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domingo, 17 de junho de 2012

"O CÉU ESTÁ VAZIO"



Priscila Steinman (Emilia) e Paulo Giardini (Ivan), em "O Céu está Vazio" (foto divulgação)





IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
      
     O "Céu está Vazio" merece mais do que um canto exíguo no Teatro Café Pequeno. Mais. Muito mais. Para mim essa peça é um acontecimento estético. Brilha, em sua sutileza. Optou pela poesia, porém seu texto passa por várias leituras. O que nos fica, no final, é a expressão do pai, Ivan (um excelente Paulo Giardini), ao ouvir o "Réquiem" de Mozart e se deixar penetrar pela emoção. Esse momento ilumina a encenação do diretor Jorge Caetano, e dá o fechamento para o texto poético de Julia Spadaccini. Trata-se de algo misterioso e fracionado, esse texto, um encontro da arte com o silêncio.
     Pode parecer uma contradição o fato de eu estar me reportando ao silêncio, em uma encenação que opta por recursos em que o som, em suas várias linguagens, impera. Susan Sontag define, em "A Vontade Radical", impasses como esse, na arte, como sendo "uma luta entre a integridade "espiritual" dos impulsos criativos e a "materialidade" perturbadora da vida comum". Esse jogo acontece o tempo todo, em "O Céu está Vazio". Opto, na peça em questão, pela escolha da "espiritualidade" e fico com o anjo-demônio de Priscila Steinman (Emilia), que resolve todas as questões dos humanos e volta para preencher o vazio que ficou no céu, sem a sua presença. 
     A encenação de Caetano optou por contar a história cercando-se de recursos que vão desde a HQ, até os rótulos que definem a modernidade das gerações. Como Spadaccini e Caetano trabalham em sintonia (esta é a terceira peça que desenvolvem juntos, a autora confiando na sensibilidade do diretor), a sutileza e a delicadeza se mantém, trafegando em um difícil contraste com o mundo conturbado dos personagens. Daí seu fascínio. A encenação que assisti na última sexta-feira, dia 15 de junho, estava marcada por um certo automatismo, qualidade que não lhe cai bem. O texto de Spadaccini pede "folie", ênfase na loucura, entrega total. Sabe "Outside"? Pois é. São Paulo vai entender "O Céu está Vazio", vai enlouquecer com a peça, se lá ela for encenada. O mesmo "feeling" sobre o teatro e os paulistas (nada contra o Rio), tive com "A Bau A Qu", de Enrique Diaz, baseado em Jorge Luis Borges. Nos idos da década de 80, se não me falha a memória. Aqui no Rio a peça não foi muito bem entendida, em São Paulo ganhou o prêmio Molière. Pena que esse prêmio não existe mais. 
     "O Céu está Vazio" é dividida em "Sons", assim: "O Som do Destino", "O Som do Outro", "O Som do Silêncio", etc. Ah, esqueci de falar no "Som do Zumbido", revelando a inadaptação de Ivan. Essas divisões são anunciadas em letras garrafais, projetadas no fundo da cena. Aliás, as projeções se sucedem, sendo as mais comunicativas as que perfazem o caminho do "anjo", Emília. Há toda uma convenção (?) cercando os personagens. Ninguém é totalmente o que é, mas representações de um sentimento: assim, Lui (Rael Barja), o garoto adolescente, representa, com acerto, um "tipo", o emo, que parece estar presente em alguns adolescentes atuais: excesso de sensibilidade, talento, curiosidade, uma certa dose de cinismo. Contrapondo-se a ele, e no mesmo diapasão diferencial, a jovem Emília, que em sua doce versão humana torna-se uma "cosplay" (um termo americano que quer dizer "costume player"), o nome já diz tudo: os "costumes" - roupas - mudam conforme os personagens que interpreta. Quase sempre personagens de HQ. Uma história cifrada. Parece-me que na última cena ela se veste com seu próprio personagem, o anjo/demônio. Os jovens dizem que essa estética faz parte da cultura "pop".            
     O que não é tão hermético (ao menos para mim, anos 70), é Sandra, a amante de Ivan.  Ela é atemporal, é hippie. Ela ama. Sua sensibilidade a faz amar a corrente da vida... e Janis Joplin! Wright? Ela não conhece o ciúme, o rancor, mas quer conhecer as pessoas. Reconhecê-las. A vida, ou o interesse pela vida, flui desse personagem. A atriz Thaís Tedesco a interpreta com a maior felicidade. E finalmente outra personalidade interessante: o esboço de mulher moderna que está querendo se conhecer, interpretada por Ticiana Passos, a bela mãe que não sabe o que é ser mãe (alguém sabe?), não ao menos com o despudor com que ela quer "se enturmar" com o filho. Pai e mãe são gauches, eles não têm a mínima ideia do que é se relacionar com aquele filho estranho. As incompreensões  vão se desenhando, e atraem sorrisos cúmplices da plateia. Em suma, "O Céu está Vazio" mostra o que seria a nossa realidade, se por acaso vivêssemos em um clima de "procura psicológica do eu". Talvez seja por isso que tudo é tão instigante, essa proposta da descoberta do lado escondido de todos nós. Pena que a diluição, ocasionada pelas mudanças no espaço cênico, tenha dispersado a tranquila opção feita pelo diretor, à qual assisti no palco da Casa de Cultura Laura Alvim. Mas, como na vida nada é impossível, eles ainda vão voltar à cena em um espaço que solte a imaginação do público. O elenco está precisando de espaço para voar ainda mais!  
     Na iluminação Ana Kutner (ela está se revelando neste terreno); a trilha sonora que acompanha as cenas é uma acertada escolha do diretor, e a direção de movimento dos atores é da excelente Marcia Rubin. Os figurinos imaginativos, que ajudam a compor a cena, são de Flavio Graff. Com o cenário (de Fernando Mello da Costa) acontece algo interessante, ele vai se modificando, conforme a história está sendo narrada. Explico: um sofá pode se transformar em um muro, basta o "anjo" ter necessidade de saltar sobre ele. Em outras palavras, modifica-se conforme a ação, e também conforme as projeções das histórias ilustradas pelos Vilarouca (Renato e Rico, e também por Rodrigo Tavares). A preparação corporal é de Marina Magalhães. Diretor assistente, Luis Fernando Philbert.
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quinta-feira, 7 de junho de 2012

