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segunda-feira, 16 de julho de 2012

"EU É UM OUTRO"

Elenco de "Eu é um Outro" - Lorena da Silva, Alcemar Vieira, Ana Abbott, André Marinho e João Velho
(foto divulgação)


CRITICA DE TEATRO
IDA VICENZIA FLORES
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)


Estreou no Teatro Poeirinha, "Eu é um Outro", sobre o poeta Arthur Rimbaud. Emocionante saber que o belo espetáculo é uma homenagem ao nosso querido Sergio Britto. É bom lembrar que Isabel Cavalcanti, a diretora de Rimbaud, dirigiu Britto em duas peças breves de Beckett, com as quais o ator ganhou o Prêmio Shell de melhor ator de 2009. Bela homenagem.
     "Eu é um Outro" trata da vida, poesia e morte de Rimbaud, escrita por Pedro Brício, por encomenda do ator André Marinho, da produtora Christine Braga e da própria diretora, Isabel Cavalcanti. O texto é um bem imaginado percorrer da vida do poeta, abordando inclusive os acontecimentos que o transformaram em mito, e a repercussão desse mito nos anos 70,  no Brasil, e em 2005, em Paris. Trata-se de uma oportunidade para mostrar como a rápida passagem do poeta pela vida foi marcante e transformadora, em termos de arte. Rimbaud nos deixou aos 37 anos e sua motivação, seu caminho, depois dos 20 anos até sua morte, são enigmas. Pois bem, é sobre esse mito e esse enigma que o autor Pedro Brício e a diretora Isabel Cavalcanti tecem uma das mais lindas histórias sobre poesia, envolvimento e emoção.   
     O que se fazer com estes dois gênios, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine? Um escreve Poèmes Saturnians com 22 anos, o outro Le Bateau Ivre, aos 17... o encontro dos dois só poderia ser explosivo. Pedro Brício e Isabel Cavalcanti exploram exemplarmente esse brilho. E a cenografia de Fernando Mello da Costa forma o trio capaz de tornar texto, atuação e mobilidade temporal surpreendentes. Estamos em diversos lugares, e os atores se transformam, conforme a necessidade da narrativa. E não é efeito especial ou manobras de cenografia: é teatro puro. De repente, estamos na casa da mãe de Rimbaud, em Charleville, no quarto onde o poeta dorme e divaga; no hotel em que os dois poetas se separam; ou no século XX, vendo a tradutora de Rimbaud (Lorena da Silva, em desempenho inspirado), em sua mesa de trabalho; ou na Paris de 2005... e a revolta dos povos do Oriente, o "pied noir" e sua dignidade de militante (André Marinho)... Diversas épocas e, ao mesmo tempo, a intensidade do poeta, a maneira de, tecnicamente, trazer velocidade e transformação para a cena, através da apresentação  dos personagens. A "a esposa de Verlaine", por exemplo, Matilde (Ana Abbott), estoura a barriga de balão e se transforma em uma mulher do século XXI, declarando que não está de acordo com a papel da mulher, "em nenhum século"! Será a voz do Brício que se manifesta? Ou a de Isabel? Jamais saberemos. Conforme palavras do autor, a peça foi se desenhando nos ensaios.
     Mas o essencial é a luta de Arthur Rimbaud (João Velho), pela liberdade. A sua tentativa emocionada de ser livre, e de libertar Paul Verlaine. Em vão, o rompimento se estabelece. Verlaine é também a representação da poesia, mas sem o arrebatamento de Rimbaud. Poetas simbolistas, suas poesias são eles mesmos e suas metáforas, e o instante: embora Rimbaud pense viver duas vidas. E tente vivê-las. Ouçam Verlaine, o poeta da musicalidade: "Les sanglots longs/Des violons/De l'automne/Blessen mon coeur/D'une langueur/Monotone" Esse poema virou símbolo, é o mais popular de Verlaine. Ou Nuit de Walpurgis Classique: "C'est plutôt le sabbat du second Faust que l'autre,/Un rythmique sabbat, rythmique".../
