segunda-feira, 30 de outubro de 2017
IDA VICENZIA - CRITICA DE TEATRO: "DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO"
IDA VICENZIA - CRITICA DE TEATRO: "DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO": CRÍTICA DE TEATRO - IDA VICENZIA Fala de Lênin na chegada em Petersburg (Foto Batman Zavareze) Públic...
"DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO"
CRÍTICA DE TEATRO - IDA VICENZIA
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| Fala de Lênin na chegada em Petersburg (Foto Batman Zavareze) |
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| Público de "Dez dias que Abalaram o Mundo" (Foto de Batman Zavarese) |
CRÍTICA DE TEATRO
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro -
AICT)
(Especial)
"10 DIAS QUE ABALARAM O MUNDO"
Comemorando os 100 anos da Revolução dos
Soviéticos, o diretor Luiz Fernando Lobo, da Companhia Ensaio Aberto - que
funciona no cais do porto, no espaço denominado Armazém da Utopia - apresenta o
épico "Dez Dias que Abalaram o Mundo", inspirado na obra de John
Reed.
No espaço privilegiado do grupo, o Armazém
da Utopia, o diretor realiza um arrebatado e emocionado relato dos anos que
antecederam ao episodio que mudou a nossa Historia. Sim, é possível, através da
determinação de um grupo de intelectuais, de trabalhadores e de jovens
estudantes, transformar um país de forte divisão de classes em uma grande potência
socialista. A Historia não teve sucesso permanente, pois o regime não conseguiu
se livrar dos incômodos vizinhos imperialistas com suas guerras de extermínio.
Os socialistas sempre foram da paz e do progresso da humanidade.
Infelizmente, o que vemos neste relato é
um povo empenhado em viver o sonhado progresso de maneira pacífica e
trabalhadora. Teve muitos desencontros, mas nas artes, no curto espaço de tempo
que durou os anos leninistas, os bons frutos começaram, com cineastas,
escritores, poetas, músicos, pintores e demais artistas ligados a uma nova
visão de sociedade livre e igualitaria que os soviets construíram. Duas visões
de sucesso (aliás, várias, registro duas) nos deram seus principais líderes: Lênin,
quando o movimento começava a enfraquecer, com sua chamada aos revolucionários: "Todo
poder aos soviets!" e Trotsky, com a admoestação: " O Duplo Poder é característico
de toda revolução" - incitando aos proletários a tomarem à frente dos
acontecimentos, acabando com o Duplo Poder, transformando-o em um único, não
deixando que a revolução tivesse muitos pais e se perdesse em indefinições. Dois
momentos cruciais.
Entretanto, o relato que Luzi Fernando,
junto com Iná Camargo Costa, conselheira de dramaturgia, dão aos acontecimentos
da época, com detalhes muitas vezes desconhecidos do grande público, como a participação
definitiva das mulheres tecelãs nos acontecimentos que deflagraram a revolta, e
a Historia se fortalece. Já no ano de 1905 Lênin observa, sobre o início do
movimento da revolta de um povo: ""A Europa está grávida de uma
revolução" - não deixando que um golpe de Estado - um golpe democrático, o
aborteiro do movimento dos povos - fizesse
a revolução morrer. Os "golpes" substituem as revoluções! Lênin, e
todos os revolucionários, eram contra o KDT - uma espécie de PSDB da época.
Luiz Fernando Lobo situa muito bem os
acontecimentos, dirigindo-se ao público, como ator, situando o Brasil atual. E
sua encenação filtra os acontecimentos da época através da projeção das imagens
que nos ficaram (filmografia Batman Zavareze), que dominam a cena e
complementam a narrativa. Mas o grande acontecimento é o desenho dos praticáveis
móveis, idealizados por J. C. Serroni, local onde as cenas se desenvolvem,
dando um movimento ao espetáculo, que o público complementa com o seu
deslocamento no espaço. A registrar, entre tantas belas imagens, o solitário espaço
em que Lênin se dirige ao povo, em seu retorno à Rússia, desde a Estação Finlândia,
fazendo o seu grande comunicado em que indica o caminho, alertando os revolucionários
a estabelecerem "todo o poder aos soviets!".
