Páginas

terça-feira, 12 de julho de 2016

"KRUM"




                                                             Foto "KRUM" (Nana Moraes)

"KRUM". Autoria Hanoch Levin, direção Marcio Abreu.
(Foto de Nana Moraes) 
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     KRUM, do dramaturgo israelita de origem polonesa, Hanoch Levin (tradução de Giovana Soar, adaptação do diretor Marcio Abreu e de Nadja Naira, tradução do hebraico de Suely Pfeferman Kagan), é uma peça psi. Explico: ela vai se escrevendo através das idiossincrasias de seus personagens e, aos poucos, no decorrer das cenas limitadas por blackouts, as "neuras" dos jovens (e não tão jovens) começam a se tornar visíveis, formando um texto possível. A ação se passa em de um lugarejo perto de Tel Aviv, ou em seus arredores - wherever - o fato é que  vive-se em um lugar claustrofóbico. Tal façanha nunca foi fácil, como sabemos.

     Podemos dizer que o mais interessante na "musculatura" da peça é o relacionamento entre mãe e filho. O autor não abandona o arquétipo "mãe judia", mas o faz com total independência dos mestres na questão (não vamos falar em Woody Allen, por favor!), pois nos encontros e desencontros dessa dupla, na peça, grita-se, sim, o tão famoso relacionamento umbilical de dominação materna. Mas, olhem só: há uma interdependência quase escandalosa; há, sublinhando o "quase indecente" da cena, uma antológica interpretação de Grace Passô, que pode transformar em expressão (cênica) tudo o que o autor quer transmitir. Danilo Grangheia, o filho, acompanha à altura o desempenho desenfreado dessa atriz, que está perfeita tanto em seu papel de mãe quanto em sua transformação em mulher fatal (aliás, outro dos grandes momentos do espetáculo, dirigido a "corações de aço!"). Embora com as presenças fortes de Passô,  Sorrah (Renata), e Vianna (Inêz), quem está encarregado de dar estrutura à peça é Danilo Grangheia, (aliás, a "estrutura" dessa peça é algo interessante e fora do comum).

     Estamos lidando com seres medíocres e desinteressantes. Muito bem. Mas tal espécie a temos em qualquer latitude. O que o elenco, diretor e demais agentes dessa produção teatral, conseguem, é nos confirmar o desespero em torno de algo tão insólito. Mais perfeito não poderia ser.  Grangheia, em seu personagem Krum, por exemplo, retrata o desespero sem se deixar sugar pelas aflições do personagem, apesar de sua entrega total. Aliás, as frustrações existem porque nenhum dos habitantes do lugar percebe "que a vida é uma causa perdida", como diria o nosso querido mestre Antonio Abujamra. Mas Levin, como não é brasileiro (e esse é um de seus grandes defeitos), não consegue transformar tudo o que vemos em cena, em algo verdadeiramente insólito, para nós, que estamos vivendo o insólito em nosso dia a dia. Mostram-se bumbuns, fala-se palavrões, desgosta-se com a vida, mas não ficamos impactados, como acontece  no espetáculo do Grupo Galpão, outra direção de Abreu, porque os habitantes desse lugar, em KRUM, estão em um lugar fora do mapa, perto de Tel Aviv, lugar esse que não nos fala ao coração, como nos fala o Brasil atual!

     Mas não é isso o que o diretor Marcio Abreu está querendo nos dizer, quando escolheu este texto para montar com a sua companhia brasileira de teatro. Ele estava pensando nas guerras, no obscurantismo, nos nacionalismos crescentes ...  porém, o que assistimos na peça é o retrato da vida refletida na pobreza do cotidiano de pessoas comuns. Elas parecem tão pequenas, em seus pequenos problemas, mas são, pensando bem, estes problemas que movem o mundo! Neste segmento das pessoas que "movem o mundo", em sua pequena/grande reprodução e inutilidade, vamos ver refletida a personagem de Inêz Viana, patética em sua inadequação para a vida. Ponto para Vianna. Não lhe fica atrás Renata Sorrah, interpretando a mulher apaixonada em seu pequeno mundo do "amor a qualquer preço". Sorrah e sua intensidade artística - dessa vez conduzida com bom humor e certa visão critica - não caindo em dramaticidade desnecessária. Ah! Quem não gostaria de ter Renata Sorrah em seu elenco?

     Os atores são muito bons. Há Rodrigo Ferrarini, como o apaixonado; Ranieri Gonzalez, o homem que resolveu viver; ou Edson Rocha, Cris Larin e Rodrigo Andreolli, tornando possível um espetáculo inovador, em se tratando desse povo tão sem chama própria, como é a pequena burguesia de uma cidade do interior - ou "dos arredores de uma grande cidade", como quer o autor Levin.

