Páginas

domingo, 12 de novembro de 2017

"A FESTA DE ANIVERSARIO"

Cena de "A Festa de Aniversario", de Harold Pinter, direção Gustavo Paso. Em cena Guilherme Melca (Max) e Rogerio Freitas (Golberg), Alexandre Galindo (Stanley). (Foto Gustavo Paso)



IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

A FESTA DE ANIVERSARIO
                      Em 1967, quando pela primeira vez assisti Harold Pinter em "A Volta 
                  ao Lar", com Fernanda Montenegro, fiquei com a impressão (óbvia) de que aquela 
                 mulher que abandonou o marido não o amava, e por isso não quis voltar com ele 
                 para o seu casamento, preferindo a separação. Na minha rígida cabeça de menina 
                 criada em colégio de freiras não havia lugar para o que aconteceu depois. 
                E Harold Pinter continuou sendo para mim um autor inacessível. Assisti-lo era (e é) 
                para mim, como se eu estivesse vendo uma foto em negativo, 
                uma imagem sem contorno (muito alterada) do que poderia ser a realidade.

     Assisti a outro "A Volta ao Lar" antes de "A Festa de Aniversario". Foi uma peça  
dirigida por  Bruce Gomlevisky, que fazia o irmão do marido?! Achei o personagem 
masculino de Bruce muito violento e, para surpresa minha, acabei aceitando a proposta 
do autor e "lendo", à minha maneira, o que estava acontecendo em cena, neste 
Hommecoming. Era algo muito bem guardado no interior de alguns personagens, 
e é assim que sempre recebo os textos de Pinter.

     O caso atual, de "A Festa de Aniversario" tem o acréscimo, agora percebido, 
de ser uma crítica aos humanos. Mas os personagens de Pinter são assim mesmo? 
Quem olha as fotos daquele verdadeiro "lord inglês" - o autor -  não diz que ele trás 
escondido dentro de si tanto horror... e conclui que a inteligência e o talento são um mistério!

     Mas passemos a "A Festa de Aniversario". São seis atores em cena, e um pianista 
que dá o clima da peça com o seu piano nervoso, de compasso dominador e presença física 
quase invisível !!! Aparece só uma vez, e nas alturas do cenário. Toca um piano magistral, 
por sinal, assim como o seu Beethoven! É André Poyart, tocando ao vivo e  dando 
um clima irreal - e terrível! - aos acontecimentos! Registro ainda, e principalmente, 
o desenvolvimento das cenas de tortura incluídas no texto ("Festa" foi escrita em 1957, 
Pinter estava ligado!) e a semelhança é surpreendente com os relatos de Sergio 
Sant'Anna, dez anos depois, em "Confissões de Ralfo": as frases de seus torturadores 
se assemelham, lembrando acontecimentos da vida cotidiana (no caso do livro de 
Sant'Anna, a tortura começa com uma pergunta: "Quem foi que descobriu o Brasil?"), 
no de Pinter, com perguntas sobre a vida particular de outro pianista, esse acossado, 
escondido em uma pensão (a perseguição à arte?), interpretado por Alexandre Galindo.
 O ator Rogerio Freitas, o "visitante" de Pinter, um ser encantador e sociável, subitamente 
se transformando em um horripilante torturador! Rogerio Freitas pode ser o mais perfeito 
comediante, como em "A Revista do Ano - O Olimpo Carioca", quando interpreta Hefaísto, 
o deus do fogo, e joga para a plateia um divertido Oscarito, como nas comédias da Atlântida! 
Pois em "A Festa de Aniversario" ele, do amável visitante do início da peça, se converte num 
personagem de olhar terrível e atitudes não menos. A partir dessa mudança, não há mais 
sociabilidade naquele visitante - há "o horror"! É tudo tão seguro, tão determinado, que não soa falso. 
São os mistérios do talento...  

     Mas por que a "Festa" se transforma em horror? Procuramos dar uma olhada em Pinter: "Nascido em um subúrbio pobre de Londres, filho de pais judeus do Leste Europeu! Ativista político!" (Está explicado? O "lord" criou uma estirpe! Criou-se, sobre o seu estilo o nome de "pinteresco", no qual personagens normais são colocados repentinamente frente ao inesperado e não apresentam reação" (...). Acho que está explicado o seu estilo, embora todos digam que Pinter é um dos representantes do "teatro do absurdo". Não é um pouco facilitado, isso? Desculpe, Paso, e você sabe disso melhor do que eu... Mas para mim,  para mim, todos os teatros podem ser do absurdo! (Mas deixemos estas questões...). Premiadíssimo, Prêmio Nobel, etc, eis Harold Pinter.