     Pedro Brício nos relata o que Rimbaud pensa de seu companheiro: ele não escreve poesia, Baudelaire, sim. Estamos falando do jovem Arthur... e o ponto alto do espetáculo se aproxima - não o percam, por favor! - é  quando Rimbaud (João Velho), declama, em português, trechos de Le Bateau Ivre. A plateia devia ouvi-lo de joelhos (aux genoux). E, enquanto o poeta fala, é  projetado ao fundo da cena o poema em francês, escrito na caligrafia de Rimbaud - e o mar ao fundo, e o poeta/ator oscilando, em sua embriagues... Imperdível!  (Arte de Massimo Esposito). "Ah! Se as crianças vissem o dourar das ondas/Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes.../- Espumas em flor ninaram minhas rondas/E as brisas da ilusão me alaram por instantes"//. O jovem Rimbaud dizia em carta a seu professor e mentor, Izambar (nome oriental...), que alcançava a transcendência poética através de um "longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos."
     O ator Alcemar Vieira abre o espetáculo, fazendo um resumo dessa vida desregrada, e criticando como as biografias são escritas, tão friamente. Na verdade, é impactante ver como elas são interpretadas, ao vivo, em cima de um palco. Alcemar interpreta Paul Verlaine e, enquanto "apresentador, que abre portas para o público",  nos faz descortinar o mundo vibrante que vamos testemunhar. O elenco acompanha a emoção, e defende, no momento em que vive, seja no século XIX, na França, ou anos 70, no Brasil, ou ainda na França, em 2005, a revolta e a emoção dos dias que testemunha. E há sempre no ar a presença do poeta: Lorena da Silva, forte como a brasileira que não se conforma com a censura a Rimbaud, feita no Brasil de seu tempo (o autor declara ser um fato verídico, essa censura). O argelino (interpretado por André Marinho), não se conforma com o preconceito em sua época, e quer transformar o mundo - um Rimbaud moderno? A amorosa Isabelle, irmã de Rimbaud (Ana Abbott), se transforma em tantas outras mulheres, igualmente amorosas, igualmente revoltadas: a esposa do poeta, a irmã do poeta.... mulheres.
     Enfim, esse jogo do tempo, o retorno no tempo, ele nos mostra o caminho amargo (e sutil?), dos que conseguem transcender. E a indagação sempre presente: quem foi, na verdade, Arthur Rimbaud? Para uns, um jovem ambicioso à procura do enriquecimento. Para outros, um ser ferido, um romântico tardio que foi em busca de seu oriente fantástico. Um Lord Byron francês?
     Enfim, o espetáculo tem na sua equipe técnica Tomás Ribas na iluminação, dando vida ao cenário de Fernando Mello da Costa e aos figurinos de Rui Cortez. Como a luz estabelece os ambientes, não percebemos quando os personagens mudam seus figurinos, tão absorvidos estamos pelo que se passa na encenação. Aliás, mudam-se os acessórios e entram em cena novos personagens, somente João Velho personaliza o Eu de Arthur Rimbaud. E talvez seja essa a peça a que coloca com maior perfeição o relacionamento entre esses dois grandes poetas.
     A ação é secundada pela direção musical de Tato Taborda e a movimentação cênica de Cristina Moura. A participação destes dois artistas da à composição cênica a vibração necessária. Também as projeções de Paola Barreto e Lucas Canavarro dão vida ao contexto histórico/poético que embala a narrativa. Até o programa da peça é realizado com acabamento poético, com o design de Sonia Barreto. Um cenotécnico perfeito complementa o acerto do espetáculo: ele é Mario Pereira. Podemos dizer que "Eu é um Outro" é um vôo ao tempo seminal da poesia simbolista em seu caminho para a modernidade. Entretanto, Arthur Rimbaud foge aos rótulos, com "seus solados de vento", e o elenco fica impregnado dessa imagem. Eles ensaiam, em cena, e no final há um corte, e os atores debatem o que acaba de acontecer. Há confusão, eles parecem  perdidos, não sabem qual personagem representar, como preencher os vazios. Somente o ator que interpreta Rimbaud não se desliga de seu personagem, tentando decifrar-lhe o enigma e, espírito tomado pelo poeta, atira para a plateia um verso da despedida de Rimbaud, que pode ser uma abertura para desvendar o seu mistério... Aconselha-se uma ida ao teatro, pois o espetáculo é imperdível. 

