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domingo, 4 de dezembro de 2016

"IMAGINA ESSE PALCO QUE SE MEXE"

                                                Elenco de "Imagina esse palco que se mexe",
                                                                 direção Moacir Chaves.
                                                                   (Fotos Divulgação).


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

IMAGINA ESSE PALCO QUE SE MEXE

     Ora, Ora! Agora estamos às voltas com a ciência! A que espetáculos nos leva a imaginação do diretor Moacir Chaves. O último deles, "2.500 por hora", se propunha a contar a historia do teatro em 60 minutos. Uma verdadeira maratona teatral. Agora, estamos às voltas com a  historia da humanidade desde seus primórdios, quando "saímos" da água e viramos seres rastejantes... Aliás, idéias impactantes. A primeira delas foi pensada por dois franceses, a segunda pelo nosso Moacir Chaves em parceria com o físico João Ramos Torres de Mello Neto... e as quatro atrizes que compõe a cena: Elisa Pinheiro, Karen Coelho, Luisa Pitta e Monica Biel. O embrião da ideia começou em um jantar de aniversario do diretor...

     Pano de fundo negro, revestido por estrelinhas cintilantes, platéia de 35 espectadores, quatro atrizes se revezando (todas elas excelentes), e eis que entramos em ligação direta com o cosmos! Trata-se de um espetáculo inesperado, e a curiosidade humana, unida ao inevitável da sua evolução, leva-nos a uma aventura sui generis - nunca antes registrada no palco - com (esse aspecto de) constatação da vida, e, ao mesmo tempo, vivência da mesma. Tal acontecimento torna-se possível graças à narrativa do astrofísico Mello Neto... relatando-nos, com seu texto, a sua própria experiência como cientista e pesquisador, teatralizada por Moacir Chaves.  

     Impossível reproduzir as nuances dessa aventura. Talvez, as que mais nos ficam na memória sejam as sutilezas dos encontros celestes, as descobertas dos buracos negros... e as conseqüências desses "encontros" para os habitantes do planeta Terra! Todo o relatado é feito com muito espanto e poesia.

     Um aspecto que ficou marcado em nossa surpresa foi a cegueira do personagem de Monica Biel, colocada ali como se fosse explodir, de um momento para outro, em revelação!  

UM ESPETÁCULO IMPERDIVEL!!!!!!

Na ficha técnica temos a iluminação de Paulo Cesar Medeiros; texto coletivo, extraído da narrativa de Mello Neto; "experimentação teatral" dirigida por Moacir Chaves, com assistência de direção de Francisco Ohanna. Figurinos do cotidiano, alguns de rara beleza (Inês Salgado). Direção Musical Tato Taborda.     
     

domingo, 27 de novembro de 2016

"CÉUS"

Elenco de "CÉUS", de Wajdi Mouawad, direção Aderbal Freire Filho. (Foto Leo Aversa).

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"CÉUS" - ESSE É O FUTURO QUE NOS AGUARDA?

     Há um erro fundamental no texto pró-Ocidente do libanês Wajdi Mouawad, além o de manipular emoções: ele se esqueceu de levar o ataque "dos jovens kamikazes românticos" até o distante Texas, nos EUA, onde se abriga - esse sim - o maior criminoso de guerra do século XXI: George W. Bush. Por que não incluí-lo como o principal responsável pelos ataques aos museus ocidentais, já que ele proporcionou o maior deles, ao estimular o saque ao Museu de Bagdad, acabando com uma historia que, para nós, ainda não foi contada... e dando partida ao texto que segue: o da destruição total dos dois mundos.

      Foi-se a Arte e a Memoria de um povo, e a peça lamenta o tempo da destruição da arte ocidental... Constatamos, em "Céus", que o ataque terrorista torna-se um acontecimento tão "preciso", em termos de tecnologia, que bem podemos imaginar a recíproca e, derrotados todos, partirmos para o "planeta vermelho"... (é o que parece estarem preparando, os nossos contemporâneos). E o teatro entrou nessa dança! Em todo caso, não escapamos nunca do vermelho... para o bem ou para o mal.