"QUERIDA HELENA SERGUÊIEVNA"

Elenco de "Querida Helena Serguêievna", no momento em que os alunos encontram a
professora Helena em sua casa.  Da esq. para a dir: Fabio Enriquez (Pacha), Marina Provenzano (Liália),
Gabriel Vaz (Vítia), João Pedro Zappa (Volódia) , de costas Helena Varvaki  (professora Helena)                                                                                                                                                        
                                                                                                                                                                                      (foto divulgação) 
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Criticos de Teatro - AICT)
(Especial)


     "Querida Helena Serguêievna", de Ludmila Razumovskaia, está em cartaz no Teatro Poeirinha, anexo do Teatro Poeira, em Botafogo. Quem assiste às peças encenadas no Poeirinha não se desliga do palco, pois o espaço é mínimo e a escolha do repertório é determinante. Diante desse contexto, o público acaba sendo "sequestrado", e adere. A proposta inicial de "Querida Helena" é a visita inesperada, doce e idílica, dos alunos da professora Helena (Helena Varvaki), no dia de seu aniversário. A presença da professora, sozinha em cena, delicada, de gestos precisos, é de um realismo levado à minúcias (no dia em que assisti, tivemos a "perfeição do real", quando a professora oferece, gentilmente, um copo d'água a uma espectadora acometida de um acesso de tosse. Mas realista impossível) e, o que não é muito comum, tal gesto vem acompanhado de uma delicadeza de desarmar espíritos. Delicadeza que não é o tom da peça, conforme veremos a seguir. À propósito, Helena Varvaki é uma atriz que transmite os sentimentos de seu personagem com um simples olhar.         
     A plateia, a um primeiro olhar, impressiona-se com o cenário de Doris Rollember, a divisão da casa da professora, os objetos de cena que transmitem a personalidade da moradora: a sala com seus livros, a música (há o cuidado do tom regional, a música russa), o chá sendo preparado pela professora, os pequenos detalhes que revelam o "recolhimento", a paz de espírito. Palavras não são necessárias, para o espectador saber quem é Helena Serguêievna. Somente gestos.
     E eis que se inicia a ação, com a chegada dos alunos invadindo a casa da professora, para festejar o seu aniversário... Quem não teve contato anterior com a texto, aconselha-se a assistir a peça desconhecendo seu final. Certamente que essa observação tolhe qualquer propósito de explicação das motivações dos personagens. Tolhe qualquer crítica. É consciente, essa tomada de posição, senão poderia não resistir à tentação de compará-la com a violência que se estabelece em "Clokwork Orange" (Laranja Mecânica), filme de Stanley Kubrick... Passemos aos comentários.
     "Querida Helena" foi escrita nos anos 80, quando a União Soviética ainda era exemplo, para seus admiradores (categoria em que a crítica se inclue), de ensino exemplar e de cultura valorizada. Aliás, dentro do contexto, é impressionante o conhecimento técnico dos alunos/personagens cursando o que é, para nós, o segundo grau. Uma observação: o cuidado com que é feita a escolha do elenco, preenchendo o phisique du rôle dos personagens. Tem-se a impressão de que se foi até a Russia, para contratar Volódia (João Pedro Zappa), o cérebro que transmite a potência da educação soviética e o uso que faz dos conhecimentos adquiridos. Será a educação, a cultura, um erro, não importa o país?, somos levados a perguntar, diante do texto. Não lhe fica atrás em violência "dostoievskiana" o jovem Pacha (Fabio Enriquez), como também o "epilético" Vítia (Gabriel Vaz), que ainda conserva traços humanos, diante do inesperado da transformação da cena. Mas já estou transpondo a proposta inicial - nada revelar - e Lialia (Marina Provenzano), outro exemplar eslavo no teatro brasileiro, com uma reação epidérmica, apaixonada. Curioso e interessante elenco.
     Isaac Bernat, na direção (assistido por Karin Dreyer), tem um ótimo material em mãos para trabalhar o crescendo de emoções de peça de Ludmila, e desempenha com acerto o seu papel como diretor. É impressionante a força da  dramaturgia, mas há, talvez, excesso nesta força, há falas que parecem não conviver com os personagens, não lhes serem familiares, tornando-se artificial, empostada. Como quando eles se referem à cultura russa, citando autores. Meu Deus, será que ninguém observou isso? É erro de dramaturgia, mesmo, é excesso. Talvez o diretor tenha tido pudores de dar um toque mais intelectual, ou cortar, mesmo, certo excesso do que nos pareceu algo pueril. Tem-se a impressão de primeira escrita, a dramaturga ainda não conseguindo controlar a palavra.
    Enfim, joga-se - e aí faz parte da natureza da peça - com a cultura, como se ela nada valesse. Certamente, é essa a visão de mundo dos personagens. É possível que o problema dos estudantes, não importa a latitude, seja semelhante. Não importa a origem, é algo inerente ao ato de aprender. É doloroso. Talvez essa tenha sido a intenção da montagem: questionar a educação na nossa sociedade. Talvez o público saia se questionando em relação aos seus adolescentes, com a célebre pergunta: onde foi que erramos?
      A peça seria uma obra-prima, se Ludmila Razumovskaia tivesse refreado o seu deslumbramento diante da palavra. Compreendemos que não é fácil escrever algo sobre o que se está vivendo, e Ludmila escreveu sua peça nos anos 80, portanto, quando a ambição soviética de um mundo melhor estava naufragando. Em tempos como aqueles, a cultura e a educação poderiam se tornar simples degraus para ambições inconfessáveis. Alguma semelhança com o Brasil atual e o ensino médio? Talvez tenha sido essa a intenção. 
     Ficha técnica de primeira grandeza, com Tato Taborda na direção musical; movimento corporal de Maria Alice Poppe; iluminação, Aurélio di Simoni; figurino Ney Madeira, Dani Vidal, Pati Faedo. Espetáculo interessante, que deixa uma questão no ar: como vencer a "desvalorização do humano"? "Querida Helena Serguêievna" é uma ferida aberta, exposta em todos os tempos, e ainda sem solução.                    

