domingo, 12 de novembro de 2017
domingo, 5 de novembro de 2017
"DANÇANDO NO ESCURO"
![]() |
| Elenco de "Dançando no Escuro", de Lars vo Trier, adaptação teatral de Patrick Ellsworth. Ao centro, Juliane Bodini e Greg Blanzat, o menino, seguidos por componentes do elenco. |
Elenco de "Dançando no Escuro", de Lars von Trier. No Brasil, direção de Dani Barros.
(FOTOS DE ELISA MENDES)
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos
de Teatro o- AICT)
(Especial)
DANÇANDO NO ESCURO
Eis um espetáculo que não é só para a
gente assistir e ficar por isso mesmo! Ele permanece conosco, a aí vamos
assistir o filme, e novamente o teatro, para ter certeza se isso aconteceu
mesmo... Temos a impressão de que é vida real, e bem poderia ter sido. Quantas
injustiças com pena de morte não acontecem naqueles famigerados EUA!
Mas não esqueçamos "Dançando no
Escuro" no teatro, no Brasil, Rio de Janeiro. Foi a primeira direção da
atriz Dani Barros (que teve como mestre, em sua formação, Antonio Abujamra), inspiração
(e incitação) de Juliane Bodini e Luis Antonio Fortes! Foi também a primeira
vez que Lars von Trier liberou o seu texto e argumento para com ele se fazer
teatro. A adaptação consentida foi feita por Patrick Ellsworth. No Brasil, os
direitos foram comprados em 2015, e sua estréia se deu no Rio de Janeiro, em
2017.
Marcelo Alonso Neves dirigiu a parte
musical. Para vocês terem uma idéia, este estranho espetáculo decorre todo em
torno dos ensaios da "A Noviça Rebelde" que é também um pretexto para
as músicas. Pelo que deduzimos, é cantando e interpretado por amadores de uma
cooperativa de teatro organizada pelos operários da metalúrgica na qual Selma
Jezková, uma quase cega, trabalha.
Os absurdos feitos por Jezková para salvar o seu filho da cegueira congênita já começam a contar desde a sua escolha para trabalhar. Uma cega trabalhando em máquinas de corte? É desastre na certa. Tudo bem, trata-se de Lars von Triar, e as
emoções se iniciam com o começo da peça.
Nesta montagem, sonhada por Juliane Bodini e
Luis Antonio Fortes (ele faz, muito e bem, o apaixonado de Selma), há músicas
criadas por Bjork e executadas por Vanderson Pereira (multi tecladista), Johnny
Capler (Baterista), Allan Bass (baixo) e Dilson Nascimento (multi tecladista).
Dois deles são cegos, Vanderson e Johnny. Enfim... no final de algumas sessões
há aulas de libra para inclusão e profissionalização de pessoas carentes. O "teatro
humanitário", como deveriam ser todos os teatros.
Outro senão interessante é que os atores
se reportam, discretamente, ao momento atual em que vive o Brasil, terminando
com "A Última Canção", da sofrida Selma. Jeff, seu namorado, como ator Luis Antonio Fortes replica,
desde o palco: "Não será a última canção "eles" não nos conhecem..."
(referindo-se à possibilidade de o momento político atual tentar calar a boca
dos artistas de teatro (e de outras artes). Para os atores de "Dançando no
Escuro", isso não vai ser fácil. E não será, mesmo, para todos os artistas!
Tradução fiel ao contexto, de Elidia
Novaes. O que podemos chamar de "O Calvario de Selma" começa no Segundo
Ato. Sim, o belo Teatro "SESC- Ginástico" nos leva ao "Segundo Ato"...
e vamos, em um crescendo, em direção à iniquidade do ser humano, à sua
falsidade, à sua maldade - e Selma Jezková, atônita, percebe, finalmente, essa
maldade.
A primeira vez que assistimos à peça,
pensamos que Selma queria morrer, pois as tolices que fazia, em direção a um final trágico eram óbvias ( faziam parte do texto de Trier, ele não confia na
Humanidade, e muito menos nos Estados Unidos). Depois de confrontar filme e
peça chegamos à conclusão de que Selma era uma pessoa boa (os perigos da
bondade), e foi cruelmente colhida por suas qualidades. Juliane Bodini também é
boa, e diz, ao citar a importância de montar "Dançando no Escuro": "É
preciso enxergar o outro".
