sexta-feira, 2 de junho de 2017
segunda-feira, 29 de maio de 2017
A VIDA PASSOU POR AQUI
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| Claudia Mauro e Édio Nunes em "A vida passou por aqui", de Claudia Mauro, direção Alice Borges. (Foto Dalton Valerio) |
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IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos
de Teatro - AICT)
(Especial)
A VIDA PASSOU POR AQUI
Desde seu título, "A vida passou por
aqui", a historia narrada por Claudia Mauro é um acerto completo. Pois não
é que a autora nos conta a vida, dançada e vivida, em todos (ou quase todos),
os seus desdobramentos? E, outra ótima
idéia, que parece ter sido criação de todos os envolvidos: as trocas de
cena são feitas através das músicas que costuram o espetáculo!
Juventude, início do amor, amizade e o
último ato, velhice e doença ... se
revezam em pouco mais de sessenta minutos de espetáculo. E, nesta surpreendente
lição de vida, somos colhidos pela alegria de viver!
Claudia merecia todos os prêmios como
atriz pela transformação de seu rosto, ao passar por todas as idades. Uma
transformação que não faz uso de maquiagem nem de recursos cênicos: é
interpretação pura! Impressionante. Além da ótima interpretação de Claudia Mauro
temos Édio Nunes, que, com sua alegria e talento, acentua e enriquece a
proposta bem vinda.
No palco, temos a interpretação de dois
amigos que se reencontram e que comemoram a vida, o "estar vivo".
Essa proposta atravessa o tempo e a amizade. Claudia Mauro (a quem Deus
prometeu e cumpriu); e Édio Nunes, seu parceiro, tornam delicioso
esse encontro entre a vida e a morte - em uma visão que nada tem de sombria.
E, realizando mais um de seus trabalhos
marcantes, temos o olhar carinhoso e competente da diretora Alice Borges. Um
trio perfeito. Aliás, um quarteto, pois Marcos Ácher faz a assistência de direção.
O fato é que saímos do teatro com a
alegria contagiante de ter assistido a um bom
espetáculo. A autora trata com suavidade e amor de problemas da vida e
da morte, mas a idéia de sua realização é simples, como é simples o cenário de
Nello Marrese, com sofá, mesa, televisão e prateleiras que escondem objetos de
cena. Eles, esses objetos, se materializam conforme as necessidades da
narrativa! Pelo menos essa é a impressão que fica, pois somos tomados pela
magia da realização teatral. Também os figurinos de Ana Roque causam essa
surpresa. É tudo muito envolvente, e mergulhamos de tal maneira no espetáculo
que não sabemos se é verdade ter visto uma saia vermelha e um salto alto da
mesma cor, quando a personagem, jovem ainda, sai para dançar na gafieira!
Sentimos as transformações à medida que os
desdobramentos dos personagens o solicitam. Assim como o gestual, tanto de
Claudia Mauro (perfeito, em sua observação de uma pessoa no fim da vida,
tentando viver depois de um AVC...), como o de Édio Nunes, que entra em cena
cantando e estabelecendo o tom do espetáculo. A coreografia é de Édio, ótimo
bailarino. (Aliás, os dois atores são bailarinos). Édio cria as
coreografias e as transmite, marcando, com humor, o passar do tempo dos personagens. Aliás, humor é o que não falta nesta
historia. A própria senhora acometida do "mal da idade" tem um senso de humor
cortante.
A Iluminação luxuosa é de Paulo Cesar Medeiros, assim como é luxuosa a trilha sonora de Claudio Lins e a função de Coach de Larissa Bracher! A Pesquisa Musical, muito apropriada, é de Patrícia Mauro. Atriz Stand in (outra boa idéia): Renata Paschoal; Designer Gráfico: Marcos Árcher; Fotos: Dalton Valerio; Assessoria de Imprensa: João Pontes e Stella Stephany. NÃO PERCAM!