     Não foi possível esconder o horror que nos causa Israel e suas guerras. Talvez a intenção do autor seja esta mesma: causar repulsa. Conseguiu. E o diretor conseguiu dar continuidade ao seu trabalho, "um fator essencial" - segundo ele, manter viva uma companhia, apesar dessa condição política adversa que se estabeleceu em nosso Brasil. O eco dos acontecimentos recentes (estamos em julho de 2016), ainda não se refletiu em sua "companhia brasileira", e o diretor está certo, ao procurar mantê-la viva. Coisas terríveis acontecem neste mundo, e a peça trata justamente do tipo de pessoa que só se preocupa com problemas de seu  cotidiano, enquanto o mundo ferve, e o egoísmo impera. Também nesta pequena sociedade, retratada em KRUM, o egoísmo impera.

     Diz o autor Levin, que se trata de uma "comedia". O que mais se aproxima deste gênero, em se tratando de KRUM, é o relacionamento do filho amante, o homem desinteressado em outras mulheres, até o momento em que vê surgir a cópia da mãe, em uma mulher livre e "fatal", que transforma o arquétipo - "a mãe judia" - em um problema freudiano. E há  um segundo momento em que podemos considerar o texto uma "comédia": a maneira pela qual os homens vêem aquela que surgiu "de um mundo estranho", até o momento em que "a mulher" (interpretada por Grace Passô ),  se transforma em modelo de transgressão.     


     Passô, Grangehia, Sorrah e Vianna nos brindam com momentos convincentes no espetáculo. De difícil andamento, para uns; de possível inovação, para outros, assim KRUM surge, no mundo teatral brasileiro. Não deixa de ser algo incomum, mesmo neste rico mundo que se apresenta, atualmente, no teatro carioca. Temos na ficha técnica a direção de movimento da grande Marcia Rubin, que transforma Grace Passô em quase uma bacante, na cena erótica com o "italiano" (será Rodrigo Ferrarini?), em excelente jogo cênico. O movimento dos atores, em sua totalidade, é preciso, incorporando e acentuando a personalidade de cada um. Ponto para Rubin. E as várias modalidades que se entrelaçam, nesta transformação da concepção de cenário (KRUM entra nesta "concepção pós-dramática"?), se podemos assim chamar, o pós-dramático tomou conta da cena atual, quando um certo "simbolismo" (ou o mistério que nos ronda) torna-se uma complementação da imaginação - ou do "caos" - levado em cena. O cenário é de Fernando Marés. Iluminação precisa de Nadja Naira; efeitos sonoros e trilha de Felipe Storino. Figurinos (ótimos) de Ticiana Passos. Interlocução artística, Patrick Pessoa. Assessoria de Imprensa, Factoria Comunicação.  VALE Á PENA ASSISTIR KRUM!          

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"NÓS"

Elenco "Nós" e seus instrumentos musicais.
(Foto Cristina Granato) 


IDA VICENZIA
(da  Associação Internacional de Críticos de Teatro  - AICT)
(Especial)
"NÓS"
     O diretor Marcio Abreu, da companhia brasileira de teatro, com sede em Curitiba, está atualmente em cartaz, no Rio de Janeiro  com dois espetáculos: "Krum", de sua própria companhia, e  "Nós", espetáculo que ele dirige para o Grupo Galpão, de Belo Horizonte. Fomos assistir "Nós", e saímos impactados. Podemos constatar uma cumplicidade total entre os atores e o público, coisa de vida vivida! Como é bom ver um assunto que nos interessa tanto (a vida) se desenvolver diante de nossos olhos, sem pretensão de dar ensinamentos ou desenvolver pregação; somente  comentando, e o público constatando.

     É  bom ver um trabalho inteligente e sem "star sistem" (desculpem). No elenco, todos e cada um dos atores é essencial, neste jogo de comentar a vida, e aceitá-la como ela se apresenta, ou não. O fato é que o desafio nos pega, e, de repente somos confrontados com o nosso presente. Tudo enquanto os participantes ("Nós") preparam uma sopa, que, aliás, é muito gostosa (quem a provou pode confirmar). Mas fomos confirmar o atual trabalho do Galpão, dirigido por Marcio Abreu.

     Este diretor, carioca porém eclético, diz gostar de abismos. De fato, estamos o tempo todo à beira do abismo, neste espetáculo, confrontados com diferenças que nos levam a extremos, dentro de nosso presente. Assim, testemunhamos violência, preconceito, amor, amizade, tudo misturado, como é natural em nossa vida. A destacar vários momentos: há uma verdadeira homenagem a Teuda Bara, atriz que mantém vivo o nome do Grupo, tornando-o inesquecível, desde sua interpretação de Ama, em "Romeu e Julieta". Um destaque, pois. A simplicidade com que ela torna  possível enfrentar tantas coisas da vida - como amor e desamor, rejeição e acolhida, compreensão e incompreensão. Porém há destaques o tempo todo, tornando o espetáculo uma experiência renovadora, em termos teatrais.

