve!/".

    Aderi!

    É claro que não foi só isso. A narrativa, pesquisada e roteirizada por Marcos Nauer, nos trouxe lembranças da "década maldita", e suas descobertas musicais - nossas, brasileira, e norte-americanas! Principalmente... E constatamos que aquele povo agressivo, neurótico...!, é imbatível em matéria de música popular, "quase" conseguindo nos suplantar! Ah, os rocks frenéticos, as canções românticas norte-americanas! Mas apareceram também os Beatlles - e viva a Inglaterra! Foi uma catarse assistir a essa "Década de Arromba"!

     Os primeiros anos da década, os que preparavam o "explosivo", em todos os sentidos, 1964, foram preparados com muito cuidado por Nauer e Reder. Eis uma fonte de comicidade muito bem preparada, inesperada e surpreendente. Desde as proibições absurdas do presidente Jânio Quadros, o "presidente avalanche" que acabou renunciando, junto com a beleza da Lua e seus segredos desvendados: "Lua, ó Lua, querem te passar pra trás/ Lua, ó Lua, querem te tirar a paz!" - e o homem pisava na Lua! E as proibições de Jânio Quadros? Uma comicidade inesperada do "presidente vassourinha" que proibiu o biquíni nas praias, e as cenas de hipnose nos teatros! Penso que a atriz que foi abduzida pelo hipnotizador é Amanda Döring... As cenas, criticando o período Jânio Quadros, nos deixam perceber pesquisador e diretor trabalhando em grande sintonia. O tom de comicidade é relevante, original.  

     E assim segue o espetáculo, com 3h30' de duração! e intervalos generosos. Na platéia, comemora-se o fausto e o bom gosto do espetáculo onde, no palco, cantores fabulosos, como Érika Affonso (salvo engano, cantou Aquarela do Brasil?). Cássia Raquel, Analu Pimenta? Maravilhosas! Confesso que não conhecia o elenco de tantos cantores e bailarinos excepcionais em seu profissionalismo. São 23 atores, e nenhuma falha: direção perfeita. Fica-se encantado com o padrão de elenco. E, como se não bastasse, eis que surge a homenageada (e homenageante) Wanderléa, descendo escadarias e cantando: "Agora vem você dizendo, adeus! Que foi que eu fiz, pra que você, me trate assim?" - queixando-se de um possível esquecimento do público em relação a ela? Impossível.

     E as sequências lembrando o nascimento da Jovem Guarda e da Bossa Nova? Que anos, aqueles! Valeu à pena estar presente no palco do magnífico Theatro NET Rio. Sim, este qualificativo não está fora de ocasião, há que festejar os grandes - e bons - teatros cariocas (apenas uma ressalva: quem fica no balcão perde 50% do espetáculo, justamente por causa da parede da frisa...). Mas esqueçamos este detalhe e olhemos os figurinos perfeitos (Bruno Perlatto), as perucas, os movimentos corporais do elenco (coreografia de Natália Lana e Vitor Maia). Assistimos a algo descompromissado, e com muitos recados aos "amigos" do Norte. Não seria uma documentação perfeita se não tivesse também a participação do cinema, e a importância dos filmes surgidos naquela época. Ponto para a pesquisa de Marcos Nauer. Videografismo de Thiago Stauffer.

     Não faltaram homenagens a presidentes, inclusive a um certo presidente  assassinado, nos EUA. Nada que o desvario da construção de Brasília não abafasse, com o delírio de Kubitschek. Também foi lembrada, naqueles anos, a morte trágica de Marilyn Monroe. O espetáculo foi um verdadeiro "melting pot" de civilizações... não sendo esquecido, inclusive, um dos muros que a incompreensão humana construiu - dessa vez separando Berlim em duas cidades. Há outros por aí, em outras cidades, em décadas mais recentes. O mundo não muda.

     Mas voltemos às perucas e às saias godê. Um espetáculo envolvente. Chegamos até a esquecer a precariedade de certas projeções visuais, o que é desculpável, aliás, pela raridade de sua conservação (hoje há técnicas de recuperação. Enfim...). Ironicamente,  a TV Tupi não guardou em seu acervo cópias mais fieis de seus sucessos. Deixemos os  comentários para o filme "Chatô", para quem já o assistiu. Mas a década de 60 foi marcante, principalmente para as mulheres, com suas "pílulas" e sua liberdade, com  Simone de Beauvoir... Nada disso foi esquecido.