sábado, 2 de junho de 2012

"A VOZ DO PROVOCADOR"



IDA VICENZIA FLORES - CRITICA DE TEATRO
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)   

                                  
                                  Antonio Abujamra no monólogo "A Voz do Provocador"
                             (foto produção)


     Neste último dia 29 de maio fui a São Paulo assistir Antonio Abujamra em sua "Aula Master" "A Voz do Provocador", no CEU, unidade de Lajeado. O que mais surpreende na raça humana são os recursos que ela movimenta para ter a sensação de estar vivo. Abujamra, mal ou bem, inventou o seu. Quando o teatro fica lotado de jovens (e não tão jovens), para ouvi-lo, o ator/dramaturgo se transforma em energia e empolgação. Mesmo que seja somente por uma hora, mesmo que seja somente um recurso para distrair a morte. Abu, como é chamado carinhosamente (e não entendo como alguém possa ter carinho por aquele monstro), se transforma - e temos a certeza de que é somente essa transformação que o mantem vivo.
     Estamos em um dos CEUs (Centro Educacional Unificado), imaginados por Martha Suplicy quando prefeita de São Paulo - na verdade, o da comunidade de Lajeado é de proporções menores, pois teve o prefeito Kassab como seu executor - mas o sonho de Marta permanece. É no CEU que a comunidade/bairro de Guaianazes se reúne e é lá que funcionam as aulas e as atividades culturais em várias modalidades, desde as primeiras letras até às artes cênicas; da dança clássica ao judô; da música e aprendizado de instrumentos musicais, a  vários tipos de esporte. Há uma biblioteca bem fornida, e teatro para todas as idades. Essa noite de 29 de maio é dedicada ao teatro.
       Antonio Abujamra está fazendo um belo trabalho na periferia de São Paulo. Entretanto, não é o único: Fernanda Montenegro já o antecedeu, e agora, anunciado para agosto, os jovens terão Julia Lemmertz e o elenco de "O Deus da  Carnificina". O texto de Yasmina Reza, uma indiana radicada em Londres, não importa, esse texto é uma amostra do verniz da nossa "civilização", apresentando conceitos e preconceitos que acentuam esse verniz. Mas, o que nos interessa agora é Antonio Abujamra. O ator selecionou alguns de seus pensamentos sobre política, cultura, liberdade, América Latina, e outros assuntos que o mobilizam e dão vida a seu programa "Provocações", e os dividiu com o público daquele bairro.
      A "aula master", se assim a podemos chamar, tem um formato teatral. Leia-se, porém, que se trata de uma anti-masterclass, com ênfase nas intervenções arrebatadas, e às vezes hilariantes, do diretor/ator. Embora, no conceito de Abujamra, o professor deva ser um ator - e a interferência que ele faz, contando como eram as aulas de Nabokov sobre literatura russa é inesquecível: poesia pura (talvez por isso, por sua veia poética, é que o tratam carinhosamente de Abu, eu não sei). O teatro lota, os jovens deixam seus afazeres habituais para escutá-lo e a plateia testemunha, apreende, pensa a respeito, e se diverte. O resultado é um espetáculo inteligente, e que não deixa ninguém tranquilo. Intranquilidade, teu nome é Antonio Abujamra.                          
     A palestra, como ele gostaria de explicar, tenho certeza, e não tem paciência nem para explicar para repórteres (e dizer que já foi um deles!), se divide em "Provocação", "Coragem", "Risco", "Compromisso", Resistência", "América Latina", "Cultura", "Palco", "Mediocridade", "Liberdade", "Cotidiano" e "Vida". Querem mais? Ele se recusa a comentá-la, a essa divisão: deve ser porque está saturado de vida. Querem mais? Esse homem coloca seu pensamento em cada um dos itens acima. No início de sua conversa, convida a plateia para pensar sobre os clássicos da literatura. É aí que Antonio Abujamra reproduz os movimentos de Wladimir Nabokov, ao dar uma aula na Universidade de