Mas não se pode destacar apenas uma cena,
frente a um espetáculo móvel que não dá sossego ao público! Um enorme
aglomerado de pessoas, (umas 500, em apreciação livre), o público, que também faz
parte do espetáculo, e principalmente os 25 atores que realizam as cenas e dão
um frêmito de alegria e entusiasmo aos espectadores, fixando-se nos acontecimentos
do século XX, e dos novos tempos que ainda poderão chegar, para o Brasil e para
o Mundo. "É preciso muita teimosia" - dizem os revolucionarios.
O diretor, no papel de um revolucionário
que se dirige ao público (o diretor também é ator), interpelando (talvez) às
mães atuais, quando se dirige, com certa impertinência, às "minhas
senhoras" (imaginamos que as advertindo para darem maior atenção ao
desenvolvimento revolucionário e humanista dos filhos). Destas
"senhoras" irá se originar a sociedade do futuro. Em suas intervenções,
o diretor adverte para a importância do momento atual.
Bela idéia. Acabamos interpretando o
empenho do diretor/dramaturgo - ao fazer um apelo a estas "senhoras" que
têm o papel de modificar os povos, orientando seus filhos a darem um futuro
melhor para a humanidade. Em suas "comunicações" com o público, o
ator/diretor Luiz Fernando dá ênfase à aproximação "Russia/Brasil",
ligando os tempos da pré-revolução da União Socialista Soviética e a primeira -
e fracassada - revolução de 1905, com os acontecimentos (bons, de fartura
e liberdade) que ainda podem vir a acontecer
no Brasil.
Em um elenco de 25 atores, ainda podemos
reconhecer, aqui e ali, companheiros de Luiz Fernando desde os tempos de Lima
Barreto e do hospício da Praia Vermelha, o de D. Pedro II. O local de
movimentação do elenco - os movimentos de cena daquele tempo já indicavam o futuro
diretor. Podemos ver, entre os "trabalhadores" de John Reed neste
espetáculo da Ensaio Aberto, Tuca Moraes, que também é diretora de produção nos
"Dez anos...". Tuca vive várias mulheres que deram o sangue pelos
acontecimentos de Outubro, entre elas Alexandra Kolontai! Reconheci também
Peter Boos, que veio de outra companhia. Situação, imaginamos, de vários atores
da Ensaio. Em ordem alfabética, e temerosa de citar, sem destaque, alguns dos
pioneiros da Companhia, indico: Adriano Soares, Alarisse Mattar, Amaury Lourenzo,
Amparo da Gata, Ana Karenina Riehl, Andréa Tonia, Brenda Jací, Bruno Peixoto,
Cleiton Rasga, Fernanda Vizeu, Henrique Juliano, Gabriela Igarashi, Gê Lisboa,
Geovane Barone, Gilberto Miranda, João Raphael Alves, Leonardo Hinckel, Luiz
Fernando Lobo, Luiza Moraes, Nady Oliveira, Natalia Gadiolli, Peter Boos, Tuca Moraes,
Vinicius Oliveira, Yani Patuzzo.
Devido à falta de informação (falha
minha), perdi vários espetáculos da Ensaio Aberto. Perdi-me, sem condução, na
imensidão do Cais do Porto. Aviso agora que o acesso à Ensaio Aberto mudou (a
última vez que andei por lá havia trânsito na Rodrigues Alves, e muito
movimento). Agora temos o VLT que para em frente ao Armazém.
Enfim, agora sei que a Ficha Técnica
continua em ótima produção, com Beth Filipecki e Renaldo Machado dando o tom
marrom das trincheiras e dos pesados capotes guerreiros apresentados pelos
atores. A Trilha Original e a Direção Musical é de Felipe Radicetti. Iluminação
de Cesar de Ramirez (um tour de force),
com a colaboração de Jorginho de Carvalho. Preparação Vocal de Julie Wein, e
Preparação Corporal de Paulo Mazzoni. Assistente de Direção e Dramaturgia
Dieymes Pechincha. Edição de Vídeo João Oliveira. Fotos, Renato Mangolin.
Assessoria de Imprensa: Lead Comunicação.
