| A chegada do "viajante-pesquisador", em "Laura", atuação, pesquisa e produção, Fabrício Moser. (Foto Ricardo Martins). |
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
"LAURA"
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
"O CORPO DA MULHER COMO CAMPO DE BATALHA"
![]() |
| Ester Jablonski e Fernanda Nobre na cena final de "O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha", peça de Matéi Visniec, com direção Fernando Philbert. (Foto Nil Caniné) |
IDA VICENZIA
(da Associação
Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
"O
CORPO DA MULHER COMO CAMPO DE BATALHA"
Em cartaz no Teatro Poeira, temos
novamente Matei Visniec. Vimos, no
Poeirinha, "2 X Matéi", em que Godot, o personagem extraído de
Beckett, reclama, contestando a escolha do autor ao não colocá-lo em cena:
"em Shakespeare até os fantasmas aparecem!" O argumento, e a encenação, eram tão loucas e
tão divertidas (com Guida Vianna e Gilberto Gawronski), que nos conduzia ao
teatro do absurdo. Dessa vez, não! Em "O Corpo da Mulher como Campo de
Batalha", o romeno Matéi Visniec
surge com um argumento devastador, que nos leva além do palco,
jogando-nos na realidade da vida. A
tradução de Alexandre David nos ajuda a entender a "dança das
palavras", de Visniec.
E, na verdade, essa "dança" é
arrepiante, colocando a nu a bestialidade da guerra. Os combatentes, desde
tempos imemoriais, estupram as mulheres dos guerreiros vencidos... para
humilhá-los! As mulheres são o complemento do 'campo de batalha'.
E essa barbárie continua, mais viva do que
nunca. Em seu texto, Visniec coloca duas mulheres, duas vítimas de seu sexo,
lutando para conseguir entre si um mútuo entendimento. Elas são vitimas do mesmo horror, mas, a um
primeiro olhar, pensamos ser a jovem bósnia Dorra (interpretada com intensidade
por Fernanda Nobre), a única vítima dessa crueldade, pois sofreu as
conseqüências da guerra.
Ledo engano, o olhar de Visniec busca uma
maneira de colocar as duas mulheres em um patamar de ultraje e violência, que
as torna igualmente fragilizadas, e estabelece uma situação de desconforto entre elas. A jovem
bósnia não aceita a norte-americana e sua civilização. Esta, por sua vez, "só
quer ajudar", e tenta entender a
psique da mulher que foi agredida em seu mais íntimo, e que engravidou, em
consequência do estupro! (Visniec não esquece nenhum detalhe do que ele chama
de seu "teatro engajado").
Ester Jablonski entrega-se ao personagem Kate.
A psicoterapeuta Kate (que talvez seja o personagem da vida dessa atriz,
terapeuta que é), sente-se cansada da luta sem tréguas, cansada de enterrar os mortos e querer enfrentar os
males do mundo. Jablonski nos dá um desempenho forte e enternecedor,
transmitindo ao seu personagem grande empatia.
Mas Kate não é culpada de algo que não
ajudou a criar. Sente-se culpada, e se engaja como "voluntária", para
ajudar. É aí que se coloca o grande dramaturgo, que trafega em questões-limite
entre o bem e o mal. E o diretor, Fernando Philbert, consegue equilibrar o
furacão que a peça desencadeia. Seu olhar sensível permite às atrizes se
entregarem ao tema cruel, sem caírem no excesso de emoção. Também a direção de
movimento de Marina Salomon se faz sentir, nas diversas manifestações de controle
da emoção física das atrizes. O fator "equilíbrio"
sustenta a ação, e o resultado é um espetáculo enxuto, contundente e, ao mesmo
tempo, poético!
O romeno Visniec, com a mesma desenvoltura
com que se diverte com os autores ocidentais,
Beckett, Garcia Marques, ou Oscar Wilde, mergulha em seu teatro engajado
que quer desvendar a Utopia, e seus enganos. Ainda há muito a ser desvendado,
desse autor...