Nova Iorque (essa será a única vez que vou me reportar diretamente ao texto): "...uma sala enorme, maravilhosa, três grandes janelas, três grandes cortinas (...) Nabokov entra na sala de aula com uma elegância que, quando o russo atinge essa elegância, o inglês é um mendigo. (...) Aí ele entrou na sala de aula, eles olharam para ele, ele olhou para aquelas janelas... Foi na primeira janela e fechou a cortina, foi na segunda janela e fechou a segunda cortina, e foi na terceira janela e fechou a terceira cortina. Ficou aquela penumbra. O que ele vai fazer, o que ele não vai fazer? Ele veio na primeira janela, abriu quase até a metade, entrou aquela luz, ele disse: isto é Puchkin. Vai na outra, abre até depois da metade, e diz: isto é Gogol. Vai na última, abre inteira, e diz: isto é Tolstoi. Vamos falar sobre literatura russa" (e Abujamra conclui: "Quer dizer, o professor tem que ser um artista. Tem que ter esses golpes teatrais. Tem que saber fazer isso".      
     Só essa abertura do "monstro" com o público já comprou a sala inteira. Querem mais? A voz de Abujamra cresce, torna-se potente, emocionada. Aí ele fala sobre a sua geração de artistas: Zé Celso, Antunes, Amir Haddad, e alguns que já morreram. E não posso deixar de citar esse momento em que Abu se pronuncia: "... essa geração nossa era uma geração com coragem (...) Nós jogávamos as coisas para a frente, nós jogávamos as coisas sem nenhum temor do que ia acontecer...".  CORAGEM: questiona os jovens de hoje, não levando em conta que hoje vivemos outro momento, não temos o "Ato Institucional de 68", como ele se refere ao Nº5, e o espírito de revolta contra a ditadura, que transtornava a juventude daquela época. RISCO: "Eu quero insistir com os jovens que o humor é indispensável, e que a gente não tem que ter medo de errar. Tem que caminhar no incerto, como pede Pascal... não leram Pascal... mas podem caminhar no incerto. (meu amado Pascal, é bom amar os mortos, digo eu, eles não nos decepcionam). E Abujamra prossegue: COMPROMISSO: "A vida é trânsito, é dia útil, não é domingo. Atue, atue, atue, não deixe nunca de atuar". (Vocês podem ver, pela maneira como Abu coloca a sua fala, o aprendiz de retórica que foi, tenho certeza. A frase enfatizante o trai. Não faz mal, somos sempre aprendizes). RESISTÊNCIA: "Na arte da criação, o ator deve esquecer as fórmulas fáceis. (...) Ele deve perder a confiança em tudo, deve esquecer todas as suas experiências. É preciso estar em estado de graça. O palco me chama, eu fico febril, vou aos extremos"
       Eis o diretor se pronunciando, se dando, passando a sua experiência para aquela plateia sequiosa, ouvidos atentos. É por isso que o monstro não fala, antes do espetáculo, não fala com ninguém, nem com essa crítica em seu papel de repórter. Murmura, irritado e irritante (para copiar-lhe o estilo). E passamos para a AMÉRICA LATINA e o índio mexicano Guaiakalpuru Caltemoque (e eu mato o Abujamra se esse índio for uma ficção, tal a palavra se assemelha), o índio para quem o pagamento da dívida europeia a seu país, ao México... se faz necessária. Ele quer a Europa inteira pelos quilos de ouro emprestados há 500 anos atrás, pela prata emprestada... Caltemoque está falando na comemoração do quinto centenário da descoberta da América, em uma reunião dos chefes de Estado da Comunidade Europeia. Querem saber porque Abujamra se irrita com tudo isso, com a vida? Por que a injustiça é demais, para um coração oriental...*            
*OBS: Ninguém pode me acusar de nada. Se vocês lerem com atenção o trabalho em meu blog verão que eu adoro o Oriente (frase de quem anda assustada com o recrudescimento da agressão do Ocidente em relação ao Oriente). 

terça-feira, 8 de maio de 2012

"A PEÇA DO CASAMENTO"

CRÍTICA TEATRO
IDA VICENZIA FLORES
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

