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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"LAURA"


A chegada do "viajante-pesquisador", em  "Laura", atuação, pesquisa e produção,
Fabrício Moser. (Foto Ricardo Martins). 

O ator Fabrício Moser contando o início de seu périplo, quando pede permissão
para a mãe (no foco), para contar a historia da vó Laura.
 (Foto Ricardo Martins)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
    
     Querido arista Fabrício Moser, que inventou o espetáculo-performance "Laura". Fabrício é um artista pesquisador que ouve seu coração. Mas, se a certeza do acerto só se afirma com o olhar do "Outro", o artista pode dirigir o seu olhar a todos os públicos, e, em especial, aos pesquisadores de profissão. Respiramos a seiva rara de um pesquisador em campo. Sim, o trabalho de Fabrício é um bom exemplo, ao vivo, de como se organiza uma pesquisa.

     Fabrício partiu de uma curiosidade que perseguia sua infância: "Quem foi vó Laura?" O que aconteceu, realmente, com ela? Vó Laura sempre esteve presente em sua imaginação, seu nome era evitado na família, e o desfecho de sua morte, um mistério. Tal fato aguça a curiosidade do menino e, uma vez adulto, coloca-se a campo, disposto a realizar a pesquisa sobre Laura.

     As duas perguntas: "quem foi?"  e "o que aconteceu?" neste episódio, nortearam o caminho do pesquisador. Há vários fatores de encantamento, para o público, e, o  mais interessante, talvez, seja o desvendar, junto ao autor, como se desenvolveu a sua procura. Mas o espetáculo não se resume a um assunto só, quem o assistir saberá.

     Estamos em uma pequena cidade do Rio Grande do Sul, Cruz Alta, povoado de acentuada influência alemã e italiana. Foi nesta cidade que nasceu Érico Veríssimo... porém, isso não interfere na morte romanesca de vó Laura, pois Fabrício não explora o lado literário do acontecimento.

     Quando tomamos conhecimento do local onde se deu a tragédia,  percebemos que tal ligação não será feita - apesar do avô "gauderio" de Fabrício, casado com Laura, ser um personagem recorrente no cenário gaúcho. Foi graças a seu "espírito gauderio", de percorrer os pampas, "sem Deus nem Lei", que despertou a paixão de vó Laura. Não, Fabrício não explora esse aspecto. Muito interessante, esse avô gaudério... porém o mesmo não se pode dizer das músicas que são lembradas, em acordeon e canto, músicas de uma rusticidade sem arte... típica dos bailes dos centros de tradição gaúcha! Enfim... o único perigo que o autor/ator/pesquisador corre é atrair um público que admira tradições gaúchas, e não propriamente teatro.  

     E por ser vida real, ficamos cada vez mais intrigados com a maneira pela qual Fabrício "estende" a sua historia, no sentido de sempre encontrar uma nova saída para os acontecimentos. Continua pesquisando com o público? Há sempre um novo acontecimento a ser somado, uma nova pesquisa? Não há regras para a imaginação.  

     O ritmo do espetáculo nunca é o mesmo, às vezes surgem "interferências" não desejadas, pois "Laura" depende de "intrincada" produção eletrônica - um de seus pontos positivos - mas que também podem se tornar uma armadilha. Constatamos que o autor/produtor Fabrício transforma-se, então, em um "one man show eletrônico". Eis um tour de force elogiável.   

     "Laura" vem de um circuito alentador, ela já esteve presente no teatro Parque das Ruínas, em Santa Teresa, e também a encontramos no belo espaço do Castelinho do Flamengo. Esse espaço cênico tem virtudes  insuspeitadas: Do alto das torres daquela estranha construção "art-nouveau", Fabrício pensou em uma cena insólita, na qual convivem tempos e falas os mais diversos - e onde, inclusive, se dança uma rancheira com o público... Trata-se de um "baile essencial" para o desenrolar da trama. Mas o público não sabe disso... (ou não devia saber, agora já sabe, com a critica!)

     São várias, as cenas: ora estamos em Cruz Alta, na rua em que se deu o acontecimento insólito; ora assistimos a projeção de um vídeo, uma entrevista, um personagem novo. Fabrício nos leva ao interior das casas, onde pessoas são entrevistadas para a pesquisa, e há sempre uma nova construção cênica a nos surpreender. 

     A performance, contando a historia trágica de vó Laura, terá vida longa, devido ao cuidadoso trabalho de elaboração da mesma. Com "pesquisa detalhada e olhar carinhoso", as múltiplas presenças de vó Laura, construídas por seu neto, dão um aspecto inquietante e revelador ao que estamos assistindo. E é, também, às vezes, divertido! Sim, "Laura" pode ser "tempo e espaço", flutuando na lembrança de quem a ama! E quem melhor do que seu neto? 