INFELIZMENTE HOJE É O
ÚLTIMO DIA - 31 DE OUTUBRO - PARA SE FAZER PRESENTE A TAL ACONTECIMENTO. NÃO PERCAM!
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
"AGOSTO"
Elenco de "Agosto". Autor Tracy Letts. Diretor Andre Paes Leme. (Foto Silvana Marques)
CRÍTICA DE TEATRO
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos
de Teatro - AICT)
(Especial)
"AGOSTO"
Esse pessoal do "meio-oeste"
americano tem lá o seu jeito para teatro! Tracy Letts é atrevido, e transforma
o seu relato em algo com personagens tão marcados, tão desenhados, que por
vezes pendem para o absurdo. Outra coisa interessante é que possui o tom "velho/
novo" dos grandes dramaturgos, sem fazer alarde dessa condição. Há de
tudo, no texto: poetas negando o seu talento, pessoas doces convivendo com
feras - o "mundo real" passando pelo texto e abrindo (ou fechando)
janelas que se tornam, às vezes, previsíveis. Quem for assistir, verá. Faz
parte do jogo. Há um morceau de bravure para cada personagem. Sim,
trata-se de um texto sufocante, claustrofóbico, onde todos os personagens podem
brilhar. É teatro de raiz! Gosto dos irlandeses dramaturgos (os que vou citar agora,
e muitos outros que transformaram a America teatral), só não gosto da mania que
os colonizadores irlandeses tinham, essa mania de matar índios americanos... Aliás,
para mim, a segunda personagem fabulosa em "Agosto" é a índia... Adivinhem
quem é a primeira?
Vamos aos dramaturgos (a alguns deles). Haja
fôlego! Lembram-se de "Full for Love"? Ou de "Um Bonde Chamado
Desejo"? Gênios como Sam Shepard: "Quero que as pessoas vivam as
minhas peças com um senso de questionamento, de mistério". Tennessee, que veio
do Mississippi e trouxe essa gente estranha para o palco. "Agosto", agora, é um misto de amor
e ódio, filhote destas inspirações. O autor veio de Oklahoma, e seu texto é
mais descarado ainda - pois o "irlandês" às vezes homenageia Nelson
Rodrigues! Um achado de Guida Vianna, pois este é o papel de sua vida!
Quero ser breve. Aconselho às pessoas
claustrofóbicas a não assisti-lo, ou a assisti-lo, justamente para descobrir se
são claustrofóbicas! Há para todos os sentidos. Elenco e direção têm obrigação
de ter nervos de aço. (O que mais espanta, em teatro, é ver aqueles atores, que
viveram coisas inacreditáveis em duas horas, e depois sorrirem para o público, despedindo-se
e agradecendo com sorrisos de anjos, como se tivessem participado de uma
comédia. Será?).
André Paes Leme, o diretor que mora em
Portugal e veio especialmente para dirigir a peça, alerta para a tentação de
banalizar o teatro, fazendo tudo virar comedia. Não é o caso, mas anda
próximo... Enfim, não dá pra segurar esses irlandeses, embora eles sempre lembrem um pouco os brasileiros...
Fico por aqui. Quero dar meus parabéns aos
desempenhos surpreendentes do elenco: Guida Vianna (Violet); Claudia Ventura (Karen);
Claudio Mendes (surpreendente o seu crescimento como ator. É verdade que não
assisto Claudio há muitos anos, quase não o reconheço, está uma bela presença
em cena, e ótimo ator). Aliás, de ótimos atores é feita a peça, senão não
seguram tudo o que Letts/Leme pedem deles! Há ainda a doce índia (e, por
eliminação acho que cheguei a Marcio Vito (Steve). Julia Schaeffer; Letícia
Isnard; Eliane Costa; Guilherme Siman; Marianna Mac Niven (Ivy); Paulo
Giardini (o doce Beverly).
