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sábado, 20 de janeiro de 2018

"TOM NA FAZENDA"


                             

                Vaz, Babaioff e o olhar de Ecard em "Tom na fazenda",
direção
    Rogerio Portella (foto divulgação)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     Eis uma peça de teatro difícil de julgar, porque apresenta uma mistura de situações - diria estilos - que não se enquadram na convencional maneira de analisar texto e interpretação. Trata-se de um drama? De uma tragédia? De uma tragicomédia? O único que sabemos sobre ela é que dá  ocasião (enorme) para quatro atores mostrarem sua capacidade de atuação.
     Algum crítico menos prevenido poderia considerá-la pós-moderna (?) pelo fato de envolver tantas linguagens cênicas? Ou talvez um drama moderno no estilo dos norte-americanos Eugene O'Neill, Tennessee Williams e outros tantos? Fica a questão. O fato é que ultimamente o teatro moderno tem dado passos inacreditáveis em direção ao horror. Passemos a essa historia de horror. Insisto: comedia?
     Eis o tema: sofisticação/em confronto com primitivismo. Bons sentimentos/em confronto com desconsideração pelo próximo. Enfim, o texto apresenta... o que uma boa educação católica condena! Pois é. Escrito por um canadense da região do Quebec, portanto, de ascendência francesa, onde se misturam bons celtas, e não menos ótimos latinos. Vá entender! Ou talvez seja por isso mesmo que a confusão se estabelece. Com pitadas da "idiotia rural" de Marx! O tema é a selvageria, e está preparada a sopa. Vamos a ela.
       O nome do autor é Michel Marc Bouchard. Seu texto ultrapassa os de Bernard-Marie Koltés, outro autor que atrai (no bom sentido) a juventude - ou os não tão jovens assim - de hoje. Amo Koltés. Pois bem, digamos que Bouchard não possui tanta sutileza assim, o que se propõe fica escancarado. Ah! Se fica!
     A começar por Kelzy Ecard, a nossa Bette Davis moderna (o olhar!), que já começa mostrando a vida miserável a que o ambiente rural a levou! Seu personagem, nada fácil, escancara os preconceitos e a má vontade que podem se estabelecer em um ser humano levado a viver sem perspectivas. Enfim, outra interpretação magistral de nossa querida Kelzy.
     Em matéria de atrizes a peça está bem provida. Há uma comediante nata, Camila Nhary, que possui um inglês cachorral e se sai muito bem na confusão reinante. Claro, e "quem parte e reparte fica com a melhor parte, ou é bobo..." etc, etc... os homens botam pra quebrar! Só dá eles! Armando Babaioff (nunca o tinha visto em cena, surpresa), é o idealizador do projeto, o tradutor da peça e um dos personagens centrais. Realiza, com perfeição, os papeis que se atribuiu. Parabéns. (Ele interpreta Tom, o sensível e urbano Tom).
    Em contraponto temos o irmão de seu namorado morto, interpretado por Gustavo Vaz, em papel tão selvagem quanto se imagina ser a vida na roça. Ou pior. A fazenda está matando aquele homem. Talvez, desde Marlon Brando, em "A Street Car...", tenha visto tanta selvageria. Não, Vaz é mais selvagem ainda.
     Enfim, sobrevivemos todos a tanto primitivismo. Em matéria de teatro e desempenho dos atores - Nota 10.

FICHA TÉCNICA: Além do já citado tradutor e ator, temos: Direção: Rodrigo Portella (outro que tenho ouvido falar muito, e que fico devendo presença). Como diretor, penso que Rodrigo é uma grande aquisição para o nosso teatro. Cenografia da sensível Aurora dos Campos, que consegue transformar o palco em um circo de horrores, auxiliada pela iluminação de Tomas Ribas (destaque para Babaioff/Tom encerrado em um portamalas de carro!). Figurino contemporâneo de Bruno Perlatto. Direção Musical Marcelo H com guitarras e violão, acompanhado por Jr. Tostoi. Preparação Corporal Lu Brites (não a conhecia. Excelente!). Coreografia: Toni Rodrigues.                      