     Produção, roteiro, direção, autoria e interpretação: Fabrício Moser, ex-aluno da Uni Rio, que veio de longe - do Mato Grosso do Sul - para encantar o Rio de Janeiro com as suas historias  de  raízes gaúchas. O Rio comporta este cenário nacional. Segundo fomos informados, o próximo pouso da vó Laura será o Teatro Sérgio Porto.  NÃO PERCAM!               
    
  

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

"O CORPO DA MULHER COMO CAMPO DE BATALHA"

Ester Jablonski e Fernanda Nobre na cena final de "O Corpo da Mulher  Como Campo de Batalha",
peça de Matéi Visniec, com direção Fernando Philbert.
(Foto Nil Caniné) 


                    IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"O CORPO DA MULHER COMO CAMPO DE BATALHA"

     Em cartaz no Teatro Poeira, temos novamente Matei Visniec.  Vimos, no Poeirinha, "2 X Matéi", em que Godot, o personagem extraído de Beckett, reclama, contestando a escolha do autor ao não colocá-lo em cena: "em Shakespeare até os fantasmas aparecem!"  O argumento, e a encenação, eram tão loucas e tão divertidas (com Guida Vianna e Gilberto Gawronski), que nos conduzia ao teatro do absurdo. Dessa vez, não! Em "O Corpo da Mulher como Campo de Batalha", o romeno Matéi Visniec  surge com um argumento devastador, que nos leva além do palco, jogando-nos na realidade da vida.  A tradução de Alexandre David nos ajuda a entender a "dança das palavras", de Visniec.

     E, na verdade, essa "dança" é arrepiante, colocando a nu a bestialidade da guerra. Os combatentes, desde tempos imemoriais, estupram as mulheres dos guerreiros vencidos... para humilhá-los! As mulheres são o complemento do 'campo de batalha'.       

     E essa barbárie continua, mais viva do que nunca. Em seu texto, Visniec coloca duas mulheres, duas vítimas de seu sexo, lutando para conseguir entre si um mútuo entendimento. Elas  são vitimas do mesmo horror, mas, a um primeiro olhar, pensamos ser a jovem bósnia Dorra (interpretada com intensidade por Fernanda Nobre), a única vítima dessa crueldade, pois sofreu as conseqüências da guerra.

     Ledo engano, o olhar de Visniec busca uma maneira de colocar as duas mulheres em um patamar de ultraje e violência, que as torna igualmente fragilizadas, e estabelece uma  situação de desconforto entre elas.  A  jovem bósnia não aceita a norte-americana e sua civilização. Esta, por sua vez, "só  quer ajudar", e tenta entender a psique da mulher que foi agredida em seu mais íntimo, e que engravidou, em consequência do estupro! (Visniec não esquece nenhum detalhe do que ele chama de seu "teatro engajado").

     Ester Jablonski entrega-se ao personagem Kate. A psicoterapeuta Kate (que talvez seja o personagem da vida dessa atriz, terapeuta que é), sente-se cansada da luta sem tréguas, cansada de  enterrar os mortos e querer enfrentar os males do mundo. Jablonski nos dá um desempenho forte e enternecedor, transmitindo ao seu personagem grande empatia. 
     Mas Kate não é culpada de algo que não ajudou a criar. Sente-se culpada, e se engaja como "voluntária", para ajudar. É aí que se coloca o grande dramaturgo, que trafega em questões-limite entre o bem e o mal. E o diretor, Fernando Philbert, consegue equilibrar o furacão que a peça desencadeia. Seu olhar sensível permite às atrizes se entregarem ao tema cruel, sem caírem no excesso de emoção. Também a direção de movimento de Marina Salomon se faz sentir, nas diversas manifestações de controle da emoção física das atrizes. O  fator "equilíbrio" sustenta a ação, e o resultado é um espetáculo enxuto, contundente e, ao mesmo tempo, poético!

     O romeno Visniec, com a mesma desenvoltura com que se diverte com os autores ocidentais,  Beckett, Garcia Marques, ou Oscar Wilde, mergulha em seu teatro engajado que quer desvendar a Utopia, e seus enganos. Ainda há muito a ser desvendado, desse autor...
     Na ficha técnica temos a cenografia de Natalia Lana, que transmite ao palco do Poeira uma impressão de infinito. Há um jogo de espelhos dividindo os tempos. Os figurinos, simples, também trazem a sua assinatura. A iluminação é de Vilmar Olós. O artista consegue dar uma sensação de solidão, com a sua luz às vezes fria!  A música (original) é de Tato Taborda. Fotos de Nil Caniné; Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco. É BOM VER BOM TEATRO!                  

