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segunda-feira, 23 de março de 2015

SALINAS, A ÚLTIMA VÉRTEBRA

Fotos Daniel Barbosa, de espetáculo "Salinas, a última vértebra", direção de Ana Teixeira e Stéphane Brodt - AMOK Teatro.

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
    
    Eis que o AMOK Teatro volta a se apresentar, no Rio de Janeiro. É sempre uma festa e uma demonstração de respeito ao público o que eles nos apresentam.  Desta vez, no Serviço Social do Comércio - SESC - de Copacabana. O espetáculo tem direção de Ana Teixeira e Stéphane Brodt. Eis que surge agora Salinas, a Última Vértebra, do texto de Laurent Gaudé. Antes de começarmos, é preciso apresentar Guadé. Trata-se de uma espécie rara, entre nossos autores, alguém que acredita que teatro abrange o mundo, e que podemos sair por aí, nós, o público e os atores, em mudança para um deserto encantado.

     Guadé acredita no poder da imprevisibilidade do teatro. E cita "Claudel", o autor que nos lançava ao mar como se fizéssemos parte daquele elemento. Assim sentimo-nos no deserto encantado de Guadé,  cheio de sons e gestos, que nos fazem viver intensamente aquela linguagem de espanto. E assim, o autor nos chama a atenção para o teatro de Claudel, e nós ficamos eletrizados, lembrando as aventuras de Doña Prouhèze (Le Soulier de Satin), e na mesma voltagem assistimos Salinas... a que foi retirada do deserto.  Mas o que fazemos agora são simplesmente as preliminares para prosseguir viagem.    
   
     E depois vem Stéphane Brodt, com o seu "savoir faire" e nunca saberemos quem é quem, neste espantoso casal formado pelo francês e pela talentosa brasileira Ana Teixeira. Dessa vez, a direção é de ambos.      O que se passa no palco não pode ser aprisionado como um estilo, uma escola: não é aristotélico, embora a purgação do público com a tragédia de "Salinas" torne-se evidente. É talvez um épico, contando a formação de um povo, seus mitos - a beleza de sua criação. E ficamos envolvidos nos acontecimentos de tal maneira que parece-nos ter vivido sempre o ritmo daqueles instrumentos, daqueles tambores soando com força, tocados por todo o elenco e, em particular, pelo Músico dos Djimbas, que cria os mais diversos momentos com a diversidade dos tímbales, dos instrumentos de corda, e outros instrumentos não menos encantados de Fábio Simões Soares. Entramos no deserto mágico, e não queremos mais sair dele.

     A música nos traz a linguagem fantástica do mito, uma "fuga" de  encontros e desencontros. O nascimento do ódio e a linguagem do amor. E nós nos envolvemos com aquelas almas divinizadas.  Há o sopro de Sissoko Djimba, o patriarca e sua alma, que tem o poder de mexer no tempo (interpretado por Sergio Ricardo Loureiro. Aliás, o elenco é parte do espanto que nos traz o espetáculo). Percebe-se uma pesquisa cuidadosa  dos diretores, e uma adesão total do elenco. São dez atores entregando-se ao poder que têm os espetáculos do AMOK Teatro.

     Enfatizamos a luta entre irmãos - entre os filhos que Salinas trouxe ao mundo - passageiros do ódio que se transforma em amor, interpretados por Kwane MKrumba (Reinaldo Junior) e Mumuyé Djimba (André Lemos). As lutas, o exercício dos corpos e as expressões são exatas.

     Salinas é interpretada por Ariane Hime, e Kano Djimba é Thiago Catarino (na foto). Os dois apresentam uma cena do encontro amoroso de sua juventude apaixonada, que é absolutamente original e emocionante. Seus gestos, danças e olhares são um encontro teatral sem precedentes. 
  