A Iluminação luxuosa é de Paulo Cesar Medeiros, assim como é luxuosa a trilha sonora de Claudio Lins e a função de Coach de Larissa Bracher! A Pesquisa Musical, muito apropriada, é de Patrícia Mauro. Atriz Stand in (outra boa idéia): Renata Paschoal; Designer Gráfico: Marcos Árcher; Fotos: Dalton Valerio; Assessoria de Imprensa: João Pontes e Stella Stephany. NÃO PERCAM!
terça-feira, 23 de maio de 2017
I V A N O V
Em cena: Isio Guelman (Ivanov); Mayara Travassos (Sacha); Marcelo Aquino (Lvov); Marcio Vito (Pacha) e Mario Borges (Micha), em 'a cena do casamento'. Ivanov, de Tchecov, direção Ary Coslov. (Foto Dalton Valerio).
IDA VICENZIA
(da Associação
Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
O renascimento do Teatro Ipanema está
dando bons frutos: desta vez temos o
dramaturgo russo, Anton Tchecov com Ary Coslov na direção, ressuscitando
o teatro de Rubens Correa! Sim, a assinatura dos dois talentos, o russo e o
brasileiro, traz de volta a grandeza do teatro dos anos 70, de Rubens. A peça de
Tchecov, Ivanov, escrita em 1887 e em
cartaz no Rio de Janeiro neste maio de 2017, é reconhecida como o primeiro
texto completo do autor russo.
Eis os personagens: O típico agregado, o
homem do povo russo, o bebedor de vodka e falastrão que chega a sufocar o
público (às vezes!), e irritar Ivanov com sua exuberante energia, é Micha. Você
está vivo e magnífico, na interpretação de Mario Borges, Micha! E há o
senhorzinho, Ivanov! o homem acostumado com o seu dinheiro e seus cálculos; ou será
um intelectual perdido na mediocridade da província? Ou simplesmente um caçador
de dotes? Isio Guelman está brilhante, interpretando Ivanov.
E 'essa crítica que vos escreve' vai - de
surpresa em surpresa, de emoção em emoção - testemunhando o desenrolar da cena
perfeita. Cenario (Marcos Flaksman) simples, com praticáveis que solucionam as
cenas, e onde pequenas projeções sobre tela representam a natureza. E a luz mágica
(Aurélio de Simoni), marcando locais e emoções! Que bela a luz vermelha que incendeia
a 'natureza', quando a sofredora esposa de Ivanov, Anna Pedrovna, explode de
amor! Magnífica e contida, Sheron Menezzes se transforma em indignação, quando,
no final, Anna descobre a verdade.
O elenco é excelente!
Marcelo Aquino interpreta o médico Lvov (quem
admira Tchecov já deve ter percebido que o dramaturgo - também ele um médico - traz
presente em suas peças esse personagem observador de corpos e almas). Saudamos
a grandeza do Dr. Ievguêni Lvov, interpretado por Aquino. O ator transmite a
paixão do médico e nos faz suspeitar que Ivanov tem um pouco de Tartufo, em seu
descompromisso com a moral! Sim, Aquino/Lvov traz à cena, sem ironia, a voz de Tchecov.
Mas quem é Ivanov, afinal? Tchecov nos
confunde. O personagem título é uma charada e uma angustia plena. Isio Guelman
nos transmite, com precisão, o que chamaríamos de a 'inadequação para a vida' do
personagem.
Marcio Vito é Pável Liébedev (Pacha). Um
homem e um pai. Deixa-se conduzir (dominar?) pela mãe da jovem Aleksandra,
filha casadoira de Pacha. Esse homem é bonachão, simpático, ardiloso... e
dominado pela mulher! É o típico burguês de Tchecov, que trafega muito bem
tanto pelo mundo de Micha e suas vodkas, como pelo confuso mundo de Ivanov. Ele
contemporiza, e é um dos responsáveis pela deliciosa ironia (sutil?) do autor. Marcio
Vito/Pacha é outra surpresa emocionante interpretando o personagem.
Temos grandes atores em cena. E temos
agora a jovem Aleksandra (Sacha) interpretada pela atriz Mayara Travassos. Uma
atriz sensível, que nos apresenta uma jovem adolescente apaixonada pelo amor. Mayara
coloca em cena todo o vigor de Sacha em sua visão romântica da mulher do século
XIX.