     Pois este autor - com a colaboração, não podemos esquecer! - de outro mágico teatral que é Gustavo Paso, o diretor (sempre que o assisto saio mobilizada), - dá o clima da peça, ao qual ninguém escapa! Há ótimos atores complementando a cena. E outro mistério: quem é Alexandre Galindo, que resolveu produzir a peça? Parece-nos que se lança como ator, mas a naturalidade com que ele atua é surpreendente, jogando-o entre os veteranos! Há também uma deliciosa (e louca!) Andrea Dantas, em seu papel de dona de casa alienada. Comedia pura! Ah, essa família Dantas! E a menina Raíza Puget, fazendo a adolescente desafiadora, inconsciente e vaidosa! Que cenas ela nos proporciona! Marcos Ácher é o mais pinteresco (na acepção do termo, o homem que não participa, se exime, se acovarda. Ele representa aquela classe de homem do povo que Pinter detesta: o "morno"). E o faz muito bem. E há Guilherme Melca, o "representante" dos subúrbios, mundo muito conhecidos de Pinter... Querem festa melhor?  

     A ficha técnica sempre me deixa com vontade de estudar cada uma das referências: A Tradução é feita por Alexandre Tenório. Eu jamais seria tradutora, enlouqueceria! E a Iluminação? Que entendo eu de Iluminação? Só a sinto, me emociono. Ela dá o clima, me transporta, assim como a música - que já entendo melhor... Pois a Iluminação é feita por Bernardo Lorga. O cenário é conduzido por Gustavo Paso, e eu entendo aquelas armadilhas, as correntes, os buracos, os sobressaltos... Como não estabelecer o pânico? O cenário faz um jogo infernal com a luz... A Trilha Sonora, como já dissemos, é do excelente músico André Poyart. Assistente de Direção: Marcos Árcher. A "Administração de Temporada" é do nosso apaixonado por teatro Antonio Barboza, que agora continua o seu trabalho de ator na TV Globo! Muitas felicidades para você, Antonio! Direção de Produção: Luciana Fávero, que também se encarrega dos figurinos e adereços. Parece-me que Gustavo Paso tem uma equipe fiel, que o acompanha em seus trabalhos fora de seu grupo, como este "A Festa de Aniversario". Estes dois últimos artistas/técnicos citados fazem parte do seu grupo! Há certamente outros, não citados, como o Cenotécnico Eduardo Andrade. Enganei-me? VIDA LONGA, E PRAZEROSA, A ESTES ARTISTAS! É BOM VER BOM TEATRO! DIGAM-ME UMA COISA: CRÍTICA DE TEATRO É TAMBÉM ARTE? PELO MENOS ELA FIXA UM INSTANTE DESTA EVANESCENTE ARTE. E COM ENVOLVIMENTO EMOCIONAL!
          




  







domingo, 5 de novembro de 2017

"DANÇANDO NO ESCURO"

Elenco de "Dançando no Escuro", de Lars vo Trier, adaptação teatral de Patrick Ellsworth. Ao centro, Juliane Bodini e Greg Blanzat, o menino, seguidos por componentes do elenco. 

Elenco de "Dançando no Escuro", de Lars von Trier. No Brasil, direção de Dani Barros. 
(FOTOS DE ELISA MENDES)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro o- AICT)
(Especial)

DANÇANDO NO ESCURO

     Eis um espetáculo que não é só para a gente assistir e ficar por isso mesmo! Ele permanece conosco, a aí vamos assistir o filme, e novamente o teatro, para ter certeza se isso aconteceu mesmo... Temos a impressão de que é vida real, e bem poderia ter sido. Quantas injustiças com pena de morte não acontecem naqueles famigerados EUA!

     Mas não esqueçamos "Dançando no Escuro" no teatro, no Brasil, Rio de Janeiro. Foi a primeira direção da atriz Dani Barros (que teve como mestre, em sua formação, Antonio Abujamra), inspiração (e incitação) de Juliane Bodini e Luis Antonio Fortes! Foi também a primeira vez que Lars von Trier liberou o seu texto e argumento para com ele se fazer teatro. A adaptação consentida foi feita por Patrick Ellsworth. No Brasil, os direitos foram comprados em 2015, e sua estréia se deu no Rio de Janeiro, em 2017.

     Marcelo Alonso Neves dirigiu a parte musical. Para vocês terem uma idéia, este estranho espetáculo decorre todo em torno dos ensaios da "A Noviça Rebelde" que é também um pretexto para as músicas. Pelo que deduzimos, é cantando e interpretado por amadores de uma cooperativa de teatro organizada pelos operários da metalúrgica na qual Selma Jezková, uma quase cega, trabalha.