      A peça transcorre em um tempo indefinido, e a tensão imposta atinge extremos, lutando entre o veraz e o inverossímil, fato esse que é muito perigoso para a arte. O perigo está em a peça caminhar naquele fio estreito entre o riso e o pranto. Os atores, muito bons, seguram essa barra pesada, no entanto, não podemos resistir a algo que soa falso, em todo esse terror insuflado pela imaginação e a tecnologia!

     Resumindo: o autor imaginou um tempo em que o terror está prestes a dominar o mundo e estabelecer a barbárie. Mas está mesmo? Um pouco mais além seria atômico, um pouco aquém, histeria incontrolável. Queremos enfrentar este texto?

     Quatro cientistas estão trancafiados em uma espécie de "bunker" pós-revolução tecnológica, esperando decifrar a senha e a missão que um quinto componente da equipe guarda com ele. Este componente, Valéry, que aparece com a imagem do diretor Aderbal Freire Filho, é o encarregado de levar a pesquisa adiante. Desiste, e deixa o barco (o computador...) à deriva. Os outros quatro entram em pânico, sabem que algo incontrolável acontecerá no dia de Nossa Senhora da Anunciação, dias contados. Há o quadro de Tintoretto, há a pomba maluca e há o mapa configurando o local dos quatro ou cinco museus que sofrerão o ataque dos terroristas. Quem são eles? O que querem eles, os terroristas, afinal? É uma luta de civilizações, ou uma luta de gerações? Neste impasse somos colhidos em uma guerra que não nos pertence; nós não somos George W. Bush, não vivemos no Texas, não temos duas filhinhas "encantadoras" e uma mulher ideal. Portanto, essa não é a nossa guerra.

     Entretanto - e o autor nos desculpe - os atores fazem o possível para tornar verossímil tal situação. Pode até acontecer - o nosso mundo está (é) tão louco - mas as bases não se sustentam, e então vemos uma cientista, (Silvia Buarque), tentar contornar a situação e só conseguir o seu retorno à "humanização mais palpitante" porque vai ser mãe! O "salvador da pátria", (Felipe de Carolis), se atrasa e não consegue deter a catástrofe terrorista "ameaçada" por alguém que não se controla (Rodrigo Pandolfo/Vincent Chef Chef), em missão que exige sangue frio: e tomamos conhecimento de mais esse vilão ambicioso. E assim sucessivamente: Blaise Centier, personagem de Isaac Bernat, com a sua bondade e indefinição, não consegue dominar a situação, deixando a catástrofe acontecer! Isaac não tem muito a realzar, com tal personagem... Somente a dupla pai e filho passa um sentimento familiar e humano: pai (Charles Fricks) e filho (Antonio Rabelo) - um jovem cuja naturalidade vale o espetáculo - acabam por nos envolver em uma armadilha - pressentida, porém impossível de ser evitada. Conclusão: essa historia de crianças mortas em uma guerra estúpida estabelece o momento em que pedimos, silenciosamente, que essa sangria, acontecendo em nossos dias, seja detida.   
      
      O cenário é composto por uma mesa que centraliza a ação, com os seus computadores (Fernando Mello da Costa). Os figurinos do cotidiano (século XXI),  composição de Antonio Medeiros. Música e desenho sonoro: Tato Taborda. Iluminação: Maneco Quinderê. Como podemos perceber, uma ficha técnica tão potente quanto o elenco. Tradução de Ângela Leite Lopes; Direção: Aderbal Freire Filho. Assistente de Direção: Fernando Philbert. As projeções são um espetáculo à parte. Realização do Projeto: Felipe de Carolis.

HÁ, NESTE TEXTO, UMA CONSTRUÇÃO ANCESTRAL, UMA VARIAÇÃO QUE VEM BROTANDO, E NÃO SE CONCRETIZA... TALVEZ A ISSO SE CHAME "POESIA"!   

