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sexta-feira, 2 de junho de 2017

CRIMES DELICADOS

André Junqueira (Lila), Well Aguiar (Hugo) e Bernardo Schlegel (Efigênia), em "Crimes Delicados", de José Antonio de Souza, direção Marcus Alvisi    (Foto Pablo Henriques)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

 CRIMES   DELICADOS

      Fomos assistir a "Crimes Delicados", de José Antonio de Souza, com direção de Marcus Alvisi, recordando a montagem do ano 2000, direção de Antonio Abujamra e tendo no elenco Nicette Bruno, Barbara Bruno e Paulo Goulart. Hoje a crítica é de 2017, com um elenco formado por André Junqueira, Bernardo Schlegel e Well Aguiar. Direção de Alvisi.  

     Não há nada mais atual do que este texto. Ele se debruça sobre a "mania de matar alguém" tão em voga atualmente, e que já era "moda" no tempo da ditadura militar. Segundo a "coxinha" Lila (personagem), a compulsão de matar é inspirada pelo "ódio" que ela sente, mas não sabe do que...O casal se apavora de parecer superficial perante os amigos e vizinhos e essa preocupação é hilariante. E também é engraçado quando o marido Hugo tenta explicar, de maneira "intelectualizada", o desejo de matar que  assalta o casal. Lila e Hugo resolvem se exercitar ensaiando seu primeiro crime contra um ser humano. Diz José Antonio: "depois de  matar os peixinhos do aquário, o gato, o cachorro... foi a vez da empregada".

     A primeira parte do programa do casal é um exercício para cometer crimes maiores. Non sense! Na verdade, (e para isso não há explicação), eles se preparam para matar os velhinhos da família! Ao que parece, tal plano é só para enfatizar a intenção maligna do casal. A idéia se estabeleceu porque "matar está na moda"! Efigenia, a empregada e primeira vítima, retorna sempre. É de José Antonio de Souza esta declaração feita na década de 70: "o eterno retorno da empregada é uma metáfora da resistência do povo - em qualquer país - independente do que ele sofra ao longo da história".

     Bem anos 70. As pessoas naquela época se preocupavam com o povo... e agora? O texto se inspira nos acontecimentos nefastos da ditadura militar. O teatro do absurdo, Ionesco e Beckett são lembrados e José Antonio de Souza explica: "a empregada retorna após a morte, diluindo a  noção de realidade".        

      Perfeito. "Matar"... Matar socialmente! A moda nos anos 70 está querendo voltar, e o engraçado (e terrível), nesta historia toda, é que Marcus Alvisi, o diretor atual, muito oportunamente traz para 2017 uma família de classe media (alta?) que quer matar "por causa do ódio" que sente. Lila e Hugo não localizam o seu ódio, só sabem que este sentimento os fortalece. O casal, Lila (André Junqueira, irreconhecível no papel da "coxinha") e Well Aguiar (como o marido Hugo) querem ser "moderninhos", e entrar na moda de matar. Muito bem, mas o casal não sabe o que os move, e a sua vítima preferida é Efigênia, a doméstica desprotegida que servirá de cobaia para os próximos assassinatos.
     Acontece que a vítima não é tão desprotegida assim, como era "a dócil filha da Casa dos Átridas", mas "a "outra" Efigênia". A criada tem recursos, e reage, e é  através dessa reação que começam os episódios engraçados criados pelo autor, e exacerbados  por  Marcus Alvisi. Ninguém sai ileso dessa loucura.
     O texto é surpreendente. Na época em que foi encenado passou incólume pela censura dos militares, pois a sutileza e a metáfora eram as armas dos dramaturgos da época.   Em 2017 o texto simplesmente brinca com essa mania dos "coxinhas" de matar alguém, de sentir "ódio"! E, ao mesmo tempo que Lila tem medo de parecer "superficial", ela quer ser respeitada pelo marido, quer ser uma mulher "decidida", mas  é hilária a maneira como se "desmancha" de pavor ao ver Efigênia morta retornar...

     Também é muito engraçado ver o marido "intelectualizar" o seu discurso. A ação é realmente absurda, mas o que presenciamos, no Teatro dos 4, em Ipanema, é um trabalho que ainda tem que ganhar ritmo. O fato de André Junqueira se enredar no texto, na cena inicial, é comprometedor, como o é a cena final, quando Efigênia retorna e o casal permanece em cena, não movendo um músculo para demonstrar seu desconforto com o retorno da morta. Não há jogo cênico, e não entendemos o porquê de um final tão opaco.  