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

"TRIPAS"

Ricardo Kosoviski e as "Tripas". Autoria e direção Pedro Kosoviski.
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     Interessante como uma peça de teatro pode proporcionar várias leituras. No último semestre de 2017 estive fora do Rio e, em conseqüência, não assisti às últimas estreias do ano. Mas não fiquei sem notícia das mesmas, pois as nossas boas amigas do teatro, as da divulgação, sempre enviaram aos críticos press releases e convites para as estreias. Eu não pude corresponder aos cuidados de Catharina Rocha, por exemplo,  porque estive em andanças entre Rio Grande do Sul e Amazonas,  aproximando-me dos afetos.
     Felizmente há a retomada, há as reestréias. E este 2018 já me proporcionou assistir "Tripas" e "Tom na Fazenda" - sendo que os próximos teatros serão "Boca do Inferno" e "Alice Mandou um Beijo"... E também há estreias! Como essa dos Fodidos Privilegiados, "Pressa", com direção de João Fonseca e Nelo Marreze. E também vem  Bia Lessa, de São Paulo, nos trazendo Guimarães Rosa e seu "Grande Sertão" nordestino.
         E viva o Rio de Janeiro!
     Ao recuperar, agora, as peças que não assisti em 2017, vejo-me na plateia de  "Tripas", texto de Pedro Kosovski, interpretado por Ricardo Kosovski. Eis que, a talentosa família (há ainda a filha de Ricardo, Lídia Kosovski, no cenário, e Marina Kosovski no design gráfico.
     O que quero dizer neste início inusitado de crítica (como também inusitado o espetáculo), é que fui assistindo e fazendo a minha "leitura" da peça e, quando vi aquela "lula" sendo jogada em cena por Ricardo, não a associei à semelhança com o intestino grosso (o ator carregou uma verticulite aguda), mas a considerei uma citação ao nosso ex-futuro presidente. Quando, no final, há o beijo entre homens, liguei-me nos episódios recentes em que o beijo entre iguais é abominado pelos 'cegos de plantão', e dei razão, mais uma vez, ao diretor (e autor) Pedro Kosovski. Pensei: "teatro é vida, e os acontecimentos políticos fazem parte da vida, por isso o teatro é tão perseguido".  
     Faz sentido, a minha interpretação. Aconteceu assim porque não quis me influenciar pelo press de Catharina Rocha! Tudo aconteceu por causa da minha teimosa: resolvi  assistir munida apenas de visão artística! Ledo engano. Segundo o autor, esta peça é "uma autoficção, onde falo através de meu pai".   
     Mas, impressionada com a interpretação de Ricardo Kosovski, comecei a pensar que temos, neste monólogo, um grande ator e seu personagem. Na verdade, a frase "eu quero agradar vocês", dirigida à platéia inúmeras vezes durante o espetáculo, eu a tomei como uma celebração da vida! Pois bem. A verdade é que a vida de Kosovski passou por um terremoto, e vamos reencontrá-lo com a sensibilidade à flor da pele! Sim, ele esteve entre a vida e a morte, e agora festeja a vida, e repete, às vezes de maneira carinhosa, às vezes obsessiva: "eu quero agradar vocês". Estas palavras referenciam a ação!
     E tudo começa no Golfo de Ácaba - fronteira do Oriente Médio com Israel, perto do Monte Sinai! - onde pai e filho foram buscar a sua historia, as suas raízes. E o texto se constrói a partir destas descobertas. É surpreendente a movimentação corporal de Ricardo, que já nos pega na primeira cena! À medida que a peça caminha as surpresas vão se multiplicando e desistimos da leitura "dos últimos acontecimentos políticos no Brasil", e embarcamos no talento do ator. O que Ricardo Kosovski nos proporciona são momentos surpreendentes de teatro. Estamos na presença de um dos grandes atores cariocas, seu domínio sobre a platéia é total. O inusitado da proposta nos dá a certeza de que testemunhamos algo excepcional: a doença e a cura - e, para a platéia não se recusa nada! Parafraseando Ricardo, trata-se de um trabalho que faz "Das tripas... autoficção"!