     Os absurdos feitos por Jezková para salvar o seu filho da cegueira congênita já começam a contar desde a sua escolha para trabalhar. Uma cega trabalhando em máquinas de corte? É desastre na certa. Tudo bem, trata-se de Lars von Triar, e as emoções se iniciam com o começo da peça.

     Nesta montagem, sonhada por Juliane Bodini e Luis Antonio Fortes (ele faz, muito e bem, o apaixonado de Selma), há músicas criadas por Bjork e executadas por Vanderson Pereira (multi tecladista), Johnny Capler (Baterista), Allan Bass (baixo) e Dilson Nascimento (multi tecladista). Dois deles são cegos, Vanderson e Johnny. Enfim... no final de algumas sessões há aulas de libra para inclusão e profissionalização de pessoas carentes. O "teatro humanitário", como deveriam ser todos os teatros.

     Outro senão interessante é que os atores se reportam, discretamente, ao momento atual em que vive o Brasil, terminando com "A Última Canção", da sofrida Selma. Jeff,  seu namorado, como ator Luis Antonio Fortes replica, desde o palco: "Não será a última canção "eles" não nos conhecem..." (referindo-se à possibilidade de o momento político atual tentar calar a boca dos artistas de teatro (e de outras artes). Para os atores de "Dançando no Escuro", isso não vai ser fácil.  E não será, mesmo, para todos os artistas!

     Tradução fiel ao contexto, de Elidia Novaes. O que podemos chamar de "O Calvario de Selma" começa no Segundo Ato. Sim, o belo Teatro "SESC- Ginástico" nos leva ao "Segundo Ato"... e vamos, em um crescendo, em direção à iniquidade do ser humano, à sua falsidade, à sua maldade - e Selma Jezková, atônita, percebe, finalmente, essa maldade.

     A primeira vez que assistimos à peça, pensamos que Selma queria morrer, pois as tolices que fazia, em direção a um final trágico eram óbvias ( faziam parte do texto de Trier, ele não confia na Humanidade, e muito menos nos Estados Unidos). Depois de confrontar filme e peça chegamos à conclusão de que Selma era uma pessoa boa (os perigos da bondade), e foi cruelmente colhida por suas qualidades. Juliane Bodini também é boa, e diz, ao citar a importância de montar "Dançando no Escuro": "É preciso enxergar o outro".

     A escolha do elenco é feita a dedo: temos o menino, interpretado por Greg Blanzat, um ótimo ator-mirim que leva o público às lágrimas. Há também Cyrua Coentro interpretando a amiga Carmen Baker, outra aquisição para o nosso teatro (não a conhecia), ou Julia Gorman interpretando a fútil Linda Houston, a causadora da tragédia. Há Suzana Nascimento no papel da guarda Brenda Young, um ser humano que leva um pouco de humanidade (boa) para a prisão. (Há situações-limite, porque esta peça é um musical trágico, finalmente! Aliás, há uma velada crítica aos musicais que nos rondam (tudo Hollywood), cujos cantos "nascem do nada"...).

     O elenco de "Dançando..." é bom, e não deixa nada a dever. Há Lucas Gouvêa, que desencadeia a tragédia interpretando o personagem de Bill Houston, o policial, marido da fútil Linda. E os professores e encarregados do serviço na fábrica: Andreas Gatto (Samuel), Marino Rocha (Norman).

     Direção de Produção de Jéssica Santiago. Toda esta produção, bem cuidada, é apoiada pela iluminação belíssima de Felicio Mofra; cenário de Mina Quental, reproduzindo, de forma pós-moderna, o interior de uma fábrica. E o figurino, marrom, sóbrio, de Carol Lobato. Direção de Movimento e Coreografia (ponto para Denise Stutz). Sapateado: Clara Equi, que também colabora com a Coreografia. Preparação Corporal, Camila Caputi. A parte da preparação musical e das danças está muito bem assessorada. Aliás, a direção de Dani Barros também é brilhante. A Versão das canções é de Marcelo Frankel e Juliane Bodini. (A atriz já foi indicada ao Prêmio Bibi Ferreira por sua participação como coadjuvante em "Cassia Eller - O musical"). Bodini é uma ótima surpresa, e possui uma voz privilegiada.  