     Mas a moda feminina, com suas perucas e saias godês também alterou o comportamento masculino. Essa foi uma década dinâmica, ninguém pode negar. Os  desempenhos, em cena, são marcantes. Impossível citar a todos; deixaremos a referencia de seus nomes. Além das atrizes já citadas, tivemos em destaque Leandro Massaferri interpretando Ken, o namorado da Barbie. Marcelo Ferrari... e ainda, em muito boas interpretações, Giu Mallen, Jade Salim, Fabiana Tolentino, Bel Lima, Amanda Döring (a que foi hipnotizada?), Deborah Marins, Jullie, Rachel Cristina, Rosana Chayin, e os "meninos" André Sigom, Leo Araujo, Mateus Ribeiro, Pedro Arrais, Raphael Rossatto, e os Rodrigos: Morura, Naice e Sephan, e Tauã Delmiro. Não podemos esquecer os músicos, cuja apresentação é brilhante, comandados por Toni Lucchesi, pianista e regente. São eles: Alexandre Queiroz, teclados; Léo Bandeira, bateria; Pedro Aune, baixos; Gabriel Quinto, violão, guitarra e cavaquinho; Lalo California, guitarra; Luiz Felipe Ferreira, violino; Tahis Ferreira, violoncelo; Rafael Sant'Anna, trompete e Vitor de Medeiros, sax, flauta e clarinete.

VALEU, FREDERICO REDER!     
        
                                           

"CEMITERIO DAS DELÍCIAS"

O trio de amigos do bem, da peça "Cemiterio das Delícias", textos de Arrabal.
Na foto, Yuri Faragi (Tope), Mitzi Evelyn (Fodere)
      e Rodrigo Candelot, (Emanu).
     Direção Delson Antunes  (Foto Fernanda Sabenca)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     E eis que Arrabal retorna, com seus personagens que vivem entre o limite da bondade e da crueldade. Delson Antunes, o diretor do espetáculo, selecionou, com seu grupo de atores e a nova Cia. "Disparato", várias peças do poeta dramaturgo e deu-lhe o nome de "Cemitério das Delicias - Arrabal em cena" - (tradução de Wilson Coelho). A idéia, excelente, resultou em um espetáculo Barroco! As peças, ou melhor, os trechos das peças que foram selecionadas, Fando e Lis, Oração, Guernica, Cemiterio dos Automóveis, A Bicicleta do Condenado e O Jardim das Delicias são um painel muito elucidativo da obra deste poeta dramaturgo. Para quem não conhece Arrabal, torna-se um espetáculo de difícil penetração e, para quem o conhece, trata-se de um retorno acidentado!

     Faz sentido montar Arrabal nos tempos atuais. Principalmente em relação aos nossos percalços com a Cultura oficial, problemas esses que também atingem os menos favorecidos socialmente. São momentos incultos, os que vivemos, nos quais o sadismo e a bondade se confundem, deixando uma lacuna entre eles. Nesta peça é interessante notar que os personagens que melhor sintetizam o "estilo Arrabal" (ele não é ligado a nenhum "movimento", a nenhuma "escola"), sejam o de "Fando" e de "Emanu", ambos interpretados por Rodrigo Candelot: a maldade e a bondade levada a extremos.   

     Senão vejamos: "Fando e Lis" retrata a atrocidade, no melhor estilo Grand Guignol, unido à crueldade que Arrabal presenciou em sua infância. Fando é cruel e, em contrapartida, Lis é submissa. Por sua vez, Emanu (o representante do bem), é doce, terno e infantil. Ele quer ajudar aos necessitados, e vive um dos mais lindos - até esteticamente - momentos do espetáculo. Disse "esteticamente" porque "Cemiterio das Delicias" é um acumular de cenas, umas terríveis, outras belas - equilibrando-se no meio da confusão de um lixão.

     E aí aparece o cenário de José Dias ilustrando as intenções do diretor, e vivendo a força da sua criação como cenógrafo. Dias reuniu no palco o nosso mundo desfeito, suas máquinas obsoletas entregues à própria sorte. Um lixão. Esse é o nosso presente.

     Não sabemos como o público recebe tanta desgraça. Às vezes ela se torna tão absurda que leva ao riso. Mas não é somente o riso a proposta do espetáculo, ele nos  leva a pensar. Arrabal se considera um sensitivo. Alguns críticos afirmam que sua obra é "selvagem". Aliás, é com esse sentimento incontrolável que ele mantém o seu fascínio! Sim, Arrabal é fascinante!  

     Principalmente neste "Cemiterio das Delicias", onde o fascínio e o estranhamento imperam. Montar Arrabal, em uma época de crise como a nossa, faz sentido. Essa verdadeira "coletânea" de textos do autor espanhol, espetáculo encenado em fragmentos, reverbera a essência de um artista que teve a coragem de apontar os desmandos de uma Espanha fascista. Em tempo: Arrabal está vivo, com 84 anos e muita ironia. Depois das perseguições políticas em seu país, preferiu a França para viver e nela desenvolver o seu trabalho. 