A escolha do elenco é feita a dedo: temos
o menino, interpretado por Greg Blanzat, um ótimo ator-mirim que leva o público
às lágrimas. Há também Cyrua Coentro interpretando a amiga Carmen Baker, outra
aquisição para o nosso teatro (não a conhecia), ou Julia Gorman interpretando a
fútil Linda Houston, a causadora da tragédia. Há Suzana Nascimento no papel da
guarda Brenda Young, um ser humano que leva um pouco de humanidade (boa) para a
prisão. (Há situações-limite, porque esta peça é um musical trágico,
finalmente! Aliás, há uma velada crítica aos musicais que nos rondam (tudo Hollywood),
cujos cantos "nascem do nada"...).
O elenco de "Dançando..." é bom, e não deixa nada a dever. Há Lucas Gouvêa, que desencadeia a tragédia interpretando
o personagem de Bill Houston, o policial, marido da fútil Linda. E os professores e encarregados
do serviço na fábrica: Andreas Gatto (Samuel), Marino Rocha (Norman).
Direção de Produção de Jéssica Santiago. Toda
esta produção, bem cuidada, é apoiada pela iluminação belíssima de Felicio Mofra; cenário
de Mina Quental, reproduzindo, de forma pós-moderna, o interior de uma fábrica.
E o figurino, marrom, sóbrio, de Carol Lobato. Direção de Movimento e
Coreografia (ponto para Denise Stutz). Sapateado: Clara Equi, que
também colabora com a Coreografia. Preparação Corporal, Camila Caputi. A parte
da preparação musical e das danças está muito bem assessorada. Aliás, a direção
de Dani Barros também é brilhante. A Versão das canções é de Marcelo Frankel e
Juliane Bodini. (A atriz já foi indicada ao Prêmio Bibi Ferreira por
sua participação como coadjuvante em "Cassia Eller - O musical"). Bodini
é uma ótima surpresa, e possui uma voz privilegiada.
NÃO SABEMOS SE O
ESPETÁCULO VOLTA AO CARTAZ. ULTIMAMENTE,
DEVIDO AO POUCO ESPAÇO DEDICADO AOS ESPETÁCULOS QUE ESTREIAM, EM GERAL ELES
AMPLIAM A SUA PRESENÇA NA CIDADE INDO PARA OUTROS TEATROS. NESTE CASO, DESEJAMOS
VIDA LONGA PARA "DANÇANDO NO ESCURO".
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
IDA VICENZIA - CRITICA DE TEATRO: "DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO"
IDA VICENZIA - CRITICA DE TEATRO: "DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO": CRÍTICA DE TEATRO - IDA VICENZIA Fala de Lênin na chegada em Petersburg (Foto Batman Zavareze) Públic...
"DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO"
CRÍTICA DE TEATRO - IDA VICENZIA
![]() |
| Fala de Lênin na chegada em Petersburg (Foto Batman Zavareze) |
![]() |
| Público de "Dez dias que Abalaram o Mundo" (Foto de Batman Zavarese) |
CRÍTICA DE TEATRO
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro -
AICT)
(Especial)
"10 DIAS QUE ABALARAM O MUNDO"
Comemorando os 100 anos da Revolução dos
Soviéticos, o diretor Luiz Fernando Lobo, da Companhia Ensaio Aberto - que
funciona no cais do porto, no espaço denominado Armazém da Utopia - apresenta o
épico "Dez Dias que Abalaram o Mundo", inspirado na obra de John
Reed.
No espaço privilegiado do grupo, o Armazém
da Utopia, o diretor realiza um arrebatado e emocionado relato dos anos que
antecederam ao episodio que mudou a nossa Historia. Sim, é possível, através da
determinação de um grupo de intelectuais, de trabalhadores e de jovens
estudantes, transformar um país de forte divisão de classes em uma grande potência
socialista. A Historia não teve sucesso permanente, pois o regime não conseguiu
se livrar dos incômodos vizinhos imperialistas com suas guerras de extermínio.
Os socialistas sempre foram da paz e do progresso da humanidade.