     Na Ficha Técnica temos, além dos já citados, a magnífica iluminação de Renato Machado e a música de Pedro Nêgo, com direção musical de Felipe Storino. (e direção de movimento - adorei! - de Toni Rodrigues). Assistente de direção Julia Stockler; Video: Lourenço Monte-Mór;  Interlocução  artística: Renato Ferracini. 

sábado, 9 de dezembro de 2017

"O DOENTE IMAGINARIO"

"O Doente Imaginario" - Molière, direção Jacqueline Laurence. Em cena: Argan, Belinha, Angelica e
Leo Thurler.
(Foto Guga Melgar) 


    IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)  

     Se até nossos dias os médicos ainda convivem com as incertezas da medicina, imaginem no século de Molière, o célebre comediante de Luis XIV, na França, século XVII. Pois é das incertezas da medicina que trata O Doente Imaginario, de Jean Baptiste Poquelin, o Molière, atualmente em cartaz no Rio de Janeiro, Teatro Eva Herz. O texto  do grande comediante francês coloca, na tradução e adaptação do  brasileiríssimo João Bethencourt, uma pitada de nossa chanchada à brasileira. Muito divertida, por sinal, com a direção de Jacqueline Laurence, especialista na matéria. Nas mãos destes três profissionais, o público pode contar com divertimento e crítica garantidos.

     Pois é. O que se passa no palco é que o pai (hipocondríaco) da jovem casadoira resolve arrumar genro e sogro para a filha, beneficiando-se da escolha. O doente quer estar cercado de pessoas que sejam úteis a ele, no campo de medicina, ou seja: quer-se cercado de médico e candidato a tal, pai e filho. Coloque-se uma pitada de esposa interesseira (a do hipocondríaco), e mais uma soubrette esperta, e está armada a cena.

     Mas para que o público dê valor ao que está assistindo há que ter um cenário envolvente: cortinas e bambulinas se esparramam em toda a cena (Colmar Diniz), facilitando as entradas e saídas repentinas dos personagens. Fica tudo acertado quando a cena é tomada pelos extravagantes figurinos do mesmo especialista. O acréscimo cômico se faz notar.

     Mas da comicidade encarregam-se principalmente o próprio doente, o velho Argan, interpretado por Élcio Romar, nosso conhecido de outras apresentações com a Cia. Limite 151 (de Glaucia Rodrigues, no papel da soubrette Antonieta, e Edmundo Lippi,  o mano elegante do doente, o Beraldo). De Élcio Romar assistimos a várias apresentações em comedias desta Cia.. Prazer em revê-lo. Temos ainda no elenco Márcio Ricciardi interpretando o Dr. (de olhar fanático!),  Thomas Laxante, e seu filho pretendente de Angelica. A filha de Argan que é a delicada Andressa Lameu.

     O elenco segura muito bem o ritmo da comédia, dirigida com mão firme por Jacqueline. Temos ainda a esposa interesseira, "Belinha", interpretada por Jacqueline Brandão, e o candidato a médico (e esposo) de Angelica, comandado pelo cômico Leo Thurler, uma figura. Nesta apresentação podemos assistir a comediantes avant la lettre.  Há ainda o sóbrio apaixonado por Angelica, Cleanto, interpretado por Gustavo Wabner. É impressionante o empenho com que o elenco passa seu recado de teatro popular francês criado por Molière. Na verdade, Martins Pena não perde nada para as suas comedias. Certamente os excêntricos figurinos de Colmar Dinz têm muito a dizer daquela época  na França.... Um achado.

     A iluminação, sem maiores invenções, é de Rogerio Wiltgen. Música apropriada para uma comedia de Molière, dirigida por Wagner Campos. Fotos de Guga Melgar e Direção de Produção de Edmundo Lippi. Divulgação João Pontes e Stella Stephany. ACONSELHAMOS. BOA DIVERSÃO PARA TODOS!            




sábado, 18 de novembro de 2017

"O JULGAMENTO DE SÓCRATES"

"O Julgamento de Sócrates", interpretado pelo ator Tonico Pereira, direção Ivan Fernandes. (Foto Victor Pollak) 


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"O JULGAMENTO DE SÓCRATES"
     Sócrates, o grande mestre de Platão, está entre nós. Todo fim de semana, de sexta a domingo, às 20 horas, ele tem um  encontro com as pessoas desta cidade através do primeiro monólogo do ator Tonico Pereira, realizado no Teatro Cândido Mendes, de Ipanema. O ator Tonico Pereira começa o   monólogo contando um pouco de sua vida, antes de chegar na cidade de "São Sebastião do Rio de Janeiro". Conta da influência que teve de dois "Sócrates" de Campos dos Goytacazes,  norte do Estado do Rio, onde nasceu:  um barbeiro amigo, e seu Xixi, um artesão. Foi através destes dois mestres que Tonico percebeu que estava na hora de procurar outro caminho, mudar a sua vida!  Ah! Se todos nós tivéssemos Sócrates como mestre! Tonico teve dois ...!  que o convenceram que  Campos estava pequeno demais para ele. Munido de coragem e boas intenções, nosso herói se mandou para São Sebastião do Rio de Janeiro, e foi aí que tudo começou. 