"O TEATRO DE SOMBRAS DE OFELIA"

"O Teatro de Sombras de Ofelia", de Michael Ende, direção Jonas Kablin. (Foto Bruno Veiga)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

A ESTREIA DA DELICADEZA

     Parodiando os poemas clássicos... "Foram tantas as estréias..." deste semestre! Ficamos com a Estréia da Delicadeza! Sim, sentimos ter conhecido Praga, e não ter assistido ao seu "Teatro de Sombras"... e também sentimos não conhecer melhor o trabalho do Pequod, aqui no Brasil. Mas ainda há tempo de pensar sobre... a partir deste "O Teatro de Sombras de Ofelia", um belo espetáculo, dirigido por Jonas Kablin.  

     Um pano de fundo negro: bambulinas negras... e uma cortina transparente fechando a cena e a tudo deixando ver, inclusive a construção da cena... No lado esquerdo da platéia, os músicos. E, lembrando o que virá: ... a reprodução, em pintura, das cortinas da boca de cena da Ópera de Paris! ... e as entradas e saídas indicando portas, casas, janelas... todas iluminadas! E uma voz que orienta: "Vá para o ponto, Ofelia". (Essa é a primeira impressão que se tem do espetáculo). Além, é claro, das "batidas de Molière", realizadas por "Ofélia", antes do início da ação.

     E aí começa a representação de cenas das mais variadas peças, e a mais homenageada de todos nós, o nosso "Hamlet"! E aí um detalhe para a engenhosidade dos figurinos (de Marta Reis), que reproduzem as articulações de bonecos, por cima dos atores-manequins (manipulação de Carolina Garcia) ... E pensam vocês que a magia se detém nas cenas iniciais? Michael Ende (autor, e não vou dizer que é o conhecido amigo da imaginação infantil...) e Jonas Klabin (direção e adaptação) fazem o milagre acontecer!

     Junto à cena, à direita da platéia, eis que se ilumina a 'Caixa de Ponto', e lá está a nossa Ofelia, indicando as falas para os atores. Mas, no mesmo espaço, surge o manipulador de cenário e toma conta do espetáculo, despertando a curiosidade da platéia! A partir daí, há dois espetáculos se processando e sendo "absorvidos" pelo público: o que se passa em cena, e a miniatura do que se passa em cena, a partir da 'Caixa de Ponto'. Estamos encantados? Sim, estamos!

     ... E não para aí! A atriz que me levou a me interessar por este trabalho, a sensível Rafaela Amado, que também é a assistente de direção, trouxe-nos Nina, a personagem de Tchecov, para fazer a sua declaração de amor ao teatro! A atriz desenvolve os 'dois tempos' de Ofelia - e temos uma Rafaela mais madura, iniciando, com convicção, o caminho das grandes atrizes. Sua interpretação é refinada, plena de matizes e concepção corporal perfeita. O elenco, em sua totalidade, é belo e tem presença convicta, nesta mescla de realidade e fantasia que se estende sobre o palco, com desenho de luz de Luiz Paulo Nenén e imagens de Henrique Mourthé. A Coordenação de Animação é de Barbara Castro, Cadu Sampaio e Luiz Ludwig. E os atores que compõe a cena: Zé Azul, Grasiela Müller, Pedro Gracindo, Carolina Garcia, Rafaela Amado. A pintura de Arte é de Derô Martín, mas não esquecendo nunca que Bia Junqueira é a diretora de Arte e Cenografia. Perfeito! E os músicos... com seus exercícios livres, de compassos integrados ao espetáculo, têm como parceria a direção musical de Thiago Trajano. A direção de Produção é de Bianca de Felippes.
É BOM VER BOM TEATRO!                  