     Os figurinos de Ana e Stéphane dão beleza às cenas da juventude, e refletem, em seu tempo, a solidão da velhice. (Aqui abrimos um parêntesis para falar sobre a máscara facial da velhice desenhada nos atores, dando-lhes uma impressionante mudança através dos anos, em especial Mama Lita (Luciana Lopes), Khaya Djimba (Tatiana Tiburcio, a arrogante mãe carrasca, as duas quase irreconhecíves ), e Salinas (Ariane Hime). O cenário, também de concepção de Ana Teixeira e Stéphane Brodt, resolve-se com objetos de cena. A iluminação de Renato Machado faz parte da magia do espetáculo. Coreografia de Tatiana Tiburcio; confecção dos bonecos de Maria Adélia.      
  
     Há o oráculo, representado por Robson Freire e a mulheres jovens, como Alika, a bondosa (Sol Miranda); e Sowumba (a perversa), interpretada por Graciana Valladares. A Tradução é de Ana Teixeira. Não há como deixar de assistir a esta verdadeira saga de um povo, o nascedouro de um mito. PARABÉNS!      
   

sábado, 21 de março de 2015

BRILHO DA NOITE

Jorge Caetano em "Brilho da Noite", direção Marco André Nunes. (João Julio Mello). 
   
      IDA VICENZIA
     (da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
     (Especial)

       A única coisa que a música inglesa conseguiu foi o rictus selvagem do rock... e a poesia de Shakespeare! Clássicos, eles só tinham Haydn, que nem inglês era, mas austríaco. Mas de repente, a seleção feita por Jorge Caetano para seu show "Brilho da Noite", dirigido por Marco André Nunes, nos faz ver que as baladas mergulham em um mundo encantado, e podem ser até poéticas. Refiro-me à última música do show, "Jealous Guy", de John Lennon.      

     Não conhecemos "a cena musical que aconteceu nos bares Max Kansas City e CBGB", em Nova Iorque, mas concordamos com o ar blasé muito simpático da "Noite" de Jorge Caetano, e com o fato de ele fazer uma rápida "meditação relaxante" à indiana, para depois retomar o show. E também do acolhedor ar "pocket" do espetáculo! Mas só estas boas qualidades não fazem um show... Há personagens desnecessárias, que surgem sem acrescentar nada. Aí ficamos sem saber se é um show-teatro, ou somente um lugar para cantar músicas gostosas. Se for esta segunda opção, não há razão para intervalos com duvidosas apresentações de gestos e expressões corporais (destacamos o lustre brilhando na noite). Iluminação logradíssima de Renato Machado. Há uma suposta - e distraída - ligação entre cantor e bailarina (Marina Magalhães). Se for show-teatro está fora de tom. Dramaturgia de Pedro Koslovski, Roteiro Musical de Jorge Caetano, Marco André Nunes e Felipe Storino, que assina também a direção musical. Preparadora Vocal: Patricia Maia.  
   
      A voz de Jorge Caetano alcança com facilidade todos os tons e domina a cena. Aguardamos um show mais definido, como os das apresentações anteriores do cantor/ator: "Outside, um Musical Noir" (2011) foi o seu grande momento como interprete nesta difícil categoria. Depois vieram "A Porta da Frente" e "Edipop", 2014 (a este último não assisti), sempre na bem sucedida parceria com Marco André Nunes, Felipe Storino e Pedro Kosovski. Neste "Brilho da Noite", a destacar a atuação das "musicistas" Julie Wein, nos teclados; no violoncelo Paula Otero, e na percussão Isadora Medella (penso que o baixo é de Fifi Hudson) e na guitarra, Felipe Storino; bateria: Mauricio Chiari. Este "Brilho da Noite", com alguns ajustes, pode perfeitamente fazer excursões pelo Brasil. Há um "momento David Bowie" que parece mandar algum recado: "This is not America". E há Jocelyn Scofield ("Bang-Bang"). Músicas de Lou Reed; Celso Blues Boys ("De um Jeito Blues"), e muitos outros bons momentos. O melhor deles, é claro, fica com John Lennon.