     A cada noite, depois do encontro inicial com a platéia, ele deseja a todos "Boa Sorte", e se encaminha para o lugar de Sócrates, e para a sua mudança no filósofo grego. Nesta comemoração de seus 50 anos de carreira, Tonico Pereira joga com duas presenças em cena: a sua, enquanto artista do nosso tempo, e a do filósofo - pai da filosofia ocidental -  Sócrates.

     O texto do espetáculo é de Ivan Fernandes (inspirado em Platão - "Xenofonte - Apologia de Sócrates":  "aquele que não se deixara corromper pelos tiranos, inimigos da democracia, e que lutara bravamente na guerra por sua cidade e por seu povo". 

     Dirigido por Fernandes (e por Tonico Pereira), "O Julgamento de Sócrates" dá ao público o poder da livre interpretação, fazendo com que as injustiças e as calunias contra os homens de bem, tão presentes nos tempos de Sócrates quanto do nosso, fiquem em destaque em nosso tempo, esse mal-aventurado presente, que pode ser modificado, com muita inteligência  e "cabeça!", exorta-nos Sócrates, com sua personalidade - e a de Tonico Pereira. Eles possuem empatia, e nos exortam a sermos Humanos. 

     O texto não pode ser mais simples e mais explicito: ele quer atrair a atenção dos "jovens de qualquer idade", e, como sua platéia é diversificada - ele conta também com os adolescentes - público presente e atento, absorvendo as  lições de vida de Sócrates. Trata-se de um espetáculo que pode abrir portas (bem-vindas) para o futuro. 

     É muito bom presenciar um ótimo ator externando as suas preocupações com os humanos. Não há, no espetáculo, receitas para um futuro melhor, há somente constatações, muito pertinentes, sobre os acontecimentos atuais... e um tratamento adequado - no sentido de não ser gratuito - alertando-nos para estes acontecimentos. As coincidências estabelecem uma "ponte" entre os tempos de Sócrates e o nosso tempo.    
         
     Tonico Pereira encerra a espetáculo com algo fundamental, falando, ao sair de cena, sobre sua angustia, dizendo ser ela a verdadeira mobilização que o leva a falar sobre assuntos que o preocupam; a ele, e a todos os que se interessam pelo futuro do Brasil.
     VIDA LONGA PARA "O JULGAMENTO DE SÓCRATES"!

     Na ficha técnica temos o cenário e a iluminação como coadjuvantes da ação. Iluminação de Frederico Eça, que também cria a Trilha Sonora, e Palloma Morimoto no Cenario e Figurino, muito adequados. O Figurino é um simples traje de algodão cru, que poderia ser usado pelos homens do povo de qualquer época. Voz em Off de Wagner Barreto. Direção de Produção de Caio Bucker. Produção Executiva e Turnê: Ricardo Fernandes.   

domingo, 12 de novembro de 2017

"A FESTA DE ANIVERSARIO"

Cena de "A Festa de Aniversario", de Harold Pinter, direção Gustavo Paso. Em cena Guilherme Melca (Max) e Rogerio Freitas (Golberg), Alexandre Galindo (Stanley). (Foto Gustavo Paso)



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

A FESTA DE ANIVERSARIO
                      Em 1967, quando pela primeira vez assisti Harold Pinter em "A Volta 
                  ao Lar", com Fernanda Montenegro, fiquei com a impressão (óbvia) de que aquela 
                 mulher que abandonou o marido não o amava, e por isso não quis voltar com ele 
                 para o seu casamento, preferindo a separação. Na minha rígida cabeça de menina 
                 criada em colégio de freiras não havia lugar para o que aconteceu depois. 
                E Harold Pinter continuou sendo para mim um autor inacessível. Assisti-lo era (e é) 
                para mim, como se eu estivesse vendo uma foto em negativo, 
                uma imagem sem contorno (muito alterada) do que poderia ser a realidade.