Na ficha técnica temos a cenografia de
Natalia Lana, que transmite ao palco do Poeira uma impressão de infinito. Há um
jogo de espelhos dividindo os tempos. Os figurinos, simples, também trazem a
sua assinatura. A iluminação é de Vilmar Olós. O artista consegue dar uma
sensação de solidão, com a sua luz às vezes fria! A música (original) é de Tato Taborda. Fotos
de Nil Caniné; Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco. É BOM VER BOM TEATRO!
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
"VAIDADES E TOLICES"
![]() |
| "Vaidades e Tolices" - uma compilação dos contos de Tchecov "O Urso" e "Pedido de Casamento". Direção Sidnei Cruz. (Foto Guga Melgar) |
IDA VICENZIA
(da Associação
Internacional de Críticos de teatro - AICT)
(Especial)
"VAIDADES
E TOLICES"
Comemorando os seus 25 anos de encenações,
a 'Cia. Limite 151' festejou, no primeiro semestre de 2016, levando a cena Anton
Tchecov e suas peças curtas: "O Urso" e "Pedido de Casamento".
O apelo ingênuo e bem humorado destas duas peças alegra os corações. Com
inspirada direção de Sidnei Cruz, os atores Edmundo Lippi, Flavia Fafiães,
Isabella Dionísio, Marcello Escorel e Rafael Canedo levaram ao público os
deliciosos momentos de delicadeza, malícia e inteligência do texto do
dramaturgo russo.
Muito boa a encenação de Sidnei Cruz, ao
fazer o entrecruzar das historias de dois casais, em seus instantes de "enamoramento".
É bom poder rir com os encontros e desencontros dos casais formados por Natalia
Stepanovna (Dionísio) e Ivan Lomov (Canedo), em "Pedido de Casamento"
- mais ingênua e recorrente -, e assistir a grande brincadeira que é "O
Urso", sucesso certo para quem a interpreta - sendo maior ainda com Marcello Escorel jogando com o mulherengo,
brutal e apaixonado Grigóri Smirnov, seguido, na sequência, por uma não menos
inspirada viúva, Eliena Popova, interpretada com detalhe, malicia e precisão
por Fafiães.
A "Limite" especializou-se em
nos brindar com um teatro de repertorio dos clássicos, e é graças a ela que
podemos assistir a um simpático Molière, ou as aventuras e desventuras dos
personagens de Ariano Suassuna. Seja bem-vinda, 'Limite 151'!
Seu produtor e ator, Edmundo Lippi, um incansável
amante do teatro, atua fazendo a 'costura' dos dois espetáculos, ora interpretando
o pai da jovem Natalia, ora o mordomo de Eliena Popova, sempre de maneira
eficaz e correta.
No complicado mecanismo de precisão,
criado por Sidnei Cruz, os atores contracenam com os objetos de cena, "desconstruindo-os",
e se entrecruzam, em cenas rápidas, fazendo o contraponto com as historias que
estão sendo contadas. É tudo muito rápido, e, segundo o diretor, procura
acompanhar a "folia verbal" do autor. E acompanha. Mas não deixa de
ser surpreendente, para quem está acostumado com um Tchecov introspectivo, e
seus personagens da "burguesia decadente" russa.
Neste sentido, Cruz extrapola. Essa nova versão de Tchecov, o "novo autor russo", nos trás um efervescente espetáculo, quando, por
exemplo, o "Urso" Grigóri, ao perceber estar apaixonado pela viúva (Fafiães), nos oferece uma comicidade irresistível, interpretada com brilho por
Marcello Escorel.
As historias dos casais, na concepção de
Cruz, se entrecruzam, em um ritmo veloz.