domingo, 8 de julho de 2012

"BANDEIRA DE RETALHOS"

Renan Monteiro (Bituca), Edson Oliveira (Sargento) e Kizi Vaz (Tiana), em "Bandeira de Retalhos"
(foto de Ricardo Gama)



CRÍTICA DE TEATRO
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)


Em cartaz no Teatro Maria Clara Machado, "Bandeira de Retalhos", texto de Sérgio Ricardo, encenada pelo grupo Nós do Morro. A direção é do fundador do grupo, Guti Fraga, com Fátima Domingues. Direção musical, Sérgio Ricardo. O espetáculo é uma homenagem a Fred Pinheiro, um dos fundadores do Nós do Morro, e aos 25 anos de atividade do grupo. Comemora-se também os 80 anos de Sérgio Ricardo, o conhecido músico, morador do Vidigal há pelo menos 30 anos. "Bandeira de Retalhos" é vida real e é História, com H maiúsculo. O episódio de remoção dos barracos, na década de 70,  foi uma tentativa do governo dos militares de desestabilizar a comunidade e entregar uma parte do morro (a com vista por mar), para a iniciativa privada. História pura, a da resistência e da paixão do povo do Vidigal. A organização da comunidade, a Associação de Moradores se fortalecendo, teve início ali, naquele instante.
    Impossível entrar na História sem se emocionar. Resumindo: ao mesmo em tempo que o autor conta o episódio vivido por ele, o da remoção do seu barraco (na ocasião o artista era morador do "Lado do IPTU", como eles chamavam os da "Estrada do Tambá"), mas acabara de mudar-se para um barraco, para viver o contexto do roteiro de  "Zelão". O artista ficou mobilizado pela arbitrariedade do governo da época (o dos milicos), e não saiu mais de lá, lutando por justiça junto com os moradores. Na peça, o seu personagem é Tuim, interpretado pelo próprio filho, o músico e ator João Gurgel. Tuim entrega para o engenheiro (Danilo Batista) a chave do apartamento que acaba de receber para se mudar para Antares, Zona Oeste do Rio. Nenhum dos moradores do Vidigal queria se mudar para lá, mas foi o músico Tuim quem verbalizou esse desejo da comunidade, de permanecer, de ficar: "aqui está a chave do ap, pode ficar com ela, dá pro prefeito, pro governador, pro presidente da República, daqui eu não saio não". E assim foi deflagrado o movimento. Todos de lá aderiram. Ou quase todos...
     O que mais encanta em "Bandeira de Retalhos", além do tema, é a sua concepção de opereta: ilustrando cada movimento da história, uma música: "Passarim Currupião", que encontra a corruptela para a palavra corrupção: "currupia daqui, currupia de lá/ É tanta "currupição"/ Que não quer se acabar". (Não pode ser mais atual, agora que a luta contra a corrupção se acentua). Ou a letra de "Abraço a Retirante", poesia pura: Pra que paredes, porta e tramelas/Jardim em flor e o fogo que acalenta/Perdeu o sentido o mundo na janela/do triste olhar que só o fim contempla". Aceita-se a tristeza porque faz parte dessa história, mas se deseja a alegria. Há esperança na vibrante "Quando menos se  espera": "Oh, liberdade, presa às grades da paixão/sem ti não faz sentido/ser um folião". São tantas as músicas! Algumas nossas conhecidas, como "Enquanto a tristeza não vem", que parece preparar o final, com seu belo refrão: "nasce uma rosa na favela". Tão nossas conhecidas, parece o início da esperança, mas o autor e os diretores estão preocupados em contar a história dessa luta infinda, que nos faz submergir, vergados ao peso do arbítrio dos poderosos! No final é quase impossível recobrar o fôlego para aplaudir, após o impacto da última cena. Fica a pergunta: por que as histórias da favela não podem ter um final triunfante?
     Mas sempre aparece um vingador, ao se dobrar a esquina. No desenrolar dos acontecimentos, vários deles foram citados, e o principal é o Dr. Sobral Pinto, tal como lembra o autor em seu texto, o advogado que deu aos favelados o caminho para o "interdito proibitório" que, como o nome jurídico tão pomposamente o declara, proíbe a remoção! Eles conseguem fazer o público dar boas risadas com os meandros da Lei, mas o resultado dos cuidados do advogado amigo é compensatório. Pra resumir, até o Papa dá seu veredicto em prol dos direitos dos povos (tal acerto não aparece na peça), e a felicidade acontece, modificando a região, para sempre. Mas, no final de "Bandeira de Retalhos", infelizmente, a testosterona vence. Explico. Esse é um hormônio que, se não é bem dosado, consegue desencadear o fundo escuro das pessoas: digo, o dos homens. Quando o espetáculo vai pro fundo do poço fica difícil, depois, aplaudi-lo com entusiasmo. E ficamos procurando, nessa historia, qual é a representação da alma humana? Contraditoriamente, o grande personagem parece ser o belo traficante Bituca (Renan Monteiro), que tudo entrega a seu rival Neno (Marcelo Mello), o marido da não menos bela Tiana (Kizi Vaz), a quem Bituca ama. Como sempre, quem deflagra a tragédia é a mulher.
     "Nós do público", embarcamos na poesia e na esperança, para no fim sermos levados de roldão a uma realidade que nos atordoa. Por ser construída pelos próprios moradores da favela, ela nos leva ao fundo do poço! Já não temos tempo de nos refazer, como público, e não conseguimos seguir o ritmo que nos promete a canção: "Quem vai pro fundo/Tem que agitar o braço/Tem que apertar o passo/Tem que remar contra a maré". Assim, não temos tempo de recobrar o fôlego para a apoteose final, e os aplausos são tristes: estamos pensando na última cena que acabamos de assistir. O público não consegue mudar do pranto ao riso, e fico o travo amargo, no final.
      Pensando bem, talvez a tragédia lhe caia bem. Por que não? Excelentes atores, eles extraem da vivência a sua própria arte. Neste domínio estão inseridos Cida Costa (uma atriz forte), no papel de Angélica, a esposa temerosa (figura típica do Nordeste), e seu marido dominador, Isidoro (Flavio Mariano), algoz da mulher e da filha Ângela (a ótima Jackie Brown). Muitas "figuras exemplares" surgem, nesse universo que povoa a peça de Sérgio Ricardo. Talentos como Marilia Coelho, uma excelente comediante - a Julia - em suas interferências hilariantes; Kizi Vaz, a bela e talentosa atriz; Francisca Damião, a Costureira; Maga Cavalcanti, a grávida; ou Duque (Alexandre Cipriano); Délio dos Santos (Alexis Abraham) e tantos outros. Sargento (Edson Oliveira) cumprindo com acerto o seu difícil papel de pau mandado. Luiz Henrique Delfino (Pernambuco). Tantos! Mais uma vez Tuim (João Gurgel), reivindicando, na ação e nas músicas. Aliás, os músicos dão seu recado e são atores. É impossível cita-los a todos, e ao elenco (entre atores e músicos, são 21 nomes), mas sem eles o espetáculo não teria essa preciosa coesão. Perdem-me os não citados.
     Não deixem de assistir a essa joia preciosa, tipo exportação. Ah" Antes que me esqueça, a cenografia é uma detalhada reprodução da favela nos anos 70. Diz\em que a fonte de água que abastece o elenco é referência, até hoje, naquele local. E a bandeira de retalhos, que volta e meia aparece, vai relacionando os acontecimentos marcantes da favela. Ela é costurada, em cenas rápidas, pelas atrizes da peça.        
    