Dudu Sandroni e Guida Vianna em "A Peça do Casamento"
(foto de Cláudia Ribeiro)
     Em cartaz, no Teatro Laura Alvim, Edward Albee e a "A Peça do Casamento" (1987). Em cena, as últimas horas de um casamento. Mas serão mesmo "as últimas horas"? A verdade é que estamos na presença de uma  situação delicada. Gillian, casada com Jack há 30 anos, se defronta com a decisão do marido, que volta mais cedo do trabalho e declara à sua mulher que está deixando o lar. Famoso por escrever uma dramaturgia que contesta o "status quo" (lembram-se da controvertida peça "Quem tem medo de Virgínia Woolf?" e seu grito contra a academia e seus professores?), Albee quer cortar na carne do burguês. Ele não pertence à geração dos "angry young men", dos ingleses, de John Osborne, dos "fifties". Considerado o maior dramatrugo americano vivo, o tema de suas peças é a família e suas idiossincrasias. "A Peça do Casamento" trafega no limite do teatro do absurdo. Porém, uma verdade salta aos olhos, é quando Jack pergunta: "Que espécie de animais somos? A gente faz o que o instante manda". Albee parece estar questionando, através de Jack, o caráter do homem, não somente o do homem burguês, mas a sofreguidão do gênero humano.   
     Vemos que, em "A Peça do Casamento", a vida bem vivida da burguesia pode transformar-se em uma tragédia... ou em uma comédia. Há momentos, no espetáculo, em que isso se manifesta, de maneira clara. É  quando Jack fala do "brilho", e não é sobre a cocaína que ele está falando: é sobre a beleza. Aliás, há três movimentos na peça que a tornam inesquecível: o primeiro é o da "rejeição" na qual Gillian (em excelente interpretação de Guida Vianna), faz o discurso da rejeitada: "eu estou velha? Deixo você com medo?" e, num crescendo teatral, vai mostrando a insegurança e a perplexidade da esposa abandonada. No final de sua fala, é aplaudida pelo marido. Guida Vianna, nesta peça, tem oportunidade de mostrar a gradação de seu talento, indo da mais pura comédia à angústia, agressividade e ironia da mulher que está perdendo o seu amor. 
     Observamos que, no texto de Albee (eu li a tradução de Marcos Ribas de Faria), há um verdadeiro "show de rubricas", nas quais o autor destaca o grau de liberdade que proporciona a seus personagens. Na fala de GILLIAN, por exemplo, a respeito de Jack, ela observa: "Retórica é algo além de sua capacidade". Imaginamos a cena, quando JACK responde, tranquilamente: "É... Você  pode estar certa.". ALBEE a indica, referindo-se a Jack: (Levanta-se, se Jack, por acaso, estiver sentado). Ele não sabe onde o diretor colocará o seu personagem, e isso não tem a menor importância. Apenas, com essa observação, o autor  dá liberdade a seus personagens, eles adquirem vida própria.
     É o que acontece com Frank, o personagem de Sandroni. Vida própria. Com a súbita revelação de mudança em sua vida, ele pensa que está ficando louco, e passa a controlar a sua ação (controlando a do ator), para não entrar em colapso. Sandroni, nesta peça, está em um momento inspirado de sua carreira, e o diretor Pedro Brício explora com sucesso a sutileza e a fragilidade do seu personagem. Encontro perfeito: há uma simbiose entre personagem e ator, entre Sandroni e Jack, algo semelhante ao que aconteceu a Aderbal Freire Filho, no filme "Juventude", quando o diretor Domingos de Oliveira jogou com a tensão e a  fragilidade do personagem/ator. Com seu desempenho, Dudu lembra Aderbal, e demonstra que está apto a participar da "Ceia dos Cardeais" dos três amigos: Aderbal, Domingos e Paulo José, fazendo o "quarto cardeal".
     Mas os meandros do absurdo são elásticos. E muito particulares. Podemos comprová-lo em Ionesco e seu teatro, ele que foi o iniciador de "todas as loucuras". E dizer que o romeno se inspirou em uma aula de inglês! Foi fazendo uma paródia sobre as aulas que ele era obrigado a frequentar, que Ionesco chegou à "A Cantora Careca"! E onde se localiza o absurdo em "A Peça do Casamento"? Obviamente, no impasse ocasionado pela vida a dois. A opção foi experimentar todo o tipo de reação possível ao descompasso dos dois, inclusive através de música e dança, ao som da trilha sonora de Lucas Marcier e Fabiano Krieger.  Relembramos, também, no final da peça, de "a luta", onde os dois atores quase se estraçalham em cena. Uma luta absurda, porém "um discurso adorável, e um atentado à verdade", como são encarados,  pelo casal, os seus embates. O autor, depois de aconselhar, na rubrica (de uma página), os movimentos da luta, emenda: (Obviamente, tudo isso deverá ser coreografado dentro das possibilidades dos atores, até os seus limites). O diretor Pedro Brício e Andrea Jabor, em sua preparação corporal, seguem à risca a sugestão do autor. Nos momentos finais da luta, ouve-se o diálogo absurdo do casal: GILLIAN: "Você está ótimo" JACK: "Você também". GILLIAN: Desculpe a joelhada". JACK: "Você sabe como atingir um homem". GILLIAN: "Talvez esse seja o problema".
     A iluminação preenche todos os caminhos, inclusive o do jardim, último reduto indicado para o herói (uma citação de Voltaire?), a luz é desenhada por Tomás Ribas; figurinos, sublinhando as citações do texto, são de Rita Murtinho. Cenário, Aurora dos Campos. Há um espaço livre, na cenografia, uma arena dentro do palco (ao menos foi essa a impressão que ficou), para melhor desenvolver o "interlúdio físico" da luta entre os atores. E há o terceiro movimento, depois da luta, "o brilho" da beleza perdida. JACK afirma: "Ainda hoje eu brilho... quando estou sozinho... não vou andar por aí brilhando pra qualquer um. Para que gastar meu brilho? E GILLIAN, em um jogo de palavras: "Você não brilha para mim faz muito tempo, não é?" Outro jogo interessante, a que Albee se entrega, são as brincadeiras com os autores famosos, como  Henry James, D. H. Lawrence, Hemingway... Quem quiser ver bons atores, e um bom texto, não perca "A Peça do Casamento". É muito bom ver bom teatro.
   
   

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"ABRAM-SE OS HISTÉRICOS!"