          
         

sexta-feira, 6 de março de 2015

UM ESTRANHO NO NINHO

Elenco de "Um Estranho no Ninho", direção Bruce Gomlevsky.
Da esquerda para a direita: Charles Asevedo (Chefe Brodem), Helena Varvaki (Enfermeira 
Ratched), Vitor Thiré (Billy Bibbit), Tatsu Carvalho (R.P.McMurphy),  Julio Prata (Ruckley), Marcelo Morato (Cheswick),  Ricardo Ventura (Scalon), Felipe Martins (Dale Harding) 
e José Guilherme Guimarães (Martini).  (Foto Felipe Diniz).
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
     
     Rio de Janeiro, Teatro do Centro Cultural da Justiça Federal, mês de março de 2015, em cartaz, encenada pela primeira vez no Brasil, "Um Estranho no Ninho", adaptação para teatro feita por Dale Wasserman, do romance de Ken Kasey. É quase impossível fazer uma crítica a "Um Estranho no Ninho" sem cair na pergunta: por que este tema, se os manicômios já  resolveram todos os problemas dos esquizofrênicos, e Cia.? Porém, assistindo a este "Estranho" tão próximo a nós, vamos percebendo que todos os problemas estão aí e ainda  envolvem "aquele" problema: o financeiro. Trata-se de pessoas que possuem famílias que lhes proporciona(va)m, através de taxas e cooperações, a possível vida daqueles "métodos  científicos". Sabemos que, ainda em nossos dias, camuflados atrás das portas secretas dos hospitais, qualquer hospital, há o tratamento doente dado aos doentes... e a maneira de perpetuá-lo é justamente através da experiência dos "métodos científicos" e do dinheiro. Ninguém sabe nada de nada. 


     Pois bem: o pobre Mc Murphy, personagem inquieta que se julga muito esperto, resolve, para evitar a cadeia, passar o seu tempo de retenção em um asilo de loucos. Em outras palavras: resolve passar por louco. Acontece que ele é um lúcido que percebe, imediatamente, a fraude que sustenta a organização psiquiátrica. E aí começam os seus problemas. Claro que não vamos narrar a historia, mas nos perguntar por que Ken Kasey vai, aos poucos, se tornando tão... atual! A verdade é que nada mudou, desde os tempos não muito remotos de Kasey - dos beatniks e dos hippies - e Dale  Wasserman  até nossos dias "medievais". Há algo que não pode ser solucionado: o ser humano. Sim, aquele mesmo, o "ser" inviável. Deixemos as conclusões para quem vai assistir a peça. 

     São dezesseis atores dividindo, com talento, o palco. O "morceau de bravure" que é o espetáculo deve-se ao diretor Bruce Gomlevsky. Como não sabemos o tempo que foi necessário para erguer este trabalho, chegamos à conclusão de que os atores foram escolhidos com muito cuidado, pois a intervenção precisa, ajustada ao tempo do drama, só se consegue com atores muito especiais.

    Não há destaques, mas frases que se destacam, como as de Mc Murphy, no que se refere a cada um de seus companheiros - Mc é um "ser humano viável" - fazendo-os perceber, através da ação e da palavra, a força que cada um possui. Trata-se de um "forte". (Tatsu Carvalho (Mc Murphy), é um ator surpreendente). Também é surpreendente o inesperado discurso racional - e intelectual - de Dale Harding, o personagem interpretado por Felipe Martins. Harding nos brinda com seguras, e às vezes bem humoradas observações, principalmente quando se refere às semelhanças dos pacientes com os personagens de Kafka ou Mark Twain (não esquecendo que há um adolescente entre eles, interpretado por Vitor Thiré, uma revelação). Temos vontade de estrangular a enfermeira Miss Ratched (uma terrível Helena Varvaki!), e temer a propositada "contenção" do especialista em almas humanas Dr. Spivey (Isaac Bardavid). Charles Asevedo, como o índio - ou o que foi um dia um índio - o Chefe Bromden, a mais impressionante testemunha do que pode fazer um ser humano com seu semelhante, principalmente quando ele é o "diferente". Enfim, esta peça é uma construção de estímulos e respostas (pavlovianos?) aos que podem ser julgados "os mais fracos". Mas nem sempre eles são os perdedores.  

