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quarta-feira, 27 de abril de 2016

"DOROTEIA"


                                                   "Doroteia", de Nelson Rodrigues, direção
                                                                        Jorge Farjalla
                                                         atrizes Murtinho, Spiller, Deschamps e Farias.
                                                                          (Fotos Carol Beiriz)    

                        IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
     (Especial)
         
     "Doroteia", escrita por Nelson Rodrigues em 1949, oferece uma visão extravagante sobre a mulher e suas limitações. Apesar de o autor ter identificado esta peça como "uma farsa irresponsável" - ou por causa - tudo é permitido fazer-se com ela, em termos de montagem. Um exemplo do que estamos falando é a realizada no Rio de Janeiro, neste mês de abril, com direção de Jorge Farjalla, no belo espaço cênico do Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico.
     Em tempo: "Doroteia" foi a peça escolhida pela atriz Rosamaria Murtinho para celebrar os 60 anos de sua carreira como atriz. Pelo que pudemos observar, foi uma escolha desafiadora, pois Rosa interpreta D. Flavia, a mais velha das três mulheres que não dormem porque não querem sonhar... com homens! Essa historia ultrapassada - um mito, como querem alguns - apresenta a mulher com medo do homem e do sexo, preferindo todo o prazer que podem usufruir do sexo pela masturbação. Enfim, é um quadro que se adapta a uma época repressiva, a primeira metade do século XX, quando a mulher só podia escolher entre ser prostituta ou santa. As mulheres de Nelson, como sabemos, não se adaptam a nenhum destes rótulos, elas são, em geral, umas loucas.
     Loucura é o procedimento de D. Flavia, interpretada com garra e sofrimento por Rosamaria Murtinho. O que torna hilária, em nossos dias, tal historia, é que as mulheres, atualmente, estão preocupadas com outros temas, ficando a repressão e a feiúra para tempos passados. Mas sempre é bom lembrá-las, ainda mais na concepção alucinada (no bom sentido) de Jorge Farjalla.
     Três viúvas, interpretadas por Rosamaria Murtinho, Alexia Dechamps e Jaqueline Farias se retiram, em isolamento, o qual só lhes proporciona mal estar e angustia. Em sua vida lúgubre eis que surge a "mulher" - a prostituta bela,  que também vai ser corrompida pelo ódio ao homem. Diz Sábato Magaldi que Nelson Rodrigues está falando em arquétipos, mitos e inconsciente primitivo, mas o que vemos, com certeza, na encenação de Jorge Farjalla, é um grupo de mulheres vivendo a tragédia da finitude e do abandono. Vejamos o que o diretor mineiro fez, em sua versão da peça do autor pernambucano, dando-nos tragédia grega e teatro simbolista (aquele das pausas, luz e sombra, etc...)
     O jovem diretor mineiro, que admira e trabalha as peças de Nelson Rodrigues há vários anos, pensa um destino mitológico para essas "feras  insepultas", essas viúvas de roupagens setecentistas e pegada trágica. Porém, as mulheres de Farjalla (e de Nelson, nesta peça), não oferecem a grandiosidade da causa do amor traído, elas apenas destilam ódio ao masculino. Mas, o bom de se ver, na peça de Farjalla, são as surpresas, interrupções que certas cenas nos proporcionam, como o monólogo de Alexia Deschamps, que não imaginávamos uma atriz com tal ritmo teatral e tal poder de comunicação, ou de Dida Camero, como D. Assunta da Abadia, cuja intervenção dá energia "e voz cáustica" aos acontecimentos da mansão da D. Flavia. Ótimos, os desempenhos das duas. E Anna Machado, interpretando Das Dores, a filha que não sabe estar morta. Este é o mais inusitado e original do texto de Nelson Rodrigues, mas registramos também a viúva Carmelita, de Jaqueline Farias, papel bem defendido, apesar de não apresentar  maiores momentos, a não ser por ocasião de sua morte... mas aí nos antecipamos aos acontecimentos.