     Assisti a outro "A Volta ao Lar" antes de "A Festa de Aniversario". Foi uma peça  
dirigida por  Bruce Gomlevisky, que fazia o irmão do marido?! Achei o personagem 
masculino de Bruce muito violento e, para surpresa minha, acabei aceitando a proposta 
do autor e "lendo", à minha maneira, o que estava acontecendo em cena, neste 
Hommecoming. Era algo muito bem guardado no interior de alguns personagens, 
e é assim que sempre recebo os textos de Pinter.

     O caso atual, de "A Festa de Aniversario" tem o acréscimo, agora percebido, 
de ser uma crítica aos humanos. Mas os personagens de Pinter são assim mesmo? 
Quem olha as fotos daquele verdadeiro "lord inglês" - o autor -  não diz que ele trás 
escondido dentro de si tanto horror... e conclui que a inteligência e o talento são um mistério!

     Mas passemos a "A Festa de Aniversario". São seis atores em cena, e um pianista 
que dá o clima da peça com o seu piano nervoso, de compasso dominador e presença física 
quase invisível !!! Aparece só uma vez, e nas alturas do cenário. Toca um piano magistral, 
por sinal, assim como o seu Beethoven! É André Poyart, tocando ao vivo e  dando 
um clima irreal - e terrível! - aos acontecimentos! Registro ainda, e principalmente, 
o desenvolvimento das cenas de tortura incluídas no texto ("Festa" foi escrita em 1957, 
Pinter estava ligado!) e a semelhança é surpreendente com os relatos de Sergio 
Sant'Anna, dez anos depois, em "Confissões de Ralfo": as frases de seus torturadores 
se assemelham, lembrando acontecimentos da vida cotidiana (no caso do livro de 
Sant'Anna, a tortura começa com uma pergunta: "Quem foi que descobriu o Brasil?"), 
no de Pinter, com perguntas sobre a vida particular de outro pianista, esse acossado, 
escondido em uma pensão (a perseguição à arte?), interpretado por Alexandre Galindo.
 O ator Rogerio Freitas, o "visitante" de Pinter, um ser encantador e sociável, subitamente 
se transformando em um horripilante torturador! Rogerio Freitas pode ser o mais perfeito 
comediante, como em "A Revista do Ano - O Olimpo Carioca", quando interpreta Hefaísto, 
o deus do fogo, e joga para a plateia um divertido Oscarito, como nas comédias da Atlântida! 
Pois em "A Festa de Aniversario" ele, do amável visitante do início da peça, se converte num 
personagem de olhar terrível e atitudes não menos. A partir dessa mudança, não há mais 
sociabilidade naquele visitante - há "o horror"! É tudo tão seguro, tão determinado, que não soa falso. 
São os mistérios do talento...  

     Mas por que a "Festa" se transforma em horror? Procuramos dar uma olhada em Pinter: "Nascido em um subúrbio pobre de Londres, filho de pais judeus do Leste Europeu! Ativista político!" (Está explicado? O "lord" criou uma estirpe! Criou-se, sobre o seu estilo o nome de "pinteresco", no qual personagens normais são colocados repentinamente frente ao inesperado e não apresentam reação" (...). Acho que está explicado o seu estilo, embora todos digam que Pinter é um dos representantes do "teatro do absurdo". Não é um pouco facilitado, isso? Desculpe, Paso, e você sabe disso melhor do que eu... Mas para mim,  para mim, todos os teatros podem ser do absurdo! (Mas deixemos estas questões...). Premiadíssimo, Prêmio Nobel, etc, eis Harold Pinter.

     Pois este autor - com a colaboração, não podemos esquecer! - de outro mágico teatral que é Gustavo Paso, o diretor (sempre que o assisto saio mobilizada), - dá o clima da peça, ao qual ninguém escapa! Há ótimos atores complementando a cena. E outro mistério: quem é Alexandre Galindo, que resolveu produzir a peça? Parece-nos que se lança como ator, mas a naturalidade com que ele atua é surpreendente, jogando-o entre os veteranos! Há também uma deliciosa (e louca!) Andrea Dantas, em seu papel de dona de casa alienada. Comedia pura! Ah, essa família Dantas! E a menina Raíza Puget, fazendo a adolescente desafiadora, inconsciente e vaidosa! Que cenas ela nos proporciona! Marcos Ácher é o mais pinteresco (na acepção do termo, o homem que não participa, se exime, se acovarda. Ele representa aquela classe de homem do povo que Pinter detesta: o "morno"). E o faz muito bem. E há Guilherme Melca, o "representante" dos subúrbios, mundo muito conhecidos de Pinter... Querem festa melhor?  