     Há ainda o desempenho das duas "amigas" de Mc Murphy, interpretando mulheres livres - e belas - como Candy Starr e Sandra, (Hylka Maria e Tatiana Muniz). E os loucos convincentes interpretados por Junior Prata, Marcelo Morato, Ricardo Ventura, e Zé Guilherme Guimarães, em trabalhos marcantes. A assistente da enfermagem, Srta. Flinn, interpretada por Lorena Sá Ribeiro, é justamente o coração tumultuado que se espera de uma assistente de enfermagem numa casa de loucos. Há ainda os auxiliares, Warren, Williams e Turkle (Ricardo Lopes, Rafael Oliveira e Henrique Gottardo), passiveis de corrupção. Esta peça conta com o cenário de Pati Faedo, onde tudo é muito bem resolvido, onde tudo é essencial. Na iluminação:  efeitos de luz muito acertados de Elisa Tandeta. A trilha original resgata músicas agitadas, e estrondosos efeitos de ambientação: um trabalho de Mauro Berman. Ainda os figurinos corretos (sem exageros), de Alessandra Padilha e Jerry Rodrigues. O visagismo é de Uirande Holanda.

Ficha técnica: uma peça de Dale Wasserman, baseada no romance de Ken Kesey, tradução de Ricardo Ventura; direção Bruce Gomlevsky; Assistente de Direção: Lorena Sá Ribeiro; Direção de Produção: Rafael Fleury e Tatsu Carvalho; Cenário (incrível!) de Pati Faedo; Iluminação: Elise Tandeta; Figurinos: Alessandra Padilha e Jerry Rodrigues; Fotos de Felipe Diniz. Assessoria de Imprensa Lu Nabuco.  Trata-se de um trabalho extremamente profissional.
VALE CONFERIR ESTA SELVAGEM EXPERIENCIA!  
          
               



          
                
          
               

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A VIDA SEXUAL DA MULHER FEIA

Otavio Müller em "A Vida Sexual da Mulher Feia", direção e atuação de Otavio Müller
(foto Lenise Pinheiro) 
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
     Claudia Tajes é o mais recente sucesso editorial gaúcho. Com uma coluna na Zero Hora e vários livros publicados, entre eles As Pernas de Úrsula e Só as Mulheres e as Baratas Sobreviverão, viu transformado em monólogo o seu A Vida Sexual da Mulher Feia, cuja adaptação é da (também brilhante) carioca Julia Spadaccini. O ator e diretor é Otavio Müller, com supervisão do espetáculo feita por Amir Haddad.
     Então vejamos: o que Tajes fez com seu livro, uma espécie de denúncia da situação sexual das mulheres, feias ou bonitas, foi transformado em uma história de superação. Nada mais atual e oportuno, para veicular o talento de Otavio Müller. Ele simplesmente consegue, na cena, uma transformação espantosa, na qual retrata desde as pessoas que influenciaram a travessia de Jucianara (parece que rebatizada de Lucineide, no monólogo), e seus argumentos combativos, em defesa de sua conturbada vida de feiura lúcida e assumida.
     Então Otavio Müller faz a festa, desde o início, em sua passagem pela platéia, com o teatro lotado de belas mulheres, e homens idem, cumprimentando os espectadores como se amigos de longa data fossem (e talvez sejam, mesmo, por causa de TV), antecipando o que virá depois. Meu Deus, se aquilo que ele fez no palco se chama comédia em pé, me pegou de surpresa. Mas não é, apesar de Müller, uma vez em cena, incitar o público a antecipar, com entusiasmo, o que virá depois - na agitada vida amorosa dessa mulher. E não é que, no final, o inacreditável ator se transforma em uma feia irresistivelmente sedutora? Bem... estou antecipando o final da peça. Não devia. Porém, o que vemos no palco torna qualquer crítica sui generis. As regras voltaram aos tempos de Téspis. Talvez, o que aconteceu no Clara Nunes seja o verdadeiro teatro, em seu inicio, onde a participação do povo era constante. E o ator consegue isso da sofisticada platéia de um teatro na Gávea...   
     Bem, a história é conhecida, trata-se do nascimento da mulher horrorosa! E de seu futuro. Tudo é pensado, nos mínimos detalhes, até a possibilidade de Lucineide se transformar em modelo de Botero... Divertidíssimo. Como não temos ficha técnica, vão as observações do acabamento do espetáculo. Projeções de tela com os personagens que influenciaram a vida de Lucineide, todos com "alguma coisa" de Otavio Müller... Iluminação excelente, ambas, projeção e luz amplificando, em nossa imaginação, o que se passa no palco. Perucas e figurinos também atuam, para complementar o desempenho do ator. Há um suporte para os figurinos, e uma poltrona, como os únicos objetos de cena, porém o ator utiliza também as cortinas (?), do Clara Nunes, para intensificar o seu desempenho. Inacreditável. Músicas? Escolhidas por Lucineide/Jucianara.   
VALE A PENA ASSISTIR 'A VIDA SEXUAL DA MULHER FEIA'.         