     Em termos de interpretação, Leticia Spiller, como a titular "Doroteia", poderia ser mais "diabólica" em sua bondade e arrependimento. Uma Maria Madalena arrependida? Como seria essa atuação? Leticia Spiller sempre nos oferece atuações explosivas, com seu canto e nudez infratoras, embora essa Doroteia não nos ofereça nada além do esperado. Não há grandes momentos para a pecadora, e o texto de Nelson Rodrigues, principalmente Doroteia, poderia proporcionar grandes momentos para Leticia: estes o diretor  Farjalla os criou. E aí vem a observação sobre "música e cenário": ao som de uma floresta ameríndia, com seus "troncos-cobras medusianas", vamos delimitando a ação - e tornando-a crível! - com suas litanias e "misas criollas" que dão o tom para a ação, complementando a fala das atrizes e alcançando o surreal do espetáculo. A nudez de Doroteia é um desses momentos. Sim, porque a montagem de Farjalla é surrealista!... e simbólica. Daí a sensação de alguma coisa estranha rondar a ação, algo estático e nebuloso... Às vezes o diretor consegue passar essa sensação. Sim, para assistir a "Doroteia de Farjalla", há que ter um contato mais direto com "o simbolismo". 
     ... Tal "escola" é refletida no cenário "penumbroso" de José Dias e na música que a acompanha, sendo "Besa-me Mucho" o único tema que a extrapola, dando "respiração" à prostituta Doroteia, em uma linguagem que alcança as intenções do autor. E, ao mesmo tempo que a peça "Doroteia" é a apoteose das "fofoqueiras" de Nelson, dando-nos o clima de mentira e despudor (e a música original de João Paulo Mendonça, Leila Pinheiro, Fernando Gajo e Rafael Kalil nos dão esse clima), há momentos em que pisamos em terra firme, pois "Doroteia", assim como as personagens de Tennessee Williams, também necessita "da bondade de estranhos" e, nessa categoria, citamos o diretor Farjalla, que tornou possível uma leitura diferenciada dessa peça tão cheia de armadilhas.       
     O cenário poderoso de José Dias, com seus troncos de árvores e os  claro/escuros (iluminação de Patricia Ferraz, Jorge Farjalla e José Dias),  nos dão o clima de horror que a rigidez da casa das três mulheres necessita. Na concepção do cenário, o espaço cênico pode se transformar em uma selva "medusiana", na qual os monstros estão soltos... Também encarregado dessa fantasia está João Paulo Mendonça, o diretor musical, seus músicos e os homens jarros (e botas), que nesta montagem se materializam (André Americo, Daniel Martins, Du Machado, Fernando Gajo Pablo Vares e Rafael Kalil). Eles fazem um bom contraponto com a solidão e o desespero das cinco mulheres.
     Neste clima estranho se desenrola o drama que Sábato Magaldi considerou "mítico", fixado por Lulu Areal fixa esse "clima estranho", acentuado pelos figurinos dos músicos, parecem ter saído de uma miscigenação com a floresta e seus mitos. E, voltando a Letícia Spiller e sua "vaporosa" Doroteia (do início da peça), e D. Assunta da Abadia (Dida Camero), dois vitais exemplos do que poderia ter sido o ritmo do (já cansado) comando da matriarca, personificada por Rosamaria Murtinho (D. Flavia). O único grande momento da matriarca é quando ela determina, em voz possante, a morte das viúvas que a traíram - ao se emocionarem com os corpos dos homens nus. (Para quem não sabe: "Doroteia" é a apoteose das mulheres que renegam os homens). Assistência de direção: Diogo Pasquim e Raphaela Tafuri. Podemos considerar um dos melhores momentos dessa montagem as "litanias" e o ótimo ritmo caribenho da "Misa Criolla" (trechos), que relembra a marca latino-americana das peças de Nelson Rodrigues! VALE A PENA ASSISTIR   "DOROTEIA"  -   É  UM  ESPETÁCULO CURIOSO.     EM CENA  ATÉ  PRIMEIRO   DE   MAIO.                        
 