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

"VAIDADES E TOLICES"

"Vaidades e Tolices" - uma compilação dos contos de Tchecov "O Urso" e "Pedido de Casamento".
Direção Sidnei Cruz. (Foto Guga Melgar)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de teatro - AICT)
(Especial)

"VAIDADES  E  TOLICES"

     Comemorando os seus 25 anos de encenações, a 'Cia. Limite 151' festejou, no primeiro semestre de 2016, levando a cena Anton Tchecov e suas peças curtas: "O Urso" e "Pedido de Casamento". O apelo ingênuo e bem humorado destas duas peças alegra os corações. Com inspirada direção de Sidnei Cruz, os atores Edmundo Lippi, Flavia Fafiães, Isabella Dionísio, Marcello Escorel e Rafael Canedo levaram ao público os deliciosos momentos de delicadeza, malícia e inteligência do texto do dramaturgo russo.

     Muito boa a encenação de Sidnei Cruz, ao fazer o entrecruzar das historias de dois casais, em seus instantes de "enamoramento". É bom poder rir com os encontros e desencontros dos casais formados por Natalia Stepanovna (Dionísio) e Ivan Lomov (Canedo), em "Pedido de Casamento" - mais ingênua e recorrente -, e assistir a grande brincadeira que é "O Urso", sucesso certo para quem a interpreta - sendo maior ainda com  Marcello Escorel jogando com o mulherengo, brutal e apaixonado Grigóri Smirnov, seguido, na sequência, por uma não menos inspirada viúva, Eliena Popova, interpretada com detalhe, malicia e precisão por Fafiães.    
  
     A "Limite" especializou-se em nos brindar com um teatro de repertorio dos clássicos, e é graças a ela que podemos assistir a um simpático Molière, ou as aventuras e desventuras dos personagens de Ariano Suassuna. Seja bem-vinda, 'Limite 151'!

     Seu produtor e ator, Edmundo Lippi, um incansável amante do teatro, atua fazendo a 'costura' dos dois espetáculos, ora interpretando o pai da jovem Natalia, ora o mordomo de Eliena Popova, sempre de maneira eficaz e correta.

     No complicado mecanismo de precisão, criado por Sidnei Cruz, os atores  contracenam com os objetos de cena, "desconstruindo-os", e se entrecruzam, em cenas rápidas, fazendo o contraponto com as historias que estão sendo contadas. É tudo muito rápido, e, segundo o diretor, procura acompanhar a "folia verbal" do autor. E acompanha. Mas não deixa de ser surpreendente, para quem está acostumado com um Tchecov introspectivo, e seus personagens da "burguesia decadente" russa.

     Neste sentido, Cruz extrapola. Essa nova versão de Tchecov, o "novo autor russo", nos trás um efervescente espetáculo, quando, por exemplo, o "Urso" Grigóri, ao perceber estar apaixonado pela viúva (Fafiães), nos oferece uma comicidade irresistível, interpretada com brilho por Marcello Escorel.

     As historias dos casais, na concepção de Cruz,  se entrecruzam, em um ritmo veloz. Esse ritmo, e as palavras do pai de Natalia (Edmundo Lippi), cheias de subterfúgios, remetem ao 'falar' tchecoviano dado às suas peças curtas, ao deixar em aberto o "isso e aquilo"... "e coisa e tal...", sem especificar o sentido.

     É muito bom ver um espetáculo em que ainda se conta uma historia (dinamizada pelos mais variados acontecimentos), e da qual se pode rir, com delicadeza, da sutileza do grande autor russo. Tchecov parece estar presente (e está!), piscando o olho para a platéia, diante das artimanhas de seus personagens. É um prazer participar desse Tchecov, envolvido com o olhar criativo de Sidnei Cruz.        


     Na ficha técnica temos, além dos já citados, cenário e figurinos (muito bons, ágeis, cheios de artimanhas, como o figurino da viúva...) - de Colmar Diniz. Música e Direção Musical: Wagner Campos. Iluminação de Rogerio Wiltgen; Produção Executiva: Valéria Meirelles; Direção de Produção Edmundo Lippi; Adereços, Elísio José e Fotos de Guga Melgar. ESPERAMOS MAIS 'LIMITE 151', NO PRÓXIMO SEMESTRE, COMEMORANDO O ANO DE SEU ANIVERSARIO!     

terça-feira, 16 de agosto de 2016

"BOA NOITE, PROFESSOR"

Nina Reis e Ricardo Kosovski em "Boa Noite, Professor",
texto e direção de Julia Stockler e Lionel Fischer.
(Foto Guga Melgar) 

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"BOA NOITE, PROFESSOR"

     O espetáculo comemora os 65 anos do Teatro Tablado, e trás o retorno das peças adultas ao espaço. Texto e direção de Julia Stockler e Leonel Fischer.