Os figurinos de Beth Filipecki são lindos
e apropriados. A trilha sonora de Ary Coslov inicia-se clássica, sem
sobressaltos, guardando os mesmos para o final, quando faz uma homenagem aos
anos 70? O público fica surpreso, mas os Beatles fazem sentido naquela hora! É
de Isio Guelman o belo design gráfico do programa. Assessoria de Imprensa de
SPontes - João e Stella Pontes. Tradução, Adaptação e Direção de Ary Coslov.
E o espetáculo se encerra com o questionamento
de Tchecov, ao qual estamos acostumados:
se você destacar um objeto de cena no início da peça, terá que justificá-lo
em algum momento, até o final da mesma. Em Ivanov,
sua primeira peça longa ("completa", como nos lembra Ary
Coslov), o autor nos desafia com sua precisão, e a sólida estrutura de sua construção
dramática. É ver para crer.
domingo, 23 de abril de 2017
A MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA
| Três ótimos atores: Henrique Stroeter o delegado, Dan Stulbach, o louco e Riba Carlovich o Secretario de Segurança em "Morte Acidental de um Anarquista", de Dario Fó. |
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| Os dois amigos, Stroeter e Stulbach sonhavam em montar esta peça há muito tempo. Em boníssima hora! (Fotos: João Caldas Fº) |
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos
de Teatro (AICT)
(Especial)
Mais Dario Fó é impossível. Este teatro de
participação do público, circense, irreverente, nos traz a alegria de ver
teatro como deve ser, com os acontecimentos palpitando, se renovando conforme o
público, conforme a apresentação! Vi duas vezes, sempre com façanhas novas do
momento político muito louco que vivemos. Mais louco só o personagem de Dan Stulbach
criado por Dario Fó para seu próprio deleite (ele estreou a peça fazendo o
louco).
Acontece que Dario se inspirou em um fato
real, na sua conturbada Itália dos anos 60 (continua a mesma), no qual um
anarquista foi "suicidado". O mais interessante do trabalho dessa
equipe de atores (se é que podemos selecionar algum em particular, pois todos se destacam) é a oportunidade que tem "o
louco" para mostrar a compulsão que tem por novos personagens. Uma
delícia. Só a interpretação de Stulbach já vale a ida ao teatro. Em matéria de teatro de "deformação" de costumes, tivemos outra encenação bastante interessante, feita, salvo engano, por alunos recém saídos de uma escola de teatro do Rio de Janeiro. Trata-se de uma adaptação do livro "Terra Papagalli", de Torero e Pimenta, livro este que conta a saga do degredado Cosme
Fernandes em sua chegada à "Terra de Santa Cruz" e todas as transgressões que lhe foram permitidas (como da hábito, em nosso país). A peça foi dirigida por Marcelo Valle.
Por sua vez, o elenco da "Morte
Acidental" é composto, além de Stulbach e Henrique Stroeter - os
idealizadores do espetáculo (Henrique interpreta o delegado) - temos também em ótimas interpretações Riba Carlovicci, como o secretario de segurança, Maira Chasseraux, a jornalista, Marcelo Castro interpretando Bertoso, o comissário de polícia, e Rodrigo Beladona o
guarda. Dan Stullbach faz, no início, uma ligeira apresentação dos mesmos.
Ah! E tem também o impagável Rodrigo
Geribello, ator e músico, interprete das mudanças de cena e dos ruídos ambientais.
Muito bom.
Claro, Dario Fó sabia o que estava fazendo em termos de comedia popular - essa sua mistura de Commedia del Arte e teatro popular faz o público participar. A direção de Hugo Coelho traz "acréscimos" ao elenco. Ou melhor, "permite" improvisações! Da segunda vez que assisti o elenco divertia-se muito, mas não mais do que o público que participava do jogo de conscientização feito neste trabalho de Fó e Coelho. As coisas que aconteceram na Itália (corrupção, morte) podem (e estão acontecendo agora), também no Brasil.
Claro, Dario Fó sabia o que estava fazendo em termos de comedia popular - essa sua mistura de Commedia del Arte e teatro popular faz o público participar. A direção de Hugo Coelho traz "acréscimos" ao elenco. Ou melhor, "permite" improvisações! Da segunda vez que assisti o elenco divertia-se muito, mas não mais do que o público que participava do jogo de conscientização feito neste trabalho de Fó e Coelho. As coisas que aconteceram na Itália (corrupção, morte) podem (e estão acontecendo agora), também no Brasil.