FICHA TÉCNICA
Autor e Direção Musical: Sérgio Ricardo
Diretores: Guti Fraga e Fátima Rodrigues
Direção de Movimento: Johane Hildefonso
Direção de Arte: Rui Cortez
Iluminação: Márcia Francisco
Figurinos: Pedro Sayad e Tita Nunes
Supervisão Dramaturgica: Luiz Paulo Correa e Castro
Direção Vocal e Assistência de Direção: Tiago Barbosa
Preparação Vocal: Leila Mendes, Isabel Schumann e Roberta Bahia
Preparação Rítmica: Wellington Soares

domingo, 17 de junho de 2012

"O CÉU ESTÁ VAZIO"



Priscila Steinman (Emilia) e Paulo Giardini (Ivan), em "O Céu está Vazio" (foto divulgação)





IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
      
     O "Céu está Vazio" merece mais do que um canto exíguo no Teatro Café Pequeno. Mais. Muito mais. Para mim essa peça é um acontecimento estético. Brilha, em sua sutileza. Optou pela poesia, porém seu texto passa por várias leituras. O que nos fica, no final, é a expressão do pai, Ivan (um excelente Paulo Giardini), ao ouvir o "Réquiem" de Mozart e se deixar penetrar pela emoção. Esse momento ilumina a encenação do diretor Jorge Caetano, e dá o fechamento para o texto poético de Julia Spadaccini. Trata-se de algo misterioso e fracionado, esse texto, um encontro da arte com o silêncio.
     Pode parecer uma contradição o fato de eu estar me reportando ao silêncio, em uma encenação que opta por recursos em que o som, em suas várias linguagens, impera. Susan Sontag define, em "A Vontade Radical", impasses como esse, na arte, como sendo "uma luta entre a integridade "espiritual" dos impulsos criativos e a "materialidade" perturbadora da vida comum". Esse jogo acontece o tempo todo, em "O Céu está Vazio". Opto, na peça em questão, pela escolha da "espiritualidade" e fico com o anjo-demônio de Priscila Steinman (Emilia), que resolve todas as questões dos humanos e volta para preencher o vazio que ficou no céu, sem a sua presença. 
     A encenação de Caetano optou por contar a história cercando-se de recursos que vão desde a HQ, até os rótulos que definem a modernidade das gerações. Como Spadaccini e Caetano trabalham em sintonia (esta é a terceira peça que desenvolvem juntos, a autora confiando na sensibilidade do diretor), a sutileza e a delicadeza se mantém, trafegando em um difícil contraste com o mundo conturbado dos personagens. Daí seu fascínio. A encenação que assisti na última sexta-feira, dia 15 de junho, estava marcada por um certo automatismo, qualidade que não lhe cai bem. O texto de Spadaccini pede "folie", ênfase na loucura, entrega total. Sabe "Outside"? Pois é. São Paulo vai entender "O Céu está Vazio", vai enlouquecer com a peça, se lá ela for encenada. O mesmo "feeling" sobre o teatro e os paulistas (nada contra o Rio), tive com "A Bau A Qu", de Enrique Diaz, baseado em Jorge Luis Borges. Nos idos da década de 80, se não me falha a memória. Aqui no Rio a peça não foi muito bem entendida, em São Paulo ganhou o prêmio Molière. Pena que esse prêmio não existe mais. 
     "O Céu está Vazio" é dividida em "Sons", assim: "O Som do Destino", "O Som do Outro", "O Som do Silêncio", etc. Ah, esqueci de falar no "Som do Zumbido", revelando a inadaptação de Ivan. Essas divisões são anunciadas em letras garrafais, projetadas no fundo da cena. Aliás, as projeções se sucedem, sendo as mais comunicativas as que perfazem o caminho do "anjo", Emília. Há toda uma convenção (?) cercando os personagens. Ninguém é totalmente o que é, mas representações de um sentimento: assim, Lui (Rael Barja), o garoto adolescente, representa, com acerto, um "tipo", o emo, que parece estar presente em alguns adolescentes atuais: excesso de sensibilidade, talento, curiosidade, uma certa dose de cinismo. Contrapondo-se a ele, e no mesmo diapasão diferencial, a jovem Emília, que em sua doce versão humana torna-se uma "cosplay" (um termo americano que quer dizer "costume player"), o nome já diz tudo: os "costumes" - roupas - mudam conforme os personagens que interpreta. Quase sempre personagens de HQ. Uma história cifrada. Parece-me que na última cena ela se veste com seu próprio personagem, o anjo/demônio. Os jovens dizem que essa estética faz parte da cultura "pop".            
     O que não é tão hermético (ao menos para mim, anos 70), é Sandra, a amante de Ivan.  Ela é atemporal, é hippie. Ela ama. Sua sensibilidade a faz amar a corrente da vida... e Janis Joplin! Wright? Ela não conhece o ciúme, o rancor, mas quer conhecer as pessoas. Reconhecê-las. A vida, ou o interesse pela vida, flui desse personagem. A atriz Thaís Tedesco a interpreta com a maior felicidade. E finalmente outra personalidade interessante: o esboço de mulher moderna que está querendo se conhecer, interpretada por Ticiana Passos, a bela mãe que não sabe o que é ser mãe (alguém sabe?), não ao menos com o despudor com que ela quer "se enturmar" com o filho. Pai e mãe são gauches, eles não têm a mínima ideia do que é se relacionar com aquele filho estranho. As incompreensões  vão se desenhando, e atraem sorrisos cúmplices da plateia. Em suma, "O Céu está Vazio" mostra o que seria a nossa realidade, se por acaso vivêssemos em um clima de "procura psicológica do eu". Talvez seja por isso que tudo é tão instigante, essa proposta da descoberta do lado escondido de todos nós. Pena que a diluição, ocasionada pelas mudanças no espaço cênico, tenha dispersado a tranquila opção feita pelo diretor, à qual assisti no palco da Casa de Cultura Laura Alvim. Mas, como na vida nada é impossível, eles ainda vão voltar à cena em um espaço que solte a imaginação do público. O elenco está precisando de espaço para voar ainda mais!  
     Na iluminação Ana Kutner (ela está se revelando neste terreno); a trilha sonora que acompanha as cenas é uma acertada escolha do diretor, e a direção de movimento dos atores é da excelente Marcia Rubin. Os figurinos imaginativos, que ajudam a compor a cena, são de Flavio Graff. Com o cenário (de Fernando Mello da Costa) acontece algo interessante, ele vai se modificando, conforme a história está sendo narrada. Explico: um sofá pode se transformar em um muro, basta o "anjo" ter necessidade de saltar sobre ele. Em outras palavras, modifica-se conforme a ação, e também conforme as projeções das histórias ilustradas pelos Vilarouca (Renato e Rico, e também por Rodrigo Tavares). A preparação corporal é de Marina Magalhães. Diretor assistente, Luis Fernando Philbert.
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quinta-feira, 7 de junho de 2012

"QUERIDA HELENA SERGUÊIEVNA"

Elenco de "Querida Helena Serguêievna", no momento em que os alunos encontram a
professora Helena em sua casa.  Da esq. para a dir: Fabio Enriquez (Pacha), Marina Provenzano (Liália),
Gabriel Vaz (Vítia), João Pedro Zappa (Volódia) , de costas Helena Varvaki  (professora Helena)                                                                                                                                                        
                                                                                                                                                                                      (foto divulgação) 
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Criticos de Teatro - AICT)
(Especial)