     Já tivemos de Arrabal tantos sucessos. Os anos 70 foram coroados deles: Cemiterio de Automóveis, O Arquiteto e o Imperador da Assíria (só para citar os mais impactantes), revolucionaram a cena brasileira. Sim, faz sentido trazer Arrabal para o momento que vivemos. Estamos em "urgência", patinando sobre um futuro incerto e aterrador. O que esperamos desse nosso "Cemiterio das Delícias"? Sim, quem levantou este trabalho pensou em refletir sobre um teatro da crueldade, a desvalorização do humano. Do trabalho de Delson Antunes conhecemos o belo "Anjo Malaquias", carregado de poesia, sobre Mario Quintana. Estranhamente, o presente espetáculo também é carregado de poesia... Estamos em boas mãos.

     Vamos lá! São 12 atores que nos mostram a miséria humana em vários tons, alguns não tão miseráveis assim: percebemos que no episodio de "o monstro", que acaba em casamento feliz (existe?), há cenas da máxima ironia. Aliás, o espetáculo é alimentado pelo "processo criativo" dos atores, e muita ironia. A cena do casamento surge de um programa de televisão em que uma atriz (Ana Bugarim) é entrevistada. Essa cena dá uma respirada na "selvageria" de Arrabal, embora não seja menos assustadora: uma atriz (Bugarim, em excelente desempenho) - chamada "a bela" - dá uma entrevista para um animador de TV (Eduardo Knenaifes, em pequenas cenas, o que é uma pena, pois ele mostra ser muito talentoso). A atriz Lays Ariosi, também em pequenos papeis, interpreta a Fã da "bela". Os atores, em geral, apresentam um bom trabalho (há alguns que se destacam mais, devido à maior densidade de seus personagens).

     Neste "Cemiterio das Delícias", a Cia "Disparato" apresenta o "desnudamento da alma humana", dando lugar à desunião entre os infelizes! Há dois momentos no espetáculo quase insuportáveis de assistir. "Fando e Lis", sobre a crueldade (atenção: nada a ver como "teatro da crueldade" de Artaud, que é bem anterior e se rebelava contra a "pièce bien faite" de seu tempo). A crueldade, em Arrabal, é física, e atinge extremos, quando fala a respeito dos homens e de suas "emoções infantis em um mundo de adultos". As crianças também sabem ser cruéis... O outro lado da crueldade é a perseguição aos bons: Emau, interpretado por Rodrigo Candelot, representa a bondade levada a sua última dimensão. Candelot, neste espetáculo, carrega consigo, com muita propriedade e ótimo desempenho, dois personagens que são os responsáveis para a compreensão do que é o teatro de Arrabal: Emanu - o louvável -, e Fando, o temível, de "Fando e Lis", peça cuja crueldade é comparável às piores historias de horror. O sadismo sempre encontra o seu companheiro, o masoquismo. Na cena, exposta, a masoquista é a personagem de Lis, tendo a atriz Mitzi Evelyn um elogiável  desempenho. Evelyn é uma atriz de grande talento, revelando-se também ao interpretar o "mudo Fodere", do trio da "cena dos amigos".

     O "segundo amigo" dessa cena  é Tope (interpretado por Yuri Faragi, estreando já no segundo tempo do espetáculo...). Os três (e aí se inclui o Emanu de Candelot), se encontram para fazer o bem, ou seja, "tocar música para os pobres", o que é proibido pelo regime! Aliás, o "interdito" é a afirmação deste espetáculo, relembrando a Espanha fascista de Franco.  

      Enfim, temos ótimos atores em cena: Andrea Couto interpreta Lasca e Fídio; Henrique Pinho é Viloro, o homem que quer tocar um instrumento, que quer ser bom, e é preso. Nem é preciso dizer que "todos" os bons, "sempre" acabam mal, em um regime de força; e a bondade, no caso, tem obrigação de agir, mas nem sempre consegue... A atriz Luciana Albertin Malta interpreta o Condenado e Milharca; e  Graziela Bartelet, também atriz do espetáculo, interpreta Dila e o Condenado. Leonardo Paixão é Franchou, Zenon e Libé. Andrea Burle representa Tasla, o cão, e Toso.  

      "Cemiterio das Delicias" está fazendo o seu périplo teatral. Fomos alcançá-lo em reestréia no Teatro Café Pequeno. Nesta reestréia houve um pequeno problema de ritmo, que, imaginamos,  já deve ter sido sanado. PREPARE SEU CORAÇÃO. VALE À PENA ASSISTIR A ESSE  "CEMITERIO DAS DELICIAS"....!
FICHA TÉCNICA:
Assistência de Direção, Andreia Burle e Victor Losso; Direção de Movimento, Sueli Guerra; Direção de Produção, Leonardo Paiva; Produção Executiva: Mitzi Evelyn; Assistência de Produção: Ana Bugarim, Rodrigo Candelot e Samuel Belo; Figurinos, Joana Bueno (excelentes); Iluminação: Fernanda Mantovani; Trilha Sonora Original: Pedro Veríssimo e Fernando Aranha. .. E os já citados: Cenografia, José Dias; Direção, Delson Antunes; Textos, Fernando Arrabal; Tradução, Wilson Coelho.