CRÍTICA TEATRO
IDA VICENZIA FLORES
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
       Marina Salomon,  Marina Magalhães, Patrícia Niedmeier,
   Aline Luna e Antonio Quinet - (foto da produção)
CENTRO CULTURAL
JUSTIÇA FEDERAL
AV. RIO BRANCO
           - RJ -
       Atenção! Um novo espetáculo de Regina Miranda está em cena até dia 17 de maio, no Centro Cultural da Justiça Federal. É lá que, cercados pelo frenético trânsito da Avenida Rio Branco, nos sentimos, de repente, em pleno século XIX. Fantasia e realidade se entrecruzam, mostrando o caminho das grandes damas loucas! Trata-se de "Abram-se os Histéricos", um espetáculo de dança e teatro que fala sobre o trabalho do Dr.Jean-Martin Charcot (1825-1893), médico e professor de neurologia. Suas aulas de medicina foram adaptadas para teatro pelo psicanalista-dramaturgo Antonio Quinet (com a colaboração de Regina Miranda), retiradas de seu livro "A Lição de Charcot". Na direção, o vigor e a inteligência de  Miranda, unido-se à intensa pesquisa teatral de Quinet, um apaixonado pelo teatro. O psicanalista é o criador da "Cia. Inconsciente em Cena", que apresenta o espetáculo. O autor nos faz ver que o tema fascinante da histeria vence preconceitos: Charcot  também. O médico oitocentista declara que a histeria não é um privilégio da mulher, e passa a pesquisar o homem histérico, o que, à época, era uma blasfêmia.  
Os gestos convulsivos dessa síndrome, Quinet os entregou à Regina Miranda coreógrafa, especialista em Rudolf Von Laban. Regina se encarrega também da encenação do espetáculo. 
    Em um cenário branco sobre branco, lava-pés, banheiras brancas e portas envidraçadas, o público fica entregue à realidade do hospício de La Salpêtrière, em Paris. Ao fundo do palco, protegidas pelas paredes de vidro, as pacientes são tratadas pelos enfermeiros. Em outro plano, no proscênio, ficamos entregues ao  mundo da alma das pacientes: é neste espaço onde o interior humano se revela. Para Charcot, o útero é um órgão articulado que protagoniza a alucinação: um órgão volante que sufoca a mulher. Aplicando um método por ele criado, o da compressão do ovário, ele atenua a dor e os ataques de suas pacientes. As demonstrações do método são feitas nas aulas que ministra a seus alunos, em um salão onde uma plateia de leigos (nós, a plateia), também pode observar o resultado de suas pesquisas: a histeria é o assunto do momento. É quando Blanche Wittman (Marina Salomon),  paciente-vedete das aulas de Charcot, faz a sua "performance". Essas encenações se tornaram moda, na Paris dos oitocentos.    
     Em suas aulas o neurologista cita o diretor francês Antoine, e seu teatro realista, e nos diz que a histeria "é uma verdade feita de mentiras", como no teatro! Os gestos exacerbados de suas pacientes (doença ou encenação?), mais parecem um espetáculo teatral. O jovem Freud (interpretado com incrível verossimilhança por Evandro Manchini), a tudo assiste, e se contrapõe ao mestre. Para ele são "fantasias do inconsciente", o que aquelas mulheres hipnotizadas protagonizam. Trata-se de uma época estimulante para os estudos da psique. A psicanálise está começando a nascer, e é através do teatro que Freud chega a Sófocles, a Édipo e a seu complexo! Mas há outros alunos de Charcot que também brilham,  como Joseph Babinski (interpretado com charme pelo ator Jano Moskorz), o descobridor do reflexo de babinski, ou "reflexo plantar", cuja reação adversa sinaliza lesões neuroniais. E, interpretando o neurologista e clínico geral, o excelente Lourival Prudêncio. 
    Nesta montagem foi dada uma atenção muito especial à semelhança dos atores com os seus personagens. Tais cuidados vemos acontecer no teatro e no cinema europeus. Prudêncio, assim como os atores que interpretam Freud e Babinski, possui o phisique du rôle de seu personagem, e a presença carismática do médico, tal como a podemos imaginar, se concretiza no palco. 
     Quanto à encenação, Regina Miranda transporta para seus espetáculos o impacto das artes visuais (lembramos "Contra-Ataque", produção em que Regina joga em cena, como se fosse uma instalação, um túnel de raio lazer, e na confluência das luzes do túnel, os bailarinos dançam a sua dança de impacto). É de tirar o fôlego. Dessa vez Regina divide o palco em dois planos: o hospital, ao fundo, e o salão da casa de Charcot, no proscênio. É neste salão que o médico apresenta o resultado de suas pesquisas. Trata-se de um visual impregnado de ação. Em primeiro plano, as atrizes-bailarinas evoluem, mostrando seus ataques e delírios. É de uma beleza fundamental a cena das sonâmbulas dançando, no proscênio, enquanto são examinadas por Babinski (Morskorz) e observadas pela escandalizada enfermeira (Berenice Xavier).
    Entre as bailarinas-atrizes, Marina Salomon encanta com a sua presença. Ela é uma artista que, com um simples gesto, pode encarnar uma trágica grega, uma cantora lírica, ou a histérica  vedete das apresentações de Charcot. O rosto esplêndido de Salomon, sua voz e sua atuação podem transformar a cena. Aliás, a seleção de bailarinas-atrizes de Regina Miranda é perfeita: Sarah Bernardt é interpretada com precisão por Patricia Niedmeier. Sim, Sarah Bernardt frequenta Charcot, assim como (segundo Antonio Quinet), - pasmem! - o nosso querido D. Pedro II (o monarca não aparece em cena). A atriz-bailarina Aline Luna protagoniza Jane Charcot, filha do neurologista. E a atriz Berenice Xavier interpreta a enfermeira que a tudo assiste e reprova os métodos de Babinski... a quem ela acusa de pervertido! - porque em suas pesquisas o jovem estudante, descobridor do "reflexo plantar", examina com excessivo cuidado os pés de suas histéricas! Marina Magalhães tem a instigante cena do assédio, protagonizando Blanche Wittman menina. 
     Não podemos esquecer que as pacientes, como todos os "angustiados" e loucos, são dominadas pela ânsia de fugir do hospício. A cena da fuga é plena de teatralidade: o fundo do palco se abre e deixa ver o jardim do Centro Cultural, local onde, em algaravia, as histéricas se refugiam, tendo ao fundo o movimento do trânsito da rua México. Essa cena é um dos pontos altos do espetáculo, em termos operísticos, como também o é o acompanhamento musical realizado por José Eduardo Costa Silva, diretor musical. Desde a música apresentada no início da ação, a "Serenata ao Luar", de Beethoven - e as louquinhas, envoltas em branco, traçando passos labanianos com seus figurinos esvoaçantes - até trechos de "A Sonâmbula", de Bellini, e de "La Traviata", de Verdi, com as atrizes e seus figurinos brancos (acertos de Luiza Marcier, mestra a dar requinte ao espetáculo com as soluções de seus tecidos). O século XIX impera. E, no pequeno teatro da Justiça Federal temos uma "camerata operística" das mais bem sucedidas, com a voz de Márcia Lyra (soprano), e o piano de Ernesto Hartmann. 
     A iluminação de Dani Sanchez, com variações de luz e sombra, e a bateria de "spots" (outro ator em cena), dão o clima adequado para a ação. Não podemos esquecer a histeria "de salão", representada pela hostess (Aline Luna), que oferece, insistentemente, "champagne, champagne para todos!" Segundo Quinet, "a histeria, com a sua teatralidade, continua a desafiar a ciência". Ele afirma: "nada melhor que o teatro e a ópera para colocar em cena o corpo histérico que grita". Agora um conselho: não percam "Abram-se os histéricos!" Precisa mais?            
 