sábado, 31 de janeiro de 2015

PARA OS QUE ESTÃO EM CASA

João Velho, Ana Abbott e Renato Livera em "Para os que estão em casa", dramaturgia e direção Leonardo Netto (foto de Julia Ronái). 
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
     Leonardo Netto, que tantas surpresas boas já nos deu, como ator, agora vem nos surpreender como diretor, principalmente, e autor. Sua dramaturgia é livremente inspirada em um filme chamado Denise Calls Up, dirigido por Hal Salwen, um cineasta independente capturado pela maluquice cibernética de nossa vida pós-internet. Pela primeira vez, em teatro, o assunto foi abordado como merece, ou seja, como a mudança drástica de nossa percepção da vida. A impressão que fica é de que as pessoas estão descartando seus semelhantes, com medo de se envolver e perder a sua individualidade.
     A sensação do público é de estar assistindo ao nascimento da fobia social. O egoísmo sobrepuja a sociabilidade, ao ponto de invejarmos o amor e a solicitude demonstrados, em vídeo, por uma família de chipanzés (magnífica idéia do diretor, daí o destaque para a sua criatividade). Leonardo Netto possui a capacidade de dar dinamismo a um assunto que poderia ser repetitivo, pois conversas ao telefone costumam ser borings. As cenas dependem muito dessas conversas telefônicas, o que as salva é a ação ininterrupta dada pelo diretor, um timming desesperado que faz a cabeça do publico responder a mil. O mundo dos "fonomaniacos", sua fobia pelo contato imediato nos revela a dimensão de nossa desumanização.  
     O termômetro da importância de uma iniciativa artística mede-se, quase sempre, pela reação do público. À saída do espetáculo percebemos comentários e raciocínios a respeito do tema. Tudo muito preocupante. E atual. Uma dominação através da máquina? Do idioma que a faz circular? O que são cookies, a não ser bolinhos? O que são chackers, a não ser bolachinhas? Non sense. Quem não conhece esta "linguagem" é considerado "por fora". E nos transformaremos em olhos, não mais em seres humanos. Em olhos desejantes. Nesta jaula desumana, como destacar a atuação dos atores? Pela inflexão das vozes? Pela expressão corporal? Comecemos então pela surpreendente movimentação em torno de si mesmo do ator Renato Livera, interpretando Jorge. Temos a impressão de que ele já foi bailarino, antes de ser ator (um ótimo ator), pois seu domínio de corpo é total. As interpretações são tocantes, pela garra com que os atores, todos jovens, defendem os seus personagens.  Sim, estamos em um mundo que se transforma. Estamos falando na geração atual, uma geração independente? Talvez não tão independente assim.
     Todos passam um recado de independência, e de auto suficiência. Como a design de ambientes, interpretada por Ana Abbot (Vera); ou a tradutora "impertinente" Lídia (Adassa Martins), que já não suporta a babaquice de seu patrão e o manda passear. Estas atitudes revelam, contraditoriamente, um futuro bem melhor, ao menos no que se refere à independência. Pura fantasia. E as mulheres vão mais longe ainda. Há a grávida apaixonada (Beatriz Bertu, interpretando Alice), que revela a sua paixão através do telefone. Ela deseja viver a experiência de ser mãe "sem a interferência de estranhos". E o pai da criança, que só as conhece - mãe e filha - depois do nascimento da menina? Ao menos as conhece.  Este casal é o único que quebra as regras. Assistam a peça também para saber com foi feita a concepção da criança. Espírito Santo? Telepatia?  