Esse ritmo, e as palavras do pai de Natalia (Edmundo Lippi), cheias de subterfúgios,
remetem ao 'falar' tchecoviano dado às suas peças curtas, ao deixar em aberto o
"isso e aquilo"... "e coisa e tal...", sem especificar o sentido.
É muito bom ver um espetáculo em que ainda
se conta uma historia (dinamizada pelos mais variados acontecimentos), e da
qual se pode rir, com delicadeza, da sutileza do grande autor russo. Tchecov
parece estar presente (e está!), piscando o olho para a platéia, diante das
artimanhas de seus personagens. É um prazer participar desse Tchecov, envolvido
com o olhar criativo de Sidnei Cruz.
Na ficha técnica temos, além dos já
citados, cenário e figurinos (muito bons, ágeis, cheios de artimanhas, como o figurino
da viúva...) - de Colmar Diniz. Música e Direção Musical: Wagner Campos.
Iluminação de Rogerio Wiltgen; Produção Executiva: Valéria Meirelles; Direção
de Produção Edmundo Lippi; Adereços, Elísio José e Fotos de Guga Melgar. ESPERAMOS MAIS 'LIMITE
151', NO PRÓXIMO SEMESTRE, COMEMORANDO O ANO DE SEU ANIVERSARIO!
terça-feira, 16 de agosto de 2016
"BOA NOITE, PROFESSOR"
![]() |
| Nina Reis e Ricardo Kosovski em "Boa Noite, Professor", texto e direção de Julia Stockler e Lionel Fischer. (Foto Guga Melgar) |
IDA VICENZIA
(da Associação
Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
"BOA
NOITE, PROFESSOR"
O espetáculo comemora os 65 anos do Teatro
Tablado, e trás o retorno das peças adultas ao espaço. Texto e direção de Julia
Stockler e Leonel Fischer.
Podemos classificar "Boa Noite,
Professor" como um representante fiel do teatro psicológico. Os dois
personagens, interpretados por Nina Reis e Ricardo Kosovski, aluna e professor,
buscam a verdade, devassando o que há de mais oculto em cada um de nós (em cada um deles).
Optamos
por uma analise baseada no padrão de comportamento
dos personagens, e seu desenvolvimento emocional. Jogamos com o fascínio do Mal,
trazido pela psicopatia... e com o
suspense... 'tempo' característico de "Boa Noite, Professor".
... E quais são as características do Mal?
A pergunta se coloca, buscando a compreensão do comportamento, ao mesmo tempo frágil
e agressivo, do Professor. A psicopatia não vê o "Outro"; não possui
empatia pela dor alheia; não ama; não reconhece a culpa. No caso do Professor,
o processo se coloca em nuances, talvez sendo a mais forte o "não
reconhecer a culpa".
Como autora que sou, sei como funciona o
"gatilho" para a criação. E percebo o "gatilho". Nesta
peça, ele pode surgir, de maneira inesperada. Há frases, entre os personagens, que
o sustentam. Há frases repetidas, algumas muito conhecidas no meio jornalístico,
como: "Isso acontece... isso acontece, é normal..." - tal como a
monótona repetição do Professor, no final da peça, quando ele relembra, patético, como matou a
mulher: "Ela pedia: aperta mais!... aperta mais..." Perfeito. Cena
perfeita: somos culpados pela nossa queda. O Mal, sem a consciência de se estar
praticando o mal. Há um jogo entre vitima e algoz.
Mas divago... se essa crítica não se engana -
e ela crê que não se engana - o embrião da visita da aluna, em "Boa Noite,
Professor", o "gatilho" da peça, surgiu da visita desesperada de
Ida Vicenzia, anos atrás, ao Tablado, querendo fazer "justiça". Repito:
para quem escreve, tal acontecimento inesperado pode ser o "gatilho"
para a criação. Essa cena aconteceu, em proporções menores, mas ficaram as
marcas. Finalmente, depois de "Boa Noite, Professor", ficamos reconciliados
com o passado, e podemos ver a 'humanidade' com novos olhos.