O teatro é um tabuleiro aberto. Imaginem
a colaboração dos atores, no sentido da comedia descomprometida. Por exemplo: quando Henrique Stroeter faz o seu número de balé
clássico (!) um dos atores comenta: "é um genérico de Ana Botafogo...". Irreverente, popular, o espetáculo, mas a "desinibição" aumenta e a nossa atual "republica" é um banquete e os atores comentam e criam novas situações, cheios de segundas intensões: "o escândalo
é o sal de frutas da democracia". E quando o "louco" se traveste
em um "juiz da situação", de um colaborador, ele cria uma metáfora na qual afirma que a agressão policial é uma "massagem terapêutica". E a repórter, coitada
(a ótima Chasseraux) tentando cumprir o seu papel (dessa vez a imprensa parece
interessada realmente em apurar os fatos) e recebe até tapa na b...! Será que
exagero? Ah! O "louco" obriga os dois policiais a cantar Vandré:
"Caminhando e cantando..." Hilário. NÃO PERCAM!
FICHA
TÉCNICA:
Autor:
Dario Fó. Tradução: Roberta Barni. Direção Hugo Coelho. Música e sonoplastia:
Rodrigo Geribello. Cenário: Marco Lima. O Figurino (ótimo) é de Fause Haten
(engraçado, fiquei com a impressão de que o juiz aparecia com a capa preta, na
primeira vez que assisti, e não com um capote xadrez, como da segunda vez. Será
verdade?). Produtores Associados: Selma Morente, Célia Forte e Dan Stulbach.
Assessoria de Imprensa Rio: Eduardo Barata.
terça-feira, 11 de abril de 2017
UM AMOR DE VINIL
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| Françoise Forton e Mauricio Baduh em "Um Amor de Vinil", texto de Flavio Marinho, direção André Paes Leme. |
IDA VICENZIA
( Associação Internacional de Críticos
de Teatro - AICT)
(Especial Rio)
Flavio Marinho nos traz à cena um momento
de romantismo e comedia com o seu texto "Um Amor de Vinil" fazendo o
público transitar entre compositores como Getulio Cortes, na música imortalizada por Luiz Melodia, "Negro Gato", que Françoise Forton interpreta, abrindo a cena com muito humor e ironia. A direção é de André Paes Leme, e essa
é uma estréia do Teatro Fernanda Montenegro, no Leblon. São 22 canções
românticas, embaladas pelas vozes de Mauricio Baduh, Françoise Forton e Marco Gérard,
ator e músico, e Gustavo Salgado no teclado.
Forton revela seu talento para a comedia,
apresentando um "tempo" único para se relacionar com o público.
Dotada de uma interpretação sensível, sua voz é explorada com muita competência, dando-lhe ótimos momentos, como em
"Nasci para Chorar", música na qual Françoise mostra a que veio, ou
seja: encantar o público. Também Mauricio Baduh nos dá uma grande revelação com seu timbre de voz que remete
a Roberto Carlos. A dupla tem momentos ótimos. Não podemos deixar de nos
referir ao grande final, quando "Falando Serio" é cantado por Baduh e
interpretado por Forton, que transmite o sentimento da canção através de sua
expressão facial. Momento marcante.
O texto de Flavio Marinho faz, com muito
humor, alusões críticas aos críticos, a certos musicais e às peças
"papo-cabeça". E, sim, Marinho coloca o problema do
"alemão" e do "inglês" (Alzheimer e Parkinson) brincando
com os "esquecimentos" de Amanda (Françoise Forton). Aliás, o texto
brinca também com a morte... com um certo humor funébre. Há, neste
texto de Flavio Marinho, um leve despertar da linguagem de hoje, perpassando a
troca de papéis entre o homem e a mulher, transmitida através das canções.
Observamos que "Começar de Novo" é cantado pelo homem, voltando às
raízes, pois Ivan Lins e Getulio Costa a compuseram propondo a liberdade e o renascer do amor, porém
a cantora Simone dela se apropriou, tornando-a praticamente um hino feminista!