Infelizmente, o que vemos neste relato é
um povo empenhado em viver o sonhado progresso de maneira pacífica e
trabalhadora. Teve muitos desencontros, mas nas artes, no curto espaço de tempo
que durou os anos leninistas, os bons frutos começaram, com cineastas,
escritores, poetas, músicos, pintores e demais artistas ligados a uma nova
visão de sociedade livre e igualitaria que os soviets construíram. Duas visões
de sucesso (aliás, várias, registro duas) nos deram seus principais líderes: Lênin,
quando o movimento começava a enfraquecer, com sua chamada aos revolucionários: "Todo
poder aos soviets!" e Trotsky, com a admoestação: " O Duplo Poder é característico
de toda revolução" - incitando aos proletários a tomarem à frente dos
acontecimentos, acabando com o Duplo Poder, transformando-o em um único, não
deixando que a revolução tivesse muitos pais e se perdesse em indefinições. Dois
momentos cruciais.
Entretanto, o relato que Luzi Fernando,
junto com Iná Camargo Costa, conselheira de dramaturgia, dão aos acontecimentos
da época, com detalhes muitas vezes desconhecidos do grande público, como a participação
definitiva das mulheres tecelãs nos acontecimentos que deflagraram a revolta, e
a Historia se fortalece. Já no ano de 1905 Lênin observa, sobre o início do
movimento da revolta de um povo: ""A Europa está grávida de uma
revolução" - não deixando que um golpe de Estado - um golpe democrático, o
aborteiro do movimento dos povos - fizesse
a revolução morrer. Os "golpes" substituem as revoluções! Lênin, e
todos os revolucionários, eram contra o KDT - uma espécie de PSDB da época.
Luiz Fernando Lobo situa muito bem os
acontecimentos, dirigindo-se ao público, como ator, situando o Brasil atual. E
sua encenação filtra os acontecimentos da época através da projeção das imagens
que nos ficaram (filmografia Batman Zavareze), que dominam a cena e
complementam a narrativa. Mas o grande acontecimento é o desenho dos praticáveis
móveis, idealizados por J. C. Serroni, local onde as cenas se desenvolvem,
dando um movimento ao espetáculo, que o público complementa com o seu
deslocamento no espaço. A registrar, entre tantas belas imagens, o solitário espaço
em que Lênin se dirige ao povo, em seu retorno à Rússia, desde a Estação Finlândia,
fazendo o seu grande comunicado em que indica o caminho, alertando os revolucionários
a estabelecerem "todo o poder aos soviets!".
Mas não se pode destacar apenas uma cena,
frente a um espetáculo móvel que não dá sossego ao público! Um enorme
aglomerado de pessoas, (umas 500, em apreciação livre), o público, que também faz
parte do espetáculo, e principalmente os 25 atores que realizam as cenas e dão
um frêmito de alegria e entusiasmo aos espectadores, fixando-se nos acontecimentos
do século XX, e dos novos tempos que ainda poderão chegar, para o Brasil e para
o Mundo. "É preciso muita teimosia" - dizem os revolucionarios.
O diretor, no papel de um revolucionário
que se dirige ao público (o diretor também é ator), interpelando (talvez) às
mães atuais, quando se dirige, com certa impertinência, às "minhas
senhoras" (imaginamos que as advertindo para darem maior atenção ao
desenvolvimento revolucionário e humanista dos filhos). Destas
"senhoras" irá se originar a sociedade do futuro. Em suas intervenções,
o diretor adverte para a importância do momento atual.
Bela idéia. Acabamos interpretando o
empenho do diretor/dramaturgo - ao fazer um apelo a estas "senhoras" que
têm o papel de modificar os povos, orientando seus filhos a darem um futuro
melhor para a humanidade. Em suas "comunicações" com o público, o
ator/diretor Luiz Fernando dá ênfase à aproximação "Russia/Brasil",
ligando os tempos da pré-revolução da União Socialista Soviética e a primeira -
e fracassada - revolução de 1905, com os acontecimentos (bons, de fartura
e liberdade) que ainda podem vir a acontecer
no Brasil.
