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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

"A PAZ PERPÉTUA"

Alex Nader (Cassius), Gillray Coutinho (Homem), José Loreto (John-John), João Velho (Odin)
e Kadu Garcia (Emanuel), em "A Paz Perpétua", direção Aderbal Freire Filho. 


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"SAPERE AUDE" - "Ouse!" Os intelectuais da Espanha são uma fonte de surpresas. Aderbal Freire Filho também. E quem conhece Juan Mayorga? Somente eles... Pois está presente, até o dia 11 de dezembro, no Oi Futuro do Flamengo, com o texto "A Paz Perpétua", escrito pelo espanhol libertador e traduzido pelo brasileiro, que também dirige o espetáculo: Aderbal Freire Filho. Emanuel Kant, o filósofo, inspira, levantando a questão do "territorio" - a pessoa que está em seu "Domínio" tende a repelir o visitante que interfere. Como os cães. O espanhol Mayorga completou este ano 50 anos de vida. São mais de 50 peças escritas, e esta "Paz" veio completar uma inicial "Palabra de Perro", de 2003. Seu tema? Liberdade pessoal, território, prisão?         

     O que sabemos, sim, é que vamos falar de sensibilidade, ousadia e  imaginação. Não se passa incólume por Juan Mayorca. Aparentemente estamos em uma sala onde seres estranhos se comportam estranhamente. Procuramos não ter informação anterior sobre o que iremos assistir, mas é quase impossível. Subitamente percebemos que estes seres usam coleiras, e que há alguém que os leva pela coleira, e esse alguém é venerado (temido?), pelos demais. São quatro homens em uma encruzilhada.

     Não quero falar aqui de "forma" e "conteúdo". Percebemos que há feras selvagens por detrás daqueles homens e um deles, com um simples - "Seat!" - transforma os demais em dóceis criancinhas. É preocupante, tal estado de coisa. Revela que "os homens" obedecem a quem lhes comanda. Temem a quem comanda, e se tornam submissos...     
   
     Até aí, tudo bem. Mas não dá mais para continuar fingindo que não estamos entendendo o que está acontecendo no palco. É algo tão inusitado que nos eleva a tensão. E vamos encontrar o paralelo entre a fera e o homem. Os quatro cães possuem características humanas ou: os quatro homens possuem características caninas. Eles são cães, rosnam como cães, e como animais se alimentam. Mas eles são homens...

     Não conseguimos imaginar quais argumentos usou o diretor para extrair destes cinco atores (Alex Nader, Gillray Coutinho, João Velho, João Loreto e Kadu Garcia), a tensão permanente que pede seus personagens. Aderbal afirma que trabalhou com a idéia de que todos os homens têm cachorros dentro de si. O fato é que estamos diante de um espetáculo intenso, que cobra muito dos atores. Há sincronia, entre os cinco, cada qual carregando a sua característica, mostrando os principais tipos e personalidades que pertencem aos humanos. Assim, temos Odin, o cínico, carregado com dignidade por João Velho (a gente não entende completamente o que Odin fala, mas seu dono é tão expressivo, em sua "poção cachorro" que passamos a entender a sua "não fala" - sabemos que é uma questão de respiração que, também às vezes ataca os humanos). Outra personalidade interessante é a do cachorro Emanuel, o filósofo. Ele nos leva às lágrimas, contando como deixou morrer a sua cega dona, a sua amada. Este ator, Kadu Garcia, dá-nos a impressão de que já foi de circo (adoro a sensibilidade dos atores circenses), tal a gama de expressões e gestos naturais que ele semeia. É um inferno, esse ator!

     E temos também John-John, o cão atleta, o cultivador de seu "desempenho" enquanto cão, em luta com suas limitações intelectuais. Comovente atuação de José Loreto. O seu John-John também "Ousa Sapere!". E, finalmente Alex Nader, o cão Cassius, treinador de todos os cães. Cassius já foi campeão, já usou a "coleira branca" pela qual os outros  estão lutando, já foi o líder dos cães antiterror, um dominador! Agora é somente um aleijado, mas sobreviveu, o que não se sabe se acontecerá com os que estão sendo treinados por ele, no momento. Um intenso desempenho de Alex. E o "Humano" acontece, na fala final do verdadeiro treinador, interpretado por Gillray Coutinho. Sua voz de comando se assemelha muito às ordens dos humanos em relação aos que lhes são subordinados. E é aí que a peça se esclarece! Os cães atendem à fala do Humano, e os rosnados e dentes arreganhados - do início - terminam em uma luta de exterminadores. Os cães se precipitam em sua própria aniquilação!

É BOM VER BOM TEATRO!     

Teatro contemporâneo. Ficha técnica: Autor: Juan Mayorga; Tradutor e Diretor: Aderbal Freire Filho; Diretor Assistente: Fernando Philbert; Iluminação: Maneco Quinderé. Ator stand-in Manoel Madeira. (Não temos Figurinos e Cenário).
             



5 comentários:

  1. Legal!Mas seria interessante também pensar como a informação "não temos Figurino e Cenário" é notada(ou não) no espetáculo,enquanto elementos constituintes da cena.
    Isto sugere um caminho de despojamento?de improvisação?é uma constante de um coletivo de teatro?de apagamento de certa compreensão de cena e teatro?Ou falta recursos?e as coleiras?o que são?adereços?enfim,os desafios que a crítica estética sempre tem de lidar.
    Abs.

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  2. Figurino: Antônio Medeiros
    Cenário: Aderbal Freire-Filho
    Direção Musical: Tato Taborda
    Fotografia: Nil Caniné
    Produção Executiva: Nil Caniné
    Direção de Produção: Sérgio Martins
    Realização: Somart Produções Artísticas

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  3. Capitu, não recebi ficha técnica, tive que pesquisar para saber que Maneco fazia a luz. Não tive notícia de figurino e cenário.

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