      

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

"A PAZ PERPÉTUA"

Alex Nader (Cassius), Gillray Coutinho (Homem), José Loreto (John-John), João Velho (Odin)
e Kadu Garcia (Emanuel), em "A Paz Perpétua", direção Aderbal Freire Filho. 


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"SAPERE AUDE" - "Ouse!" Os intelectuais da Espanha são uma fonte de surpresas. Aderbal Freire Filho também. E quem conhece Juan Mayorga? Somente eles... Pois está presente, até o dia 11 de dezembro, no Oi Futuro do Flamengo, com o texto "A Paz Perpétua", escrito pelo espanhol libertador e traduzido pelo brasileiro, que também dirige o espetáculo: Aderbal Freire Filho. Emanuel Kant, o filósofo, inspira, levantando a questão do "territorio" - a pessoa que está em seu "Domínio" tende a repelir o visitante que interfere. Como os cães. O espanhol Mayorga completou este ano 50 anos de vida. São mais de 50 peças escritas, e esta "Paz" veio completar uma inicial "Palabra de Perro", de 2003. Seu tema? Liberdade pessoal, território, prisão?         

     O que sabemos, sim, é que vamos falar de sensibilidade, ousadia e  imaginação. Não se passa incólume por Juan Mayorca. Aparentemente estamos em uma sala onde seres estranhos se comportam estranhamente. Procuramos não ter informação anterior sobre o que iremos assistir, mas é quase impossível. Subitamente percebemos que estes seres usam coleiras, e que há alguém que os leva pela coleira, e esse alguém é venerado (temido?), pelos demais. São quatro homens em uma encruzilhada.

     Não quero falar aqui de "forma" e "conteúdo". Percebemos que há feras selvagens por detrás daqueles homens e um deles, com um simples - "Seat!" - transforma os demais em dóceis criancinhas. É preocupante, tal estado de coisa. Revela que "os homens" obedecem a quem lhes comanda. Temem a quem comanda, e se tornam submissos...     
   
     Até aí, tudo bem. Mas não dá mais para continuar fingindo que não estamos entendendo o que está acontecendo no palco. É algo tão inusitado que nos eleva a tensão. E vamos encontrar o paralelo entre a fera e o homem. Os quatro cães possuem características humanas ou: os quatro homens possuem características caninas. Eles são cães, rosnam como cães, e como animais se alimentam. Mas eles são homens...

     Não conseguimos imaginar quais argumentos usou o diretor para extrair destes cinco atores (Alex Nader, Gillray Coutinho, João Velho, João Loreto e Kadu Garcia), a tensão permanente que pede seus personagens. Aderbal afirma que trabalhou com a idéia de que todos os homens têm cachorros dentro de si. O fato é que estamos diante de um espetáculo intenso, que cobra muito dos atores. Há sincronia, entre os cinco, cada qual carregando a sua característica, mostrando os principais tipos e personalidades que pertencem aos humanos. Assim, temos Odin, o cínico, carregado com dignidade por João Velho (a gente não entende completamente o que Odin fala, mas seu dono é tão expressivo, em sua "poção cachorro" que passamos a entender a sua "não fala" - sabemos que é uma questão de respiração que, também às vezes ataca os humanos). Outra personalidade interessante é a do cachorro Emanuel, o filósofo. Ele nos leva às lágrimas, contando como deixou morrer a sua cega dona, a sua amada. Este ator, Kadu Garcia, dá-nos a impressão de que já foi de circo (adoro a sensibilidade dos atores circenses), tal a gama de expressões e gestos naturais que ele semeia. É um inferno, esse ator!