Na peça "Boa Noite, Professor", tudo
acontece em uma noite qualquer. Eis que surge, na sala de trabalho do professor
universitário, uma aluna. Ela quer "tirar algumas dúvidas". O
professor gosta de fotografia, a aluna também... e os elementos do
quebra-cabeça vão se juntado. O professor, em vias de se aposentar, não quer
mais se lembrar do passado. A aluna traz o "suspense erótico" para o
passado do diretor. Porém, ele se nega a ir ao encontro da armadilha... e a
trama, bem urdida, se desenvolve!
A aluna mostra as fotos de sua mãe, em uma
praia. Fotos tiradas pelo professor? O professor fica agitado e ordena que a
aluna se retire de sua sala. A reação da aluna surge, em uma tentativa de
sedução... (admirável o desempenho de Nina Reis, a sua maturidade artística). O
professor não cede à sedução, mas há algo que o atormenta, e ele só repete, ad nauseam: "Ela pedia: aperta mais!... aperta
mais..."
No teatro psicológico que se estabelece, a
aluna leva o professor aos meandros ocultos de sua consciência. O que aconteceu
naquela praia? O patético da cena final se afirma na confissão... e no silêncio
que se segue. O professor repete, incansavelmente: "Ela pedia: aperta mais!...
aperta mais..." a repetição,
exaustiva, da frase, seguida do silêncio. Ricardo Kosovski trás, para esta cena, a
sua verdade de ator.
Uma "arena no palco" (formação
dada ao 'espaço cênico' do Tablado), dá oportunidade ao público de se aproximar
do drama, e ser envolvido por ele. Há fortes interpretações, e a realidade
transborda. A direção busca a entrega total dos atores, e é muito bem sucedida
nesta busca. A ação, em suspense crescente, proporciona aos atores um
"despojamento do oculto", e temos aí um verdadeiro encontro com o
teatro!
Na ficha técnica, a alegria de quem
assiste teatro. "De Simoni", na luz.... "Tato Taborda" na
trilha sonora. No cenário: "José Dias". Direção de Produção: "Fernando
do Val". ... Ana Carolina Lopes nos
figurinos, Guga Melgar nas fotos... e o pessoal da casa, os montadores de luz:
Anderson Peixoto, André Ensá e Gabriel Prieto; Luisa Marques na bilheteria. Há,
no Tablado, um acolhimento "em família", algo que os teatros devem conservar...
Há um ambiente teatral, e o público sente-se bem, naquele ambiente.
ACONSELHA-SE VISITAR O TABLADO NESTE ANIVERSARIO DE 65 ANOS E ASSISTIR a
competente direção de Leonel Fischer e Julia Stockler, neste "Boa Noite,
Professor".
domingo, 31 de julho de 2016
"A REUNIFICAÇÃO DAS DUAS COREIAS"
![]() |
| Elenco de "A Reunificação das duas Coreias", de Joël Pommerat, direção de João Fonseca. (Foto: Victor Hugo Cecatto) |
sexta-feira, 22 de julho de 2016
"TERRA PAPAGALLI"
![]() |
| "Terra Papagalli", direção Marcelo Valle. Na foto André Rosa (Cosme Fernandes) e Sarah Lessa (Terebê, a filha do cacique) (Foto Luca Ayres) |
![]() |
| Cena de "Terra Papagalli". Na foto, André Rosa e Felipe Frazão. (Fotos Luca Ayres) |
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos
de Teatro - AICT)
(Especial)
TERRA PAPAGALLI, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, atualmente em cartaz no teatro Sesc Copa, é uma fantasia ficcional criada em torno dos degredados portugueses, os condenados que vieram aportar nas praias brasileiras junto com Cabral e suas caravelas. Sobre essas personagens verídicas de vida tão nebulosa que por aqui foram deixadas nos idos de 1500, pouco ou quase nada se sabe. Marcelo Valle é o diretor desse episódio da vida nacional, inspirado no livro de Torero e Pimenta. Trata-se de uma comédia que ficará na historia.