     Podemos classificar "Boa Noite, Professor" como um representante fiel do teatro psicológico. Os dois personagens, interpretados por Nina Reis e Ricardo Kosovski, aluna e professor, buscam a verdade, devassando o que há de mais oculto em cada um de nós (em cada um deles). 

     Optamos por uma analise baseada no  padrão de comportamento dos personagens, e seu desenvolvimento emocional. Jogamos com o fascínio do Mal,  trazido pela psicopatia... e com o suspense... 'tempo' característico de "Boa Noite, Professor".  

     ... E quais são as características do Mal? A pergunta se coloca, buscando a compreensão do comportamento, ao mesmo tempo frágil e agressivo, do Professor. A psicopatia não vê o "Outro"; não possui empatia pela dor alheia; não ama; não reconhece a culpa. No caso do Professor, o processo se coloca em nuances, talvez sendo a mais forte o "não reconhecer a culpa".

     Como autora que sou, sei como funciona o "gatilho" para a criação. E percebo o "gatilho". Nesta peça, ele pode surgir, de maneira inesperada. Há frases, entre os personagens, que o sustentam. Há frases repetidas, algumas muito conhecidas no meio jornalístico, como: "Isso acontece... isso acontece, é normal..." - tal como a monótona repetição do Professor, no final da peça,  quando ele relembra, patético, como matou a mulher: "Ela pedia: aperta mais!... aperta mais..." Perfeito. Cena perfeita: somos culpados pela nossa queda. O Mal, sem a consciência de se estar praticando o mal. Há um jogo entre  vitima e algoz.  

     Mas divago... se essa crítica não se engana - e ela crê que não se engana - o embrião da visita da aluna, em "Boa Noite, Professor", o "gatilho" da peça, surgiu da visita desesperada de Ida Vicenzia, anos atrás, ao Tablado, querendo fazer "justiça". Repito: para quem escreve, tal acontecimento inesperado pode ser o "gatilho" para a criação. Essa cena aconteceu, em proporções menores, mas ficaram as marcas. Finalmente, depois de "Boa Noite, Professor", ficamos reconciliados com o passado, e podemos ver a 'humanidade' com novos olhos.  

     Na peça "Boa Noite, Professor", tudo acontece em uma noite qualquer. Eis que surge, na sala de trabalho do professor universitário, uma aluna. Ela quer "tirar algumas dúvidas". O professor gosta de fotografia, a aluna também... e os elementos do quebra-cabeça vão se juntado. O professor, em vias de se aposentar, não quer mais se lembrar do passado. A aluna traz o "suspense erótico" para o passado do diretor. Porém, ele se nega a ir ao encontro da armadilha... e a trama, bem urdida, se desenvolve! 

     A aluna mostra as fotos de sua mãe, em uma praia. Fotos tiradas pelo professor? O professor fica agitado e ordena que a aluna se retire de sua sala. A reação da aluna surge, em uma tentativa de sedução... (admirável o desempenho de Nina Reis, a sua maturidade artística). O professor não cede à sedução, mas há algo que o atormenta, e ele só repete, ad nauseam:  "Ela pedia: aperta mais!... aperta mais..."

     No teatro psicológico que se estabelece, a aluna leva o professor aos meandros ocultos de sua consciência. O que aconteceu naquela praia? O patético da cena final se afirma na confissão... e no silêncio que se segue. O professor repete, incansavelmente: "Ela pedia: aperta mais!... aperta mais..." a  repetição, exaustiva, da frase, seguida do silêncio. Ricardo Kosovski trás, para esta cena, a sua verdade de ator.

     Uma "arena no palco" (formação dada ao 'espaço cênico' do Tablado), dá oportunidade ao público de se aproximar do drama, e ser envolvido por ele. Há fortes interpretações, e a realidade transborda. A direção busca a entrega total dos atores, e é muito bem sucedida nesta busca. A ação, em suspense crescente, proporciona aos atores um "despojamento do oculto", e temos aí um verdadeiro encontro com o teatro!