quinta-feira, 7 de abril de 2016

"NORDESTINOS"

Espetáculo "Nordestinos", direção Tuca Andrada, texto Walter Daguerre, inspiração de Alexandre Lino. Cena com os  "painéis de fuxico". (Foto Janderson Pires)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)
(Especial)

NORDESTINOS

Atualmente temos, no Rio de Janeiro, um criador-inspirador de textos dramáticos de grande originalidade. O nome dele é Alexandre Lino. Primeiro surpreendeu-nos com “Nordestinos”, e agora estreia com outro texto por ele imaginado: “Volúpia  da Cegueira”, primeira direção de Lino, que promete ser de grande interesse para a plateia amante de teatro. Alexandre limita-se a imaginar seus temas, convidando dramaturgos para dar-lhes o tratamento final... até o dia em que, ele próprio, se reconheça dramaturgo – e esse dia não vai tardar. Tive a alegria de assistir, há poucos dias, já se despedindo do Rio de Janeiro e do Teatro Eva Herz,  “Nordestinos”, texto de Walter Daguerre, criação de Alexandre Lino e direção de Tuca Andrada. Chamara-me a atenção, a peça, por ocasião de sua estreia, no Teatro do SESI/RJ, mas compromissos impediram-me a presença. “Nordestinos” tomou-nos de surpresa, e escrever sobre ele é imprescindível.
     O que leva um ser humano a reconhecer-se artista? Há vários caminhos, e o de Alexandre Lino é marcante: em seu “relato documental” transformado em dramaturgia por Daguerre, Alexandre surpreende-nos com a inesperada tomada de consciência de sua vocação. Descontente com a experiência de trabalho no Rio de Janeiro, ouviu o conselho do irmão que, por considerá-lo tímido, receitou-lhe “um curso de teatro”. Foi o suficiente para o pernambucano Lino se reconhecer (e ser reconhecido) como ator!    
     Após essa brilhante descoberta, Alexandre Lino criou uma Companhia de Teatro, dedicada ao ‘Teatro Documentario’. “Nordestinos” é a sua quarta experiência no gênero, e a sua atual “Documental Cia.” nos brinda com várias outras escolhas bem sucedidas.  O espetáculo a que me refiro se inicia com uma demonstração de teatro de mamulengos indicando o caminho que vamos seguir, nós, o público. Ideia excelente, que introduz a plateia em um mundo muito particular. E, mais interessante ainda, o seu idealizador insere no espetáculo um ‘glossário’ para explicar o mundo e as palavras daquele “país-região”: o Nordeste. Diga-se de passagem (e todos nós o sabemos), o nosso país-continente possui, em cada região, uma maneira peculiar de falar. Assim, somos confrontados com uma divertida brincadeira de reconhecimento de nossas diferenças. Um achado.
     O idealizador do espetáculo também participa do elenco, ou participava... pois agora esstá envolvido com “Volúpia da Cegueira”, e não o assistimos em “Nordestinos”. Essa peça segue em apresentação no Rio e depois viaja por diversas cidades brasileiras. A direção, precisa e divertida, é de Tuca Andrada, um mestre em espetáculos dessa categoria: comédia inteligente! Vamos ao espetáculo. Antes, porém, uma observação: o dia em que o assistimos, “Alexandre”, um dos personagens, era interpretado pelo ator Murilo Sampaio, em ótima interpretação do ‘alter ego’ de Alexandre Lino.
     A historia é contada em episódios, desenvolvidos graças ao expediente criado pelo seu idealizador, que solicitou cartas de nordestinos radicados no Sul (Rio de Janeiro e São Paulo), contando as suas aventuras na região. O assunto foi tanto que rendeu um livro, editado pela Giostri, e um documentario que está sendo filmado para ser apresentado ao público nordestino, em noite de convite especial.
     São quatro atores contando as aventuras que todos nós conhecemos,  historias do Nordeste e o confronto com o Sul. Mas há um novo olhar sobre a questão, e estamos bem longe de tudo o que nos contou João Cabral de Melo Neto em “Morte e Vida Severina”. É bem melhor assim, pois o que assistimos foi uma historia contada, com altos e baixos, mas muita alegria. Os personagens nos relembram, comunicando-nos: “poderiamos ter montado Saussuna, ou Nelson Rodrigues” (que também são pernambucanos, como  Lino!), mas resolveram trilhar o próprio caminho. Excelente ideia. O elenco, formado pelo cearense Paulo Roque, a paraibana Rose Germano, e a pernambucana Erlene Melo, salvo engano, já nossa conhecida da peça  “Domésticas”, e Murilo Sampaio, um advogado-ator, que está substituindo Alexandre Lino. O olhar alegre (e digno), que eles nos transmitem, é um fator de encantamento. São pequenos episódios, rimados pela musica de Alexandre Elias, encarregado desse acerto musical que é a historia da musica do Nordeste. Há despedidas, à la Caetano Veloso, sim, mas breve e passageira, como são as canções da esperança de tempos melhores. E Alexandre Elias acertou.         

     A iluminação de Renato Machado - como sempre - é um espetáculo à parte. Iluminador de grande sensibilidade, ele nos brinda, em um dado momento do espetáculo, com “silhuetas” refletindo a ação dos personagens. Karlla De Lucca, cenógrafa e figurinista, prepara o palco para a “tela de painéis”, nos quais se reproduz a cena das silhuetas e a dos bonecos de mamulengos, e onde se refletem os desenhos dos “bordados de fuxico” - uma citação à arte pernambucana. A elaboração dos figurinos, feita por Karlla, são simples reproduções do cotidiano nordestino. Trata-se de um trabalho que flui, com perfeição. O movimento dos atores e a preparação corporal está a cargo de Paula Feitosa. É um prazeer vê-la de volta aos palcos: seu trabalho com os atores é digno dos melhores aplausos. A ficha técnica é um acerto só. Assistência de Direção e Dramaturgia: Fabricio Branco. NÃO PERCAM “NORDESTINOS”! AINDA HÁ TEMPO PARA CONFERIR.              

sábado, 2 de abril de 2016

"CONSIDERAÇÕES SOBRE A INTERNET - RAVENGAR"

Antonio Abujamra no papel de 'Ravengar', da novela "Que Rei Sou Eu?", de Cassiano Gabus Mendes.
(Foto Divulgação)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

DO LIVRO "ANTONIO ABUJAMRA - CALENDARIO DE PEDRA"               'UMA BIOGRAFIA ESCRITA POR  'IDA VICENZIA'