Meu Deus, é nós, o que poderíamos dizer dessa Terra dos Papagaios que é esse nosso Brasil? No mínimo, o espetáculo que é levado em cena no Sesc Copa é um marco tão importante como o foi, em seu tempo, a estréia de "O Rei da Vela"! Não exagero. Falta-lhe apenas o burilar dos anos. Porém é um marco. Inova, em todos os sentidos, a cena teatral, e se "atira", voluptuosamente, na imaginação do que "deve ter sido", a chegada desse bando de degredados portugueses na Terra de Santa Cruz! São 11 atores, enlouquecidos - e no auge de sua juventude - a nos transmitir a loucura que foi o desembarque dos degredados chegados a essa terra, os degredados "de Cabral". O horror, o pânico da chegada pega o público desprevenido, e leva ao inesperado! Somando-se a tudo isso, a precisão da entrada dos índios: e fica assegurada a força do espetáculo.
Meu Deus, é nós, o que poderíamos dizer dessa Terra dos Papagaios que é esse nosso Brasil? No mínimo, o espetáculo que é levado em cena no Sesc Copa é um marco tão importante como o foi, em seu tempo, a estréia de "O Rei da Vela"! Não exagero. Falta-lhe apenas o burilar dos anos. Porém é um marco. Inova, em todos os sentidos, a cena teatral, e se "atira", voluptuosamente, na imaginação do que "deve ter sido", a chegada desse bando de degredados portugueses na Terra de Santa Cruz! São 11 atores, enlouquecidos - e no auge de sua juventude - a nos transmitir a loucura que foi o desembarque dos degredados chegados a essa terra, os degredados "de Cabral". O horror, o pânico da chegada pega o público desprevenido, e leva ao inesperado! Somando-se a tudo isso, a precisão da entrada dos índios: e fica assegurada a força do espetáculo.
A cena,
em "Terra Papagalli", revela o desvario do encontro "das novas gentes"
os índios, com os homens "civilizados", e desnuda o que esses "últimos"
são capazes, para tornar seu o que não
lhes pertence! Até aí, sabemos os detalhes. Mas a precisão dessa chegada desesperada
cria leis, inventa estatutos, elabora autos, com uma desfaçatez da qual
conhecemos os frutos.
O
interessante, ao assistirmos a essa visão "da coisa", interpretada
por José Roberto Torero e Marcos Pimenta, é que nunca imaginamos que essa
historia poderia ser contada - e da maneira que foi - em um espetáculo teatral.
Já assistimos a narrativas dessa famosa "Viagem", porém contada de maneira
estética e "histórica", dando a impressão de que esse horror foi
realmente um episodio da maior distinção. Nunca, porém, essa historia nos foi
contada com tal ferocidade - (e esse deve ser o relato verdadeiro) - ao menos a
historia da chegada dos degredados.
Pois
Marcelo Valle acreditou nisso, e foi muito bem recompensado pela sua iniciativa
(e da equipe, pois, como sabemos, teatro é união de várias iniciativas), mas a
direção de Valle mostra a mão de alguém que sabe aonde quer chegar - estimulado,
com certeza, pelos outros dois "insanos" (em imaginação), que são
Torero e Pimenta.
Tal
iniciativa resultou na perfeita direção de Marcelo; na preparação vocal e canto
(e da fala indígena), de Fabianna Mello e Souza e Davi Guilhermme (workshop vocal).
Juntou-se a todo esse acerto a iluminação de Mauricio Fuziyama e do mestre
Renato Machado, e ainda os figurinos, adereços e visagismo, tão particulares e
acertados, de Othon Spenner. Estes artistas (Spenner nos figurinos) são exemplos
de imaginação a serviço da cena. Tudo se complementa: os personagens enlouquecidos, metade pássaro,
metade seres da floresta e gente perdida entre "ceroulas estilizadas",
camisas e tangas... dão o tom do espetáculo. Tudo muito divertido.