Em um elenco de 25 atores, ainda podemos
reconhecer, aqui e ali, companheiros de Luiz Fernando desde os tempos de Lima
Barreto e do hospício da Praia Vermelha, o de D. Pedro II. O local de
movimentação do elenco - os movimentos de cena daquele tempo já indicavam o futuro
diretor. Podemos ver, entre os "trabalhadores" de John Reed neste
espetáculo da Ensaio Aberto, Tuca Moraes, que também é diretora de produção nos
"Dez anos...". Tuca vive várias mulheres que deram o sangue pelos
acontecimentos de Outubro, entre elas Alexandra Kolontai! Reconheci também
Peter Boos, que veio de outra companhia. Situação, imaginamos, de vários atores
da Ensaio. Em ordem alfabética, e temerosa de citar, sem destaque, alguns dos
pioneiros da Companhia, indico: Adriano Soares, Alarisse Mattar, Amaury Lourenzo,
Amparo da Gata, Ana Karenina Riehl, Andréa Tonia, Brenda Jací, Bruno Peixoto,
Cleiton Rasga, Fernanda Vizeu, Henrique Juliano, Gabriela Igarashi, Gê Lisboa,
Geovane Barone, Gilberto Miranda, João Raphael Alves, Leonardo Hinckel, Luiz
Fernando Lobo, Luiza Moraes, Nady Oliveira, Natalia Gadiolli, Peter Boos, Tuca Moraes,
Vinicius Oliveira, Yani Patuzzo.
Devido à falta de informação (falha
minha), perdi vários espetáculos da Ensaio Aberto. Perdi-me, sem condução, na
imensidão do Cais do Porto. Aviso agora que o acesso à Ensaio Aberto mudou (a
última vez que andei por lá havia trânsito na Rodrigues Alves, e muito
movimento). Agora temos o VLT que para em frente ao Armazém.
Enfim, agora sei que a Ficha Técnica
continua em ótima produção, com Beth Filipecki e Renaldo Machado dando o tom
marrom das trincheiras e dos pesados capotes guerreiros apresentados pelos
atores. A Trilha Original e a Direção Musical é de Felipe Radicetti. Iluminação
de Cesar de Ramirez (um tour de force),
com a colaboração de Jorginho de Carvalho. Preparação Vocal de Julie Wein, e
Preparação Corporal de Paulo Mazzoni. Assistente de Direção e Dramaturgia
Dieymes Pechincha. Edição de Vídeo João Oliveira. Fotos, Renato Mangolin.
Assessoria de Imprensa: Lead Comunicação.
INFELIZMENTE HOJE É O
ÚLTIMO DIA - 31 DE OUTUBRO - PARA SE FAZER PRESENTE A TAL ACONTECIMENTO. NÃO PERCAM!
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
"AGOSTO"
Elenco de "Agosto". Autor Tracy Letts. Diretor Andre Paes Leme. (Foto Silvana Marques)
CRÍTICA DE TEATRO
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos
de Teatro - AICT)
(Especial)
"AGOSTO"
Esse pessoal do "meio-oeste"
americano tem lá o seu jeito para teatro! Tracy Letts é atrevido, e transforma
o seu relato em algo com personagens tão marcados, tão desenhados, que por
vezes pendem para o absurdo. Outra coisa interessante é que possui o tom "velho/
novo" dos grandes dramaturgos, sem fazer alarde dessa condição. Há de
tudo, no texto: poetas negando o seu talento, pessoas doces convivendo com
feras - o "mundo real" passando pelo texto e abrindo (ou fechando)
janelas que se tornam, às vezes, previsíveis. Quem for assistir, verá. Faz
parte do jogo. Há um morceau de bravure para cada personagem. Sim,
trata-se de um texto sufocante, claustrofóbico, onde todos os personagens podem
brilhar. É teatro de raiz! Gosto dos irlandeses dramaturgos (os que vou citar agora,
e muitos outros que transformaram a America teatral), só não gosto da mania que
os colonizadores irlandeses tinham, essa mania de matar índios americanos... Aliás,
para mim, a segunda personagem fabulosa em "Agosto" é a índia... Adivinhem
quem é a primeira?