     Na verdade, como se trata de uma comedia do absurdo, pode parecer proposital essa "opacidade". Ledo engano, esse tipo de comédia exige músculos e alma para que tudo  aconteça. Mesmo com estes pequenos defeitos a peça é interessante, e prende o espectador. A expressão corporal de "Madame Lila" faz jus à direção de movimento de Luciana Bicalho. Também a sua expressão facial de Lila (André Junqueira) nos coloca na presença ameaçadora da  assassina.

     Well Aguiar captou a fragilidade absurda de Hugo, porém seu desempenho necessita maior convicção, principalmente na cena inicial. Por outro lado, quando o ator "intelectualiza" os acontecimentos, seu desempenho é bem sucedido.   

     Às vezes os atores deste "Crimes Delicados" apresentam uma fragilidade deliciosa que atrai os melhores risos do público. Por exemplo: quando Lila "desaba" e foge - com a primeira aparição da empregada morta! Efigênia (Bernardo Schegel) é um ótimo personagem. Aliás, o texto é um exercício para os atores. Como diz Alvisi no programa da peça: "Hoje, o texto parece ganhar outra dimensão. Com uma sociedade doente e fragmentada em seus mais diversos aspectos, talvez "Crimes Delicados" revele ao espectador contornos insólitos...". É justamente essa fragmentação, essa doença da sociedade o que é importante, neste texto. Esperamos que os espectadores tenham consciência do momento que estamos vivendo. O teatro tem como função despertar o seu público. É histórico. Ao assistir "Crimes Delicados" constatamos que a peça é bem mais do que "uma tentativa de calar Efigênia"... (o povo). Ela confunde o público, é verdade, mas também o coloca a pensar.  

     A preparação vocal é de Rose Gonçalves. A trilha sonora de Marcus Alvisi e Tauã de Lorena, com a Iluminação de Carlos Lafert, consegue o recurso cênico do suspense. Maquiagem e efeitos de Lorena Rocha. Figurinos (adequados), de Talita Portela. Cenario (fácil de carregar quando em viagem...) de Gilvan Nunes. Direção Marcus Alvisi, sobre um texto de José Antonio de Souza. VALE CONFERIR 'CRIMES DELICADOS'.                   










segunda-feira, 29 de maio de 2017

A VIDA PASSOU POR AQUI



Claudia Mauro e Édio Nunes em "A vida passou por aqui", de Claudia Mauro, direção Alice Borges.
(Foto Dalton Valerio)



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

A VIDA PASSOU POR AQUI
    
     Desde seu título, "A vida passou por aqui", a historia narrada por Claudia Mauro é um acerto completo. Pois não é que a autora nos conta a vida, dançada e vivida, em todos (ou quase todos), os seus desdobramentos? E, outra ótima idéia, que parece ter sido criação de todos os envolvidos: as trocas de cena são feitas através das músicas que costuram o espetáculo!

     Juventude, início do amor, amizade e o último ato, velhice e doença  ... se revezam em pouco mais de sessenta minutos de espetáculo. E, nesta surpreendente lição de vida, somos colhidos pela alegria de viver!

     Claudia merecia todos os prêmios como atriz pela transformação de seu rosto, ao passar por todas as idades. Uma transformação que não faz uso de maquiagem nem de recursos cênicos: é interpretação pura! Impressionante. Além da ótima interpretação de Claudia Mauro temos Édio Nunes, que, com sua alegria e talento, acentua e enriquece a proposta bem vinda.

     No palco, temos a interpretação de dois amigos que se reencontram e que comemoram a vida, o "estar vivo". Essa proposta atravessa o tempo e a amizade. Claudia Mauro (a quem Deus prometeu e cumpriu); e Édio Nunes, seu parceiro, tornam delicioso esse encontro entre a vida e a morte - em uma visão que nada tem de sombria.  

     E, realizando mais um de seus trabalhos marcantes, temos o olhar carinhoso e competente da diretora Alice Borges. Um trio perfeito. Aliás, um quarteto, pois Marcos Ácher faz a assistência de direção.