     Assim, em cena Eduardo Moreira, que também colabora com Marcio Abreu  na organização do texto. Ou Julio Maciel, ou Chico Pelúcio. São sete atores comentando os últimos acontecimentos que abalam a todos nós, brasileiros. Além dos já citados, estão em cena Inês Peixoto, Antonio Edson, Beto Franco, Simone Ordones, Paulo André, Lydia Del Picchia, Arildo de Barros, Fernanda Vianna. A análise do texto é perfeita, inclusive em termos da "roleta histórica", que sempre faz o jogo retornar. Este retorno é realizado com transparência pelo elenco.

     A cenografia é um espetáculo à parte. Marcelo Alvarenga, da Play Arquitetura, conseguiu algo fascinante, com seus vários planos e espelhos que tornam a superfície do palco algo incerto, representando assim a incerteza desestabilizadora de nossa vida. Os figurinos de Paulo André jogam com o cotidiano. E a iluminação complementa as incertezas do cenário: um jogo duplo. Os efeitos sonoros de Felipe Storino são complementares e essenciais.  


     O espetáculo de Marcio Abreu é tão envolvente que os cinco sentidos não são suficientes para capturar tudo o que está acontecendo. Voltamos ao inicio destes comentários, quando dizemos que o espetáculo nos deixou impactados. Sim, participamos de tal maneira, que só podemos, ao comentá-lo, mostrar o envolvimento que (quase) nos fez perder a capacidade critica: se é verdade que o teatro pode "mudar o mundo", como é o sonho de todo artista, podemos dizer que assistir "Nós" é uma experiência transformadora. Quem o assistiu nunca mais será igual. Experiências como esta são positivas e podem mudar a cabeça das pessoas. BRAVO!                  

quarta-feira, 29 de junho de 2016

"O BURGUÊS FIDALGO"

Toilette de M. Jordain

Mme. Jordain

Marquise Doriméne e Conde Dorante, o nobre falido

O professor de francês e M. Jordain
(qualquer semelhança do professor com a Marquise é mera coincidência). 

Uma perfeita tradução de "classe social".
(FOTOS DE ANDRÉ STÉFANO)
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)
O BURGUÊS FIDALGO

     Em final de excursão, encontramos os Parlapatões se despedindo com “O Burguês Fidalgo”, de Molière, no Teatro Amazonas, em Manaus. O diretor Hugo Possolo esteve presente, no elenco, e proporcionando, na capital manauara, um encontro/debate com a classe teatral amazonense.

     Interessante excursão de grupo tão conhecido no Sudeste do Brasil que, ao recriar o espírito de Molière, o faz como se “o criador da comedia francesa” andasse em sua ambulante “carroça de Téspis” por este mundão. Explico: antes de Luis XIV e Versailles, Jean Baptiste ganhou estrada e, como é do conhecimento de todos os que amam teatro, de Lyon a Paris, suas peças ficaram conhecidas no mundo inteiro, graças as extravagâncias do rei francês.

     Pois os artistas dos Parlapatões, com sua verve habitual, conseguem a façanha de adaptar Molière às terras por onde passam, o que torna o espirito do criador francês mais vivo ainda. A “colaboração” das capitais visitadas, entre elas Belém, Goiânia, Belo Horizonte, e outras mais, do Norte e Nordeste, fizeram deste Molière “abrasileirado” um sucesso total.  Em Manaus tivemos a citação, no texto, de o "Encontro das Águas"descrito pitorescamente pela soubrette Nicole! E também, nos improvisos do grupo há a colaboração dos igarapés, do tacacá e outros aspectos característicos da região. Misturado a tudo isso, orgias de teatro burlesco, lembranças políticas das confusões atuais, e muita comicidade popular. Nada faltou a esse Molière parlapatão!

     Os Parlapatões não caíram do céu, o projeto é apoiado pelo (ex?) Ministerio da Cultura e Vivo EnCena. Não sabemos se projetos ligados a esse Ministerio se manterão em pé, com a “nova ordem” que assola o Brasil e a Cultura, com o atual “desgoverno” (Temer, o inacreditável), mas enquanto houver condições de grupos interessantes como o impagável Parlapatões excursionarem pelo Brasil, os eventos acontecerão.

     Quanto ao divertido espetáculo que os Parlapatões proporcionaram ao público de Manaus, um burguês fidalgo com “costuras” populares brasileiras que às vezes tornam irreconhecível o original, retomando, aqui e ali, a historia de Molière. Essa peculiar adaptação, feita por Adonis Comelato, Hugo Possolo e Rafael Faganiello, retoma, para espanto do público, a historia do burguês que quer se tornar fidalgo custe o que custar, sugerindo um  Brasil de classe média ascendente em sua ânsia de se tornar “refinada”, tal como nos tempos dos idos de Versailles. Esta encenação utiliza várias linguagens da comedia, inclusive o teatro burlesco.  