Vamos aos dramaturgos (a alguns deles). Haja
fôlego! Lembram-se de "Full for Love"? Ou de "Um Bonde Chamado
Desejo"? Gênios como Sam Shepard: "Quero que as pessoas vivam as
minhas peças com um senso de questionamento, de mistério". Tennessee, que veio
do Mississippi e trouxe essa gente estranha para o palco. "Agosto", agora, é um misto de amor
e ódio, filhote destas inspirações. O autor veio de Oklahoma, e seu texto é
mais descarado ainda - pois o "irlandês" às vezes homenageia Nelson
Rodrigues! Um achado de Guida Vianna, pois este é o papel de sua vida!
Quero ser breve. Aconselho às pessoas
claustrofóbicas a não assisti-lo, ou a assisti-lo, justamente para descobrir se
são claustrofóbicas! Há para todos os sentidos. Elenco e direção têm obrigação
de ter nervos de aço. (O que mais espanta, em teatro, é ver aqueles atores, que
viveram coisas inacreditáveis em duas horas, e depois sorrirem para o público, despedindo-se
e agradecendo com sorrisos de anjos, como se tivessem participado de uma
comédia. Será?).
André Paes Leme, o diretor que mora em
Portugal e veio especialmente para dirigir a peça, alerta para a tentação de
banalizar o teatro, fazendo tudo virar comedia. Não é o caso, mas anda
próximo... Enfim, não dá pra segurar esses irlandeses, embora eles sempre lembrem um pouco os brasileiros...
Fico por aqui. Quero dar meus parabéns aos
desempenhos surpreendentes do elenco: Guida Vianna (Violet); Claudia Ventura (Karen);
Claudio Mendes (surpreendente o seu crescimento como ator. É verdade que não
assisto Claudio há muitos anos, quase não o reconheço, está uma bela presença
em cena, e ótimo ator). Aliás, de ótimos atores é feita a peça, senão não
seguram tudo o que Letts/Leme pedem deles! Há ainda a doce índia (e, por
eliminação acho que cheguei a Marcio Vito (Steve). Julia Schaeffer; Letícia
Isnard; Eliane Costa; Guilherme Siman; Marianna Mac Niven (Ivy); Paulo
Giardini (o doce Beverly).
Cenografia Carlos Alberto Nunes; Figurinos
Patricia Muniz, Iluminação: Renato Machado (como sempre, destaque); Música:
Ricco Viana; Fotografia Silvana Marques. É PRECISO NERVOS DE AÇO PARA ASSISTIR
"AGOSTO". UM DESAFIO.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
"MARX BAIXOU EM MIM - UMA COMEDIA INDIGNADA"
"Marx Baixou em Mim - Uma Comédia Indignada", de Howard Zinn. Tradução Tereza Briggs-Novaes. Direção e Interpretação Jitman Vibranovski. (Foto da Produção)
IDA VICENZIA
CRÍTICA DE TEATRO
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
OBSERVAÇÕES SOBRE "MARX BAIXOU EM MIM" PALESTRA-ESPETÁCULO DE JITMAN VIBRANOVISKI
Quero falar agora rápidas palavras. Não é uma crítica. Quando Marx "desce" no século XX e XXI, no Rio de Janeiro, o encantamento se estabelece, quando narra seu ponto de vista sobre os acontecimentos políticos e sua "sobrevivência" no Soho londrino do século XIX. Antes de mais nada, queremos agradecer e dar os parabéns a Jitman Vibranoviski por nos proporcionar esse momento tão importante à procura da justiça social. Estamos muito necessitados disso. Sempre. Vemos que o mundo não muda, e quando Jitman/Marx começa a falar, prestamos muita atenção no que o nosso grande pensador tem a nos dizer.
Mas o que nos pega de surpresa, (pois os livros ocidentais de Historia passam muito ligeiramente sobre o episódio), é o que realmente aconteceu com a Comuna de Paris. De maneira poética e envolvida, Jitman nos dá uma visão do que realmente teria acontecido naqueles dias de felicidade completa dos cidadãos de Paris, e de como eles foram massacrados pelas forças da repressão, as forças que acabam com os sonhos. Essa passagem, essa narrativa, fica em nossos corações. Aliás, a palestra e o encontro com Jitman/Marx é perfeito. Marx/Jitman diz que está acompanhado de sua Jenny (nome da esposa de Marx), na companhia de sua companheira Claudia Versiani, que também acompanha os acontecimentos na vida de Jitman e o critica, como a Jenny o critica, quando necessário. Uma grande mulher junto de um grande homem!