Não sabemos se Marinho e Paes Leme (na
direção), tiveram a iniciativa de "espicaçar" esse lado do
relacionamento amoroso, a liberdade feminina, em homenagem ao momento muito
particular em que vivemos: o relacionamento homem/mulher. O certo é que "Negro
Gato" é cantado por uma mulher... embora meio maluquinha, uma empreendedora
(tem um negócio, uma loja da discos de vinil muito procurada), o que já é uma proposta
de liberdade financeira. O autor chega perto da discussão dos papéis sociais, e
como esse não é o tema da peça... fica somente a sensação da liberdade da
mulher e da fragilidade do homem! Eis um caminho novo para os novos musicais...
Figurinos: do cotidiano, de Ticiana Passos.
Direção Musical Liliane Secco. Iluminação Paulo Denizot. O Cenário de Carlos
Alberto Nunes convive com o outro espetáculo da produção "Nós sempre teremos
Paris..." e a "loja" se transforma em um "bar", permanecendo
nele os muito bem bolados cubos portáteis com imagens dos antigos discos de
vinil... Direção Coreográfica de Marina Salomon. Produção Barata Comunicação. É
BOM VIVER ESTE MOMENTO DIVERTIDO!
segunda-feira, 3 de abril de 2017
RENATO RUSSO
Bruce Gomlevsky em "Renato Russo", direção de Mauro Mendonça Filho, texto de Daniela Pereira de Carvalho. (Foto Guga Melgar).
IDA VICENZIA
(Da Associação Internacional de Críticos de Teatro -
AICT)
(Especial)
RENATO RUSSO
Em cena, em curta temporada, temos o
regresso de "Renato Russo", dessa vez no Teatro das Artes. Como sabemos, este é um
espetáculo que deu todos os prêmios a Bruce Gomlevsky, e à equipe do
espetáculo, pelo desempenho excepcional que apresentaram. O texto, de Daniela
Pereira de Carvalho destaca, com acerto, as principais passagens da vida de
"Russo", aliás, um nome escolhido pelo jovem Renato Manfredini Jr.,
quando resolveu assumir seu talento. O texto - e sua vida - estão muito atuais.
Renato viveu na época da ditadura militar... Não esqueçamos que uma das
composições marcantes deste poeta é "Que país é esse?" - canção que
se tornou um grito de guerra contra a injustiça, e que inspirou muitos poetas.
Nada mais atual, essa Legião Urbana, a banda de Renato Russo, e nada mais atual
do que relembrar as composições de Renato. Vale à pena assistir novamente Bruce Gomlevsly
- para quem já o assistiu - e para quem ainda não teve essa experiência ... não
deve perdê-la!
Vamos a ela: um cenário funcional (de
Bel Lobo), no qual a ação se desenvolve no interior de seu pensamento, recolhido
em seu quarto, ou criando músicas e as interpretando, na presença de seu
público. O acertado desenho de luz de Wagner Pinto faz a transfiguração dos
tempos, e vemos tudo acontecer na nossa imaginação, e ao vivo, no desempenho de
Bruce Gomlevisky! A direção de Mauro Mendonça Filho revela um jogo premiado: o
diretor soube aproveitar, com detalhes, todo o material precioso desta produção,
contando com uma equipe de primeira. Além dos citados, temos a direção musical
de Marcelo Alonso Neves e a música ao vivo da banda Arte Profana. Mas, o que
impressiona mesmo, e dá vida aos momentos que passamos no teatro, é o
desempenho de Bruce Gomlevsky. Antonio Abujamra dizia - quando deixou "seu
lado ator" vir à tona - o quanto passou a amar melhor, a compreender
melhor, o "metabolismo" destes seres maravilhosos. No caso de Bruce,
tivemos uma experiência esclarecedora a respeito das palavras de Abu, ao
compartilhar o espetáculo, e, principalmente, a cena em que ele canta "É
preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã"... segurando as mãos
do público e cantando... o artista que estava ali presente não era Bruce
Gomlevsky, mas Renato Russo! Essa
sensação nos acompanha durante todo o espetáculo.