     E temos também John-John, o cão atleta, o cultivador de seu "desempenho" enquanto cão, em luta com suas limitações intelectuais. Comovente atuação de José Loreto. O seu John-John também "Ousa Sapere!". E, finalmente Alex Nader, o cão Cassius, treinador de todos os cães. Cassius já foi campeão, já usou a "coleira branca" pela qual os outros  estão lutando, já foi o líder dos cães antiterror, um dominador! Agora é somente um aleijado, mas sobreviveu, o que não se sabe se acontecerá com os que estão sendo treinados por ele, no momento. Um intenso desempenho de Alex. E o "Humano" acontece, na fala final do verdadeiro treinador, interpretado por Gillray Coutinho. Sua voz de comando se assemelha muito às ordens dos humanos em relação aos que lhes são subordinados. E é aí que a peça se esclarece! Os cães atendem à fala do Humano, e os rosnados e dentes arreganhados - do início - terminam em uma luta de exterminadores. Os cães se precipitam em sua própria aniquilação!

É BOM VER BOM TEATRO!     

Teatro contemporâneo. Ficha técnica: Autor: Juan Mayorga; Tradutor e Diretor: Aderbal Freire Filho; Diretor Assistente: Fernando Philbert; Iluminação: Maneco Quinderé. Ator stand-in Manoel Madeira. (Não temos Figurinos e Cenário).
             



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE ANTONIO ABUJAMRA

        
                                ANTONIO  ABUJAMRA 


                      " CALENDARIO     DE     PEDRA" 

                                                  UMA   BIOGRAFIA

        Você já abriu este livro, agora entrará em contato com a vida de Antonio Abujamra. Antes, porém, quero contar como foram os primeiros dias desta narrativa. Tudo começou há 6 anos: 2008! Eu era seis anos mais jovem... e ele também! Sempre que nos encontrávamos, entre amigos, em bares, restaurantes, nos teatros do Sesc, ou em outros teatros, ele dizia para os garçons, ou para quem estivesse perto de nós: “me tragam Viagra!”. Ninguém ouvia, ou fingia não ouvir. A cena era terrivelmente divertida, e inesperada. Claro, o que ele queria realmente não era Viagra, ele queria era alimentar um mito. Veremos, mais adiante, que esta questão do mito, em Abujamra, foi mudando com o decorrer do tempo.
     Os seis anos tentando falar com ele não foram uma experiência fácil. Mas foi muito prazerosa, porque desafiadora - para mim. Ora a gente se reunia nas mesas do Degrau, em Ipanema, ora, nos bancos desconfortáveis do Espaço Sesc do Rio de Janeiro, ou em bares da rua Santa Clara, ou nos bastidores do CEU de São Paulo. Fazíamos um jogo de gato e rato. Finalmente descobri que "estava tudo lá", em revistas, no seu programa de televisão, na suas encenações. Antonio falava através de sua Arte. Enfrentei a pesquisa.
     Às vezes Antonio era carinhoso comigo, me dava dicas, deixava pelo caminho pistas, que eu deveria desvendar, ou compreender. Às vezes era irônico, duvidava da empreitada a que eu me dispusera. Às vezes, entusiasta, deixava-se influenciar pelo meu entusiasmo. Só não gostava de meu olhar perscrutador e me interrogava, "malcriado", como dizia a sua querida esposa Belinha: "Por que este olhar que parece querer namorar comigo"? Querem coisa mais desconcertante?  
     Aos trancos e barrancos, lá fui eu estruturando a história de sua vida. Despistando insights, escondendo gravadores na minha roupa (que ele sempre descobria, não porque a tirasse, é claro, mas porque havia sempre um fio indiscreto a me condenar!). Lá ia eu, desesperada, rabiscando notas em guardanapos de papel, imaginando cenas, desenvolvendo verdades. Quase me transformo em uma ficcionista, mas a procura da verdade me salvou. Agora apresento o resultado da aventura que foi tentar entender este monstro. Que a sorte nos acompanhe! A mim, a ele, e aos nossos leitores! Comecemos pelo começo.

                                                                          IDA VICENZIA





                                                                   


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"ISADORA"

Daniel Dantas (Henry) e Melissa Vettore (Isadora) (Foto João Caldas)

Morte de Isadora. (Arquivo)
Roberto Alencar (Agustin), Melissa Vettore (Isadora) e Patricia Gasppar (Irma), em "Isadora",
dramaturgia, Vettore, direção Elias Andreato. (Foto João Caldas).  