     "Querida Helena Serguêievna", de Ludmila Razumovskaia, está em cartaz no Teatro Poeirinha, anexo do Teatro Poeira, em Botafogo. Quem assiste às peças encenadas no Poeirinha não se desliga do palco, pois o espaço é mínimo e a escolha do repertório é determinante. Diante desse contexto, o público acaba sendo "sequestrado", e adere. A proposta inicial de "Querida Helena" é a visita inesperada, doce e idílica, dos alunos da professora Helena (Helena Varvaki), no dia de seu aniversário. A presença da professora, sozinha em cena, delicada, de gestos precisos, é de um realismo levado à minúcias (no dia em que assisti, tivemos a "perfeição do real", quando a professora oferece, gentilmente, um copo d'água a uma espectadora acometida de um acesso de tosse. Mas realista impossível) e, o que não é muito comum, tal gesto vem acompanhado de uma delicadeza de desarmar espíritos. Delicadeza que não é o tom da peça, conforme veremos a seguir. À propósito, Helena Varvaki é uma atriz que transmite os sentimentos de seu personagem com um simples olhar.         
     A plateia, a um primeiro olhar, impressiona-se com o cenário de Doris Rollember, a divisão da casa da professora, os objetos de cena que transmitem a personalidade da moradora: a sala com seus livros, a música (há o cuidado do tom regional, a música russa), o chá sendo preparado pela professora, os pequenos detalhes que revelam o "recolhimento", a paz de espírito. Palavras não são necessárias, para o espectador saber quem é Helena Serguêievna. Somente gestos.
     E eis que se inicia a ação, com a chegada dos alunos invadindo a casa da professora, para festejar o seu aniversário... Quem não teve contato anterior com a texto, aconselha-se a assistir a peça desconhecendo seu final. Certamente que essa observação tolhe qualquer propósito de explicação das motivações dos personagens. Tolhe qualquer crítica. É consciente, essa tomada de posição, senão poderia não resistir à tentação de compará-la com a violência que se estabelece em "Clokwork Orange" (Laranja Mecânica), filme de Stanley Kubrick... Passemos aos comentários.
     "Querida Helena" foi escrita nos anos 80, quando a União Soviética ainda era exemplo, para seus admiradores (categoria em que a crítica se inclue), de ensino exemplar e de cultura valorizada. Aliás, dentro do contexto, é impressionante o conhecimento técnico dos alunos/personagens cursando o que é, para nós, o segundo grau. Uma observação: o cuidado com que é feita a escolha do elenco, preenchendo o phisique du rôle dos personagens. Tem-se a impressão de que se foi até a Russia, para contratar Volódia (João Pedro Zappa), o cérebro que transmite a potência da educação soviética e o uso que faz dos conhecimentos adquiridos. Será a educação, a cultura, um erro, não importa o país?, somos levados a perguntar, diante do texto. Não lhe fica atrás em violência "dostoievskiana" o jovem Pacha (Fabio Enriquez), como também o "epilético" Vítia (Gabriel Vaz), que ainda conserva traços humanos, diante do inesperado da transformação da cena. Mas já estou transpondo a proposta inicial - nada revelar - e Lialia (Marina Provenzano), outro exemplar eslavo no teatro brasileiro, com uma reação epidérmica, apaixonada. Curioso e interessante elenco.
     Isaac Bernat, na direção (assistido por Karin Dreyer), tem um ótimo material em mãos para trabalhar o crescendo de emoções de peça de Ludmila, e desempenha com acerto o seu papel como diretor. É impressionante a força da  dramaturgia, mas há, talvez, excesso nesta força, há falas que parecem não conviver com os personagens, não lhes serem familiares, tornando-se artificial, empostada. Como quando eles se referem à cultura russa, citando autores. Meu Deus, será que ninguém observou isso? É erro de dramaturgia, mesmo, é excesso. Talvez o diretor tenha tido pudores de dar um toque mais intelectual, ou cortar, mesmo, certo excesso do que nos pareceu algo pueril. Tem-se a impressão de primeira escrita, a dramaturga ainda não conseguindo controlar a palavra.
    Enfim, joga-se - e aí faz parte da natureza da peça - com a cultura, como se ela nada valesse. Certamente, é essa a visão de mundo dos personagens. É possível que o problema dos estudantes, não importa a latitude, seja semelhante. Não importa a origem, é algo inerente ao ato de aprender. É doloroso. Talvez essa tenha sido a intenção da montagem: questionar a educação na nossa sociedade. Talvez o público saia se questionando em relação aos seus adolescentes, com a célebre pergunta: onde foi que erramos?
      A peça seria uma obra-prima, se Ludmila Razumovskaia tivesse refreado o seu deslumbramento diante da palavra. Compreendemos que não é fácil escrever algo sobre o que se está vivendo, e Ludmila escreveu sua peça nos anos 80, portanto, quando a ambição soviética de um mundo melhor estava naufragando. Em tempos como aqueles, a cultura e a educação poderiam se tornar simples degraus para ambições inconfessáveis. Alguma semelhança com o Brasil atual e o ensino médio? Talvez tenha sido essa a intenção. 
     Ficha técnica de primeira grandeza, com Tato Taborda na direção musical; movimento corporal de Maria Alice Poppe; iluminação, Aurélio di Simoni; figurino Ney Madeira, Dani Vidal, Pati Faedo. Espetáculo interessante, que deixa uma questão no ar: como vencer a "desvalorização do humano"? "Querida Helena Serguêievna" é uma ferida aberta, exposta em todos os tempos, e ainda sem solução.                    

sábado, 2 de junho de 2012

"A VOZ DO PROVOCADOR"



IDA VICENZIA FLORES - CRITICA DE TEATRO
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)   

                                  
                                  Antonio Abujamra no monólogo "A Voz do Provocador"
                             (foto produção)