     É, até isso, Leonardo Netto, o nosso H.G.Wells da eletrônica,  imaginou. Beatriz Bertu segura, com extrema ternura e determinação, a sua vontade de ser mãe independente (parece que determinação, além da liberdade, é a mola que move as mulheres do século XXI). Há ainda a fóbica assumida, Guida, interpretada por Isabel Lobo. Essa personagem é capaz de todas as mentiras, para não enfrentar situações concretas.
     E os homens, como ficam eles neste mundo novo? São três homens e três mulheres, seis personagens ocupando este universo. A homossexualidade não é colocada em questão, apesar de ser um grande motor do século XXI. Na peça de Leonardo homens gostam de mulheres, e mulheres gostam de homens. As amizades, se as há, não passam de amizades - nada de frases freudianas a respeito da impossibilidade da amizade entre seres humanos. Relevando esta questão, parece que só há um ser humano normal nesta historia toda, ou o que hoje consideramos normal, ou seja, o homem que tem emoções além das que a internet e os iPods da vida podem lhe oferecer. Este homem é representado com arrebatamento por João Velho (parece que este ator já criou um estilo meio Actor's Studio de ser).
      ...E há também o ator que fica com a melhor frase nesta história toda: Rodrigo Turazzi (Fred), que se horroriza com a agressividade da internet e internautas, e imagina o que seria capaz de fazer uma pessoa solitária, com uma arma na mão. O seu pensamento deixa a nu o terror que habita nossos corações, com a lembrança de carnificinas praticadas por remotos solitários, cuja única companhia é a internet... e seus jogos agressivos. Mas não é só de frases de alerta que vive Fred. Ele conserva seu amor pela música, e dedilha o violão. Talvez nem tudo esteja perdido.
     Amarguras à parte, há uma espécie de cumplicidade nesta comunicação incessante entre jovens: alguns deles só se conhecem por telefone, o que torna seu mundo surreal...  
     Se é verdade que o teatro pode modificar o mundo, este é um bom início para tal proeza: Leonardo Netto acertou em cheio ao tentar abrir os olhos do público para essa possibilidade.
     Na ficha técnica desta produção independente temos a melhor equipe: Texto, Concepão e Direção: Leonardo Netto; Participação em vídeo Andrea Dantas e Santiago Trémouroux; Cenário: simples, comporta várias experiências, refletindo a particularidade de cada jovem em seu habitat, é do mestre José Dias; Iluminação: outro mestre, Aurélio De Simoni; Figurinos de Marcelo Olinto; Os Vídeos são de Leonardo Netto e Renato Livera; Trilha Sonora (que reflete essa mania do idioma inglês entre os jovens), Leonardo Netto.
VALE ASSISTIR A ESTE ESPETÁCULO.                                 