               CONSIDERAÇÕES SOBRE A INTERNET        
     A internet é algo que nos invade, através da sordidez com que descarrega sobre nós a sua ganância de lucro. Invadem nossos e.mails, blogs e o que mais for, procurando transformar-nos em desenfreados consumistas. Entretanto, há algo que a transforma em paraíso. É quando nos permite entrar em contato com o passado, e com a emoção do futuro. E, em certos casos confiáveis, a internet pode ser até o "paraíso dos pesquisadores". Pois é, há sempre um lado bom nas  histórias de horror. Foi assim que entramos em contato com Ravengar, através da internet, e o conhecemos, em 2015, conhecemos a novela não assistida, de 1986, com o personagem que é fruto, agora, de nossa atenção. Muito obrigada INTERNET!.
     Mas passemos logo para Ravengar, sua figura física: cabelos longos, túnicas longas, idéias longas - tudo é excessivo, neste personagem: o que torna necessário, para interpretá-lo, um ator que tenha físico, naturalidade e humor para encarnar um monstro (ou um mago?), sem parecer falso. Sim, porque Ravengar, o bruxo, é um monstro de mistificação, muito pior do que qualquer Tartufo, de Molière.
     Mas vamos agora à sua alma. Físico e alma se complementam e podemos pensar que, enquanto os autores (Jorge Fernando, Mario Marcio Bandarra, Fabio Sabag e Lucas Bueno), querem mostrar um bruxo astrólogo, médico, psicólogo ... Abujamra, travestido de Ravengar, é uma, e a mesma coisa. Ele diz coisas assim: "a liberdade é uma planta que, quando cria raízes, cresce rapidamente", ou "a piedade atrasa as grandes conquistas", ou ainda: "ter paciência é ter sabedoria". Vocês, por acaso, já não ouviram estas palavras proferidas pelo proprio Abujamra. Desconfie... Duvide!
     É. E é sobre o poder, este pensamento de Ravengar (ou será de Abu?): "Estou falando do poder que penetra no sangue, que irriga o cérebro - é afrodisíaco - é quase magia!". De uma coisa temos certeza: Ravengar foi criado à imagem e semelhança de Abujamra. O vampiro de olheiras profundas e olhar penetrante, o bruxo Ravengar "um fantasma que ainda anda solto por aí", segundo Abujamra declarou, em 2012. A alma de Ravengar está colada à de Abujamra, e temos certeza de que os autores escreveram o personagem pensando no ator. E Ravengar, depois de ter construído o seu "Rei Petrus II" (o filho do Rei a quem serve), um monstrinho criado à sua imagem e semelhança, Ravengar observa: "A minha cria não tem medo de nada, como eu".
     Assim, Ravengar conseguiu dominar o mais fraco. No caso, o futuro "Rei", o tal "Lucien Elam". E Ravengar o hipnotiza: "Você é um pobre miserável faminto e burro. Um príncipe herdeiro de merda... mas um dia pode valer muito. Eu farei de você primeiro uma pessoa, depois um rei, ("como vai encher o saco, esse rapaz")"...
     E, para o "futuro Rei", Ravengar aconselha: "Você quer ficar trancado, como um animal enjaulado? Calma, há tempo pra tudo. (...) Você está proibido de falar com quem quer que seja". ('Lucien Elam' é irmão da princesa Juliette, interpretada por Claudia Abreu) E Ravengar confabula: "O poder de Lucien será o meu poder. Eu terei o poder, como eu quiser". (E dá "aquela" olhada maldosa para a governanta, interpretada por Vera Holtz).
A governanta (fascinada): - Sua inteligência é vibrante, mestre! 
Ravengar - Nós temos tempo... quando estiver pronto, será uma surpresa!
     (Mágicas, cartas, o Diabo, o Destino, a serpente mágica, a vida física - tudo isso Ravengar controla).
- Mas, e o Diabo? -  pergunta Lucien Elam.
Ravengar: - Sempre que eu procuro ver o "seu" futuro, o Diabo está presente...






quarta-feira, 30 de março de 2016

"CINCO JULIAS"

Elenco de "Cinco Julias", texto e direção de Matheus Souza.
   (Foto Divulgação)

IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
"Cinco Julias"
     Abujamra costumava dizer que "teatro é o inferno do ator", mas se formos assistir a "5 Julias", diremos que teatro é o "playground" do ator. Nós, que não vemos TV e não conhecemos as "meninas", achamos estranhíssima a platéia de uma peça juvenil ter, em seu público, uma boa porcentagem de "people" com jeito de turista: chinês, indiano, ou africano. Tal estranheza foi-nos logo apreendida. Vocês também a compreenderão!
     Para complicar a situação, uma pitada de malícia: 50% da peça é falada em inglês! Quer dizer - cantada em inglês! Os adolescentes brasileiros  vivem "in America"! Vejam bem: tínhamos ido ao teatro por se tratar de texto e direção de Matheus Souza, artista que muito prezamos desde que o assistimos interpretando "Deus!", no "Apocalipse segundo Domingos de Oliveira". Pois bem: o tema "apocalipse" permanece o mesmo, pois as cinco atrizes que trabalham no espetáculo se referem a algo semelhante a um "apocalipse" quando falam no dia "em que o mundo virou de cabeça pra baixo" - parece que no ano de 2017, quando a internet e seus YPod!, IPed,ou o que o seja!, pararam de funcionar. O autor pensou em ficção científica,  mas o fato é  que o tal "cataclismo" começou a atirar "m..." no ventilador (pra usar uma linguagem juvenil...).
     O referido "apocalipse" acabou com a intimidade das cinco usuárias da internet. Finalmente percebemos aonde Matheus Souza quer chegar: todo esse estardalhaço é apenas a reprodução do mundo das "seventeens", as adolescentes. Quem tem filhas ou netas nessa idade sabe do que estamos falando: elas só querem ir para MIAMI ou Disney, querem "transar" muito, com homens e mulheres, ir a baladas, tomar porres e se "independizar" do sexo oposto. Ah! e só querem cantar em inglês! Aí começamos a entender o "espírito da coisa". Dizem as notícias da peça que um grupo de "hackers" invadiu as bases das redes sociais. Esse é o mote, mas aí vem a pergunta: "o que acontece com o mundo (o delas...) quando a verdade está em evidência?" Nada! É difícil para Matheus resolver esse pequeno problema. Aliás, ele não o resolve, como autor, mas nos dá até momentos de boa comedia (talvez essa fosse a sua intenção...), principalmente quando entra em cena a "burra"que decora frases fundamentais de filósofos (ou metidos a), para depois replicá-las em público! (Pobre Simone de Beauvoir... ou pobre Karl Marx!).
     São cinco as atrizes: Isabella Sartori, Malu Rodrigues, Bruna Hamú, Carol Garcia e Gabi Porto. Devemos ter paciência com elas, pois, afinal, todos nós temos adolescentes em casa. Elas se queixam de não ter patrocínio para o espetáculo, e pedem para o público que o divulgue, mas quando o telão começa a reproduzir os apoios, praticamente "toda a Rio de Janeiro!" as apoiou! Vá entender! Sim, apoio não é patrocínio, e elas têm também os músicos ao vivo (mas escondidos...) para sustentar (ou será que a banda faz  parte do projeto, entrando no "prejuízo"?). E tem também o aluguel do Teatro das Artes, que não deve ser brincadeira. Mas, voltando à "burra" - que de burra não tem nada... ela é a menos linda das cinco, mas é a mais atriz, embora as outras também sejam boas.
     A atriz "burra" usa o seu recurso (reproduzir a fala dos sábios), para aparecer. Aliás, todas têm um "recurso": as queixas das famílias, os desencontros amorosos... e muitos outros... Aliás, no início o espetáculo  parece um fastidioso desenrolar de queixas de adolescentes, mas, na metade das duas horas de duração do espetáculo, lá pelas tantas é que a coisa começa a esquentar.. e fica tudo muito engraçado! É frágil, e humano...
     Na ficha técnica temos Matheus Souza no texto e direção; Assistência de direção de Hamilton Dias; Direção musical, Pablo Peleologo; Preparação vocal, Felipe Habib; Direção de movimento, Ana Paula Bouzas. Cenário, Miguel Pinto Guimarães. Figurinos (ótimos!) de João Lamego; Vídeos (uma das razões do sucesso) de Dudu Chamou. Ah! O direto Aderbal Freire Filho aparece em um dos vídeos interpretando o pai, ator fracassado e considerado "hiponga" pela filha. Tudo muito divertido!). Direção de produção: Tatianna Trinxet.  SE VOCÊ É ADOLESCENTE, OU TEM ADOLESCENTES EM CASA, NÃO PERCA!         


segunda-feira, 28 de março de 2016

"CHABADABADÁ"

