"Doroteia", de Nelson Rodrigues, direção
Jorge Farjalla
atrizes Murtinho, Spiller, Deschamps e Farias.
(Fotos Carol Beiriz)
IDA VICENZIA
(da Associação
Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
"Doroteia", escrita por Nelson
Rodrigues em 1949, oferece uma visão extravagante sobre a mulher e suas
limitações. Apesar de o autor ter identificado esta peça como "uma farsa
irresponsável" - ou por causa - tudo é permitido fazer-se com ela, em
termos de montagem. Um exemplo do que estamos falando é a realizada no Rio de
Janeiro, neste mês de abril, com direção de Jorge Farjalla, no belo espaço
cênico do Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico.
Em tempo: "Doroteia" foi a peça
escolhida pela atriz Rosamaria Murtinho para celebrar os 60 anos de sua
carreira como atriz. Pelo que pudemos observar, foi uma escolha desafiadora,
pois Rosa interpreta D. Flavia, a mais velha das três mulheres que não dormem
porque não querem sonhar... com homens! Essa historia ultrapassada - um mito,
como querem alguns - apresenta a mulher com medo do homem e do sexo, preferindo
todo o prazer que podem usufruir do sexo pela masturbação. Enfim, é um quadro que
se adapta a uma época repressiva, a primeira metade do século XX, quando a
mulher só podia escolher entre ser prostituta ou santa. As mulheres de Nelson,
como sabemos, não se adaptam a nenhum destes rótulos, elas são, em geral, umas loucas.
Loucura é o procedimento de D. Flavia, interpretada
com garra e sofrimento por Rosamaria Murtinho. O que torna hilária, em nossos
dias, tal historia, é que as mulheres, atualmente, estão preocupadas com outros
temas, ficando a repressão e a feiúra para tempos passados. Mas sempre é bom
lembrá-las, ainda mais na concepção alucinada (no bom sentido) de Jorge Farjalla.
Três viúvas, interpretadas por Rosamaria
Murtinho, Alexia Dechamps e Jaqueline Farias se retiram, em isolamento, o qual
só lhes proporciona mal estar e angustia. Em sua vida lúgubre eis que surge a
"mulher" - a prostituta bela,
que também vai ser corrompida pelo ódio ao homem. Diz Sábato Magaldi que
Nelson Rodrigues está falando em arquétipos, mitos e inconsciente primitivo,
mas o que vemos, com certeza, na encenação de Jorge Farjalla, é um grupo de
mulheres vivendo a tragédia da finitude e do abandono. Vejamos o que o diretor
mineiro fez, em sua versão da peça do autor pernambucano, dando-nos tragédia
grega e teatro simbolista (aquele das pausas, luz e sombra, etc...)
O jovem diretor mineiro, que admira e
trabalha as peças de Nelson Rodrigues há vários anos, pensa um destino
mitológico para essas "feras insepultas", essas viúvas de roupagens
setecentistas e pegada trágica. Porém, as mulheres de Farjalla (e de Nelson, nesta
peça), não oferecem a grandiosidade da causa do amor traído, elas apenas destilam
ódio ao masculino. Mas, o bom de se ver, na peça de Farjalla, são as surpresas,
interrupções que certas cenas nos proporcionam, como o monólogo de Alexia
Deschamps, que não imaginávamos uma atriz com tal ritmo teatral e tal poder de
comunicação, ou de Dida Camero, como D. Assunta da Abadia, cuja intervenção dá
energia "e voz cáustica" aos acontecimentos da mansão da D. Flavia.
Ótimos, os desempenhos das duas. E Anna Machado, interpretando Das Dores, a
filha que não sabe estar morta. Este é o mais inusitado e original do texto de
Nelson Rodrigues, mas registramos também a viúva Carmelita, de Jaqueline
Farias, papel bem defendido, apesar de não apresentar maiores momentos, a não ser por ocasião de sua
morte... mas aí nos antecipamos aos acontecimentos.