No
cenário de Julia Deccache e Carla Ferraz tudo pode acontecer, até se vender o
solo da terra recém descoberta "a um Real!". Os "vendilhões da
pátria" daquele momento apregoam e oferecem aos espanhóis, e a quem quer
que apareça por lá, essa bagatela do nosso solo! Tudo muito atual. Aos "aborígenes"
a oferta foi outra, de apitos, berloques e até armas, pois a loucura
desencadeada a tudo permite. E a gente "muito viva" que se apresenta
na ocasião da descoberta, principalmente "o Bacharel da Cananéia", (personagem
real), que conta a historia através de sua ótica. O esperto Cosme Fernandes, o
"Bacharel", é o protagonista que tudo consegue, até casar com a filha
do cacique e conquistar terras. É ele o nosso Serra, "o desenfreado",
que oferece aos portugueses, espanhóis, franceses, "e quem mais vier",
as novas terras, por um tostão de mel coado.
Os atores,
em ordem alfabética (e sinto não poder falar separadamente de cada um deles), são:
André Rosa, André Vieira, Daniel Belmonte, Felipe Frazão, João Marcelo
Iglesias, Jojo Rodrigues, Rômulo Chindelar, Sarah Lessa, Thiago Chagas. Tomaz
Nogueira e Victor Albuquerque. Destaco apenas as ótimas interpretações de
Felipe Frazão, Sarah Lessa, André Rosa e Jojo Rodrigues, a filha de Cosme Fernandes;
Ibiracê. Sarah e seu personagem Terebê, filha do cacique, por estarem nas fotos
a que tive acesso... (assim é que se fazem as reputações, para o bem ou para o
mal - pura sorte). André Rosa, como um dos Cosme Fernandes e Felipe Frazão, em
particular, pelo destaque de sua interpretação. Ele é o Cosme mais novo e também interpreta outros personagens. O Cosme "do meio" é Victor Albuquerque (aos poucos, a produção vai "liberando" o nome dos atores e personagens... nem tudo está pedido! Acontece que eles estavam sem o programa da peça, na estreia).
Mas o elenco é, todo ele, vigorosamente talentoso.
Mas o elenco é, todo ele, vigorosamente talentoso.
. A
adaptação para teatro do texto ficou a cargo de André Vieira (um dos atores), Daniel
Belmonte e do diretor Marcelo Valle. A codireção é de Danilo Moraes: os dois
realizaram um trabalho primoroso. A direção de movimento é de Dani Cavanelllas.
Muito atual,
essa releitura dos primeiros 30 anos da terra descoberta. Pensando bem,
"Terra Papagalli" é uma releitura do atual "desgoverno"
brasileiro. Aconselhamos ao público
amante de teatro (e quem quiser começar a amá-lo) a não perder este espetáculo histórico
e ... EXCELENTE!
terça-feira, 19 de julho de 2016
"UM NOME PARA ROMEU E JULIETA"
| "Um nome para Romeu e Julieta", direção Dani Lossant. Atores Diogo Liberano e Carolina Ferman, interpretando os apaixonados de Verona. (Foto Clara Carvalho) |
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro -
AICT)
(Especial)
UM NOME PARA ROMEU E JULIETA
De
repente aquela coisa toda de "desconstruir" Romeu e Julieta, os dois
apaixonados de Verona. E o texto de Shakespeare vai se decompondo, atingido por
um tom poético insuspeitado. Brinca-se com ele, e o resultado é a alegria do
amor. Os dois não morrem, no final... eles simplesmente embarcam na
"mortal loucura" que é o amor. Eis um bom título para a peça, já que
somos desafiados a pensar em "Um nome para Romeu e Julieta".