     Na ficha técnica, a alegria de quem assiste teatro. "De Simoni", na luz.... "Tato Taborda" na trilha sonora. No cenário: "José Dias". Direção de Produção: "Fernando do Val".  ... Ana Carolina Lopes nos figurinos, Guga Melgar nas fotos... e o pessoal da casa, os montadores de luz: Anderson Peixoto, André Ensá e Gabriel Prieto; Luisa Marques na bilheteria. Há, no Tablado, um acolhimento "em família", algo que os teatros devem conservar... Há um ambiente teatral, e o público sente-se bem, naquele ambiente. ACONSELHA-SE VISITAR O TABLADO NESTE ANIVERSARIO DE 65 ANOS E ASSISTIR a competente direção de Leonel Fischer e Julia Stockler, neste "Boa Noite, Professor".          
               

domingo, 31 de julho de 2016

"A REUNIFICAÇÃO DAS DUAS COREIAS"

Elenco de "A Reunificação das duas Coreias", de Joël Pommerat,
direção de João Fonseca.
(Foto: Victor Hugo Cecatto)

Cena de CASAMENTO, episodio de "A Reunificação... ".
Na foto: Bianca Byington, Gustavo Machado e Solange Badim.
(Foto: Victor Hugo Cecatto)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)


"A  REUNIFICAÇÃO DAS DUAS COREIAS"  

 - UM ESPETÁCULO EXTRAVAGANTE


     Não podemos nos surpreender com o mundo atual, pois a loucura humana sempre pautou as nossas vidas, mas a peça de Joël Pommerat, "A Reunificação das Duas Coreias" - atualmente em cartaz no Oi, Futuro de Botafogo - é uma amostra significativa da alma: seja ela francesa, brasileira, hebraica ou muçulmana, só para citar as que estão no limite da loucura, atualmente, pois os Estados Unidos já ultrapassaram esse limite há muito tempo.

     Pois bem, "A Reunificação..." nos dá um esboço dessa situação - refletida nos problemas familiares - e mostra vários tipos de comportamento (neurótico), que caracterizam  o nosso tempo. Pensamos, em alguns momentos, estar na presença de um espetáculo cujo foco é o "amor", ou a "amizade" - e há momentos em que nos detemos na "insensatez" dos humanos. No início da ação, com a morte do marido (por enforcamento), ou a do amigo, na sequencia da "Amizade", (por estrangulamento),  nos perguntamos se não estamos na presença do teatro de "grand guignol", tão amado pelos franceses. Mas sem o sangue jorrando! 


     Na verdade, "A Reunificação das Duas Coreias" é um espetáculo no qual as sequências (rapidíssimas), nos levam ao extravagante! O teatro de Pommerat seleciona momentos de encontro/desencontro entre as pessoas e - com a imagem amplificadora do teatro - entramos no terreno do risível e do angustiante. Trata-se do reflexo, em lente de aumento, do que vivemos em nosso dia a dia. Aos poucos vamos percebendo que a real mensagem do autor é a "desconstrução" de nossos costumes. Se elegemos o "amor"  - e suas mais variadas formas -,  para fazer a leitura do que nos é  apresentado, percebemos que o texto se transforma em um verdadeiro "elogio à loucura"!

      O  "Método João Fonseca de Direção" não fica nada a dever ao  texto. Ao cercar-se de excelentes atores, e os deixar livres para escolher os seus caminhos, temos a oportunidade de assistir Louise Cardoso exercitando a prostituta mais enlouquecida dos últimos tempos, no teatro carioca. Trata-se do momento VALOR - episodio no qual a atriz divide o palco com o não menos talentoso Reiner Tenente. A atuação de Louise é marcante, e irá desaguar na estarrecedora "página em branco" do mal de Alzheimer, lembrando carinhosamente o filme argentino "O Filho da Noiva", de Juan José Campanella. Neste episódio, MEMORIA, o ator Marcelo Valle nos dá uma excelente interpretação. Talvez, pela sua densidade, MEMORIA se apresente como o mais ilustrativo do texto de Pommerat.

     As situações humanas vividas pelo elenco - apesar de algumas cenas se aproximarem da repetição minimalista - são impactantes, e, em sua maioria, hilariantes. Citaremos algumas: no episodio AMIZADE,  por exemplo, Gustavo Machado e Marcelo Valle têm um confronto preciso. Em outras sequências há o teatro do absurdo, como em CASAMENTO, na qual se confrontam: uma família composta por três irmãs, um  marido e um noivo ... no qual as irmãs têm um amor "enlouquecido" pelo mesmo homem. Ou talvez MORTE, quando Solange Badim tem ocasião de nos fazer apreciar o seu tempo preciso para a comedia.
     Em outro episodio, o do AMOR, pensamos assistir a uma ação amorosa entre casais,  mas verificamos, com surpresa, que se trata do sentimento da "dívida moral", encenada pelos pais de um aluno, amado por seu professor. Dessa vez, trata-se do amor genuíno de um mestre por seu discípulo. O professor é interpretado por Marcelo Valle, novamente em ótima atuação. Gustavo Machado e Verônica Debom são os pais do menino, enquanto Louise Cardoso é o personagem "apaziguador". Esse episódio reforça a sensação de insensatez dos humanos. 