     Neste último dia 29 de maio fui a São Paulo assistir Antonio Abujamra em sua "Aula Master" "A Voz do Provocador", no CEU, unidade de Lajeado. O que mais surpreende na raça humana são os recursos que ela movimenta para ter a sensação de estar vivo. Abujamra, mal ou bem, inventou o seu. Quando o teatro fica lotado de jovens (e não tão jovens), para ouvi-lo, o ator/dramaturgo se transforma em energia e empolgação. Mesmo que seja somente por uma hora, mesmo que seja somente um recurso para distrair a morte. Abu, como é chamado carinhosamente (e não entendo como alguém possa ter carinho por aquele monstro), se transforma - e temos a certeza de que é somente essa transformação que o mantem vivo.
     Estamos em um dos CEUs (Centro Educacional Unificado), imaginados por Martha Suplicy quando prefeita de São Paulo - na verdade, o da comunidade de Lajeado é de proporções menores, pois teve o prefeito Kassab como seu executor - mas o sonho de Marta permanece. É no CEU que a comunidade/bairro de Guaianazes se reúne e é lá que funcionam as aulas e as atividades culturais em várias modalidades, desde as primeiras letras até às artes cênicas; da dança clássica ao judô; da música e aprendizado de instrumentos musicais, a  vários tipos de esporte. Há uma biblioteca bem fornida, e teatro para todas as idades. Essa noite de 29 de maio é dedicada ao teatro.
       Antonio Abujamra está fazendo um belo trabalho na periferia de São Paulo. Entretanto, não é o único: Fernanda Montenegro já o antecedeu, e agora, anunciado para agosto, os jovens terão Julia Lemmertz e o elenco de "O Deus da  Carnificina". O texto de Yasmina Reza, uma indiana radicada em Londres, não importa, esse texto é uma amostra do verniz da nossa "civilização", apresentando conceitos e preconceitos que acentuam esse verniz. Mas, o que nos interessa agora é Antonio Abujamra. O ator selecionou alguns de seus pensamentos sobre política, cultura, liberdade, América Latina, e outros assuntos que o mobilizam e dão vida a seu programa "Provocações", e os dividiu com o público daquele bairro.
      A "aula master", se assim a podemos chamar, tem um formato teatral. Leia-se, porém, que se trata de uma anti-masterclass, com ênfase nas intervenções arrebatadas, e às vezes hilariantes, do diretor/ator. Embora, no conceito de Abujamra, o professor deva ser um ator - e a interferência que ele faz, contando como eram as aulas de Nabokov sobre literatura russa é inesquecível: poesia pura (talvez por isso, por sua veia poética, é que o tratam carinhosamente de Abu, eu não sei). O teatro lota, os jovens deixam seus afazeres habituais para escutá-lo e a plateia testemunha, apreende, pensa a respeito, e se diverte. O resultado é um espetáculo inteligente, e que não deixa ninguém tranquilo. Intranquilidade, teu nome é Antonio Abujamra.                          
     A palestra, como ele gostaria de explicar, tenho certeza, e não tem paciência nem para explicar para repórteres (e dizer que já foi um deles!), se divide em "Provocação", "Coragem", "Risco", "Compromisso", Resistência", "América Latina", "Cultura", "Palco", "Mediocridade", "Liberdade", "Cotidiano" e "Vida". Querem mais? Ele se recusa a comentá-la, a essa divisão: deve ser porque está saturado de vida. Querem mais? Esse homem coloca seu pensamento em cada um dos itens acima. No início de sua conversa, convida a plateia para pensar sobre os clássicos da literatura. É aí que Antonio Abujamra reproduz os movimentos de Wladimir Nabokov, ao dar uma aula na Universidade de Nova Iorque (essa será a única vez que vou me reportar diretamente ao texto): "...uma sala enorme, maravilhosa, três grandes janelas, três grandes cortinas (...) Nabokov entra na sala de aula com uma elegância que, quando o russo atinge essa elegância, o inglês é um mendigo. (...) Aí ele entrou na sala de aula, eles olharam para ele, ele olhou para aquelas janelas... Foi na primeira janela e fechou a cortina, foi na segunda janela e fechou a segunda cortina, e foi na terceira janela e fechou a terceira cortina. Ficou aquela penumbra. O que ele vai fazer, o que ele não vai fazer? Ele veio na primeira janela, abriu quase até a metade, entrou aquela luz, ele disse: isto é Puchkin. Vai na outra, abre até depois da metade, e diz: isto é Gogol. Vai na última, abre inteira, e diz: isto é Tolstoi. Vamos falar sobre literatura russa" (e Abujamra conclui: "Quer dizer, o professor tem que ser um artista. Tem que ter esses golpes teatrais. Tem que saber fazer isso".      
     Só essa abertura do "monstro" com o público já comprou a sala inteira. Querem mais? A voz de Abujamra cresce, torna-se potente, emocionada. Aí ele fala sobre a sua geração de artistas: Zé Celso, Antunes, Amir Haddad, e alguns que já morreram. E não posso deixar de citar esse momento em que Abu se pronuncia: "... essa geração nossa era uma geração com coragem (...) Nós jogávamos as coisas para a frente, nós jogávamos as coisas sem nenhum temor do que ia acontecer...".  CORAGEM: questiona os jovens de hoje, não levando em conta que hoje vivemos outro momento, não temos o "Ato Institucional de 68", como ele se refere ao Nº5, e o espírito de revolta contra a ditadura, que transtornava a juventude daquela época. RISCO: "Eu quero insistir com os jovens que o humor é indispensável, e que a gente não tem que ter medo de errar. Tem que caminhar no incerto, como pede Pascal... não leram Pascal... mas podem caminhar no incerto. (meu amado Pascal, é bom amar os mortos, digo eu, eles não nos decepcionam). E Abujamra prossegue: COMPROMISSO: "A vida é trânsito, é dia útil, não é domingo. Atue, atue, atue, não deixe nunca de atuar". (Vocês podem ver, pela maneira como Abu coloca a sua fala, o aprendiz de retórica que foi, tenho certeza. A frase enfatizante o trai. Não faz mal, somos sempre aprendizes). RESISTÊNCIA: "Na arte da criação, o ator deve esquecer as fórmulas fáceis. (...) Ele deve perder a confiança em tudo, deve esquecer todas as suas experiências. É preciso estar em estado de graça. O palco me chama, eu fico febril, vou aos extremos"
       Eis o diretor se pronunciando, se dando, passando a sua experiência para aquela plateia sequiosa, ouvidos atentos. É por isso que o monstro não fala, antes do espetáculo, não fala com ninguém, nem com essa crítica em seu papel de repórter. Murmura, irritado e irritante (para copiar-lhe o estilo). E passamos para a AMÉRICA LATINA e o índio mexicano Guaiakalpuru Caltemoque (e eu mato o Abujamra se esse índio for uma ficção, tal a palavra se assemelha), o índio para quem o pagamento da dívida europeia a seu país, ao México... se faz necessária. Ele quer a Europa inteira pelos quilos de ouro emprestados há 500 anos atrás, pela prata emprestada... Caltemoque está falando na comemoração do quinto centenário da descoberta da América, em uma reunião dos chefes de Estado da Comunidade Europeia. Querem saber porque Abujamra se irrita com tudo isso, com a vida? Por que a injustiça é demais, para um coração oriental...*            
*OBS: Ninguém pode me acusar de nada. Se vocês lerem com atenção o trabalho em meu blog verão que eu adoro o Oriente (frase de quem anda assustada com o recrudescimento da agressão do Ocidente em relação ao Oriente). 

terça-feira, 8 de maio de 2012

"A PEÇA DO CASAMENTO"

CRÍTICA TEATRO
IDA VICENZIA FLORES
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