NÃO SABEMOS SE O ESPETÁCULO VOLTA AO CARTAZ. ULTIMAMENTE, DEVIDO AO POUCO ESPAÇO DEDICADO AOS ESPETÁCULOS QUE ESTREIAM, EM GERAL ELES AMPLIAM A SUA PRESENÇA NA CIDADE INDO PARA OUTROS TEATROS. NESTE CASO, DESEJAMOS VIDA LONGA PARA "DANÇANDO NO ESCURO".                    

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

IDA VICENZIA - CRITICA DE TEATRO: "DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO"

IDA VICENZIA - CRITICA DE TEATRO: "DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO":                                 CRÍTICA DE TEATRO - IDA VICENZIA Fala de Lênin na chegada em Petersburg (Foto Batman Zavareze) Públic...

"DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO"


                                CRÍTICA DE TEATRO - IDA VICENZIA


Fala de Lênin na chegada em Petersburg (Foto Batman Zavareze)

Público de "Dez dias que Abalaram o Mundo" (Foto de Batman Zavarese)
CRÍTICA DE TEATRO
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"10 DIAS QUE ABALARAM O MUNDO"
     Comemorando os 100 anos da Revolução dos Soviéticos, o diretor Luiz Fernando Lobo, da Companhia Ensaio Aberto - que funciona no cais do porto, no espaço denominado Armazém da Utopia - apresenta o épico "Dez Dias que Abalaram o Mundo", inspirado na obra de John Reed.

     No espaço privilegiado do grupo, o Armazém da Utopia, o diretor realiza um arrebatado e emocionado relato dos anos que antecederam ao episodio que mudou a nossa Historia. Sim, é possível, através da determinação de um grupo de intelectuais, de trabalhadores e de jovens estudantes, transformar um país de forte divisão de classes em uma grande potência socialista. A Historia não teve sucesso permanente, pois o regime não conseguiu se livrar dos incômodos vizinhos imperialistas com suas guerras de extermínio. Os socialistas sempre foram da paz e do progresso da humanidade.

     Infelizmente, o que vemos neste relato é um povo empenhado em viver o sonhado progresso de maneira pacífica e trabalhadora. Teve muitos desencontros, mas nas artes, no curto espaço de tempo que durou os anos leninistas, os bons frutos começaram, com cineastas, escritores, poetas, músicos, pintores e demais artistas ligados a uma nova visão de sociedade livre e igualitaria que os soviets construíram. Duas visões de sucesso (aliás, várias, registro duas) nos deram seus principais líderes: Lênin, quando o movimento começava a enfraquecer, com sua chamada aos revolucionários: "Todo poder aos soviets!" e Trotsky, com a admoestação: " O Duplo Poder é característico de toda revolução" - incitando aos proletários a tomarem à frente dos acontecimentos, acabando com o Duplo Poder, transformando-o em um único, não deixando que a revolução tivesse muitos pais e se perdesse em indefinições. Dois momentos cruciais.
     Entretanto, o relato que Luzi Fernando, junto com Iná Camargo Costa, conselheira de dramaturgia, dão aos acontecimentos da época, com detalhes muitas vezes desconhecidos do grande público, como a participação definitiva das mulheres tecelãs nos acontecimentos que deflagraram a revolta, e a Historia se fortalece. Já no ano de 1905 Lênin observa, sobre o início do movimento da revolta de um povo: ""A Europa está grávida de uma revolução" - não deixando que um golpe de Estado - um golpe democrático, o aborteiro do movimento dos povos -  fizesse a revolução morrer. Os "golpes" substituem as revoluções! Lênin, e todos os revolucionários, eram contra o KDT - uma espécie de PSDB da época.

     Luiz Fernando Lobo situa muito bem os acontecimentos, dirigindo-se ao público, como ator, situando o Brasil atual. E sua encenação filtra os acontecimentos da época através da projeção das imagens que nos ficaram (filmografia Batman Zavareze), que dominam a cena e complementam a narrativa. Mas o grande acontecimento é o desenho dos praticáveis móveis, idealizados por J. C. Serroni, local onde as cenas se desenvolvem, dando um movimento ao espetáculo, que o público complementa com o seu deslocamento no espaço. A registrar, entre tantas belas imagens, o solitário espaço em que Lênin se dirige ao povo, em seu retorno à Rússia, desde a Estação Finlândia, fazendo o seu grande comunicado em que indica o caminho, alertando os revolucionários a estabelecerem "todo o poder aos soviets!".

     Mas não se pode destacar apenas uma cena, frente a um espetáculo móvel que não dá sossego ao público! Um enorme aglomerado de pessoas, (umas 500, em apreciação livre), o público, que também faz parte do espetáculo, e principalmente os 25 atores que realizam as cenas e dão um frêmito de alegria e entusiasmo aos espectadores, fixando-se nos acontecimentos do século XX, e dos novos tempos que ainda poderão chegar, para o Brasil e para o Mundo. "É preciso muita teimosia" - dizem os revolucionarios.