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     .... E fomos ver "Isadora"! Uma peça sobre aquela mulher fascinante, independente, livre, revolucionaria. Movida à dança! Por que Melissa Vettore, dramaturga, produtora, atriz e bailarina do espetáculo, resolveu homenageá-la? Difícil tarefa! A dedicação à Isadora parece ser o trabalho da vida de Melissa, que foi muito bem assessorada pelo ótimo diretor que é Elias Andreato. Há, com certeza absoluta, neste espetáculo, uma cena antológica interpretada por Daniel Dantas (ator convidado) e Melissa Vettore: a cena do desnudamento do amor do editor (Henry, interessado em editar o 'Livro de Memórias' de Isadora), pela bailarina! Para mim, Dantas é o ator mais misterioso que existe, sempre uma mistura de Gabin, Auteuil e ennui!. (Desculpem, meus paradigmas são todos do teatro e cinema francês do  século XX ...dos anos 60, ou menos, veja-se Jean Gabin!). Mas, uma coisa continuo afirmando: esse ator, Dantas, sempre me impressiona pela fragilidade e ennui ("tristeza profunda"), que deixa transparecer em sua interpretação! E quem é, afinal, o editor que tanto mexe, racionalmente, com a tranqüilidade de Isadora? A historia é contada em dois tempos... e o editor aparece em um momento cruel do presente, em que a bailarina retoma o seu passado, para escrevê-lo. 

     Mas deixemos Dantas, e o personagem que interpreta, em paz. Seres estranhos na vida de Isadora Duncan não faltaram. A verdade é que a musa sentia amizade por seres maravilhosos, como, além desse editor, João do Rio, por exemplo. Dizem que a bailarina o queria como amiga, mas ficou intrigada (dizem) com o pouco entusiasmo que ele revelou ao ver seu corpo nu. Ao se interessar pela inclinação sexual de João, recebeu essa resposta do escritor carioca: "Eu sou um ser impuro". A resposta poderia ter sido dita por João do Rio, o episódio parece ser verdadeiro, mas nunca se saberá, pois  pertence ao mundo do mistério das artes cênicas, e isso é fascinante!

     "Isadora", a peça, pegou-nos de surpresa. Não há atores em cena, com exceção de Dantas e a irmã de Isadora, Irma, interpretada pela bailarina, cantora e atriz Patricia Gasppar. O irmão, Agustin, é a belíssima figura de bailarino de Roberto Alencar (cuja presença em cena valoriza o espetáculo). Roberto, além de interpretar Agustin, também participa em outras cenas,  fazendo pequenas intervenções.

     O espetáculo veio de São Paulo, e ficará poucos dias no SESC Ginástico, mas nos serviu como verdadeira "aula de direção" de Andreato, que conseguiu momentos inesquecíveis da frágil Melissa, interpretando a indescritível Isadora. Os melhores momentos de Vettore são quando ela dança, livre e solta, ao estilo Isadora, ou quando, em alguns momentos da discussão com o editor (Dantas), consegue uma carga dramática mais forte. Admira-se sua iniciativa, nesta bela homenagem a Isadora!

     Diz Isadora: " Eis o que estamos tentando fazer: reunir um poema, uma melodia e uma dança, de modo que não se escute a música, veja a dançarina ou ouça o poeta; mas se viva na cena e no pensamento o que eles estão expressando".

     Há vários aspectos positivos que poderiam nos levar a recomendar este espetáculo. Certamente, as projeções e o clima que passam, lembrando a escola de dança de Isadora, na União Soviética. Ou o momento dramático em  que a bailarina narra o suicídio de Serguei Esenin, seu poeta-amante! (na vida real, há o consolo de que eles já estavam separados). Outro aspecto positivo do espetáculo é a já comentada cena final, entre o editor e Isadora. E o texto. Sim, o texto! Ele é  repleto de citações e de poesia, como o Maiakovski, dito por Dantas, ou frases muito bem construídas, que levam ao momento vivido daqueles artistas! Sim, o texto, com trechos de Walt Whitman, Sergei Esenin, Maiakovski! Trata-se de um lindo e inteligente trabalho conjunto, feito por Andreato e Dantas, em cima da dramaturgia de Melissa Vettore.