Para quem não sabe, Renato Russo é um dos
nossos artistas mais sensíveis e um de nossos poetas mais importantes. Viveu o
seu tempo com entrega total, e soube criar os mais belos poemas sobre a nossa
realidade... sobre o homem, e o que é o ser humano. Assim, simplesmente. Coisa
de artista e seu "metabolismo". Desde a observação que tem sobre a
vida, a sua delicadeza, e a revolta de não poder modificá-la.
Renato Russo, o compositor que é capaz de
suaves composições que são verdadeiros contos de amor (bem humorados) como em "Eduardo
e Monica", no qual ele pergunta: ""Quem um dia irá dizer/Que
existe razão/ Nas coisas do coração?". Foram mais de 200 composições,
feitas por este coração aberto à emoções, e ele se desespera com: "Nas
favelas do senado/ sujeira pra todo lado/ ninguém respeita a Constituição/ mas
todos acreditam no futuro da nação", perguntando: "Que País é
esse?" Ou "Pais e Filhos"
... e tantas outras! Algo que não ser esquecido, realmente. Estão de parabéns
os que tiveram a lucidez de reapresentar esse "Renato Russo" tão bem vindo.
Assistente
de Direção: Ana Kutner; Figurino: Jeane Figueiredo; Videografismo: Rodrigo
Lima, Cila Mac Dowell, Gustavo Vaz; Direção Vocal: Patricia Maia e Deco Fiori;
Preparação Corporal: Daniela Amorim; Técnica de Alexander, Gabriela Geluda;
Fotos Divulgação: Guga Melgar; Rede Social, Rafael Teixeira; Assessoria de
Imprensa: Barata Comunicação
Produtores
Associados: Bruce Gomlevsky e Bianca De Felippes
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
"ABAPORUTAÇÃO"
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| "Abaporutação" - espetáculo encenado em Manaus, pelo ator performático Dimas Mendonça, no Espaço das Companhias. (Foto Divulgação) |
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional dos
Críticos de Teatro – AICT)
(Especial em Manaus)
“PENSA QUE SABE” é o nome do panfleto que recebemos
no início da Performance Teatral “ABAPORUTAÇÃO”, no Espaço das Cias, teatro de Ricardo
Risueño.
Que nome complicado é esse, que leva à Tarsila do Amaral e ao seu “Abaporu”? Pois leva mesmo... esse “gente que come
gente” (que vem do Tupi Guarani, ou ‘Língua Geral’, como nós no Sul a
conhecemos), alimenta um espetáculo que tem como subtítulo um ‘Processo
Natimorto’. Vá entender! Há ramos e ramos dessa Língua Geral... dessa
ABAPORUTAÇÂO, mas vamos ficar por aqui, nessa “natimorta” ação!
Obedecendo a um impulso de assistir (e destacar)
artistas e teatros experimentais das cidades que visito, e aproveitando a minha
visita a Manaus, fui assistir a um dos bons atores da região, Dimas Mendonça,
em cartaz ‘por um dia’, na performance criada por ele. Ao chegar ao
teatrinho de Ricardo Risueño ficamos em dúvida se o público vai assistir ao
espetáculo, aos personagens que irão ser retratados, ou à equipe do teatro, que se desvela, proporcionando o espetáculo? Claro, fui assistir a
tudo isso. Afinal, quem “Pensa que Sabe”? Como não temos nada a perder, fomos assisti-lo.
(Só como esclarecimento: o ator em questão pertenceu ao extinto TESC (Teatro
Experimental do SESC do Amazonas), fez parte de alguns grupos de palhaçaria de Manaus,
e assistiu cursos em São Paulo. A seu favor, ainda, o público jovem
que lotou o pequeno “Espaço das Cias”,
do paraense Risueño. O “teatrinho” está situado no quarteirão do Teatro
Amazonas, “o local onde as pessoas se encontram”.
Pois bem, em sua única apresentação, Mendonça
escolheu seis personagens para representar a potencialidade de sua performance:
primeiramente, um “amante do teatro” (um egocêntrico fanático); depois uma mãe
amantíssima - seguida por um pastor evangélico; um cantor (que não consegue cantar,
mas que, com o desenvolver da performance, encontra o seu tom), e também um bailarino.