     O fato é que saímos do teatro com a alegria contagiante de ter assistido a um bom  espetáculo. A autora trata com suavidade e amor de problemas da vida e da morte, mas a idéia de sua realização é simples, como é simples o cenário de Nello Marrese, com sofá, mesa, televisão e prateleiras que escondem objetos de cena. Eles, esses objetos, se materializam conforme as necessidades da narrativa! Pelo menos essa é a impressão que fica, pois somos tomados pela magia da realização teatral. Também os figurinos de Ana Roque causam essa surpresa. É tudo muito envolvente, e mergulhamos de tal maneira no espetáculo que não sabemos se é verdade ter visto uma saia vermelha e um salto alto da mesma cor, quando a personagem, jovem ainda, sai para dançar na gafieira! 

     Sentimos as transformações à medida que os desdobramentos dos personagens o solicitam. Assim como o gestual, tanto de Claudia Mauro (perfeito, em sua observação de uma pessoa no fim da vida, tentando viver depois de um AVC...), como o de Édio Nunes, que entra em cena cantando e estabelecendo o tom do espetáculo. A coreografia é de Édio, ótimo bailarino. (Aliás, os dois atores são bailarinos). Édio cria as coreografias e as transmite, marcando, com humor, o passar do tempo dos personagens. Aliás, humor é o que não falta nesta historia. A própria senhora acometida do "mal da idade" tem um senso de humor cortante. 

     A Iluminação luxuosa é de Paulo Cesar Medeiros, assim como é luxuosa a trilha sonora de Claudio Lins e a função de Coach de Larissa Bracher! A Pesquisa Musical, muito apropriada, é de Patrícia Mauro. Atriz Stand in (outra boa idéia): Renata Paschoal; Designer Gráfico: Marcos Árcher; Fotos: Dalton Valerio; Assessoria de Imprensa: João Pontes e Stella Stephany. NÃO PERCAM!              

terça-feira, 23 de maio de 2017

I V A N O V

Em cena: Isio Guelman (Ivanov); Mayara Travassos (Sacha); Marcelo Aquino (Lvov); Marcio Vito (Pacha) e Mario Borges (Micha), em 'a cena do casamento'.  Ivanov, de Tchecov, direção Ary Coslov. (Foto Dalton Valerio).


IDA  VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     O renascimento do Teatro Ipanema está dando bons frutos: desta vez temos o  dramaturgo russo, Anton Tchecov com Ary Coslov na direção, ressuscitando o teatro de Rubens Correa! Sim, a assinatura dos dois talentos, o russo e o brasileiro, traz de volta a grandeza do teatro dos anos 70, de Rubens. A peça de Tchecov, Ivanov, escrita em 1887 e em cartaz no Rio de Janeiro neste maio de 2017, é reconhecida como o primeiro texto completo do autor russo.

     Eis os personagens: O típico agregado, o homem do povo russo, o bebedor de vodka e falastrão que chega a sufocar o público (às vezes!), e irritar Ivanov com sua exuberante energia, é Micha. Você está vivo e magnífico, na interpretação de Mario Borges, Micha! E há o senhorzinho, Ivanov! o homem acostumado com o seu dinheiro e seus cálculos; ou será um intelectual perdido na mediocridade da província? Ou simplesmente um caçador de dotes? Isio Guelman está brilhante, interpretando Ivanov.

     E 'essa crítica que vos escreve' vai - de surpresa em surpresa, de emoção em emoção - testemunhando o desenrolar da cena perfeita. Cenario (Marcos Flaksman) simples, com praticáveis que solucionam as cenas, e onde pequenas projeções sobre tela  representam a natureza. E a luz mágica (Aurélio de Simoni), marcando locais e emoções! Que bela a luz vermelha que incendeia a 'natureza', quando a sofredora esposa de Ivanov, Anna Pedrovna, explode de amor! Magnífica e contida, Sheron Menezzes se transforma em indignação, quando, no final, Anna descobre a verdade.

     O elenco é excelente!

     Marcelo Aquino interpreta o médico Lvov (quem admira Tchecov já deve ter percebido que o dramaturgo - também ele um médico - traz presente em suas peças esse personagem observador de corpos e almas). Saudamos a grandeza do Dr. Ievguêni Lvov, interpretado por Aquino. O ator transmite a paixão do médico e nos faz suspeitar que Ivanov tem um pouco de Tartufo, em seu descompromisso com a moral! Sim, Aquino/Lvov traz à cena, sem ironia, a  voz de Tchecov.