     Em linhas gerais, “O Burguês Fidalgo” é uma comédia balé de Molière e Lulli (música), que critica personagens ridículas. Quanto ao elenco, percebe-se a coesão e as benesses de um trabalho que se mantém afinado há vários anos. Hugo Possolo, como o burguês M. Jordain, ultrapassa, em muito, aquele contido burguês das interpretações francesas. Há, no burguês de Possolo, além da parvoíce hilariante do personagem de Molière, um toque cafajeste bem brasileiro, quando entra em disputa com o conde Dorante (interpretado por Fabek Capreri), para “comer” a marquesa Doriméne (interpretada por Alexandre Bamba). Também  Mme. Jordain é um homem (Raul Barreto), o que aumenta a estranheza e dá vigor às duas personagens femininas. É uma delícia vê-las em cena! Olhares sutis e gestos desdenhosos pautam a interpretação irretocável de Bamba como a Marquesa. A decidida Mme. Jordain é uma fonte inesgotável de sabedoria e perspicácia, com o ator Barreto nos apresentando uma visão estranha de Mme. Essas duas interpretações acrescentam estranheza (e originalidade) ao conjunto dos atores.


     Nicole, a soubrette (Livia Camargo); Lucile, a filha Jordain (Fani Feldman); Cleonte, o noivo (João Paulo Bienemann, que interpreta também o mestre de esgrima) e Fernando Fecchio (Coville, o servo), fazem o contraponto entre noivado popular e noivado burguês. Fernando interpreta também o mestre de dança. Débora Veneziani é a estilista do burguês fidalgo. Está armada a comedia. Figurinos que dispensam cenário, de Cássio Brasil (queremos dizer, com esta observação, que os personagens podem se desenvolver, através de seus figurinos, até mesmo em cenas de rua). Mas o cenário, de telões e cortinas móveis, é de Hugo Possolo, o também diretor e ator (M. Jurdain). Os cenários funcionam muito bem, no Teatro Amazonas. Temos a cantora Dani Nega, que dá vida às músicas de Demian Pinto (que toca, ao vivo, uma pianola), e a outras músicas brasileiras mais conhecidas, inclusive sambas, na trilha sonora elaborada por Pedro Vilhena. A coreografia é de Rogerio Maia. Curador do Projeto: Expedito Araujo. Produtor em Manaus: Sandro Paulo. Assessoria Parlapatões Herika Horn QUEM VIU, TEVE OCASIÃO DE SE REGALAR COM UM MOLIÈRE VERDADEIRAMENTE EXTRAVAGANTE. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"VOLÚPIA DA CEGUEIRA"