Cenografia Carlos Alberto Nunes; Figurinos
Patricia Muniz, Iluminação: Renato Machado (como sempre, destaque); Música:
Ricco Viana; Fotografia Silvana Marques. É PRECISO NERVOS DE AÇO PARA ASSISTIR
"AGOSTO". UM DESAFIO.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
"MARX BAIXOU EM MIM - UMA COMEDIA INDIGNADA"
"Marx Baixou em Mim - Uma Comédia Indignada", de Howard Zinn. Tradução Tereza Briggs-Novaes. Direção e Interpretação Jitman Vibranovski. (Foto da Produção)
IDA VICENZIA
CRÍTICA DE TEATRO
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
OBSERVAÇÕES SOBRE "MARX BAIXOU EM MIM" PALESTRA-ESPETÁCULO DE JITMAN VIBRANOVISKI
Quero falar agora rápidas palavras. Não é uma crítica. Quando Marx "desce" no século XX e XXI, no Rio de Janeiro, o encantamento se estabelece, quando narra seu ponto de vista sobre os acontecimentos políticos e sua "sobrevivência" no Soho londrino do século XIX. Antes de mais nada, queremos agradecer e dar os parabéns a Jitman Vibranoviski por nos proporcionar esse momento tão importante à procura da justiça social. Estamos muito necessitados disso. Sempre. Vemos que o mundo não muda, e quando Jitman/Marx começa a falar, prestamos muita atenção no que o nosso grande pensador tem a nos dizer.
Mas o que nos pega de surpresa, (pois os livros ocidentais de Historia passam muito ligeiramente sobre o episódio), é o que realmente aconteceu com a Comuna de Paris. De maneira poética e envolvida, Jitman nos dá uma visão do que realmente teria acontecido naqueles dias de felicidade completa dos cidadãos de Paris, e de como eles foram massacrados pelas forças da repressão, as forças que acabam com os sonhos. Essa passagem, essa narrativa, fica em nossos corações. Aliás, a palestra e o encontro com Jitman/Marx é perfeito. Marx/Jitman diz que está acompanhado de sua Jenny (nome da esposa de Marx), na companhia de sua companheira Claudia Versiani, que também acompanha os acontecimentos na vida de Jitman e o critica, como a Jenny o critica, quando necessário. Uma grande mulher junto de um grande homem!
No final há um debate. Dessa vez ele ocorreu no IFCS/RJ, (Insituto de Filosofia a Ciências Sociais) em seu salão nobre. Tivemos, naquela tarde, também a palavra de Anita Leocádia Prestes, muito bem vinda, recepcionando Marx e também representando o Arquivo da Memória Operaria, órgão que dirige, no prédio da Faculdade do Largo de São Francisco. Aliás, esse convite a Marx feito há alguns meses, e aceito por Jitman, está tomando o Brasil, de Norte a Sul: faculdades, escolas, associações, órgãos interessados em política, bairros populares, praças públicas, cidades do interior, todos estão interessados em economia, sociologia e política! Estão interessados em Marx, pois ele não morreu! Uma plateia lota as dependências onde Marx se encontra. E é um fenômeno que cresce a cada dia.
Não quero com estas palavras atrair os maus espíritos, mas entusiasmar as pessoas com o que aconteceu no IFCS, no dia 25 de setembro deste ano. Na ocasião, resolvi dar a minha contribuição e falei, após a palestra, sobre "Os Demônios", romance de Dostoiévski, porque Jitman fez uma descrição de Bakunin - extraída dos escritos de Marx - que me lembrou Mikailovicht, um personagem semelhante criado pelo romancista russo em "Os Demônios". Jitman se referiu à quantidade de livros sobre o assunto que se acumulam em sua mesa de trabalho, mas prometeu lê-lo. Pois nós aconselhamos Jitman a não ler agora "Os Demônios", deixar para outra ocasião, pois a leitura deste russo é sempre empolgante, entretanto, a revolução que prega o personagem Mikailovicht é costurada de ódio e rancor, nada a ver com a Comuna de Paris. A maneira com que Jitman/Marx relembra o pouco tempo em que ela vigorou, nas ruas de Paris, é tão linda a romântica que fazemos votos que algum dia a humanidade proceda assim! Na ocasião, os russos sabiam que algo estava acontecendo "no centro do mundo", mas não sabiam localizar o quê. Vale a leitura, porém em outra ocasião, pois trata-se de um romance em que a personalidade forte de Mikailovicht toma conta dos acontecimentos.