     O diretor, no papel de um revolucionário que se dirige ao público (o diretor também é ator), interpelando (talvez) às mães atuais, quando se dirige, com certa impertinência, às "minhas senhoras" (imaginamos que as advertindo para darem maior atenção ao desenvolvimento revolucionário e humanista dos filhos). Destas "senhoras" irá se originar a sociedade do futuro. Em suas intervenções, o diretor adverte para a importância do momento atual.

     Bela idéia. Acabamos interpretando o empenho do diretor/dramaturgo - ao fazer um apelo a estas "senhoras" que têm o papel de modificar os povos, orientando seus filhos a darem um futuro melhor para a humanidade. Em suas "comunicações" com o público, o ator/diretor Luiz Fernando dá ênfase à aproximação "Russia/Brasil", ligando os tempos da pré-revolução da União Socialista Soviética e a primeira - e fracassada - revolução de 1905, com os acontecimentos (bons, de fartura e  liberdade) que ainda podem vir a acontecer no Brasil.                  

     Em um elenco de 25 atores, ainda podemos reconhecer, aqui e ali, companheiros de Luiz Fernando desde os tempos de Lima Barreto e do hospício da Praia Vermelha, o de D. Pedro II. O local de movimentação do elenco - os movimentos de cena daquele tempo já indicavam o futuro diretor. Podemos ver, entre os "trabalhadores" de John Reed neste espetáculo da Ensaio Aberto, Tuca Moraes, que também é diretora de produção nos "Dez anos...". Tuca vive várias mulheres que deram o sangue pelos acontecimentos de Outubro, entre elas Alexandra Kolontai! Reconheci também Peter Boos, que veio de outra companhia. Situação, imaginamos, de vários atores da Ensaio. Em ordem alfabética, e temerosa de citar, sem destaque, alguns dos pioneiros da Companhia, indico: Adriano Soares, Alarisse Mattar, Amaury Lourenzo, Amparo da Gata, Ana Karenina Riehl, Andréa Tonia, Brenda Jací, Bruno Peixoto, Cleiton Rasga, Fernanda Vizeu, Henrique Juliano, Gabriela Igarashi, Gê Lisboa, Geovane Barone, Gilberto Miranda, João Raphael Alves, Leonardo Hinckel, Luiz Fernando Lobo, Luiza Moraes, Nady Oliveira, Natalia Gadiolli, Peter Boos, Tuca Moraes, Vinicius Oliveira, Yani Patuzzo.     

     Devido à falta de informação (falha minha), perdi vários espetáculos da Ensaio Aberto. Perdi-me, sem condução, na imensidão do Cais do Porto. Aviso agora que o acesso à Ensaio Aberto mudou (a última vez que andei por lá havia trânsito na Rodrigues Alves, e muito movimento). Agora temos o VLT que para em frente ao Armazém.

     Enfim, agora sei que a Ficha Técnica continua em ótima produção, com Beth Filipecki e Renaldo Machado dando o tom marrom das trincheiras e dos pesados capotes guerreiros apresentados pelos atores. A Trilha Original e a Direção Musical é de Felipe Radicetti. Iluminação de Cesar de Ramirez (um tour de force), com a colaboração de Jorginho de Carvalho. Preparação Vocal de Julie Wein, e Preparação Corporal de Paulo Mazzoni. Assistente de Direção e Dramaturgia Dieymes Pechincha. Edição de Vídeo João Oliveira. Fotos, Renato Mangolin. Assessoria de Imprensa: Lead Comunicação.

INFELIZMENTE HOJE É O ÚLTIMO DIA - 31 DE OUTUBRO - PARA SE FAZER PRESENTE A TAL ACONTECIMENTO.  NÃO PERCAM! 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

"AGOSTO"

              Elenco de "Agosto". Autor Tracy Letts. Diretor Andre Paes Leme. (Foto Silvana Marques)


CRÍTICA DE  TEATRO
IDA VICENZIA
(da  Associação  Internacional  de  Críticos  de  Teatro - AICT)
(Especial)