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

NO SE PUEDE VIVIR SIN AMOR

Nara Keiserman em No se puede VIVIR sin amor, de Caio Fernando Abreu (foto Demétrio Nicolau).   
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
     Em cartaz no SESC Copa, na sala multiuso, um espetáculo de bolso dirigido por Demétrio Nicolau e interpretado por Nara Keiserman: No se puede VIVIR sin amor. São reminiscências de pensamentos e historias de Caio Fernando Abreu. Nunca tínhamos visto Nara em solo, conhecíamos, por fama, a sua maneira de trabalhar com os atores, seu método de sensibilização do ator. Tivemos ocasião de constatar, no início de espetáculo, o quão aprofundada e bem sucedida é esta sensibilização. Nos primeiros minutos do espetáculo Nara apresenta seu método, e é algo como um ritual. Sua respiração, teste de alcance de voz, expressão corporal, nos levam a certeza que vamos assistir a algo de qualidade. Sim, porque, desde os primeiros momentos de tal sinalização, Nara nos prepara para o que virá depois.
     Nara Keiserman possui um misto de agressividade e doçura, na vida e no palco. Esta criatura espiritualizada possui um apelo que atua como um imã, e sua doce força se desenvolve no palco. Trata-se de um espetáculo simples, despretensioso, e seu encanto esta precisamente nesta simplicidade, e na atuação de Nara. São várias histórias e excertos de contos, cartas, diários, que vão sendo narrados. E nos surpreende, do ponto de vista da autoria, como Caio Fernando Abreu possui esta rara habilidade para desenvolver o pensamento da mulher.
     Há surpreendentes monólogos, escritos por Caio e colocados em cena por Nara, como o episódio da loura "enxuta e gostosa", a mulher de trinta que transforma Naira Keiserman em uma bacante. É uma delícia ver as mudanças da atriz, e a iluminação (Demétrio Nicolau), se alternando a cada movimentação de cena, e dando dinamismo ao espetáculo.
     Vemos que atriz e diretor não resistem à tentação de transformar o espetáculo em um depoimento pessoal, e emotivo, narrando os últimos momentos de Caio Fernando. Talvez sejam estes momentos os que menos somam ao inesperado das cenas, porém eles se alternam com o que poderíamos chamar "o conto feliz" imaginado pelo autor, onde tudo dá certo.
     Nunca tínhamos visto Nara Keiserman em cena. Revela-se uma atriz de recursos admiráveis, uma espécie de Annie Girardoux madura, com uma força e delicadeza ancestrais. Nara é uma, e são muitas. Vale a pena assistir a esta atriz/mulher. A dramaturgia também é de Nara. Cartas carinhosas de Caio Fernando Abreu, dirigidas a ela e ao se ex-companheiro, o ator Jose de Abreu; ou mesmo a carta em que Abreu, (Caio),  agradece a montagem de Morangos Mofados, por ela realizada ainda em seus tempos de Porto Alegre. Sim, porque Nara Keiserman é gaúcha, e começou seu teatro no Grupo de Teatro Província, em Porto Alegre; no Rio trabalhou com Luiz Artur Nunes, no Núcleo Carioca de Teatro. Agora ela pertence ao grupo Atores Rapsodos.
     O que mais impressiona nesta atriz é a serenidade. E a busca de seu talento. Busca e encontro plenamente realizados. Ah! Íamos esquecendo: Nara cantora. O feitiço pela Bahia - de Caio e da atriz? - são representados pelas canções e citações gestuais de festas baianas. O figurino, branco, saia longa, é de Carlos Alberto Nunes. A Bahia representada? O Cenário, também de Nunes, é uma espécie de camarim improvisado, e palco nu. O "caminho das estrelas" o faz Nicolau com a luz. Diz Nara, deixando claro a espiritualidade que a habita: " a especialidade, concebida por Demetrio Nicolau, forma uma estrela de seis pontas. Considerando o centro, são os sete Chakras. Defini o lugar onde faço cada texto de acordo com o que considero ser seu tema (...) em associação com as características dos Chackras." Orientação musical Alba Lírio; Produção: Natasha Corbelino; Assessoria de Imprensa: Sheila Gomes.

Não perca esta oportunidade de se emocionar com este No se puede VIVIR sin amor.                                                                                       

sábado, 10 de janeiro de 2015

EU E ELA

ELA e EU: Ernesto Piccolo, diretor, Claudia Mauro, atriz,  e Guilherme Fiuza, autor.


 IDA VICENZIA
da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
     EU e ELA não é um texto de teatro, mas "variações em torno de um tema" - sobre a barata. O autor, Guilherme Fiuza, no programa de seu primeiro texto teatral, dá uma piscadela de olhos para os "acadêmicos"... Não! Não vamos citar Kafka, nem pensar no funcionário público Gregor Samsa, que virou uma barata, porém temas com este inseto podem ser muito interessantes.