É de Zinn a frase: "Se agirmos de qualquer maneira, ainda que pequena, não precisaremos esperar por algum grande futuro utópico". Ele agiu, como também. Jitman está agindo. E o seu testemunho cresce vertiginosamente, através do contato com o público (que às vezes nem conhece Marx). O texto de Zinn foi batizado por Jitman de "Marx baixou em mim - uma comédia indignada". Jitman/Marx declara: "Tempos difíceis. Tempos de luta. Tempos de indignação, muita indignação. Lembrando a senhora Carrar de Bertold Brecht, que fuzis eu ainda não entreguei?" Jitman está fazendo, de maneira brilhante, a sua parte.
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
"NA SELVA DAS CIDADES - EM OBRAS"
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| A atriz Luah Guimarãez interpretando a irmã de Garga, Marie Garga em "Na Selva das Cidades EM OBRAS" - OCUPAÇÃO # 16 ARTIFÍCIO", em cartaz na Caixa Cultural, Rio de Janeiro. (Foto Renato Margolin). |
(da Associação Internacional de Críticos
de Teatro - AICT)
(Especial)
"NA SELVA DAS CIDADES - EM
OBRAS"
Aqueles que querem "mudar o
mundo" resolveram nos mostrar o mundo com ele é, e conseguiram. Percebemos
neste A Selva das Cidades uma desesperada
busca de algo que realmente tenha 'algum' valor para a nossa já tão curta vida. Dessa
vez os atores buscam encontrar o valor da vida escondido nas poltronas da Caixa Cultural, no Rio - mas já os estiveram
procurando entre os abandonados das ruas, em São Paulo, entre os perdidos de
bar. E acabaram em um lugar que, para algumas pessoas é "considerado
convencional": as cadeiras de um teatro. Trata-se de um pequeno teatro, de uns 150
lugares, se tanto, no qual o grupo "Mundana Companhia" tenta
encontrar o sentido da vida. Eles tentam, se desiludem, bebem, amam, mas as três
talentosas criaturas que acreditam que algo possa ser feito, Aury Porto, Cibele
Forjaz e Luiza Lemmertz esperam que algo aconteça. A vida não dá sossego. E há também Luah Guimarãez que também, para nossa alegria, acredita no projeto. E não só ela. Por algo lutamos,
então. Como pensa Aury Porto.
E qual é a proposta de Aury? O tempo vai passando,
os atores viram anjos (ou demônios) e a proposta continua interrogando: existe
o verdadeiro teatro, existe um caminho?
Cibele Forjaz e a "Mundana Companhia", nossa
conhecida de outro momentos e outras direções - desde o surpreendente "O
Idiota", de Dostoievski, que marcou a diretora para a nova sensibilidade cênica. Outros
espetáculos vieram e hoje temos este "Na Selva das Cidades - Em
Obras" e Brecht trazendo, em seu passar, a "Ocupação #16 -
Artifício". Há toda uma explicação para esta formatação. E o personagem de
um rico negociante de madeira faz a proposta, atraído pela inteligência de um
jovem bibliotecário da Família Garga, e querendo reconhecer a capacidade do ser
humano em um "embate intelectual".
Podemos criar as nossas leituras, neste "Em Obras". Tentarei, mas
"Não Já". A peça é quase "uma questão de família", e os
Garga, camponeses do interior, estão muito presentes em cena.
Mas não é das famílias que devemos falar, devemos
nos referir aos humanos.
BB situa a peça em 1912 (um pouco antes da
Primeira Guerra Mundial). Trata-se de um Brecht inspirado no livro "A
Selva", de Upton Sinclair. Podemos imaginar. O terceiro texto do jovem Brecht já se compara aos
grandes de vida longa como Tchecov, Dostô, e o próprio Brecht . Depois vieram outras peças
da Mundana Cia. Ela começou a ser formada no início do séc. XXI, e houve até um tempo em que ela foi dirigida
pelo russo Adolf Saphiro, em "O Duelo". E lá atrás, nos anos 60, o
grande sucesso do Teatro Oficina foi-nos apresentado: "Na Selva das
Cidades".