     Bianca Byinton, desde sua primeira entrada em cena, como uma faxineira que encontra o cadáver (cena do enforcamento), até o final do espetáculo, mostra, mais uma vez, que é uma atriz que se entrega, com talento e precisão, além de uma diretora premiada. Trata-se de um espetáculo com excelentes atrizes em cena. No episodio GRAVIDEZ Bianca interpreta uma médica histérica. Em cena, Verônica Debom, a paciente grávida. Outro momento que nos apresenta a "insensatez" do autor. Tal cena também se apresenta como "a marca registrada" de Pommerat, se quisermos entender o seu texto. Com este espetáculo João Fonseca nos mostra coerência, em suas escolhas, com um olhar atento às excentricidades da "pequena vida", como na canção "I live my little life", que ilustra, de maneira crítica, o que se quer retratar.
     Enfim... o texto de Pommerat visita vários tipos de "loucura", entre as quais o "amor". Em sua "forma" podemos considerar que Fonseca optou por uma linguagem "pós-dramática" (no sentido da liberdade da encenação), com opções variadas entre o melodrama e a "comedia largada", demonstrando com isso, mais uma vez, a liberdade de sua linguagem cênica. O pós-dramático é também libertário.

     Na ficha técnica temos a segurança de Nello Marrese, no cenário. Os figurinos, de muito bom gosto (uma citação à elegância blasé francesa?), de Antônio Guedes.  A iluminação, de Renato Machado, não possui, dessa vez, o desenho excepcional que costuma ter a sua marca, porém manda o seu recado. Desfrutamos da ótima direção musical de Leandro Castilho, com uma seleção de músicas deliciosas. Pedro Peduzzi, por sua vez, transmite os sons e ruídos especiais, com maestria. A excelente direção de movimento é de Alex Neoral, e o "Visagismo" é de Diego Nardes. Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco. Direção de Produção: Maria Siman e Ana Lelis (um agradecimento muito especial a Ana Lelis). Tradução de Beatriz Ittach. Assistentes de Direção: Reiner Tenente e Pedro Pedruzzi. Design e Fotografia: Victor Hugo Cecatto. UM ESPETÁCULO ESTRANHO.                          
              
   
    
           

sexta-feira, 22 de julho de 2016

"TERRA PAPAGALLI"

"Terra Papagalli", direção Marcelo Valle. Na foto André Rosa (Cosme Fernandes)
e Sarah Lessa (Terebê, a filha do cacique)
(Foto Luca Ayres)

 Cena de "Terra Papagalli". Na foto, André Rosa e Felipe Frazão.
(Fotos Luca Ayres) 
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)


TERRA   PAPAGALLI,  de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, atualmente em cartaz no teatro Sesc Copa, é uma fantasia ficcional criada em torno dos degredados portugueses, os condenados que vieram aportar nas praias brasileiras junto com Cabral e suas caravelas. Sobre essas personagens verídicas de vida tão nebulosa que por aqui foram deixadas nos idos de 1500, pouco ou quase nada se sabe. Marcelo Valle é o diretor desse episódio da vida nacional, inspirado no livro de Torero e Pimenta. Trata-se de uma comédia que ficará na historia.  

     Meu Deus, é nós, o que poderíamos dizer dessa Terra dos Papagaios que é esse nosso Brasil? No mínimo, o espetáculo que é levado em cena no Sesc Copa é um marco tão importante como o foi, em seu tempo, a estréia de "O Rei da Vela"! Não exagero. Falta-lhe apenas o burilar dos anos. Porém é um marco. Inova, em todos os sentidos, a cena teatral, e se "atira", voluptuosamente, na imaginação do que "deve ter sido", a chegada desse bando de degredados portugueses na Terra de Santa Cruz! São 11 atores, enlouquecidos - e no auge de sua juventude - a nos transmitir a loucura que foi o desembarque dos degredados  chegados a essa terra, os degredados "de Cabral". O horror, o pânico da chegada pega o público desprevenido, e leva ao inesperado! Somando-se a tudo isso, a precisão da entrada dos índios: e fica assegurada a força do espetáculo.

     A cena, em "Terra Papagalli", revela o desvario do encontro "das novas gentes" os índios, com os homens "civilizados", e desnuda o que esses "últimos" são capazes,  para tornar seu o que não lhes pertence! Até aí, sabemos os detalhes. Mas a precisão dessa chegada desesperada cria leis, inventa estatutos, elabora autos, com uma desfaçatez da qual conhecemos os frutos.