Marcos França interpretando o 'Macho-Jurubeba', em "CHABADABADÁ", texto de Xico Sá, adaptação Marcos França,  direção Thelmo Fernandes.
 (Foto Divulgação)
IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
CHABADABADÁ!
     A cena é simples: uma mesa, um cabide, uma cadeira, um banquinho e um violão. E assim foi concebido o cenário para o "informal" 'Chabadabadá - Manual Prático do Macho-Jurubeba'. Acho o título um tanto ou quanto óbvio na sua busca do risível, mas quem o escolheu terá lá os seus motivos "mágicos e encantatórios" para  alfinetar o "macho brasileiro". Na verdade, trata-se de um monólogo imaginado em cima das crônicas e livros de Xico Sá - transformados em dramaturgia por Marcos França, que também canta músicas de Wando, em uma adaptação que resolve bem o estilo do autor.
     Dessa vez o "Macho-Jurubeba" ilustra, na interpretação de França, um programa de rádio no qual acontecem "conselhos sentimentais". O referido  programa, hoje, dia 28 de março de 2016, já não se apresentará no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, onde re-estreou. Ele tem "estrada", esse "Macho-Jurubeba"!... em todos os sentidos, e deixa o gostinho do 'conselheiro das almas solitárias', o radialista que ama as mulheres, encarnado por Marcos França. O ator/cantor faz de seu monólogo um programa que se transforma em um alimento para as 'malamadas'. A idéia é ótima, nesses tempos de amores "escorregadios" e temerosos. O que querem os ouvintes dessas rádios, na vida real? Encontrar a sua "cara metade"! E vocês  acham pouco? Então ouçam os conselhos do "Macho-Jurubeba" (eu ainda não consigo acreditar nesse nome...!).  
     Explico: o jornalista Xico Sá, do qual só conhecemos o que escreve na Folha de São Paulo, anda preocupado com os rumos tomados pelo amor, e a maneira pela qual os humanos o encaram hoje. Como resposta, ou pedido de atenção, ele resolveu escrever alguns livros, e crônicas a respeito. Tudo bem. Seus livros são insólitos, como insólito é o espetáculo que lhe dá guarida. Títulos como "Modos de Machos e Modinhas de Fêmeas", ou o inédito "Os Machões Dançaram" (ainda não o conheço, mas o título diz tudo) ... dão idéia do que se propõe o espetáculo! O fato é que se uniram as vontades, e o sempre ótimo Thelmo Fernandes assumiu a direção (a sua primeira), seguido por Marcos França, na dramaturgia, e o já citado autor, Xico Sá . O fato é que dessa união algo muito bom, em termos de espetáculo e de crítica de costumes, surgiu!
      É o seguinte: o ator (e cantor!) Marcos França imaginou criar uma dramaturgia em cima de três livros (não os citarei), de Chico, preocupados com os rumos do "amor moderno". Dessa "compilação" surgiu "CHABADABADÁ - O MANUAL PRÁTICO DO MACHO-JURUBEBA". Volto a observar: quem pode levar a sério um espetáculo com tal  título? É... talvez ele não seja para ser levado e sério, mesmo, porém, Ó SURPRESA! estamos mesmo precisando de um enfrentamento dessa natureza a respeito dos "sôfregos" tempos em que vivemos, principalmente em se tratando dos  amores - algo rudes - entre o homem e a mulher. O "conselheiro" criado por França, 'que ama as mulheres' (ele até as chama de "meu anjo"...) consegue, com seu figurino excêntrico (um correntão!...) e alguns quilinhos a mais - protegido por uma camisa azul sobre camisa vermelha (!) e blazer (este é o figurino do radialista) - e o personagem de Marcos está pronto para ser o 'aglutinador' desse amor problema!
     Lembramos que o monólogo também é uma homenagem (e uma crítica...) ao "Rei do Amor de Homem", o cantor Wando, com direito a calçinhas atiradas ao público, e reboladas expressivas do intérprete radialista! Mas Francisco Reginaldo (Marcos França), só não 'enfrenta' esse tipo de amor 'que não ousa dizer seu nome'.  Aquele!... tão encontrado hoje em nossos dias. Pois esse não é o propósito do 'conselheiro', e é como se esse amor não existisse: o conselheiro não tem - nem nunca teve - essa preocupação - ele gosta é das mulheres, e seus conselhos abrangem regiões bem mais conservadoras... Falemos, pois, desse amor sofrido entre homens e mulheres, tão frequentado pelos programas de rádio, e pelos conselheiros do amor! Nesse quesito o "Macho Jurubeba", encarnado por França, é imbatível! Mas não é que o "cantor/radialista" consegue até ser charmoso, em seu charme cômico e cafona? E o público se diverte!
     Dizem que é uma crítica ao amor nos dias atuais. Sério? Pode ser uma  brincadeira terrivelmente crítica, mas não é só isso! Trata-se de uma  amizade terna, ingênua... e má!,  que o conselheiro compartilha com 'magníficas atrizes/cantoras' como Gottsha, ou grandes comediantes, como Maria Clara Gueiros e Dani Barros, enfrentando o 'eco inefável' do vazio das que freqüentam estes programas. As vozes marcam as desditas das "mal-amadas" - e elas são inacreditáveis, e  - pasmem! - há homens que também entram  nessa fila de desditas, e também pedem conselhos... Serão "eles"? São os ditos "homens frágeis". Diz o interprete que o espetáculo "é uma devoção ao feminino e uma alfinetada no macho caricato". É, pode ser. É tudo muito divertido, e o diretor Thelmo Fernandes empresta a sua voz ao "Homem Desiludido".
     Podemos dizer que algumas cantoras "insuperáveis" também emprestam a sua voz para a "querida produção": Adriana Birolli, Rafaela Mandelli... e Ana Paula Abreu ... ( a diretora de produção?), no telefone, como a esposa do radialista 'com alma'. (Dizem que Francisco Reginaldo é o nome de Xico Sá, no seu Ceará). Dizem também que ele é o homem que abre o espetáculo. Será verdade? E é ele quem acompanha o radialista, tocando o seu violão? Mistério...! Mas como tudo é possível nesse mundo incógnito dos jornalistas... é possível que seja ele mesmo, Xico Sá! Muito em breve teremos notícias sobre isso.
      A ficha técnica é de primeira... e, ao menos no espetáculo a que assisti, não houve nenhum problema com o som, o que é raro, nos musicais brasileiros. Perfeição absoluta. Sabemos que a direção musical é de André Siqueira, o que é indício de boa qualidade. O cenário e figurino, comentados no início, são de Natália Lana. A iluminação é de nosso querido Aurelio de Simoni, que devia aparecer mais vezes, também, como ator... eu sinto saudades do Tchecov que ele fez! Volte, Aurelio!

QUEM PERDEU "CHABADABADÁ" ... PERDEU! TOMARA QUE O ESPETÁCULO VOLTE. VALE À PENA!                 

sexta-feira, 25 de março de 2016

"33 VARIAÇÕES DE BEETHOVEN"


Nathalia Timberg em 33 variações de Beethoven, direção Wolf Maya
(foto Airton Silva)


IDA VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)