     Mas quem é Ivanov, afinal? Tchecov nos confunde. O personagem título é uma charada e uma angustia plena. Isio Guelman nos transmite, com precisão, o que chamaríamos de a 'inadequação para a vida' do personagem.

     Marcio Vito é Pável Liébedev (Pacha). Um homem e um pai. Deixa-se conduzir (dominar?) pela mãe da jovem Aleksandra, filha casadoira de Pacha. Esse homem é bonachão, simpático, ardiloso... e dominado pela mulher! É o típico burguês de Tchecov, que trafega muito bem tanto pelo mundo de Micha e suas vodkas, como pelo confuso mundo de Ivanov. Ele contemporiza, e é um dos responsáveis pela deliciosa ironia (sutil?) do autor. Marcio Vito/Pacha é outra surpresa emocionante interpretando o personagem.

     Temos grandes atores em cena. E temos agora a jovem Aleksandra (Sacha) interpretada pela atriz Mayara Travassos. Uma atriz sensível, que nos apresenta uma jovem adolescente apaixonada pelo amor. Mayara coloca em cena todo o vigor de Sacha em sua visão romântica da mulher do século XIX.

     Os figurinos de Beth Filipecki são lindos e apropriados. A trilha sonora de Ary Coslov inicia-se clássica, sem sobressaltos, guardando os mesmos para o final, quando faz uma homenagem aos anos 70? O público fica surpreso, mas os Beatles fazem sentido naquela hora! É de Isio Guelman o belo design gráfico do programa. Assessoria de Imprensa de SPontes - João e Stella Pontes. Tradução, Adaptação e Direção de Ary Coslov.  
             

     E o espetáculo se encerra com o questionamento de Tchecov, ao qual estamos acostumados: se você destacar um objeto de cena no início da peça, terá que justificá-lo em algum momento, até o final da mesma. Em Ivanov, sua primeira peça longa ("completa", como nos lembra Ary Coslov), o autor nos desafia com sua precisão, e a sólida estrutura de sua construção dramática. É ver para crer.         

domingo, 23 de abril de 2017

A MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA


Três ótimos atores: Henrique Stroeter o delegado,  Dan Stulbach, o louco e Riba Carlovich
 o Secretario 

de Segurança em "Morte Acidental de um Anarquista", de Dario Fó.

Os dois amigos, Stroeter e Stulbach sonhavam em montar esta peça há muito tempo.
Em boníssima hora!
(Fotos: João Caldas Fº)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro (AICT)
(Especial)