"AGOSTO"
Esse pessoal do "meio-oeste" americano tem lá o seu jeito para teatro! Tracy Letts é atrevido, e transforma o seu relato em algo com personagens tão marcados, tão desenhados, que por vezes pendem para o absurdo. Outra coisa interessante é que possui o tom "velho/ novo" dos grandes dramaturgos, sem fazer alarde dessa condição. Há de tudo, no texto: poetas negando o seu talento, pessoas doces convivendo com feras - o "mundo real" passando pelo texto e abrindo (ou fechando) janelas que se tornam, às vezes, previsíveis. Quem for assistir, verá. Faz parte do jogo. Há um morceau de bravure para cada personagem. Sim, trata-se de um texto sufocante, claustrofóbico, onde todos os personagens podem brilhar. É teatro de raiz! Gosto dos irlandeses dramaturgos (os que vou citar agora, e muitos outros que transformaram a America teatral), só não gosto da mania que os colonizadores irlandeses tinham, essa mania de matar índios americanos... Aliás, para mim, a segunda personagem fabulosa em "Agosto" é a índia... Adivinhem quem é a primeira?

     Vamos aos dramaturgos (a alguns deles). Haja fôlego! Lembram-se de "Full for Love"? Ou de "Um Bonde Chamado Desejo"? Gênios como Sam Shepard: "Quero que as pessoas vivam as minhas peças com um senso de questionamento, de mistério". Tennessee, que veio do Mississippi e trouxe essa gente estranha para o palco.  "Agosto", agora, é um misto de amor e ódio, filhote destas inspirações. O autor veio de Oklahoma, e seu texto é mais descarado ainda - pois o "irlandês" às vezes homenageia Nelson Rodrigues! Um achado de Guida Vianna, pois este é o papel de sua vida!

     Quero ser breve. Aconselho às pessoas claustrofóbicas a não assisti-lo, ou a assisti-lo, justamente para descobrir se são claustrofóbicas! Há para todos os sentidos. Elenco e direção têm obrigação de ter nervos de aço. (O que mais espanta, em teatro, é ver aqueles atores, que viveram coisas inacreditáveis em duas horas, e depois sorrirem para o público, despedindo-se e agradecendo com sorrisos de anjos, como se tivessem participado de uma comédia. Será?).

     André Paes Leme, o diretor que mora em Portugal e veio especialmente para dirigir a peça, alerta para a tentação de banalizar o teatro, fazendo tudo virar comedia. Não é o caso, mas anda próximo... Enfim, não dá pra segurar esses irlandeses, embora eles sempre lembrem um pouco os brasileiros...

     Fico por aqui. Quero dar meus parabéns aos desempenhos surpreendentes do elenco: Guida Vianna (Violet); Claudia Ventura (Karen); Claudio Mendes (surpreendente o seu crescimento como ator. É verdade que não assisto Claudio há muitos anos, quase não o reconheço, está uma bela presença em cena, e ótimo ator). Aliás, de ótimos atores é feita a peça, senão não seguram tudo o que Letts/Leme pedem deles! Há ainda a doce índia (e, por eliminação acho que cheguei a Marcio Vito (Steve). Julia Schaeffer; Letícia Isnard; Eliane Costa; Guilherme Siman; Marianna Mac Niven (Ivy); Paulo Giardini (o doce Beverly).            
     Cenografia Carlos Alberto Nunes; Figurinos Patricia Muniz, Iluminação: Renato Machado (como sempre, destaque); Música: Ricco Viana; Fotografia Silvana Marques. É PRECISO NERVOS DE AÇO PARA ASSISTIR "AGOSTO". UM DESAFIO.
    


terça-feira, 26 de setembro de 2017

"MARX BAIXOU EM MIM - UMA COMEDIA INDIGNADA"

 
"Marx Baixou em Mim - Uma Comédia Indignada", de Howard Zinn. Tradução Tereza Briggs-Novaes. Direção e Interpretação Jitman Vibranovski. (Foto da Produção)


IDA VICENZIA
CRÍTICA DE TEATRO
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)

OBSERVAÇÕES SOBRE "MARX BAIXOU EM MIM" PALESTRA-ESPETÁCULO DE JITMAN VIBRANOVISKI


     Quero falar agora rápidas palavras. Não é uma crítica. Quando Marx "desce" no século XX e XXI, no Rio de Janeiro, o encantamento se estabelece, quando narra seu ponto de vista sobre os acontecimentos políticos e sua "sobrevivência" no Soho londrino do século XIX. Antes de mais nada, queremos agradecer e dar os parabéns a Jitman Vibranoviski por nos proporcionar esse momento tão importante à procura da justiça social. Estamos muito necessitados disso. Sempre. Vemos que o mundo não muda, e quando Jitman/Marx começa a falar, prestamos muita atenção no que o nosso grande pensador tem a nos dizer.