"Volúpia da Cegueira", Texto, Daniel Porto, direção, Alexandre Lino.
Em cena: Moira Braga
e Aléssio Abdon: "Luxuria"
. (Foto Janderson Pires)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)
“VOLÚPIA DA CEGUEIRA”
     Enquanto não falamos sobre esse acontecimento não podemos ficar tranquilos. Não é todo dia que temos a oportunidade de assistir pessoas cegas interpretando pessoas cegas. No último domingo, dia 8 de maio, no Rio de Janeiro, no Teatro Maria Clara Machado, vivemos a “potencialidade” dessa experiência, através do espetáculo “Volúpia da Cegueira”, autoria de Daniel Porto, pesquisa e direção de Alexandre Lino. Dessa vez fomos convidados a viver a experiência da cegueira em sua profundidade física. As cenas, divididas em episódios, nos dão a “Tortura no breu” - sadismo; “Etapas da Vida” – gravidez; “O Fotógrafo Cego”, entre muitas outras cenas. E, para nossa surpresa, antes do espetáculo o diretor brinda seu público com um tapa olhos, para que ele compreenda a vivência dos cegos, tornando-se um deles.
     Para quem não colocou a “venda preta”, o espetáculo também se inicia no “breu”, pois assim encontramos o espaço cênico, envolvido no escuro mundo dos cegos. Fica-nos o desafio de distinguir, quando as luzes se acendem, qual dos atores possui, ou não, a visão perfeita: esse é um difícil perceber.
     Há quatro atores em cena: Moira Braga, Aléssio Abdon, Felipe Rodrigues e Max Oliveira. Eles se movimentam sem parar, tropeçando em objetos, caindo, levantando-se, em uma coreografia louca, orientada nos ensaios por Paula Feitosa e Moira Braga. As surpresas não cessam. Começamos pelo cenário. Karlla de Lucca, a cenógrafa, imaginou um espaço delimitado por taxas colocadas no chão, desenhando o que (supomos) daria apoio aos atores cegos. Puro preconceito. Os cegos, assim como os dotados de visão, possuem tal destreza que nada os impede de criar a sensação do “caos”. No cenário de Karlla há um complicador: uma banheira e uma mesa são colocados no “espaço cênico”. Na mesa, duas taças de vinho onde tremulam pequenas doses de vinho tinto. Está feita a referência ao que vamos assistir. Tudo bem, os atores irão corresponder ao solicitado, pois foram bem treinados pelo diretor e pela preparadora corporal Paula Feitosa, que também lhes dá apoio vocal.
     Depois de algumas pesquisas e lembranças pessoais, Alexandre Lino (ator conhecido), criou um roteiro e, inspirando-se na obra de Glauco Mattoso - o poeta cego – convidou o autor Daniel Porto para desenvolver a dramaturgia. Depois de muito trabalho conjunto o espetáculo foi montado, e podemos dizer que o resultado é algo impactante. O primeiro impacto acontece quando percebemos que Max Oliveira, o ator que representa com os olhos fechados, não é cego. Aliás, não percebemos. Ele faz das mãos os seus olhos. O trabalho de Max é perfeito. Alexandre Lino revelou-se um diretor seguro. 
     Outra surpresa se estabelece quando percebemos que o ator Alessio Abdon não possui visão. Aliás, também não percebemos, pois ele possui uma “visão livre”, de quem domina “o mundo dos cinco sentidos”. Esse  jogo do inesperado é fascinante, mas não nos desvia do foco essencial: o da cegueira e a emoção sexual. Fortes, belas, e às vezes deprimentes, são as cenas da sexualidade.
     Os quatro atores, excelentes, nos levam, mais uma vez, à conclusão: o talento é um mistério. Felipe Rodrigues, o ator adolescente e cego, diz suas falas como se ator experiente fosse. Sua cegueira é visível. Orientado, canta e diz suas falas com desenvoltura. Declara em cena: “sexo não representa nada para mim. O que gosto é de ler”. E aí nos lembramos do “alfabeto Braile”. Quem fala é o seu “personagem-ator”, transmitindo a verdade de Felipe. Encerramos essas observações sobre o elenco citando o trabalho de Moira Braga, uma atriz no domínio de sua expressão, quando solicitada a dar vida à cega, ou, em cena impactante, quando interpreta a mulher à procura de emoções fortes. Excelente atriz.
     Voltamos ao cenário de Karlla: olhos espreitam o público, muitos olhos, ao fundo da cena. Recurso de uma beleza infinita, destacado pela luz filtrada (e simbólica), de Renato Machado. A iluminação do espetáculo é excelente. Aliás, “Volúpia da Cegueira” é também um grande momento visual. Contradição? A Direção Musical de Alexandre Elias é excelente. Ela nos brinda, em determinado momento, com uma “frase” de notas sutis, evanescentes. “Una furtiva lacrima”, da ópera de Donizetti, “O Elixir do Amor” ...        NÃO PERCAM!                  
          


domingo, 8 de maio de 2016

"A OUTRA CASA"

"A OUTRA CASA", texto Sharr White, direção Manoel Prazeres. 'Cena final: A Aceitação', com Gabriela Munhoz (A Mulher) e Helena Varvaki (Juliana). (Foto Guido Argel)