     Mais Dario Fó é impossível. Este teatro de participação do público, circense, irreverente, nos traz a alegria de ver teatro como deve ser, com os acontecimentos palpitando, se renovando conforme o público, conforme a apresentação! Vi duas vezes, sempre com façanhas novas do momento político muito louco que vivemos. Mais louco só o personagem de Dan Stulbach criado por Dario Fó para seu próprio deleite (ele estreou a peça fazendo o louco). 
     Acontece que Dario se inspirou em um fato real, na sua conturbada Itália dos anos 60 (continua a mesma), no qual um anarquista foi "suicidado". O mais interessante do trabalho dessa equipe de atores (se é que podemos selecionar algum em particular, pois todos  se destacam) é a oportunidade que tem "o louco" para mostrar a compulsão que tem por novos personagens. Uma delícia. Só a interpretação de Stulbach já vale a ida ao teatro. Em matéria de teatro de "deformação" de costumes, tivemos outra encenação bastante interessante, feita, salvo engano, por alunos recém saídos de uma escola de teatro do Rio de Janeiro. Trata-se de uma adaptação do livro "Terra Papagalli", de Torero e Pimenta, livro este que conta a saga do degredado Cosme Fernandes em sua chegada à "Terra de Santa Cruz" e todas as transgressões que lhe foram permitidas (como da hábito, em nosso país). A peça foi dirigida por Marcelo Valle.          
     Por sua vez, o elenco da "Morte Acidental" é composto, além de Stulbach e Henrique Stroeter - os idealizadores do espetáculo (Henrique interpreta o delegado) - temos também em ótimas interpretações Riba Carlovicci, como o secretario de segurança, Maira Chasseraux, a jornalista, Marcelo Castro interpretando Bertoso, o comissário de polícia, e Rodrigo Beladona o guarda. Dan Stullbach faz, no início, uma ligeira apresentação dos mesmos.
      Ah! E tem também o impagável Rodrigo Geribello, ator e músico, interprete das mudanças de cena e dos ruídos ambientais. Muito bom. 
     Claro, Dario Fó sabia o que estava fazendo em termos de comedia popular  - essa sua mistura de Commedia del Arte e teatro popular faz o público participar. A direção de Hugo Coelho traz "acréscimos" ao elenco. Ou melhor, "permite" improvisações! Da segunda vez que assisti o elenco divertia-se muito, mas  não mais do que o público que participava do jogo de conscientização feito neste trabalho de Fó e Coelho. As coisas que aconteceram na Itália (corrupção, morte) podem (e estão acontecendo agora), também no Brasil.  
     O teatro é um tabuleiro aberto. Imaginem a colaboração dos atores, no sentido da comedia descomprometida. Por exemplo: quando Henrique Stroeter faz o seu número de balé clássico (!) um dos atores comenta: "é um genérico de Ana Botafogo...". Irreverente, popular, o espetáculo, mas a "desinibição" aumenta e a nossa atual "republica" é um banquete e os atores comentam e criam novas situações, cheios de segundas intensões: "o escândalo é o sal de frutas da democracia". E quando o "louco" se traveste em um "juiz da situação", de um colaborador, ele cria uma metáfora na qual afirma que a agressão policial é uma "massagem terapêutica". E a repórter, coitada (a ótima Chasseraux) tentando cumprir o seu papel (dessa vez a imprensa parece interessada realmente em apurar os fatos) e recebe até tapa na b...! Será que exagero? Ah! O "louco" obriga os dois policiais a cantar Vandré: "Caminhando e cantando..." Hilário. NÃO PERCAM!    
    
FICHA TÉCNICA:
Autor: Dario Fó. Tradução: Roberta Barni. Direção Hugo Coelho. Música e sonoplastia: Rodrigo Geribello. Cenário: Marco Lima. O Figurino (ótimo) é de Fause Haten (engraçado, fiquei com a impressão de que o juiz aparecia com a capa preta, na primeira vez que assisti, e não com um capote xadrez, como da segunda vez. Será verdade?). Produtores Associados: Selma Morente, Célia Forte e Dan Stulbach. Assessoria de Imprensa Rio: Eduardo Barata.   


terça-feira, 11 de abril de 2017

UM AMOR DE VINIL

Françoise Forton e Mauricio Baduh em "Um Amor de Vinil", texto de Flavio Marinho, direção André Paes Leme.

IDA VICENZIA
( Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial Rio)