No final há um debate. Dessa vez ele ocorreu no IFCS/RJ, (Insituto de Filosofia a Ciências Sociais) em seu salão nobre. Tivemos, naquela tarde, também a palavra de Anita Leocádia Prestes, muito bem vinda, recepcionando Marx e também representando o Arquivo da Memória Operaria, órgão que dirige, no prédio da Faculdade do Largo de São Francisco. Aliás, esse convite a Marx feito há alguns meses, e aceito por Jitman, está tomando o Brasil, de Norte a Sul: faculdades, escolas, associações, órgãos interessados em política, bairros populares, praças públicas, cidades do interior, todos estão interessados em economia, sociologia e política! Estão interessados em Marx, pois ele não morreu! Uma plateia lota as dependências onde Marx se encontra. E é um fenômeno que cresce a cada dia.
Não quero com estas palavras atrair os maus espíritos, mas entusiasmar as pessoas com o que aconteceu no IFCS, no dia 25 de setembro deste ano. Na ocasião, resolvi dar a minha contribuição e falei, após a palestra, sobre "Os Demônios", romance de Dostoiévski, porque Jitman fez uma descrição de Bakunin - extraída dos escritos de Marx - que me lembrou Mikailovicht, um personagem semelhante criado pelo romancista russo em "Os Demônios". Jitman se referiu à quantidade de livros sobre o assunto que se acumulam em sua mesa de trabalho, mas prometeu lê-lo. Pois nós aconselhamos Jitman a não ler agora "Os Demônios", deixar para outra ocasião, pois a leitura deste russo é sempre empolgante, entretanto, a revolução que prega o personagem Mikailovicht é costurada de ódio e rancor, nada a ver com a Comuna de Paris. A maneira com que Jitman/Marx relembra o pouco tempo em que ela vigorou, nas ruas de Paris, é tão linda a romântica que fazemos votos que algum dia a humanidade proceda assim! Na ocasião, os russos sabiam que algo estava acontecendo "no centro do mundo", mas não sabiam localizar o quê. Vale a leitura, porém em outra ocasião, pois trata-se de um romance em que a personalidade forte de Mikailovicht toma conta dos acontecimentos.
É de Zinn a frase: "Se agirmos de qualquer maneira, ainda que pequena, não precisaremos esperar por algum grande futuro utópico". Ele agiu, como também. Jitman está agindo. E o seu testemunho cresce vertiginosamente, através do contato com o público (que às vezes nem conhece Marx). O texto de Zinn foi batizado por Jitman de "Marx baixou em mim - uma comédia indignada". Jitman/Marx declara: "Tempos difíceis. Tempos de luta. Tempos de indignação, muita indignação. Lembrando a senhora Carrar de Bertold Brecht, que fuzis eu ainda não entreguei?" Jitman está fazendo, de maneira brilhante, a sua parte.
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
"NA SELVA DAS CIDADES - EM OBRAS"
![]() |
| A atriz Luah Guimarãez interpretando a irmã de Garga, Marie Garga em "Na Selva das Cidades EM OBRAS" - OCUPAÇÃO # 16 ARTIFÍCIO", em cartaz na Caixa Cultural, Rio de Janeiro. (Foto Renato Margolin). |
(da Associação Internacional de Críticos
de Teatro - AICT)
(Especial)
"NA SELVA DAS CIDADES - EM
OBRAS"
Aqueles que querem "mudar o
mundo" resolveram nos mostrar o mundo com ele é, e conseguiram. Percebemos
neste A Selva das Cidades uma desesperada
busca de algo que realmente tenha 'algum' valor para a nossa já tão curta vida. Dessa
vez os atores buscam encontrar o valor da vida escondido nas poltronas da Caixa Cultural, no Rio - mas já os estiveram
procurando entre os abandonados das ruas, em São Paulo, entre os perdidos de
bar. E acabaram em um lugar que, para algumas pessoas é "considerado
convencional": as cadeiras de um teatro. Trata-se de um pequeno teatro, de uns 150
lugares, se tanto, no qual o grupo "Mundana Companhia" tenta
encontrar o sentido da vida. Eles tentam, se desiludem, bebem, amam, mas as três
talentosas criaturas que acreditam que algo possa ser feito, Aury Porto, Cibele
Forjaz e Luiza Lemmertz esperam que algo aconteça. A vida não dá sossego. E há também Luah Guimarãez que também, para nossa alegria, acredita no projeto. E não só ela. Por algo lutamos,
então. Como pensa Aury Porto.