Agora, em sua nova versão neste estranho
mês de agosto - irá somente até o dia 26 no Rio - o público perceberá algumas pequenas
modificações em cena.
Citamos o elenco:
Aury Porto, grande entusiasta do projeto e
seu criador, interpreta C. Shlink. Carol
Badra (Mãe Garga); Guilherme Calzavara (O Verme); João Bresser (John Garga), e
também as já citadas Luah (Marie Garga) e Luiza (Jane Larry). Há também Mariano
Mattos Martins (O Babuino), Sylvia Prado (Mãe Garga - substituição?), Vinicius Meloni
(Pat Manky), e Washington Luis (George Garga). Os atores são excelentes e Luah
nos passa a impressão de ter sido muito próxima de Regina Braga. Estranhas vivencias humanas. Deixarei a crítica para
outra ocasião).
Treinamento Corporal, Lu Favoreto;
Tradução, Christine Rörig; Direção/Treinamento Cênico, Cibele Forjaz;
Treinamento Vocal, Lucia Gayotto; Direção de Cena, Renato Bandi; Criação
Musical, Guilherme Calzavara; Músico Marcelo Castilha.
(A
cenografia e concepção do cenário é outro caso à parte: a funcionalidade com
que ela é operada coloca a "marca registrada de Forjaz" - e a sua determinação
cênica, na forte tensão que se estabelece entre atores e público - tensão
essa que Forjaz percebe e não deixa escapar em nenhum momento.
Eis nossa homenagem à rápida passagem da Mundana Companhia pelo Rio de Janeiro. Aproveito para me despedir
com este belo trecho de Brecht, que está no programa:
"Quanto tempo/Duram as obras?
Tanto quanto/ ainda não estão completas.
Em obras.
Pois enquanto exigem trabalho
Não entram em decadência" (BB).
(FALAREMOS UM POUCO MAIS SOBRE A PEÇA, EM OUTRA OCASIÃO. NÃO DEIXEM DE ASSISTI-LA!)..
domingo, 6 de agosto de 2017
"PODEROSA VIDA NÃO ORGÂNICA QUE ESCAPA"
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| "PODEROSA VIDA NÃO ORGÂNICA QUE ESCAPA", texto Diogo Liberano, direção Thaís Barros. Em cena Locatelli, Liberano e ....) (Foto Divulgação) |
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro -
AICT)
(Especial)
"PODEROSA VIDA
N ÃO ORGÂNICA QUE ESCAPA"
Eis a chegada do artista que nos coloca
diante da arte, de sua abstração poética e seus mistérios. Eis o retorno de
Diogo Liberano, que nos falou com desenvoltura em monólogo tecido com Walter Benjamin
(como se dele irmão fosse), em "O Narrador". Agora Liberano retorna
com a poeta (Prêmio Nobel) polonesa Wislawa Szymborska e seu poema "Conversa
com a Pedra", o qual é reproduzido na íntegra, na abertura do espetáculo por um Gunnar Borges (diretor de movimento, ator de excelente voz, e bailarino cheio de energia), que
nos apresenta, nas escadarias majestosas do CCJF, o poema de Wislawa.
Diz o dramaturgo Diogo Liberano que além da poeta polonesa, também foi
inspirado nos quadrinhos de Will Eisner para compor o que nos foi apresentado
em palco. A ilusão da rua de Eisner, na grafic novel "O Edificio", onde
prédios serviam de pano de fundo para a ação, Liberano consegue de uma armação
de material luminoso como aço, e leve como pluma - projetado pela luz que se expande,
em um pano de fundo cinza, dando a impressão de um edifício em construção... ou
demolição.
E assim começa o espetáculo. O texto não
pode ser mais atual, entretecido do absurdo que se expande, até o final
desafiador. O que acontece em cena muita gente já conheceu, ou já passou por
isso - uma menina não querendo ficar no quarto que cheira a sangue e tem
palavras estranhas escritas nas paredes sujas; ou o rapaz do terceiro andar que
quer alugar um apartamento no térreo por causa da mudança de sua mãe, que não
pode subir escadas. Ou o bem resolvido morador do segundo andar, que procura
entender os seus vizinhos.
Quem já não passou por situação semelhante?