     A ficha técnica sempre me deixa com vontade de estudar cada uma das referências: A Tradução é feita por Alexandre Tenório. Eu jamais seria tradutora, enlouqueceria! E a Iluminação? Que entendo eu de Iluminação? Só a sinto, me emociono. Ela dá o clima, me transporta, assim como a música - que já entendo melhor... Pois a Iluminação é feita por Bernardo Lorga. O cenário é conduzido por Gustavo Paso, e eu entendo aquelas armadilhas, as correntes, os buracos, os sobressaltos... Como não estabelecer o pânico? O cenário faz um jogo infernal com a luz... A Trilha Sonora, como já dissemos, é do excelente músico André Poyart. Assistente de Direção: Marcos Árcher. A "Administração de Temporada" é do nosso apaixonado por teatro Antonio Barboza, que agora continua o seu trabalho de ator na TV Globo! Muitas felicidades para você, Antonio! Direção de Produção: Luciana Fávero, que também se encarrega dos figurinos e adereços. Parece-me que Gustavo Paso tem uma equipe fiel, que o acompanha em seus trabalhos fora de seu grupo, como este "A Festa de Aniversario". Estes dois últimos artistas/técnicos citados fazem parte do seu grupo! Há certamente outros, não citados, como o Cenotécnico Eduardo Andrade. Enganei-me? VIDA LONGA, E PRAZEROSA, A ESTES ARTISTAS! É BOM VER BOM TEATRO! DIGAM-ME UMA COISA: CRÍTICA DE TEATRO É TAMBÉM ARTE? PELO MENOS ELA FIXA UM INSTANTE DESTA EVANESCENTE ARTE. E COM ENVOLVIMENTO EMOCIONAL!
          




  







domingo, 5 de novembro de 2017

"DANÇANDO NO ESCURO"

Elenco de "Dançando no Escuro", de Lars vo Trier, adaptação teatral de Patrick Ellsworth. Ao centro, Juliane Bodini e Greg Blanzat, o menino, seguidos por componentes do elenco. 

Elenco de "Dançando no Escuro", de Lars von Trier. No Brasil, direção de Dani Barros. 
(FOTOS DE ELISA MENDES)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro o- AICT)
(Especial)

DANÇANDO NO ESCURO

     Eis um espetáculo que não é só para a gente assistir e ficar por isso mesmo! Ele permanece conosco, a aí vamos assistir o filme, e novamente o teatro, para ter certeza se isso aconteceu mesmo... Temos a impressão de que é vida real, e bem poderia ter sido. Quantas injustiças com pena de morte não acontecem naqueles famigerados EUA!

     Mas não esqueçamos "Dançando no Escuro" no teatro, no Brasil, Rio de Janeiro. Foi a primeira direção da atriz Dani Barros (que teve como mestre, em sua formação, Antonio Abujamra), inspiração (e incitação) de Juliane Bodini e Luis Antonio Fortes! Foi também a primeira vez que Lars von Trier liberou o seu texto e argumento para com ele se fazer teatro. A adaptação consentida foi feita por Patrick Ellsworth. No Brasil, os direitos foram comprados em 2015, e sua estréia se deu no Rio de Janeiro, em 2017.

     Marcelo Alonso Neves dirigiu a parte musical. Para vocês terem uma idéia, este estranho espetáculo decorre todo em torno dos ensaios da "A Noviça Rebelde" que é também um pretexto para as músicas. Pelo que deduzimos, é cantando e interpretado por amadores de uma cooperativa de teatro organizada pelos operários da metalúrgica na qual Selma Jezková, uma quase cega, trabalha.

     Os absurdos feitos por Jezková para salvar o seu filho da cegueira congênita já começam a contar desde a sua escolha para trabalhar. Uma cega trabalhando em máquinas de corte? É desastre na certa. Tudo bem, trata-se de Lars von Triar, e as emoções se iniciam com o começo da peça.