        

domingo, 29 de abril de 2012

"PALÁCIO DO FIM"


TEATRO
CRITICA



IDA VICENZIA FLORES
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
 (Especial)



Vera Holtz em "Palácio do Fim" - foto Guga Melgar
     A peça da canadense Judith Thompson aborda a questão do Iraque contemporâneo, a guerra em seu território e a decadência de um povo. É praticamente impossível, para alguém que não seja iraquiano (e para eles, principalmente)  procurar entender o que se passou em seu território com essa revoltante invasão estrangeira. Mas, como a escolha do diretor José Wilker recaiu sobre "Palácio do Fim", vamos a ela. Trata-se de uma faca de dois gumes, pois, ao mesmo tempo em que a autora acolhe depoimentos, ela tenta humanizar equívocos, como o representado pela atriz Camila Morgado, que ficou com a dificil (e triste) missão de mostrar a "banalidade do Mal", exposta já tão abertamente por Hannah Arendt em seu confronto com o nazista Adolf Eichman. Judith Thompson tenta humanizar uma fera bárbara, buscando trazer até nós comiseração pela soldado Lynndie. Puro lixo Ocidental. O talento de Camila Morgado desnuda-a. Porém a autora, ao mesmo tempo em que procura nos horrorizar com o horror que pode ser o cérebro humano, tenta nos aproximar, mostrando simpatia pela besta-fera, nem que seja para se solidarizar ao perceber (e deixá-la se perceber) como estava errada. A solução de Lynndie, desertar para o Canadá, redimir-se e não ser molestada, fala por si só.  
     Não satisfeita com essa tentativa de comiseração ocidental (nossos companheiros não são tão maus assim), a autora ainda tenta nos incutir uma enganosa aversão dos orientais ao comunismo, aversão essa que foi construída pelo Ocidente. Corrompido, Sadam Hussein aceitou fazer o serviço sujo até o fim, mas o grande genocida, criminoso de guerra verdadeiro é George W. Busch. Ele, agora,  não pode aproximar-se da Holanda por medo de ser enquadrado pelo Tribunal Bertrand Russel. Hussein foi amado por seu povo (é pena que o documentário feito por um francês, em tempos anteriores à guerra capitalista, tenha sumido do mercado).
    Vera Holtz, a nossa mais recente diva dos palcos (uma atriz cuja inteligência faz tremer os seus companheiros de cena), parece aceitar a versão ocidental, e nela crer. Para ela, que interpreta uma oriental como se oriental fosse,  Osama Bin Laden e Muamar Kadafi parecem ser os monstros que os donos do dinheiro ocidental querem nos vender. Perdoem-me se estou enganada e Vera Holtz consegue manter o distanciamento crítico de seu papel, que é representar o sofrimento de uma mãe muçulmana culpada, e politizada (elas também existem).
     Que desastre esse nosso mundo! O oriental é um povo cultivado - embora os orgulhosos ocidentais não acreditem - apenas a sua visão de mundo é diferente da nossa. Talvez o personagem mais coerente de "Palácio do Fim" seja o cientista interpretado por Antonio Petrin, com a sua habitual competência. Esse personagem enfrenta sem temor o seu complexo de culpa por ter mentido que os iraquianos possuíam armas de destruição em massa e, através de seu depoimento, justificar a guerra. (A pergunta de uma pacifista: por que os Estados Unidos e Israel podem ter "armas de destruição em massa",  e os outros países não, mesmo que seja para fins pacíficos, se justifica).  
     O Oriente é uma região dividida em tribos (o Islamismo fabricou as correntes provenientes de Maomé: os sunitas, originária do ramo de Aixa, esposa-criança de Maomé; e os Xiitas, do ramo de Fátima - irmã do profeta). A fratria e os assuntos religiosos comandam a região. Exacerbar neles o conflito capitalista é uma perversão. O mundo deles é outro, o valor e o poder é representado por outros interesses, que vão além do dinheiro. Em "Palácio do Fim" o diretor optou por dar destaque às diferenças, exacerbando-as. O texto é um entremeado de depoimentos, e convida a essa divisão. A luz de Maneco Quinderé reforça-as; assim como o cenário multifacetado de Marcos Flaksman. A criação musical, que dá contorno aos acontecimentos, é de Marcelo Alonso Neves. Figurinos de Beth Filipecki e Renaldo Machado integram-se à ação. Tem razão o diretor, quando diz: "Talvez tenha a ver com a vida. Com algo de vida que nos escapa, cujo sentido não é, de imediato, compreensível". Ele está se referindo, no texto do programa, à sua escolha e à paixão pelo teatro. Alongando o sentido da frase, podemos estendê-la, também, como sendo a compreensão do texto e do contexto. Os orientais são um povo que "nos escapa". Thompson, para entendê-los, precisava ser menos ocidental. 