                        IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
     "A  OUTRA  CASA", atualmente em cartaz no Teatro Cândido Mendes, é uma peça densa, de difícil tema e acompanhamento, daí seu fascínio. Não é usual enfrentarmos, no palco, esse tipo de problema: 'os impasses do cérebro humano'. Eles são muitos, e um deles, preocupante, é o caso da "dementia praecox", ou, em nome menos latino, o caso, onde se misturam demência e esquizofrenia - o "grand complet". O que leva um diretor de nome tão belamente adjetivado a se debruçar sobre um caso tão ... sombrio? Um desafio? Sim. O diretor Manoel Prazeres declara ser essa uma tentativa sua de entender cenas familiares do passado. O autor norte-americano Sharr White, ao escrever essa peça,  possivelmente estava com os olhos voltados para Hollywood, e seu Oscar, pois o tema abordado é digno de tal façanha: e pode laurear autor e também a atriz que estiver disposta a interpretar Juliana. Mas não sejamos amargos, o que podemos presenciar, no palco, é uma sucessão de cenas em que os desvios de uma mente doentia nos transportam para o desconhecido. Para contar essa historia contamos com o ator Marcos França, que possui o dom de tornar sérias e irônicas as frases que pronuncia. O seu Dr. Ian possui a seriedade e bonomia que o diretor "descobriu" para ele. Sim, porque, ao mesmo tempo que o texto proporciona à competente atriz Helena Varvaki toda a gama de emoções que ela sabe possuir, o elenco com quem pode jogar a angústia, alegria, raiva e amor de seu personagem, deve estar a altura de tal façanha.
     "A OUTRA CASA" dá-nos a oportunidade de entrarmos em um mundo "em degeneração". Entretanto, há algo que o autor e o diretor enfatizam, dando à Juliana/Varvaki um 'meio caminho' para a sua mente doente, fazendo-a não se entregar totalmente ao processo de degeneração iniciado. Essa é  uma bela surpresa da peça, e uma respiração e esperança, pois os mistérios da mente ainda são insondáveis.
       A atriz Gabriela Munhoz surpreende como "A Mulher" que tem a "outra casa" invadida por uma demente, revela-se uma comediante segura, de grande sutileza e comunicação com o público. Gabriela Munhoz interpreta ainda a  terapeuta e a filha adolescente de Juliana. Daniel Orlean fica com um compromisso de, perante a cena, representar "O Homem" que, eventualmente, invade o mundo de Juliana. (Daniel Orlean também é o assistente de direção de Prazeres).
     O diretor ousou, como recurso para contar a historia de Juliana, lançar projeções que cortam o procedimento da esquizofrênica Juliana, projeções nas quais ela esclarece, ou tenta esclarecer para si mesma, o seu procedimento. Enfim, trata-se de uma historia contada de maneira fragmentada e (difícil de acreditar), tal narrativa possui um olhar otimista para o futuro, principalmente em seu final. Na verdade, o que autor e o diretor parecem nos dizer, é que o futuro não existe.
     Na ficha técnica temos, além dos já citados, a tradução de Diego Teza; cenografia (palco limpo, com projeções), de Doris Rollember e iluminação de Renato Machado (o iluminador que dá vida à luz). Figurinos reproduzindo o cotidiano do século XXI (sem exageros), de Leticia Ponzi. A trilha sonora é de Rick Yates e Renato Alscher. Direção de vídeo de Rodrigo Turazzi, com assistência de Duda Paiva. Fotos, Guido Argel; Divulgação, Lu Nabuco. "A OUTRA CASA" é um espetáculo "que deve ser recomendado para maiores de 18 anos", que possuam "nervos de aço"! NÃO PERCAM!

quarta-feira, 4 de maio de 2016

"TEATRO DE RODA" - ESPETÁCULO "SAMBA-LELÊ"

Historias do "Teatro de Roda", iniciativa e dramaturgia de Mariozinho Telles (no centro da foto). Está na Roda o espetáculo "Samba-Lelê", de sua autoria, baseado em cantigas populares. Uma delícia de espetáculo! À direita de Mariozinho vemos, de camisa e calça brancas, e suspensório de seda colorida, o    "Pai Francisco" - pai de Lelé - interpretado pelo ator Guilherme Salvador. Ao centro, a menina  Lelé (Roberta Mancuso), e sua "mamã", a "Dona-da-Casa-cheia-de-rolinhos-na-cabeça representada pela atriz Maria Rita Rezende. Cercando atores, e "brincando de roda", os pais dos meninos, com suas mães e amigos - todos admiradores e participantes do espetáculo. Esta foto é do dia em que ele foi realizado no Jardim Botânico, no espaço do Teatro Tom Jobim (exterior). (Foto Divulgação).

Atualmente o Teatro de Roda é convidado - com seu espetáculo "Roda da Democracia" -  para abrir os eventos do "Movimento Brasil Popular".  Convite muito bem aceito, e em boa hora! Hoje são os artistas e o público, se movimentando pela Democracia em nosso País.  

                        IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

TEATRO DE RODA
"SAMBA-LELÊ"
A GRANDE (E SÉRIA) BRINCADEIRA!