Puro
desafio: alguém já havia pensando nisso antes ... Foi Gregorio de Mattos,
possivelmente em outro contexto. "Eles": elenco, direção, adaptação e
demais participantes do trabalho, apresentam-nos a música que tanto fica
gravada em nossa sensibilidade. Ela é cantada por Letícia Novaes (gravação),
arranjo e produção musical de Fabio Lima. A trilha original que sinaliza os
movimentos dos atores e das sequências é de Luciano Corrêa.
Trata-se de
uma montagem de Shakespeare por um grupo de atores que sempre têm algo novo
para apresentar ao público. Dessa vez Diogo Liberano não está na direção, mas Dani
Lossant, a iniciadora de todos os vôos, na UFRJ e na Uni Rio; trabalhou essa adaptação
em 2006 com outros atores, e hoje também a dirige. Porém, há sempre "uma
batalha renovada". Por que "batalha"? Quem faz teatro sabe o
porquê dessa palavra.
Vamos a
ela: os elementos trabalhados são mínimos. Uma arena teatral, um retângulo
iluminado que é 'chão e céu', local aonde os acontecimentos e os pensamentos se
reúnem. Desafios. Durante o espetáculo as palavras vão sendo encontradas, e
escritas, pelos atores... em algo que imaginamos ser a
"desconstrução", em lama e pó, daqueles seres vivos. Ao finalizar o
espetáculo percebemos que "elas", as palavras, nos contam
historias... Olhem só que linda, uma das frases escritas no chão: "E de te
amar assim muito e amiúde, é que um dia em teu corpo de repente hei de morrer
de amar mais do que pude".
Frei
Lourenço e o casal de adolescentes apaixonados carregam aquilo que será a sua
perda: em uma das mãos o punhal, na outra, o veneno. É um jogo sutil e
impressionante. Os duelos e as mortes são simplificados, e também os que levam a
"mortes praticadas". Por Romeu, um exemplo - e são mortes caracterizadas,
como a do "jogo do gato", quando o rompimento da corda é o rompimento da vida. Não há
necessidade de palavras.
Alguns
trajes localizam as personagens, principalmente as mulheres. Os homens em
roupas cotidianas. Objetos de cena? Mínimos, como são mínimas as citações à
tragédia que virá. Entretanto, ao
mencionar "palavras", o que temos é um jogo poético, criado pela própria
equipe (Dani Lossant e Diogo Liberano - colaboração dramatúrgica), de uma
beleza singela e esclarecedora. A historia dos apaixonados de Verona é contada
em uma hora e trinta minutos, e o poeta inglês está contido nestes minutos.
Olhem só:
às vezes o texto nos traz lembranças do autor inglês; às vezes a poesia se
iguala a dele, porém Dani e Diogo se encarregam "dela" (a poesia).
Coisas de quem aprendeu a "jogar o jogo" e vencer a batalha!
Pois
temos Diogo Liberano e Carolina Ferman interpretando os enamorados; Morena
Cattoni entre a serva amiga e a mamã; e todos os Capuletos e Montecchios que a
historia tem direito, representados pelos bravos atores que seguram o ritmo
acelerado da encenação, temos Marcio Machado interpretando os pais de Romeu e
Julieta, e ainda Frei Lourenço. Machado o faz, sem perder o tom. Para ele tal
façanha é um brinquedo, ator de presença forte que é. Os amigos e os primos estão
presentes nos desempenhos de Andrêas Gatto e Daniel Chagas. Um elenco de bons
atores.
O texto é
adaptado de uma tradução de Onestaldo Pennafort. Na direção de movimento e
preparação vocal temos, respectivamente, Nathália Mello e Verônica Machado. Figurinos
de Luci Vilanova. Iluminação detalhada, fechando em cada assunto pertinente, de
Daniela Sanchez. VALE Á PENA ASSISTIR.
Assinar:
Postagens (Atom)