Em termos de interpretação, Leticia
Spiller, como a titular "Doroteia", poderia ser mais
"diabólica" em sua bondade e arrependimento. Uma Maria Madalena
arrependida? Como seria essa atuação? Leticia Spiller sempre nos oferece
atuações explosivas, com seu canto e nudez infratoras, embora essa Doroteia não
nos ofereça nada além do esperado. Não há grandes momentos para a pecadora, e o
texto de Nelson Rodrigues, principalmente Doroteia, poderia proporcionar grandes
momentos para Leticia: estes o diretor Farjalla os criou. E aí vem a observação sobre
"música e cenário": ao som de uma floresta ameríndia, com seus
"troncos-cobras medusianas", vamos delimitando a ação - e tornando-a
crível! - com suas litanias e "misas criollas" que dão o tom para a
ação, complementando a fala das atrizes e alcançando o surreal do espetáculo. A
nudez de Doroteia é um desses momentos. Sim, porque a montagem de Farjalla é
surrealista!... e simbólica. Daí a sensação de alguma coisa estranha rondar a
ação, algo estático e nebuloso... Às vezes o diretor consegue passar essa
sensação. Sim, para assistir a "Doroteia de Farjalla", há que ter um
contato mais direto com "o simbolismo".
... Tal "escola" é refletida no
cenário "penumbroso" de José Dias e na música que a acompanha, sendo "Besa-me
Mucho" o único tema que a extrapola, dando "respiração" à
prostituta Doroteia, em uma linguagem que alcança as intenções do autor. E, ao
mesmo tempo que a peça "Doroteia" é a apoteose das
"fofoqueiras" de Nelson, dando-nos o clima de mentira e despudor (e a
música original de João Paulo Mendonça, Leila Pinheiro, Fernando Gajo e Rafael
Kalil nos dão esse clima), há momentos em que pisamos em terra firme, pois
"Doroteia", assim como as personagens de Tennessee Williams, também necessita
"da bondade de estranhos" e, nessa categoria, citamos o diretor
Farjalla, que tornou possível uma leitura diferenciada dessa peça tão cheia de
armadilhas.
O cenário
poderoso de José Dias, com seus troncos de árvores e os claro/escuros (iluminação de Patricia Ferraz,
Jorge Farjalla e José Dias), nos dão o
clima de horror que a rigidez da casa das três mulheres necessita. Na concepção
do cenário, o espaço cênico pode se transformar em uma selva
"medusiana", na qual os monstros estão soltos... Também encarregado
dessa fantasia está João Paulo Mendonça, o diretor musical, seus músicos e os
homens jarros (e botas), que nesta montagem se materializam (André Americo,
Daniel Martins, Du Machado, Fernando Gajo Pablo Vares e Rafael Kalil). Eles fazem
um bom contraponto com a solidão e o desespero das cinco mulheres.
Neste clima estranho se desenrola o drama
que Sábato Magaldi considerou "mítico", fixado por Lulu Areal fixa esse
"clima estranho", acentuado pelos figurinos dos músicos, parecem ter
saído de uma miscigenação com a floresta e seus mitos. E, voltando a Letícia
Spiller e sua "vaporosa" Doroteia (do início da peça), e D. Assunta
da Abadia (Dida Camero), dois vitais exemplos do que poderia ter sido o ritmo do
(já cansado) comando da matriarca, personificada por Rosamaria Murtinho (D.
Flavia). O único grande momento da matriarca é quando ela determina, em voz
possante, a morte das viúvas que a traíram - ao se emocionarem com os corpos
dos homens nus. (Para quem não sabe: "Doroteia" é a apoteose das
mulheres que renegam os homens). Assistência de direção: Diogo Pasquim e Raphaela
Tafuri. Podemos considerar um dos melhores momentos dessa montagem as "litanias"
e o ótimo ritmo caribenho da "Misa Criolla" (trechos), que relembra a
marca latino-americana das peças de Nelson Rodrigues! VALE A PENA ASSISTIR "DOROTEIA" -
É UM ESPETÁCULO CURIOSO. EM CENA
ATÉ PRIMEIRO DE MAIO.
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