Dudu Sandroni e Guida Vianna em "A Peça do Casamento"
(foto de Cláudia Ribeiro)
     Em cartaz, no Teatro Laura Alvim, Edward Albee e a "A Peça do Casamento" (1987). Em cena, as últimas horas de um casamento. Mas serão mesmo "as últimas horas"? A verdade é que estamos na presença de uma  situação delicada. Gillian, casada com Jack há 30 anos, se defronta com a decisão do marido, que volta mais cedo do trabalho e declara à sua mulher que está deixando o lar. Famoso por escrever uma dramaturgia que contesta o "status quo" (lembram-se da controvertida peça "Quem tem medo de Virgínia Woolf?" e seu grito contra a academia e seus professores?), Albee quer cortar na carne do burguês. Ele não pertence à geração dos "angry young men", dos ingleses, de John Osborne, dos "fifties". Considerado o maior dramatrugo americano vivo, o tema de suas peças é a família e suas idiossincrasias. "A Peça do Casamento" trafega no limite do teatro do absurdo. Porém, uma verdade salta aos olhos, é quando Jack pergunta: "Que espécie de animais somos? A gente faz o que o instante manda". Albee parece estar questionando, através de Jack, o caráter do homem, não somente o do homem burguês, mas a sofreguidão do gênero humano.   
     Vemos que, em "A Peça do Casamento", a vida bem vivida da burguesia pode transformar-se em uma tragédia... ou em uma comédia. Há momentos, no espetáculo, em que isso se manifesta, de maneira clara. É  quando Jack fala do "brilho", e não é sobre a cocaína que ele está falando: é sobre a beleza. Aliás, há três movimentos na peça que a tornam inesquecível: o primeiro é o da "rejeição" na qual Gillian (em excelente interpretação de Guida Vianna), faz o discurso da rejeitada: "eu estou velha? Deixo você com medo?" e, num crescendo teatral, vai mostrando a insegurança e a perplexidade da esposa abandonada. No final de sua fala, é aplaudida pelo marido. Guida Vianna, nesta peça, tem oportunidade de mostrar a gradação de seu talento, indo da mais pura comédia à angústia, agressividade e ironia da mulher que está perdendo o seu amor. 
     Observamos que, no texto de Albee (eu li a tradução de Marcos Ribas de Faria), há um verdadeiro "show de rubricas", nas quais o autor destaca o grau de liberdade que proporciona a seus personagens. Na fala de GILLIAN, por exemplo, a respeito de Jack, ela observa: "Retórica é algo além de sua capacidade". Imaginamos a cena, quando JACK responde, tranquilamente: "É... Você  pode estar certa.". ALBEE a indica, referindo-se a Jack: (Levanta-se, se Jack, por acaso, estiver sentado). Ele não sabe onde o diretor colocará o seu personagem, e isso não tem a menor importância. Apenas, com essa observação, o autor  dá liberdade a seus personagens, eles adquirem vida própria.
     É o que acontece com Frank, o personagem de Sandroni. Vida própria. Com a súbita revelação de mudança em sua vida, ele pensa que está ficando louco, e passa a controlar a sua ação (controlando a do ator), para não entrar em colapso. Sandroni, nesta peça, está em um momento inspirado de sua carreira, e o diretor Pedro Brício explora com sucesso a sutileza e a fragilidade do seu personagem. Encontro perfeito: há uma simbiose entre personagem e ator, entre Sandroni e Jack, algo semelhante ao que aconteceu a Aderbal Freire Filho, no filme "Juventude", quando o diretor Domingos de Oliveira jogou com a tensão e a  fragilidade do personagem/ator. Com seu desempenho, Dudu lembra Aderbal, e demonstra que está apto a participar da "Ceia dos Cardeais" dos três amigos: Aderbal, Domingos e Paulo José, fazendo o "quarto cardeal".
     Mas os meandros do absurdo são elásticos. E muito particulares. Podemos comprová-lo em Ionesco e seu teatro, ele que foi o iniciador de "todas as loucuras". E dizer que o romeno se inspirou em uma aula de inglês! Foi fazendo uma paródia sobre as aulas que ele era obrigado a frequentar, que Ionesco chegou à "A Cantora Careca"! E onde se localiza o absurdo em "A Peça do Casamento"? Obviamente, no impasse ocasionado pela vida a dois. A opção foi experimentar todo o tipo de reação possível ao descompasso dos dois, inclusive através de música e dança, ao som da trilha sonora de Lucas Marcier e Fabiano Krieger.  Relembramos, também, no final da peça, de "a luta", onde os dois atores quase se estraçalham em cena. Uma luta absurda, porém "um discurso adorável, e um atentado à verdade", como são encarados,  pelo casal, os seus embates. O autor, depois de aconselhar, na rubrica (de uma página), os movimentos da luta, emenda: (Obviamente, tudo isso deverá ser coreografado dentro das possibilidades dos atores, até os seus limites). O diretor Pedro Brício e Andrea Jabor, em sua preparação corporal, seguem à risca a sugestão do autor. Nos momentos finais da luta, ouve-se o diálogo absurdo do casal: GILLIAN: "Você está ótimo" JACK: "Você também". GILLIAN: Desculpe a joelhada". JACK: "Você sabe como atingir um homem". GILLIAN: "Talvez esse seja o problema".
     A iluminação preenche todos os caminhos, inclusive o do jardim, último reduto indicado para o herói (uma citação de Voltaire?), a luz é desenhada por Tomás Ribas; figurinos, sublinhando as citações do texto, são de Rita Murtinho. Cenário, Aurora dos Campos. Há um espaço livre, na cenografia, uma arena dentro do palco (ao menos foi essa a impressão que ficou), para melhor desenvolver o "interlúdio físico" da luta entre os atores. E há o terceiro movimento, depois da luta, "o brilho" da beleza perdida. JACK afirma: "Ainda hoje eu brilho... quando estou sozinho... não vou andar por aí brilhando pra qualquer um. Para que gastar meu brilho? E GILLIAN, em um jogo de palavras: "Você não brilha para mim faz muito tempo, não é?" Outro jogo interessante, a que Albee se entrega, são as brincadeiras com os autores famosos, como  Henry James, D. H. Lawrence, Hemingway... Quem quiser ver bons atores, e um bom texto, não perca "A Peça do Casamento". É muito bom ver bom teatro.
   
   

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"ABRAM-SE OS HISTÉRICOS!"