     O Epílogo dessa bela homenagem é a morte de Isadora, em Nice, ainda em seus 50 anos fecundos. A morte, enrolada em sua vaporosa écharpe, é um final digno de sua vida envolta em véus. Uma bela e poética morte, a de Isadora, essa mulher que observou um dia (Isadora deixou vários escritos): "Sou uma crítica incansável da sociedade moderna, da cultura e da educação. Defensora dos direitos das mulheres, da revolução social e da concretização do espírito poético na vida cotidiana. Meu interesse é expressar uma nova forma de vida." (Ah, como eu gostaria de ter conhecido Isadora!) E, finalmente, a ficha técnica: Há música ao vivo, como não poderia deixar de ter, e a escolha da trilha sonora é do artista e musicista Jonatan Harold. Magnífico. A assistência de direção é de André Acioli; as palavras lindas e emocionadas de Renata Melo, diretora de movimento e preparadora corporal do espetáculo, dão vontade de conhecê-la, e participar de seu vôo! Preparação vocal de Edi Montecchi. Produção de vídeo: Marco Vettore. Divulgação no Rio, JSPontes. 
BELA INICIATIVA!   UM ESPETÁCULO DE TEATRO-DANÇA.   

sábado, 24 de setembro de 2016

"CHICA DA SILVA - O MUSICAL"

Vilma Melo interpretando "Chica da Silva - O Musical", produção Alexandre Lino, direção Gilberto Gawronski, texto, Renata Mizrahi (Foto de Janderson Pires)
Cena de "Chica da Silva - O Musical" (Foto de Janderson Pires).

                    IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de                         Teatro - AICT)
                       (Especial)

    "CHICA DA SILVA - O MUSICAL"
     Em cena, no Centro Cultural dos Correios, um musical diferente. Delicadeza, sutileza... e revolta!  Estes são os seus atributos. Dança aleatória? - nem pensar. Os gestos dos atores possuem significados intrínsecos, e potencializam conhecimentos ancestrais. Nada ali  é gratuito. Estamos falando de "Chica da Silva - O Musical", texto de Renata Mizrahi, direção, Gilberto Gawronski, produção de Alexandre Lino e Daniel Porto. A ideia é homenagear Zezé Motta, a nossa primeira Xica!

     A cena aberta é potencializada por música ao vivo (os músicos Di Lutgardes, Reginaldo Vargas, Victor Durante e Tássio Ramos são excelentes e participam, com sua atuação, no conjunto do espetáculo). Os atores entram, no batuque inicial, e se benzem diante de um altar, nele colocando as suas guias. A ação é acompanhada por um "canto velado" dos atores, como ondas batendo na praia, ao som dos atabaques: "Chica-da... Chica-da...".

     E começamos a  perceber o que se desenvolve na cena - a ação em três  tempos: o passado (a história do Tijuco, de Chica e João Fernandes); o plano do "vir a ser" - é quando a imaginação das duas escravas, Francisca Crioula e Chica da Silva, trabalha - e também tem o plano do presente. Os três planos, na dramaturgia de Renata Mizrahi, mostram o caminho da negritude até o momento de sua conscientização. Muito poética, a intervenção de Francisca Crioula (interpretada por Ana Paula Black), no tempo do sonho.  

     Sim, o texto de "Chica da Silva" levanta, poeticamente, o problema do "ser  negro" e, através da vida de uma mulher, nos faz caminhar pela historia da negritude. Estamos na presença de uma historia trágica, contada de maneira original: Renata Mizrahi criou, para essa Chica, um texto racional, que anda de mãos dadas com o lirismo. Caminho nada fácil, sustentando-se a partir de cada momento vivido.