     Mas o que nos pega de surpresa, (pois os livros ocidentais de Historia passam muito ligeiramente sobre o episódio), é o que realmente aconteceu com a Comuna de Paris. De maneira poética e envolvida, Jitman nos dá uma visão do que realmente teria acontecido naqueles dias de felicidade completa dos cidadãos de Paris, e de como eles foram massacrados pelas forças da repressão, as forças que acabam com os sonhos. Essa passagem, essa narrativa, fica em nossos corações. Aliás, a palestra e o encontro com Jitman/Marx é perfeito. Marx/Jitman diz que está acompanhado de sua Jenny (nome da esposa de Marx), na companhia de sua companheira Claudia Versiani, que também acompanha os acontecimentos na vida de Jitman e o critica, como a Jenny o critica, quando necessário. Uma grande mulher junto de um grande homem!

     No final há um debate. Dessa vez ele ocorreu no IFCS/RJ, (Insituto de Filosofia a Ciências Sociais) em seu salão nobre. Tivemos, naquela tarde, também a palavra de Anita Leocádia Prestes, muito bem vinda, recepcionando Marx e também representando o Arquivo da Memória Operaria, órgão que dirige, no prédio da Faculdade do Largo de São Francisco. Aliás, esse convite a Marx feito há alguns meses, e aceito por Jitman, está tomando o Brasil, de Norte a Sul: faculdades, escolas, associações, órgãos interessados em política, bairros populares, praças públicas, cidades do interior, todos estão interessados em economia, sociologia e política! Estão interessados em Marx, pois ele não morreu! Uma plateia lota as dependências onde Marx se encontra. E é um fenômeno que cresce a cada dia.

     Não quero com estas palavras atrair os maus espíritos, mas entusiasmar as pessoas com o que aconteceu no IFCS, no dia 25 de setembro deste ano. Na ocasião, resolvi dar a minha contribuição e falei, após a palestra, sobre "Os Demônios", romance de Dostoiévski, porque Jitman fez uma descrição de Bakunin - extraída dos escritos de Marx - que me lembrou Mikailovicht, um personagem semelhante criado pelo romancista russo em "Os Demônios". Jitman se referiu à quantidade de livros sobre o assunto que se acumulam em sua mesa de trabalho, mas prometeu lê-lo. Pois nós aconselhamos Jitman a não ler agora "Os Demônios", deixar para outra ocasião, pois a leitura deste russo é sempre empolgante, entretanto, a revolução que prega o personagem Mikailovicht é costurada de ódio e rancor, nada a ver com a Comuna de Paris. A maneira com que Jitman/Marx relembra o pouco tempo em que ela vigorou, nas ruas de Paris, é tão linda a romântica que fazemos votos que algum dia a humanidade proceda assim! Na ocasião, os russos sabiam que algo estava acontecendo "no centro do mundo", mas não sabiam localizar o quê. Vale a leitura, porém em outra ocasião, pois trata-se de um romance em que a personalidade forte de Mikailovicht toma conta dos acontecimentos.

     Quanto ao mais, agradecemos a oportunidade de estarmos tão próximos a Marx, agradecemos ao autor do livro, Howard Zinn, um professor universitário americano, e ativista político com vários livros publicados. E agradecemos a Jitman Vibranovski!

     É de Zinn a frase: "Se agirmos de qualquer maneira, ainda que pequena, não precisaremos esperar por algum grande futuro utópico". Ele agiu, como também. Jitman está agindo. E o seu testemunho cresce vertiginosamente, através do contato com o público (que às vezes nem conhece Marx). O texto de Zinn foi batizado por Jitman de "Marx baixou em mim - uma comédia indignada". Jitman/Marx declara: "Tempos difíceis. Tempos de luta. Tempos de indignação, muita indignação. Lembrando a senhora Carrar de Bertold Brecht, que fuzis eu ainda não entreguei?" Jitman está fazendo, de maneira brilhante, a sua parte.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

"NA SELVA DAS CIDADES - EM OBRAS"

A atriz Luah Guimarãez interpretando a irmã de Garga, Marie Garga em "Na Selva das Cidades EM OBRAS" - OCUPAÇÃO # 16 ARTIFÍCIO", em cartaz na Caixa Cultural, Rio de Janeiro. (Foto Renato Margolin). 
 IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

"NA SELVA DAS CIDADES - EM OBRAS"