CRÍTICA TEATRO
IDA VICENZIA FLORES
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
       Marina Salomon,  Marina Magalhães, Patrícia Niedmeier,
   Aline Luna e Antonio Quinet - (foto da produção)
CENTRO CULTURAL
JUSTIÇA FEDERAL
AV. RIO BRANCO
           - RJ -
       Atenção! Um novo espetáculo de Regina Miranda está em cena até dia 17 de maio, no Centro Cultural da Justiça Federal. É lá que, cercados pelo frenético trânsito da Avenida Rio Branco, nos sentimos, de repente, em pleno século XIX. Fantasia e realidade se entrecruzam, mostrando o caminho das grandes damas loucas! Trata-se de "Abram-se os Histéricos", um espetáculo de dança e teatro que fala sobre o trabalho do Dr.Jean-Martin Charcot (1825-1893), médico e professor de neurologia. Suas aulas de medicina foram adaptadas para teatro pelo psicanalista-dramaturgo Antonio Quinet (com a colaboração de Regina Miranda), retiradas de seu livro "A Lição de Charcot". Na direção, o vigor e a inteligência de  Miranda, unido-se à intensa pesquisa teatral de Quinet, um apaixonado pelo teatro. O psicanalista é o criador da "Cia. Inconsciente em Cena", que apresenta o espetáculo. O autor nos faz ver que o tema fascinante da histeria vence preconceitos: Charcot  também. O médico oitocentista declara que a histeria não é um privilégio da mulher, e passa a pesquisar o homem histérico, o que, à época, era uma blasfêmia.  
Os gestos convulsivos dessa síndrome, Quinet os entregou à Regina Miranda coreógrafa, especialista em Rudolf Von Laban. Regina se encarrega também da encenação do espetáculo. 
    Em um cenário branco sobre branco, lava-pés, banheiras brancas e portas envidraçadas, o público fica entregue à realidade do hospício de La Salpêtrière, em Paris. Ao fundo do palco, protegidas pelas paredes de vidro, as pacientes são tratadas pelos enfermeiros. Em outro plano, no proscênio, ficamos entregues ao  mundo da alma das pacientes: é neste espaço onde o interior humano se revela. Para Charcot, o útero é um órgão articulado que protagoniza a alucinação: um órgão volante que sufoca a mulher. Aplicando um método por ele criado, o da compressão do ovário, ele atenua a dor e os ataques de suas pacientes. As demonstrações do método são feitas nas aulas que ministra a seus alunos, em um salão onde uma plateia de leigos (nós, a plateia), também pode observar o resultado de suas pesquisas: a histeria é o assunto do momento. É quando Blanche Wittman (Marina Salomon),  paciente-vedete das aulas de Charcot, faz a sua "performance". Essas encenações se tornaram moda, na Paris dos oitocentos.    
     Em suas aulas o neurologista cita o diretor francês Antoine, e seu teatro realista, e nos diz que a histeria "é uma verdade feita de mentiras", como no teatro! Os gestos exacerbados de suas pacientes (doença ou encenação?), mais parecem um espetáculo teatral. O jovem Freud (interpretado com incrível verossimilhança por Evandro Manchini), a tudo assiste, e se contrapõe ao mestre. Para ele são "fantasias do inconsciente", o que aquelas mulheres hipnotizadas protagonizam. Trata-se de uma época estimulante para os estudos da psique. A psicanálise está começando a nascer, e é através do teatro que Freud chega a Sófocles, a Édipo e a seu complexo! Mas há outros alunos de Charcot que também brilham,  como Joseph Babinski (interpretado com charme pelo ator Jano Moskorz), o descobridor do reflexo de babinski, ou "reflexo plantar", cuja reação adversa sinaliza lesões neuroniais. E, interpretando o neurologista e clínico geral, o excelente Lourival Prudêncio. 
    Nesta montagem foi dada uma atenção muito especial à semelhança dos atores com os seus personagens. Tais cuidados vemos acontecer no teatro e no cinema europeus. Prudêncio, assim como os atores que interpretam Freud e Babinski, possui o phisique du rôle de seu personagem, e a presença carismática do médico, tal como a podemos imaginar, se concretiza no palco. 
     Quanto à encenação, Regina Miranda transporta para seus espetáculos o impacto das artes visuais (lembramos "Contra-Ataque", produção em que Regina joga em cena, como se fosse uma instalação, um túnel de raio lazer, e na confluência das luzes do túnel, os bailarinos dançam a sua dança de impacto). É de tirar o fôlego. Dessa vez Regina divide o palco em dois planos: o hospital, ao fundo, e o salão da casa de Charcot, no proscênio. É neste salão que o médico apresenta o resultado de suas pesquisas. Trata-se de um visual impregnado de ação. Em primeiro plano, as atrizes-bailarinas evoluem, mostrando seus ataques e delírios. É de uma beleza fundamental a cena das sonâmbulas dançando, no proscênio, enquanto são examinadas por Babinski (Morskorz) e observadas pela escandalizada enfermeira (Berenice Xavier).
    Entre as bailarinas-atrizes, Marina Salomon encanta com a sua presença. Ela é uma artista que, com um simples gesto, pode encarnar uma trágica grega, uma cantora lírica, ou a histérica  vedete das apresentações de Charcot. O rosto esplêndido de Salomon, sua voz e sua atuação podem transformar a cena. Aliás, a seleção de bailarinas-atrizes de Regina Miranda é perfeita: Sarah Bernardt é interpretada com precisão por Patricia Niedmeier. Sim, Sarah Bernardt frequenta Charcot, assim como (segundo Antonio Quinet), - pasmem! - o nosso querido D. Pedro II (o monarca não aparece em cena). A atriz-bailarina Aline Luna protagoniza Jane Charcot, filha do neurologista. E a atriz Berenice Xavier interpreta a enfermeira que a tudo assiste e reprova os métodos de Babinski... a quem ela acusa de pervertido! - porque em suas pesquisas o jovem estudante, descobridor do "reflexo plantar", examina com excessivo cuidado os pés de suas histéricas! Marina Magalhães tem a instigante cena do assédio, protagonizando Blanche Wittman menina. 
     Não podemos esquecer que as pacientes, como todos os "angustiados" e loucos, são dominadas pela ânsia de fugir do hospício. A cena da fuga é plena de teatralidade: o fundo do palco se abre e deixa ver o jardim do Centro Cultural, local onde, em algaravia, as histéricas se refugiam, tendo ao fundo o movimento do trânsito da rua México. Essa cena é um dos pontos altos do espetáculo, em termos operísticos, como também o é o acompanhamento musical realizado por José Eduardo Costa Silva, diretor musical. Desde a música apresentada no início da ação, a "Serenata ao Luar", de Beethoven - e as louquinhas, envoltas em branco, traçando passos labanianos com seus figurinos esvoaçantes - até trechos de "A Sonâmbula", de Bellini, e de "La Traviata", de Verdi, com as atrizes e seus figurinos brancos (acertos de Luiza Marcier, mestra a dar requinte ao espetáculo com as soluções de seus tecidos). O século XIX impera. E, no pequeno teatro da Justiça Federal temos uma "camerata operística" das mais bem sucedidas, com a voz de Márcia Lyra (soprano), e o piano de Ernesto Hartmann. 
     A iluminação de Dani Sanchez, com variações de luz e sombra, e a bateria de "spots" (outro ator em cena), dão o clima adequado para a ação. Não podemos esquecer a histeria "de salão", representada pela hostess (Aline Luna), que oferece, insistentemente, "champagne, champagne para todos!" Segundo Quinet, "a histeria, com a sua teatralidade, continua a desafiar a ciência". Ele afirma: "nada melhor que o teatro e a ópera para colocar em cena o corpo histérico que grita". Agora um conselho: não percam "Abram-se os histéricos!" Precisa mais?