Talvez os poucos jovens bem nascidos, que a família resolve todos os seus
problemas, mas nunca o jovem aventureiro que quer conhecer os seus limites. E é
essa segunda impressão que nos causa o insólito dialogo trocado entre eles. E o
final que justifica todos os poemas: a pedra abre a porta que se nega a abrir na
apresentação do espetáculo. Eis o diálogo de "Conversa com a pedra":
"Bati à porta da pedra. - Sou eu, me deixa entrar. Quero penetrar no teu
interior olhar em volta, te aspirar como o ar". (E a pedra responde):
"Vai embora. Sou hermeticamente fechada. Mesmo partidas em pedaços seremos
hermeticamente fechadas. Mesmo reduzidas a pó não deixaremos ninguém entrar".
E, no decorrer da cena, veremos que a
conversa da pedra não é "essa poderosa vida não orgânica que escapa" - pois o "inorgânico" tomará parte -
misteriosamente, como compete à poesia - contrariando o impenetrável da pedra. Mas
os estranhos acontecimentos só se entregarão a quem assistir ao espetáculo!
Devemos saudar, nestes tempos de tão
frágeis textos e interpretações entorpecidas (com algumas honrosas exceções),
este desafiante dialogo entre três jovens (os atores André Locatelli - o colaborativo
morador do segundo andar - Diogo Liberano, "o que procura um pouso para
sua mãe" e finalmente Livs Ataíde, que não suporta as paredes cheirando a
sangue, de seu pequeno apartamento.
Pensamos já ter falado o suficiente sobre o
acontecimento que se instaura com teatralidade bem vinda no Centro Cultural da
Justiça Federal, onde ficará até início de setembro. Diz o diretor que não é
fácil levantar um espetáculo, nestes tempos de retração financeira, em que o
prefeito acaba de cortar 25 milhões de reais para a cultura como um todo. Em
vista disso, Diogo Liberano se dispõe, para poder pagar seus artistas, a dar um
curso de dramaturgia e outro de interpretação, no mesmo espaço em que a peça acontece,
ou seja, no CCJF.
ATENÇÃO CLASSE, PRESTIGIEM! VAI VALER A
PENA. .ESTAMOS NA PRESENÇA DE UM DOS DIRETORES MAIS CRIATIVOS DESTA NOVA
GERAÇÃO. AH! ANTES QUE ESQUEÇA, A UFRJ PARTICIPA, DANDO APOIO AO "TEATRO
INOMINAVEL" (COMO SE INTITULA). Na dramaturgia, Diogo Liberano; na Direção,
Thais Barros e na Direção Musical (o que seria do teatro sem um bom acompanhamento
musical?) Rodrigo Marçal. O Cenário, bastante criativo, foi tornado possível
pela equipe do INOMINÁVEL - ou parte dela - cinco atores: Locatelli, Ferrera,
Ataíde, Müller e Barros. A Direção de Arte é de Marcela Cantaluppi e os
"não-figurinos" - (uma sábia adaptação de nosso vestir cotidiano), são
de Barbara Faccioli e Juliana Valle. (REALIZAÇÃO "TEATRO INOMINAVEL"
E UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO). DESDE 2.008 ESTÃO UNIDOS.
sábado, 22 de julho de 2017
"ESTUDO SOBRE A MALDADE"
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| O ator Bruce de Araujo em "ESTUDO SOBRE A MALDADE" - uma narrativa de "Otelo", de Shakespeare, direção de Miwa Yanagizawa. (Foto Diogo Monteiro). |
"ESTUDO SOBRE A MALDADE"
I D A V I C E N Z I A
(da Associação Internacional de Críticos
de Teatro - AICT)
(Especial)
Outro Shakespeare! Dessa vez é sua peça
"Otelo", incorporando o "Monstro de Olhos Verdes" do ciúme,
que ataca os desprevenidos da sorte. Antes de começar o comentário crítico
quero dizer que tive a felicidade de assistir a um dos mais brilhantes Contadores
de Historias incorporado no ator Bruce de Araujo, a quem tive o prazer de conhecer - com direção de Miwa Yanagizawa, no Teatro Sergio Porto, Rio de
Janeiro. O espetáculo, intitulado "ESTUDO SOBRE A MALDADE", ficará em cartaz ainda este
fim de semana, até o dia 26 (ao que parece) adiado que foi, de sábado a segunda,
sempre às 19 horas. Ao que parece, trata-se de uma residência artística. Para
quem aprecia bom teatro, e o domínio total da cena, aconselha-se conhecer Bruce.