Pelo que podemos compreender, os personagens saem da criação do ator - que poderíamos chamar
de ‘o diretor do espetáculo’. (Não há ficha técnica).
Como podemos perceber, essa é uma
apresentação sem pretensão de receber criticas, tal a sua simplicidade, porém, a criação e o desempenho do
ator é tão boa que é necessário registrá-la! Dimas
incorpora também o personagem do raivoso “machoman”, e tal composição de “elenco
de seis em um só ator” mostra o grau de desafio que o ator se propôs enfrentar.
Ao chegar ao teatrinho recebemos uma pequena
publicação, uma única folha de papel – um ‘jornal’, o nº 1 - escrito pelo ator, e por amigos convidados. O “Pensa que Sabe” (assim se chama o jornaleco), convidou o poeta e acadêmico Aldísio
Filgueiras, nome bastante conhecido e prestigiado em Manaus, para abrir o
programa com um poema de sua autoria: “Ai de ti, Manaus”: ..”tu viste/na televisão/ o crime/ suprir/ tua
lei – no teu olho – & preferiste/ voltar/as costas/ para o rio/ & a floresta//... Este poeta
nos deve uma visita ao Sul, talvez para o lançamento de seu livro de poemas “A Dança
dos Fantasmas”.
Diz Mendonça, no "Pensa..." : ”Para um país
invadido, um estado roubado e uma cidade inventada, um eterno esforço de reconhecimento
de origens. Para isso, um inútil processo de pesquisa e experimentação
artística numa busca burra pelo novo, diferente e original nas artes.” É o que veremos, a seguir. (Se é “novo”, e
“diferente”, não sabemos... mas é inesperado, principalmente para quem visita a
região), é o “grito” de um ator não deixando a sua arte cair no “oblivium”. A
performance de Mendonça nos faz encontrar personagens fortes, angustiados, passíveis
de crítica, caricatos, mas sempre em uma procura que se agiliza, conforme o
espetáculo vai se desenvolvendo. Assim, temos, sempre as inesperadas reações do
“amor ao teatro”, que levam o “ator-amante” representado a realizar malabarismos
impensáveis para defender o seu amor. (A concepção, direção e desenvolvimento do espetáculo, inclusive a coreografia, é de Dimas Mendonça, que também atua). O ator interpreta o ‘bailarino’
- excelente - ou o ‘cantor’, que inicia desafinado e aos poucos vai encontrando
o seu tom. A seleção de músicas - ou o que podemos chamar de ‘a trilha sonora do
espetáculo’ é um destaque positivo, seguindo a proposta.
Dimas Mendonça ultrapassa, com ímpeto, a todos
os desafios. Trata-se de uma performance profissional que pode ser apresentada nos
principais centros de nosso país. (ATENÇÃO, PATROCINADORES!). O desenvolvimento
dos personagens vai em um crescendo quase insuportável, atingindo uma
velocidade digna dos ‘modismos internacionais’ encenados, atualmente, nos
teatros do Sudeste. Há o mesmo afã de contar histórias em 30 minutos!... os outros 30 minutos do espetáculo sendo preenchidos pela comunicação de Dimas com o público... que interage com
entusiasmo, terminando todos de mãos dadas com o ator!
O que se apresenta no palco de Risueño, inclusive
o cenário, coberto de plantas, e com
seus bancos surgidos no meio das “árvores”, onde as luzes se assemelham a borboletas
noturnas, e onde o breu finalmente se estabelece - deixando espaço para uma luz ao fundo
da cena, filtrada pelos vidros da "parede-janela" que integra o exterior, tornando-se
a sua respiração! É a iluminação dos edifícios que, ao fundo da cena, se acendem e apagam. Um belo espetáculo
extra, a luz dos edifícios. Elas dão um bonito efeito final
ao espetáculo. Talvez o bom resultado de ABAPORUTAÇÃO dependa, mesmo, desse
improviso, dessa união com o espaço exterior. Não sabemos se o espetáculo funcionará, com o mesmo encanto, em
outro espaço cênico. Talvez sim. E talvez essa experiência funcione, em outros Estados
do país. ONDE ANDARÁ O “ABAPORUTAÇÃO” AGORA?
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