     Nesta montagem, sonhada por Juliane Bodini e Luis Antonio Fortes (ele faz, muito e bem, o apaixonado de Selma), há músicas criadas por Bjork e executadas por Vanderson Pereira (multi tecladista), Johnny Capler (Baterista), Allan Bass (baixo) e Dilson Nascimento (multi tecladista). Dois deles são cegos, Vanderson e Johnny. Enfim... no final de algumas sessões há aulas de libra para inclusão e profissionalização de pessoas carentes. O "teatro humanitário", como deveriam ser todos os teatros.

     Outro senão interessante é que os atores se reportam, discretamente, ao momento atual em que vive o Brasil, terminando com "A Última Canção", da sofrida Selma. Jeff,  seu namorado, como ator Luis Antonio Fortes replica, desde o palco: "Não será a última canção "eles" não nos conhecem..." (referindo-se à possibilidade de o momento político atual tentar calar a boca dos artistas de teatro (e de outras artes). Para os atores de "Dançando no Escuro", isso não vai ser fácil.  E não será, mesmo, para todos os artistas!

     Tradução fiel ao contexto, de Elidia Novaes. O que podemos chamar de "O Calvario de Selma" começa no Segundo Ato. Sim, o belo Teatro "SESC- Ginástico" nos leva ao "Segundo Ato"... e vamos, em um crescendo, em direção à iniquidade do ser humano, à sua falsidade, à sua maldade - e Selma Jezková, atônita, percebe, finalmente, essa maldade.

     A primeira vez que assistimos à peça, pensamos que Selma queria morrer, pois as tolices que fazia, em direção a um final trágico eram óbvias ( faziam parte do texto de Trier, ele não confia na Humanidade, e muito menos nos Estados Unidos). Depois de confrontar filme e peça chegamos à conclusão de que Selma era uma pessoa boa (os perigos da bondade), e foi cruelmente colhida por suas qualidades. Juliane Bodini também é boa, e diz, ao citar a importância de montar "Dançando no Escuro": "É preciso enxergar o outro".

     A escolha do elenco é feita a dedo: temos o menino, interpretado por Greg Blanzat, um ótimo ator-mirim que leva o público às lágrimas. Há também Cyrua Coentro interpretando a amiga Carmen Baker, outra aquisição para o nosso teatro (não a conhecia), ou Julia Gorman interpretando a fútil Linda Houston, a causadora da tragédia. Há Suzana Nascimento no papel da guarda Brenda Young, um ser humano que leva um pouco de humanidade (boa) para a prisão. (Há situações-limite, porque esta peça é um musical trágico, finalmente! Aliás, há uma velada crítica aos musicais que nos rondam (tudo Hollywood), cujos cantos "nascem do nada"...).

     O elenco de "Dançando..." é bom, e não deixa nada a dever. Há Lucas Gouvêa, que desencadeia a tragédia interpretando o personagem de Bill Houston, o policial, marido da fútil Linda. E os professores e encarregados do serviço na fábrica: Andreas Gatto (Samuel), Marino Rocha (Norman).

     Direção de Produção de Jéssica Santiago. Toda esta produção, bem cuidada, é apoiada pela iluminação belíssima de Felicio Mofra; cenário de Mina Quental, reproduzindo, de forma pós-moderna, o interior de uma fábrica. E o figurino, marrom, sóbrio, de Carol Lobato. Direção de Movimento e Coreografia (ponto para Denise Stutz). Sapateado: Clara Equi, que também colabora com a Coreografia. Preparação Corporal, Camila Caputi. A parte da preparação musical e das danças está muito bem assessorada. Aliás, a direção de Dani Barros também é brilhante. A Versão das canções é de Marcelo Frankel e Juliane Bodini. (A atriz já foi indicada ao Prêmio Bibi Ferreira por sua participação como coadjuvante em "Cassia Eller - O musical"). Bodini é uma ótima surpresa, e possui uma voz privilegiada.  

NÃO SABEMOS SE O ESPETÁCULO VOLTA AO CARTAZ. ULTIMAMENTE, DEVIDO AO POUCO ESPAÇO DEDICADO AOS ESPETÁCULOS QUE ESTREIAM, EM GERAL ELES AMPLIAM A SUA PRESENÇA NA CIDADE INDO PARA OUTROS TEATROS. NESTE CASO, DESEJAMOS VIDA LONGA PARA "DANÇANDO NO ESCURO".                    

segunda-feira, 30 de outubro de 2017