E qual é a proposta de Aury? O tempo vai passando,
os atores viram anjos (ou demônios) e a proposta continua interrogando: existe
o verdadeiro teatro, existe um caminho?
Cibele Forjaz e a "Mundana Companhia", nossa
conhecida de outro momentos e outras direções - desde o surpreendente "O
Idiota", de Dostoievski, que marcou a diretora para a nova sensibilidade cênica. Outros
espetáculos vieram e hoje temos este "Na Selva das Cidades - Em
Obras" e Brecht trazendo, em seu passar, a "Ocupação #16 -
Artifício". Há toda uma explicação para esta formatação. E o personagem de
um rico negociante de madeira faz a proposta, atraído pela inteligência de um
jovem bibliotecário da Família Garga, e querendo reconhecer a capacidade do ser
humano em um "embate intelectual".
Podemos criar as nossas leituras, neste "Em Obras". Tentarei, mas
"Não Já". A peça é quase "uma questão de família", e os
Garga, camponeses do interior, estão muito presentes em cena.
Mas não é das famílias que devemos falar, devemos
nos referir aos humanos.
BB situa a peça em 1912 (um pouco antes da
Primeira Guerra Mundial). Trata-se de um Brecht inspirado no livro "A
Selva", de Upton Sinclair. Podemos imaginar. O terceiro texto do jovem Brecht já se compara aos
grandes de vida longa como Tchecov, Dostô, e o próprio Brecht . Depois vieram outras peças
da Mundana Cia. Ela começou a ser formada no início do séc. XXI, e houve até um tempo em que ela foi dirigida
pelo russo Adolf Saphiro, em "O Duelo". E lá atrás, nos anos 60, o
grande sucesso do Teatro Oficina foi-nos apresentado: "Na Selva das
Cidades".
Agora, em sua nova versão neste estranho
mês de agosto - irá somente até o dia 26 no Rio - o público perceberá algumas pequenas
modificações em cena.
Citamos o elenco:
Aury Porto, grande entusiasta do projeto e
seu criador, interpreta C. Shlink. Carol
Badra (Mãe Garga); Guilherme Calzavara (O Verme); João Bresser (John Garga), e
também as já citadas Luah (Marie Garga) e Luiza (Jane Larry). Há também Mariano
Mattos Martins (O Babuino), Sylvia Prado (Mãe Garga - substituição?), Vinicius Meloni
(Pat Manky), e Washington Luis (George Garga). Os atores são excelentes e Luah
nos passa a impressão de ter sido muito próxima de Regina Braga. Estranhas vivencias humanas. Deixarei a crítica para
outra ocasião).
Treinamento Corporal, Lu Favoreto;
Tradução, Christine Rörig; Direção/Treinamento Cênico, Cibele Forjaz;
Treinamento Vocal, Lucia Gayotto; Direção de Cena, Renato Bandi; Criação
Musical, Guilherme Calzavara; Músico Marcelo Castilha.
(A
cenografia e concepção do cenário é outro caso à parte: a funcionalidade com
que ela é operada coloca a "marca registrada de Forjaz" - e a sua determinação
cênica, na forte tensão que se estabelece entre atores e público - tensão
essa que Forjaz percebe e não deixa escapar em nenhum momento.
Eis nossa homenagem à rápida passagem da Mundana Companhia pelo Rio de Janeiro. Aproveito para me despedir
com este belo trecho de Brecht, que está no programa:
"Quanto tempo/Duram as obras?
Tanto quanto/ ainda não estão completas.
Em obras.
Pois enquanto exigem trabalho
Não entram em decadência" (BB).
(FALAREMOS UM POUCO MAIS SOBRE A PEÇA, EM OUTRA OCASIÃO. NÃO DEIXEM DE ASSISTI-LA!)..
Assinar:
Postagens (Atom)