    Mariozinho Telles e Maria Rita Rezende fazem uma dupla muito ativa, que consegue levar com eles, em seu "Teatro de Roda", uma turma de participantes, que compartilha, de maneira esperta e criativa, de todas as suas brincadeiras. Elas são lideradas - e pensadas - por Mariozinho Telles. Qual "Flautista de Hamelin", ele vai encantando, com sua voz de comando, as crianças que o seguem, de olhos bem abertos e atenção compartilhada. É uma delícia vez como aqueles meninos e meninas  acompanham o "Teatro de Roda", extasiados (e alguns assustados), com aquele vai-e-vem da roda humana em seu caminho, homens e mulheres construindo personagens.
     Assim, sucessivamente, vemos brotar das historias o "príncipe casadoiro" que está na roda e é chamado para conhecer a sua princesa, e sai correndo (pequenino e espectador) como se perseguido fosse pelo próprio diabo! Ele tem medo da princesa! E todos se enternecem, porque é tudo muito libertador (inclusive para a criança, que percebe que não está sendo perseguida pelo diabo!). O susto que acontece, com uma criança, acontece com todos nós! ... Mas foi só um susto, nesta roda.
     Há as que fogem, e há as que enfrentam as situações novas. Os pais carregam consigo "a criança que foram um dia" - e divertem-se, estimulando seus filhos a enfrentarem as novas situações.
    E quais são, essas novas situações?
    Elas se impõem, como as narrativas introduzidas neste "Samba-Lelê" - ou "O Belo Rei", ou ainda, "A Linda Rosa".... A "interação lúdica", que brota do espetáculo, traz a alegria do "estar junto" de mãos dadas, rodando a roda, e cantando: "encenando" as velhas/novas historias. O estar junto desenvolve nas crianças (e nos adultos) uma sensação de "pertencimento". Sim, principalmente para as crianças. Com que entusiasmo elas percebem, (e respondem), às novas situações apresentadas!
    É irresistível ver um espetáculo onde os atores interpretam, juntamente com as crianças, a verdade que as crianças impõem. Elas fazem tudo "para valer", com grande envolvimento. O que  pensamos que é "brincadeira", para a criança é a sua grande verdade. Elas olham tudo com espanto. Pena que elas mudem tanto. Não deviam. É bom carregar a criança que temos dentro de nós, para a vida toda. Pois não é que a dupla Mariozinho Telles e Maria Rita Rezende (e os atores que compõe o seu núcleo), conseguiram fascinar as pessoas, principalmente as crianças, para essa brincadeira de vida? E o grupo não para, tendo o seu núcleo para reflexão acontecendo na Casa de Cultura Laura Alvim, onde Mariozinho Telles forma atores. Sucesso sempre, para este excelente - e sutil -  trabalho!

segunda-feira, 2 de maio de 2016

"O COMO E O PORQUÊ"

Suzana Faini e Alice Steinbruck em "O Como e o Porquê" - texto de Sarah Treem, direção, Paulo de Moraes.
                                                           (Fotos Fabiano Cafure)             