     O interessante, ao assistirmos a essa visão "da coisa", interpretada por José Roberto Torero e Marcos Pimenta, é que nunca imaginamos que essa historia poderia ser contada - e da maneira que foi - em um espetáculo teatral. Já assistimos a narrativas dessa famosa "Viagem", porém contada de maneira estética e "histórica", dando a impressão de que esse horror foi realmente um episodio da maior distinção. Nunca, porém, essa historia nos foi contada com tal ferocidade - (e esse deve ser o relato verdadeiro) - ao menos a historia da chegada dos degredados.

     Pois Marcelo Valle acreditou nisso, e foi muito bem recompensado pela sua iniciativa (e da equipe, pois, como sabemos, teatro é união de várias iniciativas), mas a direção de Valle mostra a mão de alguém que sabe aonde quer chegar - estimulado, com certeza, pelos outros dois "insanos" (em imaginação), que são Torero e Pimenta.

    Tal iniciativa resultou na perfeita direção de Marcelo; na preparação vocal e canto (e da fala indígena), de Fabianna Mello e Souza e Davi Guilhermme (workshop vocal). Juntou-se a todo esse acerto a iluminação de Mauricio Fuziyama e do mestre Renato Machado, e ainda os figurinos, adereços e visagismo, tão particulares e acertados, de Othon Spenner. Estes artistas (Spenner nos figurinos) são exemplos de imaginação a serviço da cena. Tudo se complementa: os  personagens enlouquecidos, metade pássaro, metade seres da floresta e gente perdida entre "ceroulas estilizadas", camisas e tangas... dão o tom do espetáculo. Tudo muito divertido.

     No cenário de Julia Deccache e Carla Ferraz tudo pode acontecer, até se vender o solo da terra recém descoberta "a um Real!". Os "vendilhões da pátria" daquele momento apregoam e oferecem aos espanhóis, e a quem quer que apareça por lá, essa bagatela do nosso solo! Tudo muito atual. Aos "aborígenes" a oferta foi outra, de apitos, berloques e até armas, pois a loucura desencadeada a tudo permite. E a gente "muito viva" que se apresenta na ocasião da descoberta, principalmente "o Bacharel da Cananéia", (personagem real), que conta a historia através de sua ótica. O esperto Cosme Fernandes, o "Bacharel", é o protagonista que tudo consegue, até casar com a filha do cacique e conquistar terras. É ele o nosso Serra, "o desenfreado", que oferece aos portugueses, espanhóis, franceses, "e quem mais vier", as novas terras, por um tostão de mel coado.

     Os atores, em ordem alfabética (e sinto não poder falar separadamente de cada um deles), são: André Rosa, André Vieira, Daniel Belmonte, Felipe Frazão, João Marcelo Iglesias, Jojo Rodrigues, Rômulo Chindelar, Sarah Lessa, Thiago Chagas. Tomaz Nogueira e Victor Albuquerque. Destaco apenas as ótimas interpretações de Felipe Frazão, Sarah Lessa, André Rosa e Jojo Rodrigues, a filha de Cosme Fernandes; Ibiracê. Sarah e seu personagem Terebê, filha do cacique, por estarem nas fotos a que tive acesso... (assim é que se fazem as reputações, para o bem ou para o mal - pura sorte). André Rosa, como um dos Cosme Fernandes e Felipe Frazão, em particular, pelo destaque de sua interpretação. Ele é o Cosme mais novo e também interpreta outros personagens. O Cosme "do meio" é Victor Albuquerque (aos poucos, a produção vai "liberando" o nome dos atores e personagens... nem tudo está pedido! Acontece que eles estavam sem o programa da peça, na estreia). 

      Mas o elenco é, todo ele, vigorosamente talentoso.

.     A adaptação para teatro do texto ficou a cargo de André Vieira (um dos atores), Daniel Belmonte e do diretor Marcelo Valle. A codireção é de Danilo Moraes: os dois realizaram um trabalho primoroso. A direção de movimento é de Dani Cavanelllas.   
  