     Conheci a atriz  Nathalia Timberg interpretando "Antígona", de Anouilh, no Teatro Jovem, em Botafogo. Para mim foi uma iluminação. Muitos anos depois tive ocasião de assisti-la novamente, interpretando a psicóloga Melanie Klein. A mesma sensação me acompanhou: dos anos sessenta até o século XXI, sempre com a impressão de ver a personagem,  através da interpretação da grande atriz. Portanto, considero assistir Nathalia Timberg algo que me alimenta, como pessoa e como crítica.
     Feita essa observação, vamos à crítica do espetáculo em cartaz no Teatro Nathalia Timberg. Ano: 2016. Rio de Janeiro. Titulo: "33 Variações de Beethoven", texto de Moyses Kaufman, tradução de Nathalia Timberg, concepção e direção de Wolf Maya. Nesta peça Nathalia interpreta uma pesquisadora apaixonada, como todas as pesquisadoras, pelo tema de sua pesquisa: no caso, Ludwig van Beethoven. Até aí, tudo bem. Porém, o que vemos em cena é a interpretação de uma "virtuose" (Nathalia), trabalhando voz e gestos de uma mulher tomada por uma "doença sutil", que não é a de Beethoven, como nós a conhecemos, mas a sua própria.
      Antes de falarmos sobre o "organismo" da pesquisadora em questão, e dos motivos que nos levam a considerar a interpretação de Nathalia Timberg magistral, abrimos espaço para falar sobre o teatro que leva o seu nome. Incrustado "como safiras em um anel", na Escola de Atores de Wolf Maya, o Teatro Nathalia Timberg é uma sala de 400 lugares, como uma "caixa de luz italiana" que transforma palco e platéia em um mundo ficcional de máquinas e luzes. No espaço da Escola funciona outra jóia, o teatro "Nathalinha", com 60 lugares e uma surpresa: a encenação de "A Serpente", de Nelson Rodrigues, pelos alunos da escola, em cooperativa independente.
          Mas o texto imaginado por Kaufman,- um dramaturgo nascido em 1963, venezuelano, descendente de judeus ucranianos, e co-fundador do "Teatro Tectônico", realizador de um projeto que nasceu em Nova York, e trata de "assuntos da contemporaneidade". Em seu texto Kaufman resolve falar sobre a tão difundida "síndrome lateral amiotrófica"... e o que vemos agora é mais uma interpretação sutil e dilacerante de Nathalia Timberg! A atriz se transforma na "mais interessada pesquisadora de Beethoven", e na mais dolorida vítima da síndrome acima citada. O texto é um pretexto para falar sobre "essa doença", porém a música domina - e temos em cena um pianista interpretando as "33 Variações de Beethoven", e muito mais:  o músico alemão é interpretado pelo próprio diretor do espetáculo, Wolf Maya. A destacar a interpretação de Maya na cena final, mostrando a sensibilidade de um verdadeiro "régisseur", ao acompanhar as "Variações" interpretadas, na noite em questão, pelo excelente pianista Silas Barbosa.      
     Outra cena a registrar é a imaginada por Kaufman sobre "a vida após a morte". Trata-se de um divertido encontro entre "pesquisadora e pesquisado" (Nathalia/Katrin e Wolf/Beethoven), tendo por cenario as nuvens, local onde os personagens observam a vida dos que ficaram "lá embaixo". Nesse contexto temos a filha de Katrin - Clara - interpretada por Flavia Pucci, e o Editor Musical e compositor da valsinha que se transformou na genial composição de Beethoven. O nome do compositor é Anton Diabelli, jocosamente interpretado por Tadeu Aguiar. E Gustavo Engracia, interpreta Schindler, o secretario e factótum de Beethoven. Lu Grimaldi interpreta, com precisão, a bibliotecária alemã, e Gil Coelho é o enfermeiro-enamorado. O espetáculo é dividido em 2 Atos, sendo o primeiro bastante agitado, no qual Clara (Flavia Pucci), "enerva" o público com seu "excesso de cuidados de filha dedicada", refreando o entusiasmo de sua mãe pesquisadora.
     O espetáculo traz à cena recursos utilizados no teatro italiano, com mecanismos sofisticados onde entram alçapões e coxias que se movimentam, dando vida ao palco. Interessante observar que, no "ATO 1" a cena fica sobrecarregada e muito fracionada. No "ATO 2" a ação ganha  mais agilidade. Tal sofisticação cênica, insuspeitada,  acontece em meio ao funcionamento, na vida real, de uma Escola de Teatro! Vale a pena conhecer o espaço dedicado a atriz Nathalia Timberg, com seu teatro de 300 lugares, e o " Nathalinha", onde os atores iniciantes se exercitam.
     Na ficha técnica temos, além dos já citados, a cenografia muito bem cuidada, com suas subdivisões: ao alto da cena a "mansarda de Beethoven" - a seguir, o palco para o pianista, com a reprodução, em tamanho reduzido, de um palco italiano para concertos de piano - e, na cena baixa, a biblioteca com o acervo de Beethoven - e demais aparatos para a transformação das cenas. Cenografia e objetos de J. C. Serroni. A iluminação, de grande magnitude, é um verdadeiro "tour de force" de Aurelio de Simone, e os figurinos de Tatiana Rodrigues mostram uma bem dosada divisão entre a época atual e o passado do século XIX. No visagismo, Marcelo Dias. Direção musical de Natalia Trigo.  Videografismo e projeções de Rico e Renato Vilarouca. Assistência de direção: Hudson Glauber. VALE A PENA CONHECER O ESPAÇO, E SE DELEITAR COM BEETHOVEN, E SEUS ADMIRADORES!             
        