     Flavio Marinho nos traz à cena um momento de romantismo e comedia com o seu texto "Um Amor de Vinil" fazendo o público transitar entre compositores como Getulio Cortes, na música imortalizada por Luiz Melodia, "Negro Gato", que Françoise Forton interpreta, abrindo a cena com muito humor e ironia. A direção é de André Paes Leme, e essa é uma estréia do Teatro Fernanda Montenegro, no Leblon. São 22 canções românticas, embaladas pelas vozes de Mauricio Baduh, Françoise Forton e Marco Gérard, ator e músico, e Gustavo Salgado no teclado.
     Forton revela seu talento para a comedia, apresentando um "tempo" único para se relacionar com o público. Dotada de uma interpretação sensível, sua voz é explorada com muita competência, dando-lhe ótimos momentos, como em "Nasci para Chorar", música na qual Françoise mostra a que veio, ou seja: encantar o público. Também Mauricio Baduh nos dá uma grande revelação com seu timbre de voz que remete a Roberto Carlos. A dupla tem momentos ótimos. Não podemos deixar de nos referir ao grande final, quando "Falando Serio" é cantado por Baduh e interpretado por Forton, que transmite o sentimento da canção através de sua expressão facial. Momento marcante.       
     O texto de Flavio Marinho faz, com muito humor, alusões críticas aos críticos, a certos musicais e às peças "papo-cabeça". E, sim, Marinho coloca o problema do "alemão" e do "inglês" (Alzheimer e Parkinson) brincando com os "esquecimentos" de Amanda (Françoise Forton). Aliás, o texto brinca também com a morte... com um certo humor funébre. Há, neste texto de Flavio Marinho, um leve despertar da linguagem de hoje, perpassando a troca de papéis entre o homem e a mulher, transmitida através das canções. Observamos que "Começar de Novo" é cantado pelo homem, voltando às raízes, pois Ivan Lins e Getulio Costa a compuseram propondo a liberdade e o renascer do amor, porém a cantora Simone dela se apropriou, tornando-a praticamente um hino  feminista!
     Não sabemos se Marinho e Paes Leme (na direção), tiveram a iniciativa de "espicaçar" esse lado do relacionamento amoroso, a liberdade feminina, em homenagem ao momento muito particular em que vivemos: o relacionamento homem/mulher. O certo é que "Negro Gato" é cantado por uma mulher... embora meio maluquinha, uma empreendedora (tem um negócio, uma loja da discos de vinil muito procurada), o que já é uma proposta de liberdade financeira. O autor chega perto da discussão dos papéis sociais, e como esse não é o tema da peça... fica somente a sensação da liberdade da mulher e da fragilidade do homem! Eis um caminho novo para os novos musicais...    
     Figurinos: do cotidiano, de Ticiana Passos. Direção Musical Liliane Secco. Iluminação Paulo Denizot. O Cenário de Carlos Alberto Nunes convive com o outro espetáculo da produção "Nós sempre teremos Paris..." e a "loja" se transforma em um "bar", permanecendo nele os muito bem bolados cubos portáteis com imagens dos antigos discos de vinil... Direção Coreográfica de Marina Salomon. Produção Barata Comunicação. É  BOM  VIVER  ESTE  MOMENTO  DIVERTIDO!      





    

segunda-feira, 3 de abril de 2017

RENATO RUSSO







     Bruce Gomlevsky em "Renato Russo", direção de Mauro Mendonça Filho, texto de  Daniela Pereira de Carvalho. (Foto Guga Melgar).


IDA VICENZIA
(Da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
RENATO RUSSO

     Em cena, em curta temporada, temos o regresso de "Renato Russo", dessa vez no  Teatro das Artes. Como sabemos, este é um espetáculo que deu todos os prêmios a Bruce Gomlevsky, e à equipe do espetáculo, pelo desempenho excepcional que apresentaram. O texto, de Daniela Pereira de Carvalho destaca, com acerto, as principais passagens da vida de "Russo", aliás, um nome escolhido pelo jovem Renato Manfredini Jr., quando resolveu assumir seu talento. O texto - e sua vida - estão muito atuais. Renato viveu na época da ditadura militar... Não esqueçamos que uma das composições marcantes deste poeta é "Que país é esse?" - canção que se tornou um grito de guerra contra a injustiça, e que inspirou muitos poetas. Nada mais atual, essa Legião Urbana, a banda de Renato Russo, e nada mais atual do que relembrar as composições de Renato.  Vale à pena assistir novamente Bruce Gomlevsly - para quem já o assistiu - e para quem ainda não teve essa experiência ... não deve perdê-la!
        Vamos a ela: um cenário funcional (de Bel Lobo), no qual a ação se desenvolve no interior de seu pensamento, recolhido em seu quarto, ou criando músicas e as interpretando, na presença de seu público. O acertado desenho de luz de Wagner Pinto faz a transfiguração dos tempos, e vemos tudo acontecer na nossa imaginação, e ao vivo, no desempenho de Bruce Gomlevisky! A direção de Mauro Mendonça Filho revela um jogo premiado: o diretor soube aproveitar, com detalhes, todo o material precioso desta produção, contando com uma equipe de primeira. Além dos citados, temos a direção musical de Marcelo Alonso Neves e a música ao vivo da banda Arte Profana. Mas, o que impressiona mesmo, e dá vida aos momentos que passamos no teatro, é o desempenho de Bruce Gomlevsky. Antonio Abujamra dizia - quando deixou "seu lado ator" vir à tona - o quanto passou a amar melhor, a compreender melhor, o "metabolismo" destes seres maravilhosos. No caso de Bruce, tivemos uma experiência esclarecedora a respeito das palavras de Abu, ao compartilhar o espetáculo, e, principalmente, a cena em que ele canta "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã"... segurando as mãos do público e cantando... o artista que estava ali presente não era Bruce Gomlevsky, mas Renato Russo!  Essa sensação nos acompanha durante todo o espetáculo.
     Para quem não sabe, Renato Russo é um dos nossos artistas mais sensíveis e um de nossos poetas mais importantes. Viveu o seu tempo com entrega total, e soube criar os mais belos poemas sobre a nossa realidade... sobre o homem, e o que é o ser humano. Assim, simplesmente. Coisa de artista e seu "metabolismo". Desde a observação que tem sobre a vida, a sua delicadeza, e a revolta de não poder modificá-la.
     Renato Russo, o compositor que é capaz de suaves composições que são verdadeiros contos de amor (bem humorados) como em "Eduardo e Monica", no qual ele pergunta: ""Quem um dia irá dizer/Que existe razão/ Nas coisas do coração?". Foram mais de 200 composições, feitas por este coração aberto à emoções, e ele se desespera com: "Nas favelas do senado/ sujeira pra todo lado/ ninguém respeita a Constituição/ mas todos acreditam no futuro da nação", perguntando: "Que País é esse?" Ou  "Pais e Filhos" ... e tantas outras! Algo que não ser esquecido, realmente. Estão de parabéns os que tiveram a lucidez de reapresentar esse "Renato Russo" tão bem vindo. 
  