     Muito atual, essa releitura dos primeiros 30 anos da terra descoberta. Pensando bem, "Terra Papagalli" é uma releitura do atual "desgoverno" brasileiro.      Aconselhamos ao público amante de teatro (e quem quiser começar a amá-lo) a não perder este espetáculo histórico e ... EXCELENTE!
     

terça-feira, 19 de julho de 2016

"UM NOME PARA ROMEU E JULIETA"

Enquanto Romeu e Julieta são representados por atores fixos, outros quatro atores se revezam entre os personagens coadjuvantes (Foto: Divulgação/Anna Clara Carvalho)
"Um nome para Romeu e Julieta", direção Dani Lossant. Atores Diogo Liberano e Carolina Ferman, interpretando os apaixonados de Verona. (Foto Clara Carvalho)


IDA VICENZIA

(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)

(Especial)


UM NOME PARA ROMEU E JULIETA  

   
     De repente aquela coisa toda de "desconstruir" Romeu e Julieta, os dois apaixonados de Verona. E o texto de Shakespeare vai se decompondo, atingido por um tom poético insuspeitado. Brinca-se com ele, e o resultado é a alegria do amor. Os dois não morrem, no final... eles simplesmente embarcam na "mortal loucura" que é o amor. Eis um bom título para a peça, já que somos desafiados a pensar em "Um nome para Romeu e Julieta".

     Puro desafio: alguém já havia pensando nisso antes ... Foi Gregorio de Mattos, possivelmente em outro contexto. "Eles": elenco, direção, adaptação e demais participantes do trabalho, apresentam-nos a música que tanto fica gravada em nossa sensibilidade. Ela é cantada por Letícia Novaes (gravação), arranjo e produção musical de Fabio Lima. A trilha original que sinaliza os movimentos dos atores e das sequências é de Luciano Corrêa.   
       
     Trata-se de uma montagem de Shakespeare por um grupo de atores que sempre têm algo novo para apresentar ao público. Dessa vez Diogo Liberano não está na direção, mas Dani Lossant, a iniciadora de todos os vôos, na UFRJ e na Uni Rio; trabalhou essa adaptação em 2006 com outros atores, e hoje também a dirige. Porém, há sempre "uma batalha renovada". Por que "batalha"? Quem faz teatro sabe o porquê dessa palavra.

     Vamos a ela: os elementos trabalhados são mínimos. Uma arena teatral, um retângulo iluminado que é 'chão e céu', local aonde os acontecimentos e os pensamentos se reúnem. Desafios. Durante o espetáculo as palavras vão sendo encontradas, e escritas, pelos atores... em algo que imaginamos ser a "desconstrução", em lama e pó, daqueles seres vivos. Ao finalizar o espetáculo percebemos que "elas", as palavras, nos contam historias... Olhem só que linda, uma das frases escritas no chão: "E de te amar assim muito e amiúde, é que um dia em teu corpo de repente hei de morrer de amar mais do que pude".   

     Frei Lourenço e o casal de adolescentes apaixonados carregam aquilo que será a sua perda: em uma das mãos o punhal, na outra, o veneno. É um jogo sutil e impressionante. Os duelos e as mortes são simplificados, e também os que levam a "mortes praticadas". Por Romeu, um exemplo - e são mortes caracterizadas, como a do "jogo do gato", quando o rompimento da  corda é o rompimento da vida. Não há necessidade de palavras.

    Alguns trajes localizam as personagens, principalmente as mulheres. Os homens em roupas cotidianas. Objetos de cena? Mínimos, como são mínimas as citações à tragédia que virá.  Entretanto, ao mencionar "palavras", o que temos é um jogo poético, criado pela própria equipe (Dani Lossant e Diogo Liberano - colaboração dramatúrgica), de uma beleza singela e esclarecedora. A historia dos apaixonados de Verona é contada em uma hora e trinta minutos, e o poeta inglês está contido nestes minutos.
     Olhem só: às vezes o texto nos traz lembranças do autor inglês; às vezes a poesia se iguala a dele, porém Dani e Diogo se encarregam "dela" (a poesia). Coisas de quem aprendeu a "jogar o jogo" e vencer a batalha!

     Pois temos Diogo Liberano e Carolina Ferman interpretando os enamorados; Morena Cattoni entre a serva amiga e a mamã; e todos os Capuletos e Montecchios que a historia tem direito, representados pelos bravos atores que seguram o ritmo acelerado da encenação, temos Marcio Machado interpretando os pais de Romeu e Julieta, e ainda Frei Lourenço. Machado o faz, sem perder o tom. Para ele tal façanha é um brinquedo, ator de presença forte que é. Os amigos e os primos estão presentes nos desempenhos de Andrêas Gatto e Daniel Chagas. Um elenco de bons atores.    
  
     O texto é adaptado de uma tradução de Onestaldo Pennafort. Na direção de movimento e preparação vocal temos, respectivamente, Nathália Mello e Verônica Machado. Figurinos de Luci Vilanova. Iluminação detalhada, fechando em cada assunto pertinente, de Daniela Sanchez. VALE Á PENA ASSISTIR.