      Aqueles que querem "mudar o mundo" resolveram nos mostrar o mundo com ele é, e conseguiram. Percebemos neste A Selva das Cidades uma desesperada busca de algo que realmente tenha 'algum' valor para a nossa já tão curta vida. Dessa vez os atores  buscam encontrar o valor da vida escondido nas poltronas da Caixa Cultural, no Rio - mas já os estiveram procurando entre os abandonados das ruas, em São Paulo, entre os perdidos de bar. E acabaram em um lugar que, para algumas pessoas é "considerado convencional": as cadeiras de um teatro. Trata-se de um pequeno teatro, de uns 150 lugares, se tanto, no qual o grupo "Mundana Companhia" tenta encontrar o sentido da vida. Eles tentam, se desiludem, bebem, amam, mas as três talentosas criaturas que acreditam que algo possa ser feito, Aury Porto, Cibele Forjaz e Luiza Lemmertz esperam que algo aconteça. A vida não dá sossego. E há  também Luah Guimarãez que também, para nossa alegria, acredita no projeto. E não só ela. Por algo lutamos, então. Como pensa Aury Porto.     

     E qual é a proposta de Aury? O tempo vai passando, os atores viram anjos (ou demônios) e a proposta continua interrogando: existe o verdadeiro teatro, existe um caminho?

    Cibele Forjaz e a "Mundana Companhia", nossa conhecida de outro momentos e outras direções - desde o surpreendente "O Idiota", de Dostoievski, que marcou  a diretora para  a nova sensibilidade cênica. Outros espetáculos vieram e hoje temos este "Na Selva das Cidades - Em Obras" e Brecht trazendo, em seu passar, a "Ocupação #16 - Artifício". Há toda uma explicação para esta formatação. E o personagem de um rico negociante de madeira faz a proposta, atraído pela inteligência de um jovem bibliotecário da Família Garga, e querendo reconhecer a capacidade do ser humano em um  "embate intelectual". Podemos criar as nossas leituras, neste "Em Obras". Tentarei, mas "Não Já". A peça é quase "uma questão de família", e os Garga, camponeses do interior, estão muito presentes em cena.

    Mas não é das famílias que devemos falar, devemos nos referir aos humanos.

    BB situa a peça em 1912 (um pouco antes da Primeira Guerra Mundial). Trata-se de um Brecht inspirado no livro "A Selva", de Upton Sinclair. Podemos imaginar. O  terceiro texto do jovem Brecht já se compara aos grandes de vida longa como Tchecov, Dostô, e o próprio Brecht . Depois vieram outras peças da Mundana Cia.  Ela começou a ser formada no início do séc. XXI, e houve até um tempo em que ela foi dirigida pelo russo Adolf Saphiro, em "O Duelo". E lá atrás, nos anos 60, o grande sucesso do Teatro Oficina foi-nos apresentado: "Na Selva das Cidades".

    Agora, em sua nova versão neste estranho mês de agosto - irá somente até o dia 26 no Rio - o público perceberá algumas pequenas modificações em cena.

      Citamos o elenco:  
     Aury Porto, grande entusiasta do projeto e seu criador, interpreta  C. Shlink. Carol Badra (Mãe Garga); Guilherme Calzavara (O Verme); João Bresser (John Garga), e também as já citadas Luah (Marie Garga) e Luiza (Jane Larry). Há também Mariano Mattos Martins (O Babuino), Sylvia Prado (Mãe Garga - substituição?), Vinicius Meloni (Pat Manky), e Washington Luis (George Garga). Os atores são excelentes e Luah nos passa a impressão de ter sido muito próxima de Regina Braga. Estranhas vivencias humanas. Deixarei a crítica para outra ocasião).

     Treinamento Corporal, Lu Favoreto; Tradução, Christine Rörig; Direção/Treinamento Cênico, Cibele Forjaz; Treinamento Vocal, Lucia Gayotto; Direção de Cena, Renato Bandi; Criação Musical, Guilherme Calzavara; Músico Marcelo Castilha.

     (A cenografia e concepção do cenário é outro caso à parte: a funcionalidade com que ela é operada coloca a "marca registrada de Forjaz" - e a sua determinação cênica, na forte tensão que se estabelece entre atores e público - tensão essa que Forjaz percebe e não deixa escapar em nenhum momento.

     Eis nossa homenagem à rápida passagem da Mundana Companhia pelo Rio de Janeiro. Aproveito para me despedir com este belo trecho de Brecht, que está no programa:

"Quanto tempo/Duram as obras?

Tanto quanto/ ainda não estão completas.

Em obras.

Pois enquanto exigem trabalho

Não entram em decadência" (BB).  

(FALAREMOS UM POUCO MAIS SOBRE A PEÇA, EM OUTRA OCASIÃO. NÃO DEIXEM DE ASSISTI-LA!)..