A criação, direção e texto é de Miwa e Bruce
O diretor assistente é Pedro Yudi e a Direção de Movimento (algo inusitado), de
Laura Samy. A Trilha Sonora é de Bruce. Com exceção de Miwa, confessamos que temos
pouco conhecimento de elenco e ficha técnica, mas compreendemos que - e volto à
palavra - diante do 'inusitado' do acontecimento, Stanislaw Ponte Preta deve
estar bem satisfeito com o espaço que lhe foi cedido.
Pois bem. O espetáculo começa praticamente
na penumbra, e o ator do monólogo (Bruce de Araujo), já com iluminação direta sobre ele, aproxima-se do público com uma simples cadeira e senta-se nela, transmitindo-nos toda a simpatia e carisma que sua personalidade
transmite, ao narrar acontecimentos que vão resultar na morte de Desdêmona.
Nada de muito espetacular, apenas a inveja transitando em todos os gestos e
emoções de Iago, que fora preterido em um posto de comando, ao qual almejava.
Apesar de tudo, nada mais atual do que as artimanhas "de Palacio", realizadas
por Iago para atingir os seus fins.
Deixo aqui o registro de meu espanto de
não ter lido comentário algum a respeito, já que "a ciência crítica"
neutralizou-se em inúmeros "blogs" que vão materializando o seu parecer
perdido no espaço e na pressa das noticias entrecortadas. Lastimo. E vejo, com
espanto, que as notícias de jornal ainda monopolizam as críticas teatrais. Devemos
refletir sobre o assunto. As redes sociais e sua escrita "democrática"
é realmente um novo espaço? Pensamos que a crítica deve continuar a ser "pertinente,
arguta e bem escrita", captando o valor real do material que ela se
encarrega de analisar? Ou o que importa são os prêmios em festivais ou os comentarios
em folhas de jornal? A boa interpretação é quem decide quem é quem.
Temos, no caso de Bruce de Araujo uma
revelação óbvia de um talento raro. Ele conta Otelo e suas peripécias, a época
em que se desenvolveu, ou motivos - sem recursos de espécie alguma, a não ser o
de seu talento (e da supervisão do talento de Miwa, claro). Já tivemos "Ricardo
III" contado por Gustavo Gasparani, ou a difícil "Antígona", narrada
por Andrea Beltrão. Os atores citados utilizaram recursos outros, além da
cadeira de Bruce de Araujo. Outros recursos além de um olhar...e um gesto... Ah,
não devemos esquecer o outro Bruce, o Gowleviski, que também impressionou com o
seu aedo, contando "A Iliada",
de Homero.
Não há, na platéia de Bruce de Araujo, que
não tenha compreendido as intenções de Iago, o descontrole de Otelo e a inocência
de Desdèmona (além de outros papéis secundários interpretados por esse ator que
possui o domínio completo de sua arte). Bruce de Araujo narra - em o que
podemos chamar de uma segunda parte do espetáculo - através de seu corpo, as
venturas e desventuras do mouro shakespereano! Quem perdeu deve procurar este
exercício, pois ele não pode deixar os palcos
do Rio de Janeiro. Procurem! Prestem atenção onde "ESTUDO SOBRE A MALDADE" se esconde...
(Devemos pensar nos tesouros que se ocultam
nas redes sociais, e as críticas de teatro que fazem seus críticos, em escolha
pessoal, em contraposição à arte rala que às vezes - quase sempre - trafica nas
páginas dos jornais). Há que pensar sobre isso. Os tempos agora são outros? Há muito
material sublime se perdendo por aí, há muita peça de teatro excelente que não
é analisada... Há que pensar sobre isso. E NÃO PERCAM "ESTUDO SOBRE A MALDADE"! É BOM VER BOM
TEATRO!
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