                      IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

O   QUE  E  O  PORQUÊ
     Até o dia 1º de Maio, o Dia do Trabalho, foi possível assistir a peça "O Que e o Porquê" no Teatro Ginástico, Centro do Rio de Janeiro, Espaço SESC. Durante o mês de maio, o espetáculo irá para o Teatro Fashion Mall, na Barra da Tijuca - Rio de Janeiro. NÃO PERCAM! É um dos textos mais inteligentes que já esteve presente em nossos palcos, encenado por duas grandes atrizes: Suzana Faini e Alice Steinbruck. Trata-se de um "texto-pesquisa" sobre a mulher, elaborado por Sarah Treem, e dirigido por Paulo de Moraes, da Cia. do Armazém. Melhor conjunto de artistas não poderia haver. E o assunto da peça é muito curioso.
       Explico: a partir de uma indagação biológica sobre a defesa do organismo contra elementos patogênicos contidos no esperma, e neutralizados através do endométrio feminino, uma jovem pesquisadora,  pós-doutoranda em Biologia, Rachel Hardman - ficção, diga-se de passagem,  brilhantemente interpretada por Alice Steinbruck - cria toda uma tese sobre o assunto. O nome da pesquisa? A "Teoria da Menstruação como Defesa". O fato é que o texto nos conduz a possibilidades fascinantes, inclusive a de ele (o endométrio) proteger o organismo da mulher do contato direto com o espermatozóide! Isso exclui as mulheres na menopausa.
     Acontece que, para tratar desse assunto, a autora criou outra pesquisadora, a Dra. Zelda Mildred Kahn, (personagem de Suzana Faini), que se preocupa com a mulher na menopausa... - e enfatiza a questão, com uma pesquisa intitulada "A hipótese da avó" ou "A Teoria da Avó". Pois bem, esta pesquisa da Dra. Zelda "não é" para livrar a mulher, no climatério, de se contaminar com "o esperma assassino" ... mas, tenta provar a vantagem evolutiva da menopausa que, com a concentração de energia, que ela não gasta mais com a atividade reprodutiva, a mulher,  agora, pode se dedicar a outros assuntos. E aí, diz o programa da peça, a mulher "andropáusica" pode se dedicar à sobrevivência de filhos e netos. Diz o texto: "Quando as mulheres começaram a criar os filhos de seus filhos, elas inventaram a infância, o que, consequentemente, criou a humanidade".
     Teoria bastante ambiciosa, e discutível. Trata-se, na verdade, de uma teoria popular que a antropóloga (na vida real), Kristen Hawkes, da Universidade de Utah, em Salt Lake City, transformou em possibilidade de estudo, com foco em tribos primitivas. No entanto, o que é interessante nesta peça é o relacionamento das duas pesquisadoras. Elas também comentam a já aceita "Teoria da Evolução", de Charles Darwin, que nos demonstra serem, todos os tipos de animais (inclusive nós),  transformações do mesmo átomo, portanto, temos a mesma consistência inicial (quem ama os animais sabe disso). A propósito, essa teoria foi pensada por um homem há quase dois séculos, e quando ganhou publicidade, no século XIX, foi combatida e ridicularizada. Hoje todos - "ou quase todos", a aceitam. Na peça, as duas ambiciosas pesquisadoras citam ainda Charles Morton, 'pai da terapia da reposição hormonal'.
     É um assunto empolgante. Essas quatro pesquisas científicas são essenciais para o desenvolvimento da peça. O  fato é que o texto aborda um assunto complicado: "Se desfazer de uma camada endometrial a cada mês requer muito gasto calórico. E para nossas antecessoras pré-históricas, que passavam suas vidas inteiras desnutridas, qualquer caloria contava."
     O que nos fascina, nesta peça, é a maneira como as duas mulheres vão se colocando, e às suas ambições... que vão muito além das prendas do lar!      Para Alice Steinbruck, a atriz-tradutora, as duas teorias criadas por mulher "afetam a forma como a comunidade científica percebe as mulheres e seus corpos"... 
     Passemos à ação, que depende muito do cenário e da direção de Paulo de Moraes. Suzana Faini, interpretando a Doutora Zelda Kahn, colore seu personagem com sensibilidade e perfeição - a mesma que a faz uma atriz admirada por quem ama teatro. O mínimo gesto dessa atriz, sua modulação de voz, são perfeitos. A Dra. Kahn é uma mulher dedicada ao trabalho, e carrega consigo a impossibilidade de ter nascido mulher, e ser cientista. Ela não carrega essa impossibilidade como "uma limitação à sua paixão", o que significa, em outras palavras, que a cientista não abdicou do papel social que lhe é de direito - por ter nascido gênio - para limitar-se ao fato de ser mulher. Sendo assim, o pensamento, e as atitudes, da Dra. Kahn (Suzana Faini), é que tornam essa peça tão fascinante.
     A atriz Alice Steinbruck transmite a emoção e o desconforto de ser Rachel Hardman, a jovem cientista que possui um futuro que a fará sofrer. E brilhar. Podemos afirmar que a determinação com que as atrizes Alice Steinbruck e Suzana Faini perseguiram os seus objetivos transformou "O Como e o Porquê" em um brilhante espetáculo.
     Não vou desvendar os meandros do pensamento de Kahn, nem o encontro das duas pesquisadoras. Deixo essa função para quem for assistir a peça, porém observo que "esses meandros" são muito interessantes. Você pensa que sabe tudo sobre o pensamento feminino - e a necessidade das paixões - mas não sabe nada! Você só vai saber, com clareza, após ter assistido o confronto dessas duas mulheres. "O Como e o Porquê" é uma peça inesperada,  profunda.
     Já dissemos quase tudo sobre o tema da peça, para onde vamos, agora? Optamos pelo cenário, com "as cadeiras", do diretor e cenógrafo Paulo de Moraes; cadeiras com seus diversos "designs". Podemos dizer que o cenário "não é" um estudo sobre mobiliário, porém tudo nele é  esteticamente perfeito. Aliás, nos permitimos uma observação: em geral, os cenários das peças de Paulo de Moraes apresentam constante preocupação com o "estético": o belo e o terrível como linguagem. Tal fato impregna o movimento dos atores. Veja na foto a beleza simples de "as cadeiras", e sua praticidade.             
NÃO PERCAM!
     Na ficha técnica temos o cuidado da iluminação de Maneco Quinderé. Nos últimos anos Quinderé vem atuando primorosamente nas peças do diretor Paulo de Moraes. A segurança de seu trabalho é uma das razões que possibilitam à peça, complexa, caminhar com clareza. A iluminação de Quinderé destaca, sutilmente, os momentos-chave para a compreensão do espetáculo. A trilha sonora original é outro fator importante para marcar o andamento do texto. É Bianca Gismonti, na criação musical. Fabiano Cafure, com sua 'Arte e Teaser' é também o encarregado das fotos da peça. Muito oportuna a foto das atrizes, incorporando os bonecos de armar,  pela oportunidade que temos, de ver nos desenhos de seus corpos a evolução da espécie humana, e as descobertas científicas ali assinaladas. Os figurinos, muito acertados, marcando o cotidiano das duas cientistas, são de Desirée Bastos. Trata-se de um espetáculo bem cuidado.
     No programa da peça há uma observação que devolve, para nós, o seu misterio inicial: "As duas mulheres são ficcionais, mas as teorias que elas apresentam são reais". Entende-se que seja ficcional o relacionamento entre as duas mulheres, na peça, porém, essa ficção nos desperta para  o mundo real, e queremos conhecer uma possível "verdadeira historia" dessas cientistas! Não a encontramos: sabemos que essa não é a proposta da peça, mas somos desafiadas (a peça é um desafio constante!).
EM TEMPO: A peça comemora os 50 anos de carreira de Suzana Faini, e  pela primeira vez é encenada na America Latina. NÃO PERCAM!