sexta-feira, 20 de abril de 2012

"ECLIPSE"

(VIAGEM LIVRE À OBRA DE TCHECOV)

CRÍTICA
TEATRO SESC GINÁSTICO
CENTRO
Cena final de "Eclipse" - foto de MiguelAun
   - RJ -

IDA VICENZIA

Biscoito fino, embora com alguns condimentos a acertar, na receita, o Grupo Galpão nos surpreende mais uma vez.  Esse grupo mineiro, que já trouxe ao Rio de Janeiro espetáculos memoráveis, dessa vez ocupa-se de Anton Tchecov (1860-1904). Com direção do russo Jurij Alschitz, desconhecido entre nós, a incursão à chamada "alma russa" é feita com segurança e leveza. (Os condimentos a serem ajustados são alguns problemas de fragilidade de voz de alguns atores, nada que prejudique o todo). A maneira como é apresentada a arte de Tchecov é a grande chave do espetáculo,  que se complementa com cenografia e figurinos também de Alschitz. Deles falaremos mais tarde.

     "Eclipse" parte de uma ideia de confinamento, algo misterioso e lunar, apesar de o sol ser o grande contraponto. Cinco atores-personagens jogam com histórias, contos e dramas criados por Tchecov, o grande artista que inspirou e ainda inspira artistas de todo o mundo. O interessante, na atmosfera da peça, é que atores e personagens vão desvendando suas personalidades, em uma proposta desafiante e sutil. Principalmente sutil, para quem tem alguma intimidade com a obra de Tchecov. Assim, ao mesmo tempo em que vemos a gaivota dominar a cena, vemos Nina (na voz da atriz Lydia del Picchia), apresentar a sua exaltação à Arte, ao Talento, à Vocação, temas tão queridos ao autor. A personagem da atriz (del Picchia), faz a defesa de sua visão de mundo e este jogo duplo se reproduz, sucessivamente, entre os atores. Os amantes de Tchecov se regalam. 
     Assim, ouvimos o ator Julio Maciel (que já dirigiu  espetáculos no Galpão), fazer a defesa do "eterno-estudante", personagem marcante do autor russo; e também o ator Chico Pelúcio nos transmitir (com grande maestria), um dos contos de Tchecov sobre médicos: experiência de vida, realidade e ficção do autor. Enfim, entramos no mundo dos "saberes" russos pela mão segura de um diretor que conhece o assunto. Fascinantes são os recursos encontrados para equilibrar os atores, os personagens e o "homem comum" que vive em cada um deles (de nós). Simone Ordones e Inês Peixoto, por exemplo, transmitem a própria encarnação da "alma russa": a primeira tratando da sua religiosidade e a segunda do "caos e aventura" daquele povo tão distante e tão semelhante (a nós).                        
     O cenário é um capítulo a parte. O eclipse do sol fecha as portas da comunicação com o mundo, e fica-nos apenas uma sala, esquematizada no mais puro modernismo russo. Os ângulos fechados, as cadeiras pop-art e, dominando a cena e introduzindo a ação, o quadro negro de Malevich, que vai sendo  desenhado (com letras que lembram o alfabeto cirílico e a época revolucionária da "virada russa"), os contos apresentados, a "Groselheira";  a "Sopa"; o "Médico de Província" (esse, uma paixão que Tchecov desencadeia, uma filosófica reflexão sobre o humano). O final deixo para o espectador desvendar. Os figurinos (também do diretor), compõe as cenas, alternando modernidade e romantismo. Neste último, destaque para Lydia del Picchia, a bailarina clássica (paixão russa), de meias vermelhas e coração romântico. A visita do Galpão é temporada breve. Aproveitem este estranho encontro.