    










quarta-feira, 16 de março de 2016

"O CAPOTE"


Rodolfo Vaz no papel de Akaki, em "O Capote", de Nicolau Gogol, direção Yara de Novaes.
(Foto João Caldas) 
IDA  VICENZIA
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)
(Especial)
     Ex-membro do grupo Galpão, de Minas Gerais, o inacreditável ator Rodolfo Vaz esteve conosco, no Rio de Janeiro, até início de março, no Centro Cultural do Banco do Brasil, dando vida a Akaki Akakievitch, personagem de "O Capote", de Gogol. A peça contou com a excelente direção de Yara de Novaes, e com os atores brilhantes que são Rodrigo Fregnan e Marcelo Villas Boas. A produção deste espetáculo, e o trabalho dos atores, são de primeira linha, dando ao público amante de teatro a alegria de viver momentos de inteligência e arte. Uma perfeição.
     Senão vejamos: a começar pelo autor, considerado a seiva de tudo o que se passou depois, em termos de teatro, em solo russo. Gogol e Pushkin, o grande poeta, abriram caminho para a grande Russia que se conhece agora, com seus dramaturgos e escritores fabulosos. É de Dostoiévski esta observação: "Somos todos  filhos de Gogol". (E também de Pushkin). Como se não bastasse este passado, "O Capote" traz em si o humor cruel que as naturezas simples despertam: no caso, Akaki. E não podemos esquecer que há a presença de seu fantasma,  que todo mundo vê (principalmente os que o fizeram sofrer em vida)!
        Mas voltemos ao espetáculo do Centro Cultural do Banco do Brasil,  e seus participantes. Como se não bastasse o desempenho da musicista  Sarah  Assis, para dar o clima misterioso - e às vezes malicioso - ao acompanhamento de sua música, Sarah apresenta também  momentos - discretos - em que se envolve com a cena!  E, enriquecendo ainda mais o espetáculo, há a complementação, dada pelo 'design e projeção' das cenas de Rogerio Velloso, em dantesca fantasia. A cenografia e figurinos (ótimos), são de  André Cortez. Milagres acontecem, e esta encenação de "O Capote" foi um deles! Peço licença para fazer uma observação: como todos nós sabemos, ingleses e russos são primos irmãos (as "Suas Excelências"), e não  há nada  mais saboroso do que colocar um fantasma em cena acabando com a sua paz de "justos"!  E, mais gostoso ainda,  se esse fantasma tiver o phisique du role de Rodolfo Vaz, para nos brindar com o susto dos que a ele ficam submetidos - após a sua morte! Vocês já imaginaram como ficariam as "Suas Excelências" nativas (que adorariam ser primas das acima citadas) se o fantasma de Getulio Vargas aparecesse para eles, cobrando os motivos de sua morte?  Na adaptação de Drauzio/Cassio, a brincadeira virou uma diatribe de Akaki contra os desumanos (e o nosso momento permite). No caso de Gogol, foi uma simples "lição de moral". Era 1842. (Os tempos mudam).
      Ah! Sim, "O Capote" é a historia de uma amanuense que teve que mandar fazer um capote novo para protegê-lo no gélido inverno peterburguense. Para tanto, teve que sacrificar-se, economizar, e uma vez com seu novo capote, teve-o furtado, o que lhe subtraiu a saúde, o juízo e a vida. Daí a historia do fantasma. Mas é preciso ler este conto. O amante de teatro, Dr. Drauzio Varella, fez a "leve e bem humorada" (e às vezes cruel),  adaptação, complementada pela dramaturgia de Cassio Pires. Desse confronto com o original ficou o momento - marcante - em que o personagem Akaki tenta se situar, no espetáculo, perguntando a seus colegas  maldosos: "Vocês podem voltar para as marcas originais, por exemplo?"  Sim, porque adaptação e direção tomam um caminho tão livre para contar a historia desse pobre funcionário subalterno, que há momentos em que ele fica ainda mais perdido, em sua pobre vida. Tudo o que ele quer é fazer com perfeição as copias que lhe são exigidas.

      A idéia de montar "O Capote" já vem de muito longe, desde que Rodolfo trabalhou com Paulo José em outra produção do notável dramaturgo russo, "O Inspetor Geral" -  e desde que diversos fatores se uniram para indicar que esse era o caminho certo para todos nós. Destacamos Rodolfo Vaz porque a sua interpretação é insuperável. Porém, atores, cenógrafo, iluminador, trilha sonora, videoarte, adaptação e, principalmente direção, acertam no clima imaginado por Gogol, o artista que criou o sonho russo da perfeição teatral que assombra a todos nós. Na produção paulista de "O Capote", destaque para o trabalho corporal de Kenia Dias, que também é assistente de direção de Yara de Novaes. Trilha sonora e música original marcantes, de DR Morris.
         Em hora: o ator Rodolfo Vaz resolveu montar a sua produtora, com Fernanda Vianna, parceira de vida e de trabalho, e trouxe sua experiência  para o Rio de Janeiro. É muito bom quando São Paulo teatral vem ao Rio, temos ocasião de assistir teatro com letra maiúscula!  Desejamos um breve retorno!