     ... E vamos nos aprofundando, cada vez mais, no problema, até perceber a possível "tomada de consciência" de todas as Chicas, ao nos confrontarmos com Vilma Melo em sua forte interpretação da Chica moderna! Um belo e importante trabalho. A direção de Gilberto Gawronski levanta, com mão firme, o impasse, e faz dessa Chica, - interpretada pela excelente Vilma Melo - em seu primeiro protagonismo - a mulher negra que não abdica da compreensão de sua particularidade (enquanto etnia).

     O jogo que o diretor estabelece, entre a Chica do Tijuco - suspensa e dependente de João Fernandes, no tempo do passado, a Chica "sonhadora e irrefletida" que convive com seus iguais no tempo do sonho e, no plano do presente, a negra moderna,as três personagens interpretadas com arrebatamento por Vilma Melo.

     Interessante observar, nesta montagem de Chica, o forte impasse entre etnias, neste Brasil mulato. Somos, pelo lado dos portugueses, descendentes de "mouros", dos quais nos vem a raiz portuguesa e espanhola.Pois, talvez inconscientemente, neste trabalho os representantes dos "brancos" não são brancos, e o caminho que leva ao desempenho de Luciana Victor, por exemplo, como a mãe branca, é o tortuoso caminho dos brancos brasileiros. Até em seu figurino (de Karlla de Luca), a mãe do noivo é "espanhola", com seu traje vermelho e seu cabelo à sevilhana, fazendo uma leitura sociológica dessa raiz.

      Veremos que nem mãe, nem filho, na cena considerados brancos, realmente o são. Certo, pode ser uma "licença poética", mas a cena, delicada, não se oculta, e é vencida pela luta inglória. Os atores são belos exemplares de brasileiros, mas, como nós não somos um país de brancos, Tom Pires (o filho), acaba nos trazendo uma simpática composição do "noivo branco", sem o ser... O mesmo acontece com João Fernandes, um bom português mestiço, interpretado por Antonio Carlos Feio. 

     Escrever sobre "Chica da Silva" é complicado.  Zezé Motta e André Paes Leme deram a largada para o texto (o trabalho inicial dos atores foi de Zezé), e dar continuidade a esse trabalho ficou por conta de Mizrhai e Gawronski. "Chica da Silva - O Musical" nos apresenta uma intérprete magnífica e as músicas foram compostas para o momento, por Alexandre Elias. Elas são marcantes. E há, também, as músicas tradicionais, fazendo homenagem a Zezé, como a "Xica" do Jorge Bem, e algumas de Luiz Melodia! Destaque para a interpretação de Vilma Melo, e o seu cantar.

     O cenário lembra, na forma, as criações de Beatriz Milhazes. Uma  geometria de círculos suspensos no espaço, fabricados com a palha que leva à arte primitiva, incorporando altares. Aliás, a iluminação de Renato Machado, em conjunto com a criação de Karlla de Luca, dá ao palco um clima de fé, oferendas e de súplicas... E o elenco, ao fundo, acompanha a cena das oferendas, dando, com sua dança, o ritmo da cerimônia. 

      Outros aspectos do espetáculo, que não podem ser esquecidos, são a preparação vocal de Ananda Torres e a direção de movimento de Carlos Muttalla. Complementando a ação, há frases que acentuam o aspecto emblemático que a envolve: "Todas as cores são minha pele", em uma alusão ao preto, que também é a mistura de todas as cores... ou, "Sempre é uma palavra transgressora", frase essa que une a esperança à descrença. Essa frase é enfaticamente repetida por João Fernandes (Antonio Carlos Feio), em sua correta interpretação. É UMA EXPERIÊNCIA INTERESSANTE ASSISTIR A "CHICA DA SILVA - O MUSICAL". 
NÃO PERCAM !!!!!