     Não é o caso de EU e ELA. Há um primeiro momento, quando a protagonista (Claudia Mauro), se encontra com a barata.  Estes são minutos de um humor irresistível. A partir daí pensamos: "e agora, como vão autor e diretor (Ernesto Piccolo) manter este tema?". As possibilidades são muitas, o autor optou por exacerbar cenas do cotidiano. Apesar da repetição, às vezes cansativa, do mesmo tema, podemos colher, aqui e ali frases inteligentes. Fiuza aproveita para abordar, através do tema da barata, o relacionamento entre casais; ou o desempenho de uma dupla de policiais (um homem e uma mulher) em situação de emergência; ou, ainda, algumas reflexões da protagonista, que soam como uma crítica à inverossimilhança do texto.

     Não negamos que se trata de um autor irônico, que deixa entrever alguma crítica aos desacertos de nosso frágil espírito humano. Tudo bem. Porém, para o crítico, o fato de assistir a uma estréia traz em si um toque de sadismo. Sim, ele vai perceber, nos mínimos detalhes, o que não funciona, como, por exemplo, a visão (na platéia) dos técnicos nos bastidores trabalhando para que tudo dê certo com a barata. Não dá, e não é culpa dos técnicos... é da estreia! A barata é uma ideia maravilhosa, existe uma mal explorada cena de pesadelo (que poderia ser genial), da pobre mulher fóbica sonhando, aterrorizada, com uma barata que adquire proporções humanas. Perde-se a cena pelo fato de o autor e diretor não enfatizarem, no sonho, a reação da fóbica vitima da barata.

     Enfim, Claudia Mauro dá o que de melhor uma atriz pode dar, porém as situações repetitivas se esgotam em si. Há frases interessantes, como a constatação da vítima (Claudia), que a barata é burra, pois voa em direção ao seu pedrador ... e aí o autor nos compara ao tubarão... julgando o ser humano um pedrador. Tudo bem, mas essa comparação é milenar. Neste texto, que pode ser de teatro - parafraseando Mário de Andrade pode-se dizer "que é teatro tudo o que chamamos de teatro" - há um descompasso na narrativa.  
  
     Os dois atores que completam as cenas, Stella Brajterman e André Dale (lembramos algumas vezes, na interpretação de Dale,  do ator André Vale - só que mais bonito), são muito bons. Há momentos de comédia inteligente, como a cena em que os dois (Brajterman e Dale) interpretam o exagero policial dos agentes chamados para liquidar com a barata. Outra situação, essa de auto ironia, é a referência - discreta - ao relacionamento de um casal, onde a "histérica" tem que conviver com o "intelectual". 

     Quanto à protagonista, lembramos da grande comédia musical Randevu do Avesso e o encontro inesquecível com Claudia Mauro. Neste EU e ELA a atriz também apresenta seus dotes de bailarina dançando o "Funk da Barata", porém sem o mesmo impacto do Randevu. Como Claudia sabe muito bem, é difícil fazer comédia, trata-se de uma máquina azeitada.

     Na ficha técnica temos o nosso querido Ernesto Piccolo (que ainda vai reajustar o espetáculo), na direção. A ótima Clívia Cohen com a sua criação da barata gigante, um grande estímulo para alavancar o espetáculo, trazendo o inesperado. Os cenários, que aproveitam bem o espaço reduzido do Teatro Ipanema, são um apoio essencial ao desempenho do atores. Os figurinos do "dia a dia" são de Maria Estephania. Iluminação, Tiago e Fernanda Mantovani. O operador de som, Janser Barreto, teve alguns problemas no dia da estréia, como o teclado da internet e o som do celular. Excessivo, o teclado (parecia uma máquina de escrever antiga), e fora de ajuste o celular. Coisas da estréia. Claudio Baltar faz a engenharia circense (da barata!) e Dora Pellegrino reaparece como Assistente de Direção. A trilha sonora é de Rodrigo Braga, e o "Funk da Barata", dançado por Claudia Mauro, é de autoria de Liah Soares e Guilherme Fiuza. Preparação vocal Rose Gonçalves. Assessoria de Imprensa,  Minas de Ideias.