     Assistente de Direção: Ana Kutner; Figurino: Jeane Figueiredo; Videografismo: Rodrigo Lima, Cila Mac Dowell, Gustavo Vaz; Direção Vocal: Patricia Maia e Deco Fiori; Preparação Corporal: Daniela Amorim; Técnica de Alexander, Gabriela Geluda; Fotos Divulgação: Guga Melgar; Rede Social, Rafael Teixeira; Assessoria de Imprensa: Barata Comunicação
Produtores Associados: Bruce Gomlevsky e Bianca De Felippes
      
         
    




terça-feira, 31 de janeiro de 2017

"ABAPORUTAÇÃO"

"Abaporutação" - espetáculo encenado em Manaus, pelo ator performático Dimas Mendonça, no Espaço das Companhias. (Foto Divulgação)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional dos Críticos de Teatro – AICT)
(Especial em Manaus)

“PENSA QUE SABE” é o nome do panfleto que recebemos no início da Performance Teatral “ABAPORUTAÇÃO”, no Espaço das Cias, teatro de Ricardo Risueño.  

     Que nome complicado é esse, que leva à Tarsila do Amaral e ao seu “Abaporu”? Pois leva mesmo... esse “gente que come gente” (que vem do Tupi Guarani, ou ‘Língua Geral’, como nós no Sul a conhecemos), alimenta um espetáculo que tem como subtítulo um ‘Processo Natimorto’. Vá entender! Há ramos e ramos dessa Língua Geral... dessa ABAPORUTAÇÂO, mas vamos ficar por aqui, nessa “natimorta” ação!

     Obedecendo a um impulso de assistir (e destacar) artistas e teatros experimentais das cidades que visito, e aproveitando a minha visita a Manaus, fui assistir a um dos bons atores da região, Dimas Mendonça, em cartaz ‘por um dia’, na performance criada por ele. Ao chegar ao teatrinho de Ricardo Risueño ficamos em dúvida se o público vai assistir ao espetáculo, aos personagens que irão ser retratados, ou à equipe  do teatro, que se desvela, proporcionando o espetáculo? Claro, fui assistir a tudo isso. Afinal, quem “Pensa que Sabe”? Como não temos nada a perder, fomos assisti-lo. (Só como esclarecimento: o ator em questão pertenceu ao extinto TESC (Teatro Experimental do SESC do Amazonas), fez parte de alguns grupos de palhaçaria de Manaus, e assistiu cursos em São Paulo. A seu favor, ainda, o público jovem que lotou o  pequeno “Espaço das Cias”, do paraense Risueño. O “teatrinho” está situado no quarteirão do Teatro Amazonas, “o local onde as pessoas se encontram”.

     Pois bem, em sua única apresentação, Mendonça escolheu seis personagens para representar a potencialidade de sua performance: primeiramente, um “amante do teatro” (um egocêntrico fanático); depois uma mãe amantíssima - seguida por um pastor evangélico; um cantor (que não consegue cantar, mas que, com o desenvolver da performance, encontra o seu tom), e também um bailarino. Pelo que podemos compreender, os personagens saem da criação do ator - que poderíamos chamar de ‘o diretor do espetáculo’.  (Não há ficha técnica).

     Como podemos perceber, essa é uma apresentação sem pretensão de receber criticas, tal a sua simplicidade, porém, a criação e o desempenho do ator é tão boa que é necessário registrá-la! Dimas incorpora também o personagem do raivoso “machoman”, e tal composição de “elenco de seis em um só ator” mostra o grau de desafio que o ator se propôs enfrentar.

    Ao chegar ao teatrinho recebemos uma pequena publicação, uma única folha de papel  – um ‘jornal’, o nº 1 - escrito pelo ator, e por amigos convidados. O “Pensa que Sabe” (assim se chama o jornaleco), convidou o poeta e acadêmico Aldísio Filgueiras, nome bastante conhecido e prestigiado em Manaus, para abrir o programa com um poema de sua autoria: “Ai de ti, Manaus”: ..”tu viste/na televisão/ o crime/ suprir/ tua lei – no teu olho – & preferiste/ voltar/as costas/ para o rio/ & a floresta//... Este poeta nos deve uma visita ao Sul, talvez para o lançamento de seu livro de poemas “A Dança dos Fantasmas”.

     Diz Mendonça, no "Pensa..." : ”Para um país invadido, um estado roubado e uma cidade inventada, um eterno esforço de reconhecimento de origens. Para isso, um inútil processo de pesquisa e experimentação artística numa busca burra pelo novo, diferente e original nas artes.” É o que veremos, a seguir. (Se é “novo”, e “diferente”, não sabemos... mas é inesperado, principalmente para quem visita a região), é o “grito” de um ator não deixando a sua arte cair no “oblivium”. A performance de Mendonça nos faz encontrar personagens fortes, angustiados, passíveis de crítica, caricatos, mas sempre em uma procura que se agiliza, conforme o espetáculo vai se desenvolvendo. Assim, temos, sempre as inesperadas reações do “amor ao teatro”, que levam o “ator-amante” representado a realizar malabarismos impensáveis para defender o seu amor. (A concepção, direção e desenvolvimento do espetáculo, inclusive a coreografia, é de Dimas Mendonça, que também atua). O ator interpreta o ‘bailarino’ - excelente - ou o ‘cantor’, que inicia desafinado e aos poucos vai encontrando o seu tom. A seleção de músicas - ou o que podemos chamar de ‘a trilha sonora do espetáculo’ é um destaque positivo, seguindo a proposta.

     Dimas Mendonça ultrapassa, com ímpeto, a todos os desafios. Trata-se de uma performance profissional que pode ser apresentada nos principais centros de nosso país. (ATENÇÃO, PATROCINADORES!). O desenvolvimento dos personagens vai em um crescendo quase insuportável, atingindo uma velocidade digna dos ‘modismos internacionais’ encenados, atualmente, nos teatros do Sudeste. Há o mesmo afã de contar histórias em 30 minutos!...  os outros 30 minutos do espetáculo sendo preenchidos pela comunicação de Dimas com o público... que interage com entusiasmo, terminando todos de mãos dadas com o ator!

     O que se apresenta no palco de Risueño, inclusive o  cenário, coberto de plantas, e com seus bancos surgidos no meio das “árvores”, onde as luzes se assemelham a borboletas noturnas, e onde o breu finalmente se estabelece - deixando espaço para uma luz ao fundo da cena, filtrada pelos vidros da "parede-janela" que integra o exterior, tornando-se a sua respiração! É a iluminação dos edifícios que, ao fundo da cena, se acendem e apagam. Um belo espetáculo extra, a luz dos edifícios. Elas dão um bonito efeito final ao espetáculo. Talvez o bom resultado de ABAPORUTAÇÃO dependa, mesmo, desse improviso, dessa união com o espaço exterior. Não sabemos se o espetáculo funcionará, com o mesmo encanto, em outro espaço cênico. Talvez sim. E talvez essa experiência funcione, em outros Estados do país. ONDE ANDARÁ O “ABAPORUTAÇÃO” AGORA?                
         


Final de ABAPORUTAÇÃO, com o comentado efeito dos edifícios que iluminam a cena. O 'Breu' veio depois... (Foto de Thais Vasconcelos e Fabiano Barauna).